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O EM Minas, programa da TV Alterosa em parceria com o jornal Estado de Minas e o Portal Uai, conversa neste sábado (15/8) com o prefeito de Ouro Preto, Ângelo Oswaldo. Escritor e integrante da Academia Mineira de Letras (AML), Ângelo Oswaldo é presidente da Associação das Cidades Históricas de Minas Gerais.

Imagens: TV Alterosa
Apresentaor: Ricardo Carlini
Foto: Alexandre Guzanshe

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Transcrição
00:14Olá, tudo bem? Como estão vocês? Mais uma vez um prazer compartilhar o Em Minas com todos e
00:22recebendo hoje uma das maiores personalidades da história de Minas Gerais e do Brasil,
00:27Ângelo Oswaldo. Tudo bem, Ângelo? Tudo bem, Carine? Prazer em revê-lo. Ângelo que é prefeito de Ouro
00:36Preto já pela quinta vez, né, Ângelo? Quinta vez. Pela quinta vez. Ângelo é presidente da Associação
00:43das Cidades Históricas de Minas Gerais e tem uma vida dedicada à cultura e à preservação e à
00:49defesa do patrimônio histórico do Brasil, né? Isso mesmo. O que muito nos honra. E me diz a primeira
00:55coisa, Ângelo. Você é prefeito, pela quinta vez, de uma das joias do nosso Brasil, né? É uma cidade
01:03tombada, reconhecida mundialmente, que é uma cidade que nos emociona a cada visita. Qual o desafio de
01:12administrar não uma cidade, mas administrar um patrimônio da humanidade, Ângelo?
01:17Eu sempre fui muito ligado a Ouro Preto. Tenho um grande amor por Ouro Preto e terminei por me
01:25dedicar plenamente à cidade de Ouro Preto. Mesmo trabalhando em outras frentes, eu nunca deixei
01:31de ter uma ligação muito estreita com essa cidade que emociona muito. Você pode perceber,
01:38B. Carline, que o brasileiro guarda sempre no coração o Rio de Janeiro como aquela cidade
01:44maravilhosa, cidade encantada. Apesar de toda a violência que o Rio tem hoje, ninguém deixa
01:51de sentir alguma coisa diferenciada com relação ao Rio. Da mesma forma, Ouro Preto. Quando se
01:57fala em história, em sentimento de brasilidade ou de mineridade, todos nós nos reportamos
02:03a Ouro Preto. Naturalmente, porque ali tem duas figuras emblemáticas, estão vinculadas
02:08à cidade e estão evidenciadas. É só você andar por Ouro Preto que você vai encontrá-las.
02:14Um é um aleijadinho, tem até o título de Patrono da Arte do Brasil. O Antônio Francisco
02:20Lisboa, que nos deixou monumentos como a Igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto.
02:25E outro é o Tiradentes. A estátua dele está lá, foi erigida na praça em 1894, logo no início
02:32da República. O Tiradentes foi o Cristo Republicano. Ele é que abençoou a proclamação da República
02:39como um herói, um mártir, um mártir nacional. Ele aparece com a barba, que foi a barba de
02:45Cristo. O condenado à morte naquele tempo tinha que ter a cabeça raspada e a barba raspada
02:51para a corda não ter um pretexto de não funcionar.
02:55E há muitas discussões de qual era a verdadeira face do Tiradentes.
02:58Naquele momento, e antes ele não teria usado barba porque ele era militar, era o Félix
03:04da Cavalaria. E foram encontradas, entre os bens dele, foram encontradas duas navalhas quando
03:11ele deixa a prisão na Ilha das Cobras, no Rio, e vai para a cadeia velha esperar o momento
03:20de ir para o Lago Lampadosa. O Lago da Lampadosa, onde foi.
