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O episódio desta semana do Podcast Direito Simples Assim fala de curatela com a especialista Laura Brito. A curatela é um artifício jurídico de proteção que nomeia um responsável (curador) para gerir os atos civis necessários.

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Transcrição
00:00Olá, pessoal! Olha nós aqui de novo.
00:04Hoje nós vamos continuar uma conversa muito bacana sobre curatela.
00:11Já teve a parte 1, hoje é a parte 2.
00:14E para conversar com a gente, nós temos aqui a advogada Laura Brito,
00:22que deixa eu falar aqui um pouquinho sobre ela, do currículo dela.
00:27Ela é advogada, especialista em Direito de Família e das sucessões,
00:32doutora e mestre pela USP e atua como professora em cursos de pós-graduação,
00:38além de ser palestrante, pesquisadora e autora de livros e artigos da área.
00:44Então, ela sabe o que está falando, né?
00:48É um prazer ter você aqui conosco.
00:49Oi, gente, tudo bem? Que satisfação estar de novo no Direito Simples assim.
00:53Como eu brinquei mais cedo, já quero até pedir a minha caneca, né?
00:58De quem volta sempre.
01:00Mas eu estou sempre à disposição e para mim é sempre muito bom estar aqui com vocês hoje.
01:04Eu acho que é bom para todo mundo.
01:06Agora nós estamos lascados, Val.
01:08Porque o pessoal vai para o Fantástico e pede música.
01:11Agora o pessoal vem para o Direito Simples assim, quer xícara.
01:14Mas aí a gente providencia umas para deixar isso aí para esses queridos nossos, né?
01:20Não é.
01:21Bom, então voltando a falar aqui de curatela, né?
01:28Ô Ru, eu ia até falar, antes da gente adentrar aqui ao tema de fato,
01:33só para relembrar o pessoal, porque o primeiro episódio, gente,
01:36está lá no canal do Portal Uai, lá no YouTube.
01:39Mas lembra para a gente aqui, Laura, qual que é o conceito de curatela?
01:43O que é uma curatela?
01:44Só para o pessoal se situar, né?
01:46Para não ficar parecendo que a gente está aqui falando.
01:49Embora vocês tenham que assistir lá o primeiro episódio.
01:53Está vendo como é que é bom ser mais de uma?
01:56Uma ver a coisa que a outra não viu, cobre os espaços.
02:00Para aí.
02:01Bom, gente, eu estive aqui outro dia, né?
02:03E tive a satisfação de a gente começar essa conversa.
02:06Ela foi tão boa que ela precisou dessa parte 2.
02:09Só a gente lembrando que quando uma pessoa,
02:12ela está desafiada pela incapacidade, né?
02:15Ou seja, ela é uma pessoa com mais de 18 anos
02:18e ou em razão de deficiência intelectual,
02:21ou de um transtorno mental grave,
02:23ou de um transtorno global do desenvolvimento,
02:27ou da demência, que é o caso mais comum,
02:30essa pessoa pode vir a precisar ser representada por alguém.
02:34Essa relação de uma pessoa poder tomar decisões pela outra,
02:39a gente chama de curatela.
02:41Quando se tratar de pessoas maiores e desafiadas pela incapacidade.
02:46A curatela é essa medida e ela é uma medida judicial.
02:49Ou seja, para eu ser curador de uma pessoa incapaz,
02:54eu preciso de um processo judicial.
02:56Então, resumindo, a curatela é essa relação de representação
03:02de uma pessoa capaz em relação a uma pessoa incapaz adulta,
03:06que é determinada por uma decisão judicial dentro de um processo.
03:11Assim fica claro para quem nos ouve?
03:13Oh!
03:14Tranquilo!
03:16Até pouco tempo atrás, o normal era proteger essa pessoa
03:28apagando a vontade dela.
03:32A gente é que vai decidir tudo.
03:35Nós somos os filhos ou nós somos companheiros, companheiras.
03:40Nós é que vamos decidir porque a pessoa não tem mais condição
03:43de expressar a sua vontade.
03:49Atualmente, a lógica é exatamente o oposto.
03:51É de apoiar a autonomia da pessoa que está nessa situação.
03:58Exatamente.
03:59Não é matá-la socialmente.
04:02Talvez a expressão que Rosane e Zoa agora seja forte,
04:06mas, de fato, até um pouco mais de uma década atrás,
04:09a gente misturava a ideia da interdição civil,
04:13que é o tipo de processo no qual a gente faz a curatela,
04:16com a morte civil.
04:17É forte, mas essa era a expressão que a gente usava.
04:20Morte civil.
04:21E aquela pessoa, ela perdia completamente
04:24a sua possibilidade de tomada de decisões e sua autodeterminação.
04:29Em 2015, vem o Estatuto da Pessoa com Deficiência no Brasil,
04:33trazendo a Convenção de Nova Iorque dos Direitos das Pessoas com Deficiência,
04:36que muda a nossa perspectiva.
04:38De que essa curatela, ela tem que ter uma lógica gradativa e proporcional.
04:45Ou seja, eu só tiro da pessoa a lógica decisória
04:49naquilo que ela não pode decidir por si.
04:52Fica muito abstrato para quem está nos ouvindo,
04:55mas eu vou trazer alguns exemplos que, para mim, deixam isso muito claro.
04:58Bom, se a gente tem uma pessoa com demência, por exemplo,
05:03essa pessoa, a gente parte de um pressuposto de uma demência intermediária
05:07para avançada, que ela não tem condições mais de fazer a administração da sua renda.
05:11Ir ao banco, pagar as contas, decidir se eu compro isso ou não compro,
05:16se eu contrato isso ou se eu não contrato.
05:18Ela não tem condições, eventualmente, se ela tem um transtorno psiquiátrico muito grave,
05:23de decidir se ela deve ou não deve vender a sua própria casa e por que valor.
05:27Então, a gente vai substituir a vontade dela nesses aspectos patrimoniais.
05:33Agora, eu vou te dar alguns exemplos de como a gente pode pensar numa lógica gradativa.
05:37Eu conto esse caso com frequência.
05:38Pode ser que eu já tenha contado aqui, mas eu vou contar de novo.
05:42Eu tive uma pessoa que me interpelou no meio de uma palestra e falou assim,
05:46Laura, a minha irmã foi curatelada há muitos anos, antes do status da pessoa com deficiência.
05:52Ela é uma pessoa com questões psiquiátricas, ela não pode administrar a própria renda,
05:56mas a maior coisa que ela sempre gostou na vida foi eleições.
