Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva e autor de "Brasil da Maioria: 25 anos de classe C', explica ao Papo Antagonista como os 53% do eleitorado que formam a classe C se dividem entre grupos com interesses opostos, dos mais velhos gratos ao primeiro governo Lula até os jovens mais à direita, e por que a faixa periférica de dois a cinco salários mínimos pode ser o fiel da balança nas eleições de 2026.
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NotíciasTranscrição
00:00A maioria absoluta da população, a classe C, é quem define os rumos da política e da economia no Brasil.
00:07Hoje, mais conectada e exigente, essa nova classe média fugiu de rótulos ideológicos,
00:15vota com o bolso e cobra resultados práticos do governo e do mercado.
00:20Para entender o comportamento desse eleitor e consumidor decisivo,
00:24recebemos hoje o Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva e autor do livro
00:30Brasil da Maioria, 25 Anos de Classe C. Renato, seja muito bem-vindo ao programa hoje.
00:38Prazer enorme estar contigo, estar com o Graebi, prazer enorme falar com todo mundo que acompanha o Itaunista.
00:43Carlos Graebi, quer fazer a primeira pergunta?
00:45Vamos lá, boa noite, Renato.
00:48A minha primeira pergunta tem a ver com o comportamento eleitoral da classe C.
00:54A classe C pode ser vista como um grupo eleitoral?
00:58Ou ela é muito diversa e complicada pra gente aplicar essa lógica à classe C?
01:05Carlos, nós estamos falando de 53% do eleitorado, né?
01:08É muita gente pra ser um grupo homogêneo.
01:12O que existe são características bastante comuns.
01:17Na verdade, nós estamos falando de uma parcela do eleitorado que não tem nem a grana da classe A e
01:22B,
01:22não tem estoque, não tem poupança.
01:24E nem é beneficiário dos programas sociais, como uma classe DE.
01:28Mas, dentro dela, tem diferentes perspectivas de entender a sociedade brasileira e de entender os eleitores.
01:38Eu costumo separar a classe C em quatro grandes grupos aqui do ponto de vista eleitoral.
01:46Nós temos o grupo daquelas pessoas que são gratas aos primeiros mandatos do governo Lula,
01:52que enxergam nos primeiros mandatos do governo Lula a razão de terem efetivamente tido oportunidade
02:00para melhorar de vida.
02:01Essa parcela é majoritariamente mais velha do que a média da classe C.
02:08São pessoas que já passaram por necessidades, que já passaram fome,
02:12pessoas que mudaram de classe econômica nos primeiros governos do presidente Lula
02:17e que hoje buscam uma estabilidade.
02:22Eles não morrem de amores por ninguém, mas eles têm mais medo de...
02:29Eles não estão dispostos a trocar o certo pelo duvidoso.
02:34Nós temos, por outro lado, uma parcela da classe C,
02:39que é uma parcela que não viu essas melhorias.
02:44Nós estamos falando dos eleitores mais jovens da classe C.
02:47São eleitores que já cresceram num ambiente onde o ProUni e o Fies são um fato,
02:55são, na visão deles, nas palavras deles, é como se fosse um direito adquirido.
03:00São jovens que cresceram durante a Lava Jato e durante a pandemia,
03:05então viveram uma sessão, um momento aí de descrença total com a política.
03:13E essa parcela mais jovem da classe C tem um voto mais ligado ao conservadorismo,
03:22mais ligado à oposição.
03:24Nós temos também os homens da classe C.
03:28Os homens da classe C tiveram uma série de mudanças nos últimos anos
03:34que acabaram diminuindo o seu poder dentro de casa.
03:38Hoje, as mulheres da classe C chefiam a maior parte dos lares dessa camada econômica.
03:45As mulheres da classe C tiveram diminuídas a distância entre os seus salários e o salário dos homens.
03:51E esses homens, de alguma forma, ficam resignados com essa perda de poder
03:58que eles tiveram nos últimos anos.
04:00Esses homens são mais suscetíveis a pautas, por exemplo, como a da segurança pública
04:05e também a um eleitor mais próximo ao eleitorado de direita, ao eleitorado do Flávio Bolsonaro.
04:14E, por fim, as mulheres da classe C.
04:17Essas mulheres da classe C são quem mais utilizam os serviços públicos.
04:23São elas que levam o filho ao médico, que conseguem vaga numa escola.
04:29São elas que entendem o papel que o Estado tem no dia a dia delas
04:35e do papel de gestão familiar que essas mulheres têm.