03:23Então, essa figura está lá em Ouro Preto por toda parte. Também, aqui a Casa de Gonzaga,
03:30ali a Casa de Cláudio Manuel, aqui a Ponte de Marília. Você anda para o Ouro Preto e vai
03:35encontrando Aleijadinho e Tiradentes. E as pessoas se emocionam muito. Ouro Preto tem recebido
03:40milhares de visitantes, nós estamos no momento...
03:43Do mundo inteiro. Porque, desde os anos 50, o Germain Bazin, que foi inclusive conservador
03:52do Museu do Louvre, ele veio ao Brasil, ele fica muito impactado pelo barroco brasileiro,
03:57que ele descobre no Rio de Janeiro, visitando o convento do Santo Antônio, no Largo da Carioca,
04:04que tem uma igreja magnífica do Xavier de Brito. Ele veio a Minas Gerais e escreve uma obra
04:09importantíssima sobre o Aleijadinho. Projeta o Aleijadinho no cenário internacional,
04:14o que depois vai chamar a atenção da Unesco. Quando a Unesco vai dar o título de Patrimônio
04:21Mundial ao Ouro Preto, o primeiro bem brasileiro a entrar na lista da Unesco em 1980, a Unesco
04:30pensou no Aleijadinho. Nos riscos que o Ouro Preto tinha, como um belíssimo patrimônio ameaçado
04:36por problemas de deslizamento, de chuvas fortes. Já lá naquela época, porque em 79, houve
04:42um desastre muito grande por conta de chuvas torrenciais em Ouro Preto. Durante quase quatro
04:48meses, a cidade sofreu bastante.
04:51E aí, eu vou te interromper, porque isso é um bate-papo, né, Angelo?
04:56E o fato de ter se tornado patrimônio mundial contribuiu para a preservação, porque, na minha
05:03opinião, é um dos sítios históricos mais preservados do mundo, o conjunto, a cidade.
05:08Ouro Preto cresceu e cresceu mal, muitas vezes.
05:11Desordenada, fora do centro histórico.
05:13Desordenadamente, mas o corpo histórico da cidade, ele permanece ali. Quer dizer, nós
05:19temos um centro histórico extenso, ele está dentro de uma garganta formada por duas grandes
05:28montanhas, a Serra de Ouro Preto e a Serra do Itacolomi. Ali, aquela cidade que vem dos
05:3412 arraiais mineradores garimpeiros primitivos, que em 1711 foram reunidos pelo governador
05:42de São Paulo e Minas, Antônio de Albuquerque, criando Vila Rica, esses arraiais, que são
05:48os bairros de Ouro Preto, eles permanecem sempre guardando a feição histórica.
05:53E o tombamento contribuiu para a preservação?
05:56Contribuiu para a valorização de Ouro Preto, para a consciência de que é uma cidade importantíssima
06:02e desperta o sentido de responsabilidade, não só nas autoridades, mas no morador, na
06:09moradora, no cidadão em geral, no próprio turista que tem uma atitude respeitosa diante
06:15dessa cidade.
06:16A cidade é impactante.
06:18Nós recebemos turistas do mundo inteiro e todos reconhecem esses valores de Ouro Preto.
06:23Lúcio Costa, o grande arquiteto que deu consultoria ao IFAM e ele foi o urbanista de Brasília,
06:29ele dizia que Ouro Preto resiste a tudo, porque as coisas se modificam, há problemas, mas
06:35a cidade não perde o seu caráter.
06:37É esse caráter da cidade setecentista, da cidade mais importante do século XVIII, da
06:45capital do ouro, das Minas Gerais, do ouro e dos diamantes, essa cidade que está lá
06:50que a gente sente.
06:51E a cidade ainda tem o fato de ser o espaço em que trabalhava o Aleijadinho e a cena também
07:00em que aconteceram os encontros mais importantes, toda a trama da conjuração mineira, que é
07:06chamada de Inconfidência Mineira.
07:08Você preside a Associação das Cidades Históricas de Minas.
07:11São quantas e há outras do quilate, eu não me lembro aqui, você me perdoe, do quilate
07:17de Ouro Preto, porque o Ouro Preto se destaca muito.