06:00É chegar à eleição, ela se engaja e assiste a propaganda na TV e ouve no rádio,
06:05e pesquisa e separa os candidatos que cada um pode interessar.
06:09Fulano, você vota e eu vou votar.
06:12A gente fez a curatela dela.
06:14Ninguém avisou para a gente que até então era uma espécie de morte civil.
06:18E a irmã dela acordou no dia da eleição, animada, se arrumou.
06:23E descobriu que não podia votar.
06:25E descobriu que tinha perdido os direitos políticos na hora de votar.
06:27Olha que coisa impactante.
06:28Que dor, hein?
06:29E ela estava me interpelando, porque ela falou,
06:31você acha que é possível a gente rever judicialmente a curatela
06:34para ela recuperar os direitos políticos dela?
06:37Eu falei, por favor, espero que sim.
06:39Então, veja, uma pessoa pode não ter condições de fazer a gestão patrimonial
06:44e de renda, mas pode ter condições de votar.
06:47No Estatuto da Pessoa com Deficiência, o artigo 85 fala.
06:50Direito de voto mantido.
06:52É claro que, por isso que eu falo de gradação,
06:54se a gente tiver uma pessoa com uma demência muito avançada,
06:57uma pessoa que já não tem autonomia para isso,
07:00essa pessoa não vai votar mesmo, né, gente?
07:02A gente sabe disso.
07:04Agora, tudo é personalizado.
07:06Tá, essa pessoa não pode fazer gestão de patrimônio e renda,
07:09mas pode votar ou não.
07:10Pode dirigir ou não.
07:13Pode tomar decisões existenciais ou não.
07:16Pode morar sozinho ou não.
07:17É autônomo para a própria higiene, para outras coisas?
07:21E hoje ainda existe a possibilidade da decisão apoiada, né?
07:25Exatamente.
07:26De pegar uma pessoa ali para poder ajudar essa pessoa
07:29nas limitações que ela tiver, né?
07:32É, a tomada de decisão apoiada é uma medida bem diferente da curatela,
07:36porque, no caso da TDA, a legitimidade de pedir é da própria pessoa vulnerabilizada,
07:42enquanto na curatela é de quem vai ajudá-lo, né?
07:45Mas a tomada de decisão apoiada só passa a fazer sentido no nosso sistema
07:49a partir da hora que a gente pensa no apoio à pessoa vulnerabilizada pela incapacidade,
07:55como essa gradação.
07:57Então, a gente vai ter, eventualmente, quem pode pedir a própria tomada de decisão apoiada.
08:00E não só isso, né?
08:01Pode ser um planejamento também.
08:03Pode.
08:04Porque, por exemplo, eu estou aqui hoje e eu tenho minha capacidade civil.
08:08Mas e eu daqui 20, 30 anos?
08:11Ou vamos dizer que eu posso ser acometida por alguma demência em fase mais precoce.
08:18Eu posso já deixar determinado quem eu quero, que me ajude.
08:22Exato, com certeza.
08:23Isso é claramente uma manifestação da autonomia, da vontade, da liberdade ser maravilhosa.
08:28Vou ter que fazer isso logo.
08:30Todo mundo deveria fazer.
08:32Não, não faz essa cara, né?
08:34Todo mundo deveria fazer.
08:37Todo mundo deveria fazer.
08:38Então, voltando a essa questão, eu posso...
08:40Agora, por exemplo, algumas coisas são inafastáveis, né?
08:44Que é o núcleo duro da nossa autodeterminação.
08:47A pessoa pode estar em demência avançada.
08:50Ninguém pode determinar, por exemplo, a sexualidade dela.
08:53Já pararam para pensar nisso?
08:55Pois é.
08:55Que tem pessoas, por exemplo, que quando estão com uma demência mais avançada,
08:59Às vezes, a família vai desfazer uma transição de gênero.
09:03Ou vai tentar fazer, passar por...
09:06Se afastar ali de eventual companheiro homoafetivo.
09:09Nossa, isso é muito grave.
09:10É, é.
09:11Ou mesmo de companheiros e companheiras.
09:16Sim, sim, que também está dentro desse núcleo duro da autodeterminação, né?
09:21Que é a nossa vivência afetiva sexual, a nossa identidade.
09:25Então, esse tipo de coisa, em nenhuma circunstância, a pessoa perde.
09:28É planejar, né, gente?
09:29É planejar, é preciso.
09:30É planejar, sem sombra de dúvidas, né?
09:32Por isso, eu sempre recomendo que as pessoas não vivenciam situações meramente de fato.
09:36Mas eu queria sempre ressaltar isso.
09:38Hoje, a curatela, ela gera uma representação naquilo que é essencial.
09:43Mas naquilo que ela não é, a pessoa mantém a sua capacidade, ela mantém a sua autodeterminação.
09:50Então, não é simples.
09:52Isso trouxe muitas camadas de complexidade, né?
09:55Isso faz com que cada processo de curatela seja único.
09:59Que a gente tenha que ter atenção para ele.
10:02Que a gente tenha que ter atenção para aquela pessoa, para aquela família.
10:04Se aquilo é uma circunstância que vai piorar, como é o caso das demências, né?
10:10Que são doenças progressivas e neurodegenerativas.
10:13Ou se aquela é uma questão que pode melhorar, como um transtorno psiquiátrico, que a pessoa está em surto.
10:18E ela pode, eventualmente, com o tratamento, vencer aquilo ali.
10:23Então, tudo isso a gente tem que levar em consideração.
10:25Você acha que a sociedade e o judiciário já conseguiu virar essa chave, assim?
10:31Ou ainda está tratando o curatelado como alguém sem voz?
10:35A gente ainda tem um caminho muito longo para percorrer, sem sombra de dúvidas, né?
10:40Seja porque vivemos uma sociedade psicofóbica com dificuldade de entender que uma pessoa com questões psiquiátricas pode estar numa crise
10:48hoje,
10:48mas que ela pode vir a melhorar, né?
10:50E uma dificuldade de compreender o que significa essa questão dos sintomas na sociedade.
10:56A gente ainda fala muito pouco de demência, já teve um outro encontro que a gente conversou sobre isso.
11:02E aí fica todo mundo sem saber como reagir.
11:04Então, ainda precisamos caminhar muito.
11:06Mas eu não poderia dizer que continua a mesma coisa e por que não continua?
11:10Está evoluindo, né?
11:11Está. O Ministério Público tem um papel relevante.
11:14A Defensoria Pública, que é quem faz a defesa técnica das pessoas que são sujeitas a curar a tela.
11:20São os curadores especiais.
