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  • há 3 semanas
Aos 58 anos de carreira, com vasta contribuição na televisão, Stephan Nercessian, 72, também transitou algumas vezes pelo campo político – quando foi vereador e deputado federal duas vezes. Até recentemente era filiado do Cidadania. Com carreira iniciada no final dos anos 1960 no cinema, nasceu eu Cristalina (GO) – sua origem interiorana lhe rendeu agora a volta à televisão, integrando o elenco de Coração Acelerado, novela da TV Globo, para uma participação especial na pele de um rico fazendeiro. Nos últimos anos participou da série Fim (Globoplay, 2023) e, em 2025, viveu um bicheiro da alta cúpula em Os Donos do Jogo, série de sucesso da Netflix, já tendo confirmada a segunda temporada, além de Ângela Diniz: Assassinada e Condenada, da HBO Max, e está gravando a quinta temporada de Arcanjo Renegado, do Globoplay. Convidado do programa semanal da coluna GENTE (disponível no canal da VEJA no Youtube, na TV Samsung Plus – canal 2059; LG – canal 126; TCL – canal 10031; e Roku – canal 221, além da versão podcast no Spotify), ele fala de música sertaneja, televisão e política.

SERTANEJO. “Mudou a música caipira, passou pelo sertanejo universitário, para a sofrência, entrou a presença feminina… Eu, por exemplo, conheço, desde as antigas, do sertanejo raiz, da dupla Tonico e Tinoco, a moda caipira, e incorporado depois a música popular. Minha grande preocupação é quando qualquer estilo de música, e o Brasil tem muitos, vem como um avalanche e sufoca as outras manifestações”.

PADRONIZAÇÃO. “O sertanejo ficou meio chato num determinado momento, porque a indústria fonográfica, a indústria da música impede o aparecimento de artistas originais em todos os setores. Você vê que o pagode está chato. Escuta o pagode hoje do Tiaguinho ao fulano, não identifica amis quem é quem. Esse é o fulano, é o Jorge Aragão, cada um com o seu estilo, é padronizado, aquela batida do pagode igual, cantando todo mundo igual, falando igual. O sertanejo ficou assim também”.

REGINA DUARTE. “Gravei com ela bastante, fiz uma novela de muito sucesso, Vale Tudo, primeira versão, eu era o motorista da Odete Roitman e convivi muito com ela nos bastidores, não só lá, como tive outras oportunidades, gostei muito da Regina e também vejo hoje (o que ela fala como) um equívoco, acho que de repente as pessoas começaram a se obrigar a estar num lado”.

SAÍDA DO PARTIDO POLÍTICO. “Eu devo sair do Cidadania, que é um partido que vem da origem do Partido Comunista, por uma série de questões. Roberto Freire voltou a ser o presidente, é meu grande amigo, mas está equivocado politicamente, está querendo levar o partido para o centrão, o que é inadmissível. Nunca mudei de partido, é o partido que mudava de nome, mas agora eu vou, provavelmente, se for por esse caminho, me desfiliar”.

DECEPÇÕES. “Estou decepcionado com a baixa intelectualidade no Brasil, a burrice e a falta de estudo acadêmico, o que levaram a uma piora em vários setores da sociedade. E um dos mais atingidos é a classe política, fa