07:19Nós temos 50 cidades filiadas à Associação das Cidades Históricas.
07:25E, na verdade, Carlinhos, toda cidade é histórica, porque toda pessoa tem uma sua história,
07:30toda cidade tem uma trajetória, como ela evoluiu no tempo.
07:34Brasília, que foi inaugurada em 21 de abril.
07:38Até em homenagem ao Tiradentes, a escolha JK, pensando sempre em Minas e no Tiradentes,
07:44que é um herói nacional, no dia 21 de abril de 1960, então a cidade é recente.
07:49É uma cidade histórica.
07:50É uma cidade histórica, porque o IFAM logo tombou o plano piloto de Brasília.
07:55E, graças a isso, aqueles gabaritos que foram fixados por Lúcio Costa são mantidos.
08:00Se não, já tinham construído Arranha-Céu por toda parte, torres enormes e Brasília teria sido descaracterizada.
08:07E o espaço do plano piloto está preservado até hoje.
08:12As satélites aqui cresceram e, muitas vezes, desorganizadamente.
08:16As satélites cresceram, mas o plano piloto está preservado.
08:19Então, a questão de ser uma cidade histórica, às vezes, não é só por antiguidade, é também por merecimento.
08:28Cataguases está na associação, porque Cataguases, eu falo que é a ouro preto do século XX.
08:35Pelos modernistas que foram lá, os grandes arquitetos brasileiros, Oscar Niemeyer, os irmãos Roberto,
08:44Bolonha, Toledo, Portinale, projetou uma praça de azulejos.
08:48Todos os grandes artistas e arquitetos estiveram em Cataguases em um período importante, na década de 40, 50.
08:57Os grandes industriais de Cataguases financiaram essas construções.
09:02E nós temos cidades como Diamantina, que também é patrimônio mundial.
09:07Diamantina foi declarada Monumento Mundial Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1999.
09:16E nós temos aqui belezas em Sabará.
09:19Sabará.
09:20Nós temos Mariana do seu lado.
09:21Mariana, Sabará, Congonhas.
09:24Congonhas.
09:25Todas essas cidades.
09:27Caeté, a igreja de Caeté, o magnífico centro histórico de Caeté.
09:31O Cerro, que foi a primeira cidade tombada pelo IFAM em 1938, foi a cidade do Cerro,
09:38a antiga Vila do Príncipe do Cerro do Frio, que é uma joia.
09:42Vila do Príncipe do Cerro.
09:43Conceição do Mato Dentro faz parte.
09:45A matriz de Conceição foi toda restaurada.
09:47É uma igreja magnífica.
09:49Então, nós vamos encontrar por toda parte em Minas Gerais, no espaço do ouro e dos diamantes,
09:54essas cidades.
09:56Minas Novas, uma cidade interessantíssima, que precisa ser mais valorizada.
10:00Também, no norte de Minas, era o caminho da ligação da Bahia com as minas de ouro.
10:07Ô, gente, falar em ouro, o homem é ouro puro, né?
10:10Porque história, você faz uma pergunta para o Angelo e ele fala dez dias, porque ele
10:14conhece tudo.
10:15Uma das maiores cabeças intelectuais desse Brasil.
10:18Daqui a pouco, no segundo bloco, a gente fala mais dessa sua dedicação, Angelo.
10:23O Em Minas Volta Já.
10:39Estamos de volta com o Em Minas, hoje, recebendo o prefeito de Ouro Preto, Angelo Osvaldo,
10:44também presidente da Associação das Cidades Históricas de Minas Gerais.
10:48Terminamos o primeiro bloco, você destacando várias riquezas culturais e patrimoniais de
10:53Minas Gerais.
10:54Ângelo, para a cidade histórica, o turismo histórico é desenvolvimento, é dinheiro?
11:01O turismo é uma grande atividade econômica que tem uma capitalidade enorme.
11:07Ele injeta recursos na comunidade.