11:22Que é um curador no processo, né?
11:24A Defensoria faz um trabalho...
11:27Muito bom.
11:27Nossa, é admirável.
11:29A gente precisa admirar o trabalho da Defensoria nesse papel do curador especial.
11:34Então, assim, sim, a gente já teve uma grande transformação nessa questão dos processos.
11:38Mas é progressivo, né?
11:40É progressivo.
11:41A gente depende também que os advogados estejam estudando o tema e compreendendo.
11:46A gente precisa da conscientização da sociedade e das famílias.
11:50Mas eu sou uma otimista.
11:51Eu acho que a gente já caminhou bastante nesse sentido.
11:55No caso de nós, advogados, o que acontece é que muitos de nós acham que tem aquela fórmula ali de
12:01como fazer um processo de curar a tela.
12:03Que é só fazer aquilo, põe tudo numa vala rasa e segue com medo.
12:08Não, cada caso é um caso.
12:10É muito delicado.
12:12A gente tem que estar muito atento à produção das provas.
12:15Que são as perícias, a entrevista da pessoa curatelada com o juiz.
12:19Tudo isso tem que ser feito com muito zelo.
12:21Por exemplo, uma coisa que tem sido muito chamativa é que, durante a pandemia, os juízes pararam de fazer a
12:28audiência de entrevista.
12:30Que é uma oportunidade.
12:31Presencial, né?
12:32Deixaram de fazer.
12:34Ponto.
12:35É uma entrevista em que o juiz recebe a pessoa curatelada.
12:38Não é audiência de testemunha.
12:39Ele recebe a pessoa curatelada para poder fazer algumas perguntas e se sentir seguro de que aquela pessoa realmente precisa.
12:47De que não se trata de nenhum tipo de fraude e tudo mais.
12:51E eles pararam de fazer.
12:53Quando voltaram os atos presenciais, o que eles continuaram fazendo?
12:58Fazia perícia, não fazia entrevista e dava sentença.
13:01A defensoria está apelando de todas as sentenças de curatelas sem audiência de entrevista.
13:08E o Tribunal de Justiça de Minas está anulando todas.
13:12Determinando o retorno de que é obrigação do juiz fazer a entrevista e se ele não puder...
13:18É a forma dele atestar aquilo, né?
13:21Exatamente, dele dar-lhe.
13:22Eu até tenho minhas questões de que eu acho que em algumas situações de demência muito avançada,
13:28a gente poderia refletir excepcionalmente se a entrevista seria apenas proforme.
13:32Se a perícia já afirmou.
13:34Seria só proforme e aí o deslocamento da pessoa poderia ser um desgaste maior do que a vantagem da própria
13:40entrevista.
13:41Mas a regra é função do juiz na ação de curatela entrevistar a pessoa curatelada.
13:47Olha, na pandemia, um ente querido meu estava sendo curatelado.
13:57E o juiz fez essa audiência virtualmente.
14:04Às vezes acontece, mas hoje na comarca da capital a prática tem sido ou marca presencial ou não faz.
14:13Algumas várias.
14:13Mas, assim, o meu ponto aqui não é entrar se deveria, é de que a gente tem tido uma cultura
14:20de valorização desse processo, sabe?
14:23E por isso a gente tem como advogadas também que estudar, que está por dentro de como ele funciona.
14:30Eu sempre falo que um dos motivos que me fez trabalhar muito com curatela foi que eu comecei a perceber
14:36que boa parte das curatelas o processo acabava com a juntada da certidão de óbito.
14:41E isso é muito difícil.
14:44Que prestação jurisdicional é essa em que a sentença é sempre de extinção do feito?
14:49Essa pessoa mesmo foi assim que terminou o processo.
14:52Em razão da juntada da certidão de óbito.
14:55O que eu vi que acontecia?
14:56Ia lá, fazia a inicial bem do básico, não trazia nenhum desses detalhes,
15:01juntava o laudo normalmente de demência, vinha curatela provisória e ponto.
15:07O processo não andava sozinho, parava.
15:11O advogado, que não está ali tão habituado, também parava, porque os outros processos,
15:18vocês sabem, eles meio que caminham por si só, porque tem a outra parte batida aqui, batida ali.
15:22O processo ficava parado.
15:24Essa aí tem que ficar ali atrás.
15:25Exatamente.
15:26E ia, ia, ia, ia, ia, ia, ia, até que a pessoa, porque como comumente o processo de curatela é
15:33feito em relação a pessoas idosas com demência,
15:37um dia essa pessoa falecia, juntava no processo, ou às vezes a pessoa já tinha falecido há anos,
15:43aparecia um juiz novo, botava o processo para andar para bater uma meta do CNJ,
15:49determinava a perícia, aí o advogado ia atrás do cliente, falava, não, já morreu há não sei quanto tempo,
15:56aí pegava a certidão de óbito e juntava.
15:58Ele até gostaria de estar aqui, né, para fazer essa perícia, mas não está mais.
16:02Não está mais. E aí eu falei, não, isso não é possível.
16:05Tem que haver um jeito de a gente ter uma prestação jurisdicional adequada e material para essas pessoas,
16:11e aí realmente a gente precisa estudar esse processo.
16:13É por isso que a gente precisa discutir sobre isso, principalmente nós, os profissionais.
16:18Exatamente.
16:20Para poder ir forçando umas tomadas de decisões pró o incapaz, né, a gente precisa discutir isso.
16:32Deixa eu te perguntar uma coisa, quem cuida de uma pessoa que está nessa situação, ela desgasta muito, a pessoa
16:42se desgasta muito.
16:43E acaba adoecendo também.
16:47Hoje, né, já é reconhecido uma coisa que é chamada de síndrome do cuidador, ou burnout do cuidador.
16:53É, o burnout.
16:53E ele é muito sério.
16:55Ele é caracterizado por um perdimento de vínculos afetivos, adoecimento, ausência de autocuidado,
17:03processos depressivos e ou ansiosos muito fortes.
17:07E a gente realmente, como sociedade, que eu já nem estou falando de advogado mais, a gente tem que se
17:12unir para poder dizer desse problema, né,
17:16e reconhecer que o cuidado de pessoas idosas e demenciadas ou pessoas com deficiência intelectual não é uma mera decorrência
17:25do afeto,
17:26é um trabalho desgastante, para que a gente possa se reunir e, como sociedade, fala, olha, olha para o lado,
17:32seu irmão está cuidando sozinho, sua irmã está cuidando sozinha, o que a gente pode fazer em relação a isso,
17:38né?