04:40Essas são mulheres que se aproximam mais de pautas sociais
04:44que, em geral, são associadas à esquerda.
04:48Renato, uma visão muito comum em relação a essas políticas mais assistencialistas do Lula
04:55é de que é uma maneira de comprar o voto da classe C.
04:59Então, Minha Casa Minha Vida, Luz do Povo, Gás do Povo,
05:05isenção fiscal para quem ganha até 5 mil reais, o fim da taxa das blusinhas.
05:10A lista é longa, né? Fala do fim da escala 6 por 1.
05:14No fim, o que você está falando é que a classe C não é tão homogênea
05:17e que essas políticas, então, muitas delas acabaram não tendo o efeito desejado.
05:22É isso?
05:25É que a classe C é diversa.
05:26Então, quando você fala, por exemplo, de ter um programa habitacional
05:33em que vai para a mão da mulher a propriedade sobre o imóvel,
05:39nós estamos dizendo que essas mulheres não vão deixar de se separar dos maridos
05:44por não ter onde morar.
05:46Isso tem um efeito efetivo para eles.
05:50O que nós estamos vendo, e poderemos falar das mulheres, por exemplo,
05:54que ao receberem o Bolsa Família, conseguem ter uma estabilidade financeira mínima
05:59para abrir o seu próprio negócio.
06:02Acontece que quando você pergunta para as pessoas em quem ela depende,
06:07quem ela acredita que pode ajudá-la a melhorar de vida no próximo ano,
06:11a resposta sempre é eu, o meu trabalho e o meu esforço.
06:18Depois vem a família, depois vem Deus e migrante.
06:20O governo aparece lá embaixo, com menos de 5%, fica atrás da sorte.
06:26Agora, quando você pergunta para elas qual é o papel que o governo poderia ter,
06:31ela fala oferecer igualdade de oportunidades.
06:36O que nós temos é uma classe C que acredita no mérito,
06:40no seu esforço para melhorar de vida, por um lado,
06:43mas também sabe que a meritocracia de verdade só existe
06:46quando há igualdade de oportunidades para, por exemplo, disputar uma vaga de emprego
06:51ou abrir o seu próprio negócio.
06:53As polêmicas que os analistas políticos fazem sobre se o Estado tem que ser grande
06:58ou se o Estado tem que ser pequeno, não interessa pouco para essa classe C.
07:02Ela quer um Estado que funcione,
07:04um Estado que entregue exatamente o serviço público que ela espera receber.
07:09Não interessa se quem vai entregar esse serviço público
07:12é um funcionário público ou é um agente privado.
07:16E, Renato, esse retrato que você traçou de uma classe C interessada no sucesso
07:26que é obtido por esforço próprio é um pouco diferente da imagem que a gente tinha
07:32da classe C 25 anos atrás, quando começou essa ascensão.
07:37Você diria que essa é a principal mudança que você observou
07:41nesses 25 anos de estudo desse grupo?
07:45Carlos, você me conhece há algum tempo, você sabe o privilégio que eu tive
07:51de poder dedicar minha carreira a estudar a classe C, essa parcela gigantesca da sociedade.
07:56São 25 anos que eu estudo a classe C e eu vi algumas mudanças grandes acontecerem.
08:02A mudança do que era uma classe C que tinha como grande sonho viajar de avião pela primeira vez,
08:10por exemplo, a uma classe C que hoje espera ser dona do próprio tempo,
08:15ter autonomia sobre esse próprio tempo.
08:17Uma classe C que antigamente enxergava que o governo tinha um papel gigantesco
08:24para que ela melhorasse de vida e hoje espera um Estado que não atrapalhe
08:30o seu desenvolvimento econômico, a abertura do seu próprio negócio.
08:35A classe C hoje, na verdade, ela quer um Estado quando precisa de Estado,
08:41na saúde, na educação, na geração de oportunidades,
08:45e quer que o Estado não atrapalhe quando ela quer empreender.
08:49Então, essa história, se o Estado é grande, se o Estado é pequeno,
08:53hoje para a classe C é menos importante do que a busca de eficiência,
08:58a mesma busca de eficiência que ela quer ter para a sua própria vida.
09:02Não é à toa que cresce tanto a demanda da classe C por ser dona do próprio tempo.
09:09E não é à toa que discussões como a redução da jornada 6x1,
09:14a mudança da jornada 6x1 para uma jornada 5x2,
09:17tem tanto apelo nessa parcela da sociedade.
09:20Renato, e Flávio Bolsonaro tem um discurso diferente do Lula.