11:10Do ponto de vista da tributação, ele estimula muito a informalidade.
11:16Então, pode ser que a prefeitura não arrecade muito com o turismo, mas ela vê a multiplicação
11:23dos postos de trabalho, ela vê uma injeção de recursos na vida econômica do município
11:29e isso é muito positivo.
11:31Acaba havendo um retorno, de uma forma ou de outra.
11:35E o turismo, hoje, por exemplo, em Ouro Preto, ele é uma grande fonte de emprego.
11:40As pessoas perceberam isso no tempo da pandemia.
11:44Quando nós tivemos quase 6 mil pessoas sem poder exercer sua atividade, guias de turismo,
11:52motoristas de táxi, garçons, todo tipo de atividade.
11:57Uns artesãos da Pedra Sabão.
12:00Parou.
12:00Tudo parou.
12:01Você não tinha...
12:02Os joalheiros, quem trabalha com topaz imperial, que é uma pedra genuína de ouro preto.
12:08Mas a florista que levava para os restaurantes flor, para os casamentos, nas igrejas, tem
12:15muito casamento em ouro preto.
12:17É uma série de...
12:19Que a gente pode arrolar.
12:20Move a economia.
12:21E que move a economia, que injeta recursos não só na cidade, mas nos nossos 12 distritos.
12:28O município de Ouro Preto é extenso.
12:29E os distritos também, como Lavras Novas, que é hoje...
12:33Lavras Novas.
12:34Lavras Novas tem um...
12:37Recebe mais de mil pessoas por semana, por fim de semana.
12:41E com uma rede hoteleira maravilhosa, de grande charme.
12:46E outros distritos também, Santo Antônio do Salto, São Bartolomeu, que recentemente agora
12:50reabriu uma igreja tricentenária, que foi finalmente restaurada com recursos do Ministério
12:56Público Estadual.
12:57E, Anjo, você, a juventude, não o conheceu como ministro da cultura, que foi na década
13:07de 80, você esteve no Ministério da Cultura, você presidiu o IFAM, o Instituto Patrimônio
13:13Histórico do Brasil, o IBRAM, Instituto Brasileiro de Museus.
13:17Como você avalia hoje o Brasil, da década de 80 para cá, dessa sua caminhada?
13:25Evoluímos, preservamos, estamos conservando o nosso patrimônio, estamos sabendo conviver
13:30com ele, com sustentabilidade?
13:32Eu percebo, Carlinho, que hoje há uma consciência maior.
13:36E há também um cuidado, um zelo mais apurado.
13:44Inclusive, o Ministério Público passou a atuar nesse campo também, fortemente.
13:50Mas, ao mesmo tempo, há poucos investimentos oficiais.
13:54Nós somos carentes de alguns programas.
13:57O governo federal tem o PAC das cidades históricas, que voltou, mas também muito lentamente.
14:02E do Estado, só o Ministério Público, no plano estadual, de maneira que há necessidade
14:09de maiores investimentos, porque isso traz renda para o Estado também, traz recursos.
14:15O turismo, ele injeta recursos em todo o circuito econômico do Estado.
14:22E, de uma maneira ou de outra, ele vai contribuir para manter a economia em vibração, porque
14:30tem esses postos de trabalho.
14:32Eu considero, assim, o olho preto ainda depende da mineração.
14:35Mas nós temos trabalhado muito na diversificação da economia.
14:39O turismo é um dos eixos fundamentais.
14:42Nós temos também os serviços, outro tipo de indústria com uma diversificação empresarial
14:51significativa, mas para Minas Gerais e para as cidades históricas, o turismo é que
14:55é o eixo capaz de impulsionar o desenvolvimento, sobretudo daquelas cidades que não são mineradoras.
15:02E para ser prefeito de um patrimônio com o Moro Preto, tem que ser uma pessoa imortal?
15:07Porque o Ângelo, para quem não sabe, é imortal.