17:38Essa rede de apoio para aquele que está ali cuidando, né?
17:42É a mesma coisa que acontece com as crianças neurodivergentes, que as mães, os pais ficam ali numa luta.
17:48Desgotados, desgotados.
17:50Ô, Laura, é possível o curador desistir da curatela?
17:55Nossa, eu acho que essa é a pergunta mais difícil do mundo.
17:58Muitas pessoas me fazem essa pergunta.
18:00Porque, por exemplo, a gente tem lá uma família, tem a pessoa com demência, ou seja lá o que for,
18:08e aí a pessoa assume esse papel de cuidador.
18:13Mas aí, por N motivos, né? A gente sabe que a vida acontece para todo mundo,
18:19cada pessoa tem as suas dificuldades, seus problemas, essa pessoa desiste.
18:25Fala assim, eu não quero mais cuidar.
18:28Bom, eu não quero mais cuidar, eu não quero mais ser curador.
18:33É mais ou menos parecido, mas a gente vai falar sobre o que isso significa.
18:38A gente, muitas pessoas, quando me procuram para ações de curatela,
18:41ela me pergunta, se um dia eu cansar, eu posso trocar?
18:44E essa é uma pergunta muito difícil.
18:46Porque não é simples assim, você vai peticionar e falar, cansei, e vai trocar.
18:51Porque, a princípio, a gente teria como família que indicar quem seria o substituto.
18:58Porque, no Brasil, a indicação do curador dativo,
19:02que é esse curador indicado de maneira profissional pelo juiz,
19:06ele é complexo, porque, primeiro, tem que ter dinheiro para a nomeação do curador dativo.
19:11Depois, é que o juiz vai buscar esgotar todas as possibilidades da família
19:16antes de pensar nesse curador dativo.
19:19Só que aí resta o problema.
19:21Onde que acha?
19:22Como faz?
19:23Vai sair intimando as pessoas, convocando elas a serem curadoras?
19:27Dentro do judiciário brasileiro,
19:28tanto em relação às crianças que são incapazes,
19:31quanto aos adultos incapazes,
19:33existe uma certa lógica de que eu não vou insistir com quem não quer,
19:37porque pode ser que essa pessoa faça mal para essa vulnerável.
19:42Que é o caso de não forçar o pai que não quer visitar o filho,
19:45ou de não forçar o filho que não quer apoiar o pai idoso, a mãe idosa.
19:49Mas isso é algo sobre o qual a gente vai ter que falar.
19:51Porque as pessoas estão adoecendo e estão exaurindo.
19:54O que hoje a prática é,
19:56quando a pessoa se esgota,
19:59a gente vai lançar a mão de ação de alimentos
20:01para poder tentar levantar valores que lhe permitam,
20:05por exemplo, usar da ajuda paga,
20:07do trabalho, do cuidado pago.
20:09Ou a gente vai pensar também nas instituições de longa permanência para idosos.
20:14E aí fazer ali um rateio do custo disso.
20:18Que não é barato.
20:19Não, não.
20:20Mas isso ainda é algo sem resposta.
20:23Então, voltando à pergunta,
20:24alguém pode desistir de ser curador?
20:27Não é que ela não possa,
20:29mas depois que ela desiste,
20:30o que vai acontecer depois disso
20:32ainda pode ser um longo percurso pela frente.
20:36Pode-se pedir a substituição.
20:38Mas o ponto é que a substituição depende de apresentar alguém para substituir.
20:45Eu estou falando isso no sentido de,
20:47se já tem alguém do núcleo familiar
20:49que esteja disposto,
20:51aí faz a substituição.
20:52Agora, quando não se tem,
20:54aí é que entra nessa situação.
20:55Eu vou te contar uma história que me marcou muito.
20:58Foi um rapaz do interior de Minas.
21:01Ele me falou que ele vinha há muito tempo acompanhando o meu trabalho
21:03e que ele tinha feito uma economia para poder me consultar,
21:08que ele tinha muita vontade de que eu ajudasse.
21:10Olha isso.
21:11Ele tinha 30 anos
21:13e ele tinha um irmão com uma deficiência intelectual grave,
21:17um pouco mais velho que ele.
21:19Quando ele tinha, por volta de 16 anos,
21:22ele perdeu o pai e a mãe.
21:24Ele terminou de ser cuidado por uma tia,
21:27mas que no dia que ele fez 18 anos,
21:30o Ministério Público da cidade distribuiu a ação,
21:33curatelou o irmão dele
21:35e o nomeou curador deste irmão.
21:38Com 18 anos, ele virou curador do irmão mais velho dele.
21:42E que ele tinha 30
21:43e que ele já não sabia mais o que fazer.
21:46Olha o que ele me disse.
21:46Ele falou assim, doutora Laura,
21:48nem namorar, eu nunca namorei.
21:50Eu não aguento mais a responsabilidade,
21:55desde tão jovem,
21:56de ser o cuidador e o curador do meu irmão.
21:59O que eu posso fazer para deixar de ser curador dele?
22:02Olha que desafio.
22:04E aí eu trabalhei com ele justamente
22:07nessa questão das estruturas e equipamentos de apoio.
22:10Será que na cidade dele tinha alguma residência terapêutica?
22:14Porque o irmão dele não era idoso,
22:16não era caso de LPI.
22:17Será que existia no entorno
22:19algum tipo de equipamento
22:21do Sistema Único de Assistência Social
22:23que pudesse cuidar do irmão dele
22:26e, eventualmente, ele só continuar sendo responsável
22:29pela gestão do benefício que o irmão recebia?
22:33Mas alguma coisa que, de alguma forma,
22:36tirasse dele e partilhasse com a sociedade,
22:39com o Estado,
22:40a responsabilidade que ele carregava
22:41já por 12 anos.
22:43Olha que coisa.
22:44E desde muito novo.
22:46Muito novo.
22:47E deu certo, Laura?
22:48Conseguiu?
22:50Ele nunca me deu um retorno se ele tinha conseguido
22:53cumprir as sugestões que eu dei para ele.
22:55Foi só uma consulta com ele,
22:58mas eu tracei com ele uma estratégia.
23:00Depois até vou ver se consigo retomar esse contato.
23:03Mas isso foi uma coisa que me tocou grandemente nessa situação.
23:07A gente sabe que a família é o primeiro espaço de proteção,
23:10mas, como sociedade, a gente tem que estar junto.
23:13E, como Estado, a gente tem que cobrar políticas públicas
23:17que amparem esse cuidado.
23:18Ou, senão, ele vai adoecer mesmo.