09:24Ele conseguiu, de alguma maneira, se aproximar mais da classe C,
09:28conquistar mais gente nesse setor?
09:33Olha, a classe C, na verdade, não está morrendo de amores por ninguém.
09:38Nem pelo Flávio Bolsonaro, nem pelo Lula.
09:41O que o Flávio tem que agrada essa classe C?
09:46Ele tem um discurso sobre segurança, que chama a atenção da classe C.
09:50Ele fala sobre a importância da liberdade,
09:54e isso fala para os homens da classe C,
09:57e alguns temas relacionados ao território dos costumes.
10:02O que o Lula tem que agrada para a classe C?
10:06O Lula tem a importância do social,
10:09da geração de oportunidades,
10:11é visto como alguém que pode gerar oportunidades
10:14e deixar o social como foco de um governo.
10:20E agora, com a pauta do fim da jornada 6x1,
10:25ele promete devolver para a classe C
10:29o tempo que lhe é tirado todos os dias através do trânsito.
10:33Esses são os pontos fortes que cada candidatura tem
10:36para trazer a classe C para o voto.
10:40E, Renato, tem algum segmento dessa classe C
10:44que vai funcionar como fiel da balança nessa eleição?
10:49Tem um grupo que seja grande o suficiente
10:52para mexer o ponteiro para um lado ou para o outro?
10:57Quando a gente acompanha os dados disponibilizados das pesquisas,
11:05e a gente pega aquela faixa,
11:07em especial a faixa de 2 a 5 salários mínimos,
11:11a gente vê que é a faixa que está mais em disputa na eleição.
11:15Quando nós mergulhamos a fundo nas pesquisas
11:18e olhamos também as pesquisas qualitativas,
11:21o que dá para observar é que essa faixa que está em disputa
11:25é a faixa que está na periferia das grandes cidades.
11:29Na periferia de São Paulo, na periferia do Rio de Janeiro,
11:32na periferia de Belo Horizonte.
11:33Essa classe C periférica que está, de algum lado,
11:38com dificuldade de pagar as contas,
11:40uma classe C que está endividada por um lado,
11:43mas que, por outro lado, também não aguenta mais
11:48essa relação belicosa que existe na política,
11:52que também não enxerga no Flávio uma solução
11:56para os problemas que lhes vêm no Lula,
11:58é a classe C que vai definir a eleição.
12:00Eu vou tentar falar isso de outra forma.
12:03A classe C não morre de amores por nenhum dos países.
12:06A classe C que é a mudança.
12:08Mas elas não enxergam no Flávio Bolsonaro a figura dessa mudança.
12:13É o que tem.
12:15Algumas pessoas da classe C estão dizendo.
12:19Por outro lado, o Lula é a certeza que eles têm do para onde vai.
12:26Com todas as limitações que eles enxergam, inclusive,
12:28no governo Lula, eles falam,
12:30tudo bem, eu posso não gostar muito, mas eu sei como é que é.
12:34A classe C nessa eleição está discutindo
12:36se vai ou não trocar o certo pelo duvidoso.
12:40A gente conversou com Renato Meirelles,
12:43presidente do Instituto Locomotiva.
12:45Renato, obrigado pela sua participação aqui no Papo.
12:47Boa noite.
12:49Um privilégio estar aqui com vocês.
12:50Muito obrigado pela oportunidade.
12:51Até a próxima.
12:52Até quando você vai deixar que criem narrativas
12:55para esconder a verdade de você?
12:57O bombardeio diário de informações,
12:59o barulho das redes sociais e as minhas verdades
13:02só servem para uma coisa, te confundir.
13:05Mas o jogo político real acontece nos bastidores.
13:09Mas existe um lugar que não baixa a cabeça.
13:12Onde a velocidade da notícia em tempo real de um antagonista
13:16se une à investigação profunda.
13:18Sem amarras da revista Cruzoé.
13:22Nós vigiamos quem está no poder.
13:24Não importa o partido.
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13:30os bastidores de Brasília em tempo real,
13:34análises de quem conhece o jogo político por dentro
13:37e grandes reportagens que a imprensa tradicional
13:40muitas vezes prefere não mostrar.
13:45E hoje você não precisa escolher entre a agilidade e a profundidade.
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13:58ao antagonista e a Cruzoé por um valor que cabe no seu bolso.
14:02Não seja apenas mais um espectador da história.
14:05Faça parte do jornalismo que incomoda os poderosos
14:08e defende a sua liberdade.
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