15:10O Ângelo é acadêmico da Academia Mineira de Letras e, recentemente, fez a saudação
15:17numa solenidade emocionante, que foi a posse do Márcio Borges, nosso querido Márcio
15:21do Clube da Esquina, 80 anos, assumiu a cadeira na Academia.
15:26Você fez a saudação, vários amigos ligaram e falaram, Carline, foi emocionante.
15:29E esse lado do acadêmico, do Ângelo Acadêmico?
15:33Foi a posse do Márcio Borges, foi realmente muito emocionante, porque foi a chegada à Academia
15:42do Clube da Esquina.
15:44O Jacinto Luiz Brandão, que é um grande intelectual, nosso presidente da Academia,
15:50ele disse o seguinte, que uma academia é um club, no sentido inglês da palavra.
15:54E, sendo uma academia de letras, é um lugar adequado para um letrista.
15:59Então, era maravilhoso que a academia recebesse o Clube da Esquina e o letrista Márcio Borges.
16:08Eu acho que quem resumiu melhor essa história toda foi o nosso presidente Jacinto Luiz Brandão.
16:14E foi uma alegria receber o Márcio, realmente, foi toda essa geração.
16:18É curioso, a música do Rio de Janeiro é diurna.
16:23É sol, é sal, é sul.
16:26A garota que vai, ensolarada, Ipanema.
16:30A música mileira é noturna, até a nossa poesia é noturna.
16:34Eu, no meu discurso, lembrei de vários poetas que falam da lua, da noite,
16:38a começar por Alfonso de Guimarães, Carlos Drummond de Andrade.
16:42E o Clube da Esquina foi a primeira música que caracterizou, realmente, Belo Horizonte.
16:51Assim como a Bossa Nova é muito ligada ao Rio, o Clube da Esquina, essa música que surgiu em torno
16:57do Milton Nascimento,
16:59da voz única do Milton Nascimento, ela é um espelho de um sentimento belo-horizontino,
17:05do bairro de Santa Tereza, do encontro daquelas ruas lá, Paraisópolis e Divinópolis,
17:10da Serra do Curral, do Curral del Rey, esse insulamento de Belo Horizonte, uma cidade pouco fechada.
17:16Naquela época, hoje já mudou um pouco, mas esses sentimentos ainda perduram, porque eles são muito próprios do mineiro.
17:26E o Márcio Borges é um grande letriz, filho do Salomão Borges, que trabalhou no estado de Minas durante muitos
17:35e muitos anos.
17:36Márcio Marilton, ou Lô, mais novo, que já partiu.
17:39São vários, tem as meninas, uma família muito grande, de músicos, compositores, letristas, e as histórias da família são muito
17:46curiosas.
17:47O pai incentivava muito os meninos a todo tipo de composição.
17:52Então, agora tem um letrista na Academia de Letras.
17:54É porque, na verdade, ele é um poeta.
17:57Os sonhos não envelhecem.
17:58O Márcio é um poeta e que fez letras de música, os poemas dele foram transformados em música.
18:08Nós cantamos, não só lemos, mas cantamos os poemas do Márcio Borges.
18:14E lotam plateias no Brasil inteiro até hoje.
18:18O Lô Borges foi estudado em Academias de Música.
18:20Eu, quando fui convidado para entrar na Academia Mineira de Letras, eu levei um susto porque meu avô foi presidente
18:26da Academia Mineira de Letras.
18:27E eu achava que a academia era um lugar, assim, de pessoas antigas.
18:34De velhinhos.
18:35Era uma coisa fora do tempo, meio anacrônica.
18:41E depois eu entrei por insistência do Murilo Badaró, que era o presidente na época.
18:45E ele falou, não, você tem que entrar.
18:49Ele estava empenhado em revigorar a academia.
18:53E me convidou e fez uma campanha danada e eu acabei de entrar na academia.
18:58E, ultimamente, depois da presidência do Rogério Faria Tavares, a academia realmente tomou uma dimensão.