23:20Laura, você falou ainda há pouco
23:22sobre uma ajuda financeira para essa pessoa.
23:27Aí eu te pergunto,
23:29o curador,
23:30eu ia até te perguntar isso,
23:31se o curador tem direito
23:33a alguma remuneração
23:35por esse trabalho,
23:36por estar nessa administração.
23:38Porque, muitas vezes,
23:39a pessoa que pega essa função,
23:40ela sai do trabalho dela
23:42para poder cuidar daquela pessoa.
23:45Para de ter rendimento próprio.
23:48E, do que é a renda do curatelando
23:54ou do curatelado,
23:57ela tem que prestar conta de tudo.
24:02Judicialmente.
24:03Então, fala para a gente disso um pouquinho.
24:05Nossa, esse é um tema maravilhoso.
24:07Eu, particularmente,
24:08sou uma grande defensora da remuneração do curador.
24:11Eu acho que tinha que ser fixado.
24:13É claro que,
24:13quando a gente está falando
24:14de uma limitação propriamente financeira,
24:17às vezes, aquela pessoa
24:18que vai ser curatelada
24:20tem um benefício da prestação continuada
24:21de um salário mínimo.
24:23A gente não tem condições aí,
24:25dentro disso,
24:25de falar de uma remuneração adequada
24:28do trabalho, do cuidado.
24:30Mas, sempre que possível,
24:31que isso não for inviabilizar
24:32o próprio tratamento
24:34de quem está sendo curatelado,
24:36é de se esperar
24:37que haja uma remuneração desse curador.
24:40Eu, especialmente,
24:41se ele for um cuidador full time.
24:43Se ele estiver deixando,
24:44no mercado de trabalho
24:45para poder exercer
24:47esse trabalho do cuidado.
24:48Inclusive, eventualmente,
24:50pedindo pensão alimentícia
24:51para outros familiares
24:53para custar esse cuidado.
24:55E eu vou mais longe.
24:56Eu tenho defendido,
24:57nos meus artigos...
24:58A pensão alimentícia seria...
24:59Para quem?
25:00Para um pai idoso.
25:01Para um pai idoso.
25:03É, e ele tem uma filha
25:05que saiu do mercado de trabalho
25:07para poder cuidar dele.
25:09Ele vai pedir pensão
25:10para os outros filhos
25:12para que ele tenha dinheiro
25:13para o próprio cuidado
25:14e também para remunerar
25:16essa filha que cuida dele.
25:17Para remunerar essa pessoa
25:17que está cuidando dele.
25:17Exatamente.
25:19E eu tenho defendido,
25:21inclusive,
25:21nos meus artigos no jornal
25:23e no meu posicionamento,
25:25que o ideal é que...
25:26Claro que estamos falando
25:27de uma família
25:28com alguma condição.
25:29É que essa remuneração
25:31contemple,
25:32inclusive, vejam só,
25:34contribuição
25:35para a previdência social
25:36do cuidador.
25:37Gente,
25:37isso é uma coisa
25:38que me preocupa.
25:39É importante.
25:40porque, às vezes,
25:41a pessoa cuidou ali
25:43dos 40 aos 65 anos
25:45do pai idoso.
25:46Aquele pai, às vezes,
25:47tinha uma aposentadoria boa,
25:49não houve remuneração,
25:50mas ela morava na casa do pai,
25:51comia na casa do pai,
25:52às vezes,
25:53o pai pagava até
25:53um plano de saúde.
25:55No dia em que esse pai
25:56vai embora,
25:57a renda vai embora com ele.
25:58Vai tudo embora.
25:59Vai embora.
26:00E essa pessoa,
26:01ela não é só o problema
26:02que ela saiu
26:03do mercado de trabalho.
26:04Ela não volta.
26:06Ela não volta.
26:07Às vezes,
26:07ela já está no período
26:08de aposentadoria
26:10e ela não contribuiu
26:11para a previdência.
26:12Nesse período.
26:13Nesse período.
26:14Ela não tem perspectiva
26:16de aposentadoria.
26:18Gente,
26:18isso é de uma seriedade.
26:20Isso é de uma gravidade.
26:22Então,
26:22eu tenho defendido que,
26:24claro,
26:24a gente tem que ver
26:25das possibilidades financeiras
26:26dessa família.
26:28Mas,
26:28não só remunerar
26:30com uma remuneração
26:31que permita
26:32essa pessoa
26:32a manter ativa
26:34a sua condição
26:35de contribuinte
26:35da previdência social.
26:37Isso é importante.
26:38A gente tem que
26:39parar de achar
26:40que o cuidado
26:41é mera decorrência
26:42do afeto.
26:42O afeto pode estar ali,
26:44mas o cuidado
26:45é um trabalho.
26:46E a gente tem que falar
26:47sobre a contrapartida dele.
26:48E ainda pensar,
26:49porque quando
26:50tem outros familiares
26:53e aquela pessoa
26:54está ali cuidando
26:56do pai ou da mãe,
26:57seja de quem for,
26:58os outros ainda
26:59ficam cobrando
27:01daquela pessoa
27:03atitudes.
27:04Não.
27:05forma de trabalhar,
27:07forma de trabalhar,
27:08não,
27:08de agir.
27:09Ah, eu acho
27:10que esse médico
27:10não é tão bom.
27:11Forma de administrar,
27:13cobrando com imposições,
27:15isso acontece muito.
27:16Eu acho que esse
27:17é um outro tema
27:17sobre o qual
27:18a gente precisa falar
27:19muito.
27:21Quando a gente
27:22quer exigir,
27:23a gente também
27:23tem que antes
27:25contribuir.
27:26Ah, mas eu acho
27:27que ela não está
27:28levando no melhor médico.
27:29Ou, será que esse tratamento
27:30é bom mesmo?
27:31Será que esse medicamento
27:32é adequado?
27:34Vai lá, leva no médico,
27:36marca.
27:37Ah, minha irmã
27:38está querendo levar
27:39papai no médico particular.
27:40Olha que absurda
27:41essa consulta.
27:42Ele tem plano de saúde,
27:44ela podia levar
27:44no Duplano.
27:45Sabe quanto mais trabalho
27:47dá levar no Duplano?
27:49Porque demora muito mais
27:51para conseguir a consulta,
27:52a consulta é muito rápida,
27:54não consegue falar tudo,
27:55a medicação não está ajustando.
27:57Então, você que acha
27:59que deveria ir
28:00no médico Duplano,
28:01você se implicou
28:03na realização
28:04desse tratamento?
28:06Porque senão, né,
28:08senta lá.