19:04Olha, entraram na academia o Márcio Borges, que acaba de chegar lá, mas a Conceição Evaristo.
19:10Recentemente também.
19:11E foi também a chegada, uma outra emoção a chegada da Conceição.
19:16O nosso Ailton Krenak, o primeiro indígena na academia, representando essa cultura original e é nossa, essa cultura ancestral.
19:26E ele é uma pessoa maravilhosa, uma figura internacionalmente reconhecida.
19:30E depois foi logo eleito, foi chamado pela Academia Brasileira de Letras.
19:34Já estava lá.
19:35Então, a Conceição, o Ailton Krenak.
19:39Tivemos o Silviano Santiago, que reside no Rio de Janeiro, mineiro de Formiga, um dos maiores intelectuais.
19:44Prêmio Camões.
19:46Espeto.
19:47É acadêmico da NR.
19:48O Humberto Werneck, um grande jornalista, cronista, contista, está em São Paulo.
19:55É uma constelação, então, a academia.
19:56Essas pessoas, o Ricardo Aleixo, um poeta maravilhoso, um poeta de vanguarda, está nos Estados Unidos, foi convidado pela Universidade
20:04de Nova York,
20:05para um estágio na Universidade de Nova York.
20:08Então, são pessoas que enriqueceram muito e diversificaram o quadro da academia e mostraram que a academia é um espaço...
20:21Plural, diversificado, representativo.
20:24Representativo da cultura e das letras nas suas variadas dimensões.
20:29E você que quer mais, beber mais na cultura do imortal Ângelo Oswaldo, continue conosco agora no portal do YouTube,
20:38lá no portal UI, no canal do YouTube,
20:41porque aqui termina o nosso programa na Alterosa.
20:43Muito obrigado, viu, Ângelo?
20:44Obrigado a você, Carinho.
20:46Obrigado, Alterosa.
20:46Então, vamos para lá, seguir acompanhando e conversando e aprendendo com o Ângelo.
20:51E segunda-feira, você lê a entrevista nas páginas do Jornal Estado de Minas.
20:55Tchau.
20:57Tchau.
21:16Estamos de volta com o Em Minas, agora apenas para vocês que estão conosco aqui no canal do YouTube do
21:23Portal UI,
21:23recebendo hoje o prefeito do Ouro Preto, Ângelo Oswaldo, também presidente da Associação das Cidades Históricas.
21:29Terminou o papo na televisão falando da representatividade plural da Academia Mineira de Letras, a qual você integra.
21:37E aí eu te pergunto, Ângelo, você é um gestor cultural, acima de tudo.
21:44Ministro da Cultura, dirigindo institutos, patrimônio, museus, secretário de Cultura, por várias vezes, do nosso Estado de Minas Gerais, prefeito.
21:53O que é mais difícil, Ângelo, para o gestor público?
21:59Ser prefeito, ser ministro, ser secretário de Estado, onde é mais fácil, onde é mais difícil trabalhar?
22:05Me parece que é mais difícil ser prefeito, porque o prefeito, eu estou lá no chão, pisando o chão real.
22:13O secretário de Estado já está um pouco distante, ele já está vendo o território do Estado, Minas Gerais, é
22:21maior do que a França.
22:23Então, a pessoa fica meio, tem que fazer um esforço grande para mergulhar, senão fica distante da realidade.
22:30E o ministério também, eu sempre, nos lugares onde trabalhei, eu procurei ter uma visão de conjunto do território em
22:39que eu tinha que atuar.
22:40E o prefeito, ele está no chão, ele tem que fazer, prefeito é quem faz, é quem está lá, é
22:50o gestor direto.
22:52E as pessoas no Brasil têm essa tradição de ver no chefe do executivo, é um faz-tudo, é a
23:02pessoa que resolve todos os problemas, vai lá, vai pedir o prefeito.
23:06Antigamente tinha uma expressão medieval que falava, vai se queixar o bispo, né?