28:08É uma coisa
28:10desproporcional.
28:11Mas muitas vezes
28:13nessas questões
28:14familiares, né,
28:15que envolvem
28:16a gestão
28:18de uma curatela,
28:19a gente tem
28:19um desequilíbrio.
28:21Muitas vezes
28:22você tem um curador
28:23que pode ser
28:24um dos filhos
28:24ou um companheiro,
28:26mas você tem
28:26uma rede ali
28:28para dar piteco.
28:29mas ninguém
28:30para poder
28:30de fato
28:32ali
28:32tentar compartilhar
28:34ou tentar ajudar
28:35nesse sentido, né?
28:37E Laura,
28:38e se o curador morrer?
28:39Antes do curatelado,
28:41o que que sucede?
28:42Aí, lá vamos nós
28:44para essa busca
28:45do novo curador.
28:47Substituto.
28:47Exatamente,
28:48esse substituto.
28:48Aí vai entrar
28:49mais ou menos
28:50no mesmo caso
28:50da desistência.
28:51Naquela mesma situação.
28:53O que eu tenho
28:54recomendado
28:55quando a família
28:56já tem ali
28:57uma certa
28:59convergência
29:00de interesses
29:01e de concordância
29:03é que quando,
29:04porque às vezes
29:05o curador,
29:05o pai é curador,
29:07por exemplo,
29:07de um filho
29:08com esquizofrenia,
29:10por exemplo, tá?
29:11E esse pai
29:12já está atingindo
29:13idades já bem avançadas,
29:15a saúde já
29:16mais comprometida.
29:18Para a gente
29:18não fazer uma troca
29:20abrupta,
29:20inclusive para não haver
29:21uma diminuição
29:22da própria dignidade
29:23de quem exerceu
29:24a curatela
29:24por tantos anos,
29:26eu tenho sugerido
29:26primeiro,
29:27não uma substituição,
29:29mas uma transformação
29:32em curatela compartilhada.
29:34Então, a gente chama
29:35um novo curador
29:36para compor
29:37essa curatela
29:38como compartilhada,
29:39de maneira que
29:40esse mais velho,
29:41caso ele venha a falecer,
29:42no momento que ele falecer,
29:44esse curatelado
29:45não fica...
29:46Não fica desamparado.
29:47Desamparado.
29:48Já tem um novo curador ali.
29:50Eu tenho preferido
29:51fazer essa transição,
29:52que aí esse novo curador
29:53já vai assumindo
29:54as responsabilidades,
29:56já vai tomando ciência
29:58de como aquela gestão
29:59era feita,
30:00até que efetivamente
30:01esse bastão é passado.
30:02Ô, Laura,
30:03e se a gente tiver
30:04uma curatela compartilhada,
30:08mas em que os curadores
30:10aí não se entendem?
30:12A gente não vai ter.
30:14Assim,
30:15eu espero, né?
30:16Existe uma divergência
30:17aí muito grande
30:18de comunicação.
30:20Há muitos ruídos,
30:23muitas discordâncias.
30:24Essa sua pergunta
30:25é muito interessante,
30:25porque esses dias
30:26eu estava conversando
30:27com uma desembargadora
30:28aqui da Câmara Especializada
30:29do Tribunal de Justiça
30:30de Minas Gerais.
30:32Ela estava justamente
30:33se posicionando para mim
30:34que ela entendia
30:34que a curatela compartilhada
30:36deveria ser excepcional,
30:38justamente pelos riscos, né?
30:40Até porque a curatela
30:41traz uma responsabilidade
30:42pessoal financeira.
30:44Aquilo que você não tem
30:45como prestar contas,
30:46a princípio,
30:46você tem que devolver
30:47para o curatelado.
30:49Ela falou como é
30:49que duas pessoas
30:50vão ser responsáveis
30:51inclusive pela gestão
30:52da outra.
30:53Eu tenho uma opinião
30:55intermediária
30:56em que sentido?
30:58Como a gente usa
30:58essa expressão compartilhada,
31:00a gente fica achando
31:01que é igual guarda,
31:02porque a guarda
31:02é preferencialmente
31:04compartilhada, né?
31:05Não.
31:06A curatela não é
31:08preferencialmente compartilhada.
31:09Ela é preferencialmente
31:10individual.
31:11Ela será compartilhada
31:13nos casos em que houver
31:15conveniência
31:16desse compartilhamento.
31:17Então, se não há
31:19uma boa comunicação,
31:20não tem nem que discutir.
31:21É diferente lá da guarda,
31:23que a gente ainda vai tentar.
31:25Não, não.
31:26Não tem uma boa comunicação,
31:27vai ter que ter uma decisão, né?
31:29A gente pode até lançar a mão
31:31aí da perícia social,
31:32que é a perícia do assistente social,
31:34que verifica quem, de fato,
31:35já exerce o cuidado,
31:37ou, por outras razões,
31:38a gente vai chegar à conclusão
31:39que é o fulano
31:41que vai exercer
31:42aquela curatela
31:43e vai ser um só.
31:44O compartilhamento
31:45só vai acontecer
31:46se tiver bons motivos
31:48para isso.
31:49E, para tentar sanar
31:51algumas divergências,
31:54às vezes, a gente pode optar
31:55por um compartilhamento
31:56dizendo o que cada um faz.
31:58Toda a parte financeira
32:00e de prestação de contas
32:03é a Tamara que vai fazer.
32:05E só ela.
32:05Essa é a responsabilidade dela.
32:07E os cuidados diretos,
32:09as ordens aos cuidadores,
32:11aí, dá o médico,
32:12quem vai fazer é a Rosane.
32:14Isso também é possível,
32:16mas é rarississíssimo.
32:18E hoje,
32:19ainda que alguns juízes
32:21tenham um entendimento
32:22quanto mais compartilhado,
32:23melhor,
32:24porque o trabalho do cuidado
32:25é muito difícil,
32:26a gente já vem vendo
32:28um posicionamento do tribunal
32:30de falar,
32:31olha,
32:31a curatela compartilhada,
32:33teoricamente,
32:33é muito legal,
32:35mas, na prática,
32:35a gente vai deixá-la
32:36para situações excepcionais.
32:39Exatamente.
32:39É complicado,
32:41de fato.
32:41A gente conhece casos assim,
32:43não é?
32:44É.
32:45É uma luta.
32:47Principalmente,
32:48quando envolve patrimônio.
32:50Porque...
32:50Quando o curatelado
32:51tem muito patrimônio.
32:53É,
32:53porque no normal
32:54que a gente vê,
32:56se o curatelado,
32:57ele não tem
32:58um patrimônio avantajado,
33:00você vai ter ali,
33:01no máximo,
33:02um ou dois
33:03querendo cuidar
33:04daquela pessoa.
33:05Mas,
33:06se a gente tem
33:06um curatelado
33:07com um volume
33:09de patrimônio
33:10ou um volume
33:11muito grande
33:11de renda,
33:12dinheiro,
33:14como diz o outro,
33:14entrando,
33:15aí você vai ter
33:16uma renca
33:17de gente
33:18querendo cuidar.
33:19Mas,
33:19aí,
33:19no fim das contas,
33:21todo mundo
33:22se preocupa
33:23com o patrimônio,
33:24quem vai gerir
33:25o dinheiro,
33:26aquela coisa toda,
33:27mas poucos
33:28são aqueles
33:29que se preocupam,
33:30de fato,
33:31com o curatelado
33:33ou o que o curatelado
33:35gostaria
33:35que fosse feito.
33:37Não,
33:37sem sombra de dúvidas,
33:38isso é uma questão,
33:40a gente sabe,
33:40mas hoje,
33:41no dia a dia,
33:42o que eu tenho mais percebido,
33:43isso é tão delicado,
33:45e não é raro,
33:46eu vou falar aqui,
33:47vocês vão pensar
33:47em cinco pessoas
33:48na cabeça de vocês
33:49em um segundo.
33:50Às vezes,
33:51existem pessoas
33:52já com a idade avançada
33:53que criaram ao longo
33:55da vida,
33:56por terem tido o privilégio
33:57de ter uma boa renda,
33:58um bom patrimônio,
33:59uma lógica assim,
34:00a pessoa já tem 80 anos,
34:01ela sustenta
34:02o filho de 60,
34:04a filha de 55,
34:06paga a faculdade
34:07de medicina do neto,
34:08o plano de saúde
34:09da irmã
34:10e paga a creche
34:11do filho do sobrinho.
34:13Vocês já viram isso.
34:13Ah,
34:14isso tem demais.
34:15Tem demais.
34:16E aí,
34:16essa pessoa
34:17fica com demência
34:19e a gente precisa
34:20curatelar essa pessoa.
34:22A princípio,
34:24a partir desse dia,
34:27essa renda
34:28não poderia mais sair
34:30para outras pessoas.
34:32só que essa situação
34:33é muito séria
34:34porque isso era
34:35uma autonomia
34:36da pessoa,
34:37era a vontade dela.
34:39Ela pagava
34:41da vontade dela.
34:43Exatamente.
34:44Olha que situação
34:45complexa.
34:46Por quê?
34:47Quem assumir
34:48essa curatela
34:48de alguma forma
34:50mantém algum poder
34:51em relação
34:51a essa distribuição
34:52da renda,
34:54porém vai receber
34:54uma mega responsabilidade
34:57que é o risco
34:57que ela vai correr
34:58de o juiz falar
34:59não,
35:00você não podia ter pagado
35:01a faculdade de medicina
35:02do neto,
35:03você não podia ter pagado
35:04o plano de saúde
35:05da irmã
35:05e você não podia
35:07ter sustentado
35:07a filha.
35:09Então,
35:09a gente tem
35:10essa duplicidade
35:11que é complexa.
35:13A curatela,
35:14quando existe
35:14uma renda
35:15muito vultosa,
35:17ela é um poder
35:17porque vai haver
35:19ali uma gestão
35:19daqueles valores,
35:21mas ela é uma responsabilidade
35:22muito grande.
35:23A gente vai continuar
35:25permitindo que esse dinheiro
35:26seja vertido
35:28para terceiros,
35:30a minha posição
35:30tem sido,
35:31se era sim
35:32e era sim
35:33por vontade
35:33do curatelado,
35:35a princípio
35:35a gente mantém,
35:36porque isso seria
35:37um respeito
35:38à vontade
35:38daquela pessoa,
35:39mas a gente só vai manter
35:40naquilo que dá,
35:42porque à medida
35:43que os custos
35:44dessa pessoa
35:44também crescem
35:45com o cuidador,
35:47médio.
35:47A qualidade
35:49de vida
35:50é preponderante.
35:53Ela prepondera.
35:54Ela é prioritária.
35:55Então,
35:56a gente tem,
35:57hoje,
35:57essa questão de
35:59todo mundo
36:00fica doido
36:00para ser o curador
36:01de quem tem
36:02uma renda alta,
36:03é verdade
36:03em alguma medida,
36:05mas talvez
36:05essa pessoa
36:06esteja esquecendo
36:07que com grandes poderes
36:09vem grandes responsabilidades.
36:10Sim,
36:10a gente sabe
36:11que tem que prestar contas
36:12e muito se causa
36:15também divergência
36:16nesse sentido,
36:17porque às vezes
36:17um está administrando,
36:18a outra pessoa
36:19não concorda
36:20com a administração
36:21e vai lá
36:21e pede
36:22uma prestação
36:23de contas,
36:24que é bem.
36:25possível.
36:26Já tira essa situação.
36:27Exatamente.
36:28E aí vai se discutir
36:29se houve
36:30ou se não houve
36:33dando ao patrimônio
36:34do curatelado
36:35e por aí vai.
36:37A verdade
36:38é que o instituto
36:39da curatela
36:40é muito complexo.
36:42Ele envolve
36:43muitas questões,
36:44ele envolve
36:44muitas pessoas
36:46e se a gente
36:47não tem ali
36:48uma família
36:49muito bem
36:51estruturada,
36:52delineada,
36:53como diz você,
36:54com afeto,
36:55porque não basta
36:56ser só uma administração,
36:58é um cuidado.
36:59E uma responsabilidade.
37:02E uma responsabilidade.
37:03Uma responsabilidade
37:04muito grande,
37:05porque a pessoa
37:06vai ter que tomar decisões.
37:08Coisas desse tipo,
37:09mas pagava
37:10o não sei o que
37:12da tia fulana
37:13há anos.
37:14Talvez seja você
37:15que vai ter que ligar
37:16pro filho da tia fulana
37:17e falar,
37:17então.
37:19Agora não vai dar mais.
37:20Não vai dar mais
37:21pra pagar esse plano de saúde.
37:23Eu tenho que prestar contas.
37:24Exato.
37:25É muito duro
37:26fazer isso, sabe?