23:10Passou a fase dos bispos.
23:12Aqui em Minas, vai se queixar o prefeito, porque o prefeito é um pouco faz-tudo.
23:17E as pessoas têm essa impressão que o prefeito pode fazer tudo.
23:20Não, se o senhor quiser, o senhor manda, o senhor pode fazer, o senhor me deixa eu fazer isso.
23:26Não é assim.
23:26E não é assim.
23:28Então, tem essa coloquialidade, esse contato direto de conversar com as pessoas, tem que ter essa abertura para ter esse
23:39acolhimento.
23:40E tem que ter paciência, que Milton Campos chamava de, dizia que o homem público tem que ter a virtude
23:47da tolerância, né?
23:49A tolerância é a paciência.
23:51O que ele falou?
23:52O homem público tem que ter tolerância?
23:54Então, nós estamos em outro mundo hoje em dia, né?
23:58Exatamente.
24:00A tolerância é a dimensão filosófica da paciência.
24:07Não existe mais.
24:08Eu acho que hoje nós estamos em um mundo muito intolerante.
24:11Você é figura rara, você é um gestor raro, né?
24:13Não, mas qualquer prefeito tem que ter paciência, porque tem que acolher a todos e tem que saber dialogar com
24:19a comunidade.
24:21E são muitas instâncias hoje que dialogam.
24:23Nós temos não só a Câmara Municipal, mas as associações de moradores, os grupos diversos da sociedade organizada, as ONGs.
24:32Então, você tem todo tipo de demanda e as pessoas acham que tem que encontrar imediatamente a solução da parte
24:39do poder público.
24:40Eu vejo hoje muita participação sócio-comunitária e mesmo individual com as redes sociais, as pessoas se manifestam o tempo
24:49inteiro,
24:50mas muito cobrando e com poucas atitudes.
24:53Não construindo.
24:54Não construindo.
24:55É preciso haver uma participação também de inserção das pessoas nos processos de transformação.
25:04A rede social emburreceu as pessoas ou elas já estão burras mesmo pelo processo histórico que a gente vive?
25:10O Humberto Eco, o grande intelectual italiano, dizia que isso ia soltar, esse instrumental todo ia soltar a ignorância do
25:19mundo
25:19e que ficaria desenfreado e ninguém conseguiria nunca mais recolhê-la.
25:24O gênio do Aladim não ia voltar para o interior da lâmpada e a ignorância de Aladim também não voltou.
25:32Vamos falar um pouco de gestão pública.
25:35Você é um homem que viajou e conhece, estudou o mundo inteiro com os cargos que você já desempenhou e
25:43exerceu na sua vida.
25:44Essa bagagem cultural que você tem.
25:47Me aponte mais dois ou três gestores ou prefeitos com essa qualificação cultural.
25:55Não estou desmerecendo ninguém.
25:57Mas a gente, às vezes, flagra gestores públicos que flertam com o analfabetismo representando o grupo social.
26:12Mas exatamente porque houve uma certa facilidade no encantamento das pessoas pelas redes sociais.
26:21Pelas redes sociais fabricam-se muitos líderes e na última hora convencem pessoas que nunca viram esses indivíduos e que
26:32não percebem muito bem.
26:34Ficam encantadas com um pequeno teatrinho que é encenado ali.
26:39Mas ficam encantadas por falta de conhecimento.
26:41Exatamente por falta de conhecimento ou por entrega à primeira empatia que elas resolvem ter.
26:48Exatamente porque não conseguem dar um salto qualitativo e buscar alguma coisa melhor.
26:53Não sabem fazer o dedo correr na telinha.
26:56As pessoas não sabem mais escrever, caligrafia.
27:00As pessoas já nasceram teclando nessas novas gerações.
27:03Ninguém pegou um lápis, uma caneta na mão.
27:05Esse é um problema enorme do mundo inteiro porque nós estamos, todo mundo vai voltar a ser Neandertal, curvo virado
27:13para o celular.