37:27De ligar pro ciclano
37:29e falar,
37:29olha,
37:30eu sei que eu pagava
37:31o maternal
37:32do seu filho,
37:33mas,
37:35infelizmente,
37:35nas novas contas
37:37aqui,
37:38em que a gente
37:38vai ter que contratar
37:39as empresas de cuidador,
37:41o mielpay não vai caber.
37:41E eu tô pra te dizer
37:42que tem muito
37:43curador que pega
37:44essa responsabilidade,
37:45mas não tem noção disso.
37:47Ele continua gerindo
37:49do jeito lá
37:50que fazia antes
37:52e segue o baile.
37:53E aí,
37:54quando o assusta,
37:55ops!
37:56Eu tive uma cliente
37:57queridíssima,
37:58era curadora
37:59do irmão.
37:59O irmão tinha
38:00uma renda altíssima,
38:02altíssima,
38:03e ela seguiu,
38:05porque,
38:06originalmente,
38:06a curadora do irmão
38:07era a mãe.
38:08E aí,
38:09quando a mãe já tava
38:09muito doente,
38:10ela falou,
38:10olha,
38:10fica você,
38:11mas,
38:11disse, sim,
38:12esse dinheiro é da família,
38:14porque é a pensão
38:16do seu pai
38:16e vai ser a minha pensão
38:17também,
38:18que seu irmão vai receber.
38:20Ela pegou essa responsabilidade
38:21na década de 90 ainda,
38:23e, realmente,
38:24ela mantinha o irmão
38:25muito,
38:26muito bem,
38:27sempre muito bem,
38:28mas ela pagava
38:29a faculdade do sobrinho,
38:31o plano de saúde
38:32de todos os irmãos,
38:33pagava um monte,
38:34e todo mundo sabia.
38:36Depois de 22 anos
38:38de curatela,
38:39em alguma coisa
38:40que ela falou
38:41pra uma das irmãs,
38:42ela não gostou.
38:43E a irmã foi lá
38:44e distribuiu
38:45uma prestação de contas
38:46contra ela.
38:4722 anos.
38:48Gente,
38:49o dever de prestação
38:50de contas,
38:50como é incapaz,
38:52não prescreve.
38:53Não,
38:54em 22 anos
38:55é muito tempo
38:56pra provar muita coisa.
38:57isso foi super complicado,
39:01esse processo,
39:02a gente fez uma série
39:03de ajustes,
39:04foi muito difícil,
39:05até pra gente comprovar
39:06toda a situação,
39:07a boa fé,
39:09acabou que,
39:10com isso,
39:11a gente cortou
39:11todos os pagamentos,
39:12aí os irmãos...
39:14Que não tinha nada a ver
39:15com a confusão,
39:16todos ficaram prejudicados.
39:18Foi uma coisa
39:18super difícil,
39:20mas você vê.
39:22Mas o que eu vejo
39:23também,
39:24às vezes,
39:24é que ninguém explica
39:25o que é o dever
39:26de prestar contas.
39:27Então,
39:28a gente,
39:28como advogado,
39:29pegou um caso
39:30de curar a tela,
39:30saiu a provisória...
39:32Tem que explicar tudo.
39:33E tem que explicar
39:34por e-mail,
39:35viu,
39:35colegas?
39:35Porque pra depois
39:36a pessoa falar...
39:38Não sabia disso.
39:39Por escritinho.
39:41Tem que falar.
39:42Gente,
39:42nosso tempo,
39:44já...
39:44A gente vai ter que fazer
39:46o quadro 3.
39:48Não vai ter gente.
39:48O Otávio já tá ali
39:49dando sinal pra gente.
39:50É porque tem...
39:52Ele tem outro
39:53daqui a pouco.
39:54A gente vai ter que fazer
39:55o episódio 3.
39:57Não vai ter jeito nenhum.
39:58É um assunto
39:58que busca muita informação.
40:00Eu escolho esse assunto
40:01é pra vocês sempre
40:02me chamarem de volta.
40:04Mas a gente chamaria
40:05de qualquer forma,
40:06porque o seu conhecimento
40:07é vasto em outras áreas também.
40:09Obrigada, meninas.
40:11Então, gente,
40:12hoje a gente vai parar por aqui,
40:13mas a gente continua
40:14essa conversa.
40:17Curatela,
40:18parte 3,
40:18vai ser daqui a pouco.
40:20Outro dia desse aí.
40:21Tá bom?
40:23Nós te agradecemos.
40:24você quer deixar
40:24alguma mensagem
40:25pras pessoas?
40:27Antes de tudo,
40:27eu quero mais uma vez
40:28agradecer a abertura
40:29que vocês me dão
40:30aqui no programa.
40:31Gosto demais de vir aqui.
40:33Se alguém tiver vontade,
40:34no portal
40:35www.cuidadoecuratela.com.br
40:39eu anoto as minhas reflexões
40:41somente sobre Curatela.
40:42Eu acho que eu devo ter
40:43quase uma centena
40:45de textos
40:46só sobre esse tema.
40:47Ai, que beleza.
40:48E cada dúvida
40:49que vocês me trazem
40:50vira outro texto também
40:51e assim sucessivamente.
40:53Quem tiver vontade,
40:54eu tô lá.
40:55Aí, tá vendo, gente?
40:57Procura lá, tá?
40:59Nós te agradecemos,
41:01agradecemos a vocês
41:02que estão aí sempre
41:03nos assistindo
41:04e fala das nossas redes
41:06também, tá?
41:06Exatamente,
41:07porque a gente tem aqui
41:09o podcast
41:09vinculado ao Portal Uai
41:11no Jornal Estado de Minas.
41:13A gente tem a nossa coluna
41:15também vinculada
41:16aqui ao Jornal Estado de Minas
41:17no EM Digital
41:19que traz muita informação bacana
41:22e tem as...
41:22Inclusive, a Laura
41:23vai escrever um texto
41:24pra gente publicar lá.
41:25Aí, ó, agora tá...
41:26Tá comprometida.
41:28Tá gravado,
41:28como diz o outro.
41:29Tá gravado.
41:30E a gente tem
41:31as nossas redes sociais, né?
41:33Arroba Direito Simples
41:34Assim é DV.
41:36Eu espero todos vocês
41:37acompanhando a gente
41:38que tem muito conteúdo
41:39bacana por lá.
41:40Aqui.
41:41Gente, dá um joinha
41:43aí pra nós.
41:44Sabe, compartilha.
41:46Portal Uai
41:47tem muita coisa boa.
41:50Então, dá uma pesquisada aí
41:51e curte.
41:54Nós paramos por aqui.
41:56Até mais.
41:57Tchau.
41:58Tchauzinho.
41:59Tchauzinho.
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