27:15E essa dificuldade da escrita também.
27:19Eu imagino os problemas que a França tem enfrentado porque a França resistiu até hoje a fazer uma reforma ortográfica.
27:27Então, lá tem muita letra dobrada e a escrita francesa...
27:34Regras gramaticais preservadas.
27:37Preservadas e muito complexas.
27:38Então, os jovens já estão tendo, o país está tendo que lidar com a dificuldade dos jovens com a escrita.
27:46E nós vemos também que no Brasil, mesmo com todas as facilidades criadas pelas sucessivas reformas ortográficas,
27:54nós temos ainda muita dificuldade na escrita e houve um empobrecimento do ensino, um enxugamento.
28:02Tentaram fazer uma coisa bem simples, bem direta, bem objetiva, mas isso ficou mais conciso, mas também mais carente de...
28:15Eu acho que fechou a cabeça do jovem, né?
28:17A gente sabe que ele deseja de ler isso, abrir, quero ler mais, quero ler mais,
28:21que quanto mais você aprende, mais burro você é, quero saber mais, quero...
28:24Não, as pessoas se fecharam na sua ignorância, minha opinião.
28:29É, mas aí que haver esperança, né?
28:32E eu tenho esperança e sou otimista.
28:34Você tem?
28:34Eu tenho e sou otimista também.
28:37Acho que nós, se perdemos por um lado, ganhamos por outro.
28:41Eu vejo, por exemplo, as pessoas falam,
28:43olha, o preço foi descaracterizado em tais e tais lugares porque a cidade não cresceu bem.
28:47Mas o corpo histórico da cidade foi muito valorizado.
28:51Grandes restaurações se promoveram e, mesmo nos diversos patrimônios de Minas Gerais,
28:58a cidade de Congonhas, a acrópole de Congonhas é uma maravilha toda restaurada.
29:05Diamantina é uma cidade encantadora, como eu estava dizendo, o Cerro e o conjunto da Pampulha.
29:10É uma pena que não esteja devidamente utilizado.
29:15O antigo cassino, que foi o Museu de Arte, tão bem recuperado no tempo da Priscila Freire, como diretora...
29:22Diz que o ano que vem deve iniciar uma nova obra, né?
29:25É uma pena.
29:25Foi a registração do Museu de Arte e de um arquivo do acervo permanente.
29:32É, nós temos em Otim, muitas outras coisas que até poderiam ser muito mais, mas...
29:39O Museu do Oratório em Ouro Preto.
29:40O Museu do Oratório, que a Ângela Gutiérrez criou, o Museu do Oratório em Ouro Preto.
29:44E o Museu de Santana em Tiradentes, que é maravilhoso.
29:47Em Tiradentes, que é maravilhoso.
29:48No Praje na Cadeia.
29:49Além do Museu de Artes e Ofícios em Belo Horizonte, que eu acho que esse talvez seja um museu emblemático.
29:55No Brasil não há um outro lugar que conte a história da mão do povo, o que a mão do
30:01povo construiu no Brasil,
30:02como Museu de Artes e Ofícios da Praça da Estação em Belo Horizonte.
30:07Ângelo, então eu vou aproveitar, deixa eu pedir para você levar meu beijo, meu abraço para a Ângela Gutiérrez
30:11no seu próximo encontro.
30:12Sei que é uma pessoa que você convive muito, é uma pessoa também, uma apaixonada pelas artes.
30:16Sim.
30:17Muito obrigado, viu?
30:18Pela sua presença.
30:19Obrigado, Carminho.
30:19Eu espero você numa outra oportunidade de volta aqui.
30:23Gente, esse é o Ângelo Oswaldo, prefeito de Ouro Preto, enciclopédia da cultura e do patrimônio,
30:28e presidente da Associação das Cidades Históricas de Minas Gerais.
30:32Muito obrigado.
30:33Obrigado a vocês que estiveram com a gente.
30:35Tchau, pessoal.
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