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00:05Olá, gente, tudo bem? Está começando mais um programa da Coluna Gente, diretamente do seu
00:10canal no YouTube, na plataforma Veja Mais, na versão podcast, no Spotify e também nas TVs
00:16Samsung, LG, TCL e Roku. Hoje o nosso convidado dispensa qualquer tipo de apresentação, afinal,
00:22quem é que não se diverte assistindo as atuações de Estefane esse esse ano? Olá! Estefane, muito
00:27muito obrigado por nos receber, por você aceitar o nosso convite aqui, para vir ao nosso
00:33programa. Prazer é meu, é uma alegria estar aí. Muito corrida, acabou agora de gravar Coração
00:39Acelerado, novela da TV Globo, também está na próxima temporada de Os Donos do Jogo, essa
00:43série da Netflix que deu o que falar, afinal de contas, todos os bastidores aí do jogo
00:48do bicho, de um jeito ficcional, para que o povo possa se divertir um pouco. Vamos falar
00:53um pouco dos trabalhos? Isso. Mas eu queria começar já falando da novela, né? O Coração
00:57Acelerado, essa novela que trouxe o universo sertanejo para a TV. Como é que foi para você
01:01participar dessa novela e qual é o balanço que você faz? Cara, a primeira coisa que me
01:06atrai nessa novela é o diretor, o Carlinhos. Ele é o diretor que todo mundo hoje, todo ator
01:13tem vontade de trabalhar com ele, porque ele realmente dá um clima extraordinário. Aí depois,
01:18é algum tempo que a gente já queria estar fazendo alguma coisa junto, mas não dava
01:23certo. Aí, quando veio essa novela, eu falei, eu sou goiano, né? Eu sou, eu sou, eu sou
01:29Goiás. A novela, falando de certa jeito, eu falei, não posso, não posso estar longe, pelo
01:33menos eu não gastei tanto tempo para aprender o sotaque, né? Já estava, já estava. É muito bom
01:39sempre, porque cada novela que você faz, na verdade, é o reencontro com as pessoas. Nós, não
01:48temos, eu, por exemplo, posso te falar com a maior sinceridade, eu não tenho, eu tenho
01:53alegria, não sei o quê, mas a felicidade mesmo, ela acontece, esse sentimento é trabalhando. É quando
02:01estou em frente às câmeras, quando eu estou na coxia do teatro, fazendo cinema, essa hora,
02:07para mim, eu falo, eu, por mim, eu viveria na ficção, a vida toda. E depois, gravando
02:12novela, então, é melhor ainda, porque no Projac, eles não deixam cobrador entrar para
02:16te cobrar, nem nada, fica todo mundo lá de fora, então.
02:19A gente está falando aqui de ver quando vocês ouvem, os businas, sirene, passando, é
02:23porque a gente está no meio da cidade.
02:25É, da cidade.
02:26Não, isso aí é importante, porque quem estava lá fora, você sabe que nos Estados Unidos
02:31tem um acordo lá, que eles fizeram, que quase tudo que é filme, televisão, tudo que
02:36você vê americano, você vê uma bandeirinha americana, sempre vai aparecer, ou na rua,
02:41mas quase tudo tem, isso é uma coisa. E a outra coisa é o seguinte, barulho de sirene,
02:46o tempo todo, em qualquer filme que você faça, você sempre... que é para transmitir
02:51uma sensação de segurança. Então, como vocês acabaram de ver, passou aqui uma polícia,
02:56no Rio de Janeiro, é um oásis de segurança.
03:00Tá aí, tá... quem está falando isso é o dono do jogo, gente.
03:04Vem, vem.
03:06Muito bom, mas ainda coração acelerado, é o universo da música sertaneja, né, Estefan?
03:12A gente já ouve muita música sertaneja há muito tempo, né? Talvez Rio e São Paulo
03:17tenham ainda um certo preconceito e tal, o Rio de Janeiro talvez um pouco mais, até porque
03:21o samba e o funk são muito mais enraizados, né, na cultura carioca. Mas o sertanejo
03:26está no Brasil inteiro, né? E agora, eu acho que a inovação da novela é justamente
03:32para trazer um pouco desse universo para a ficção, né, para o universo sertanejo
03:37goiais e tal, isso para cá. Como é que você viu, você que é goiânio, como é que você
03:42tem visto a música sertaneja atual? Porque mudou muito, né?
03:47Mudou, da música caipira para hoje. É outra coisa. É, passou pelo sertanejo universitário
03:52por isso, por aquilo, passou a oferência, entrou a presença, que eu acho que a novela
03:56reflete bem, a presença feminina nesse universo sertanejo, que veio com a Paula, veio com a Marília,
04:03a Mendonça, né, esse pessoal que trouxe esse universo. E eu, por exemplo, eu conheço desde
04:14meio das antigas, né, do sertanejo raiz, tunico tinoco, não sei o que, a moda caipira, que
04:19você escutava e tal, e incorporado depois com música popular e tal, vai criando esse assim.
04:27Eu, a minha grande preocupação, posso chamar de preocupação, é quando qualquer estilo de
04:34música, qualquer, e o Brasil tem muito isso, ela vem assim como um avalanche e sufoca todas
04:41as outras manifestações. Agora é só isso, o sertanejo. E o que acontece? O sertanejo
04:49ficou, para mim, ficou meio chato num determinado momento, porque a indústria fonográfica, ela,
04:57que nem fono mais, mas essa indústria da música, ela, eu acho que ela impede o aparecimento
05:04de artistas originais em todos os setores. Você vê que o pagode tá chato. O pagode,
05:10você escuta o pagode hoje do Tiaguinho ao fulano, você não, você não, você não, não, não seleciona mais,
05:16você não identifica, ah, esse é o fulano, é o Jorge Aragão, é o fulano, cada um com o seu
05:20estilo. É
05:21padronizado, aquele, aquela batida do pagode igual, cantando todo mundo igual, falando igual. O
05:33que, tocando uma moda caipira bonita, mas para ele entrar no mundo artístico, ele fala, não, não,
05:40não faz isso não, você tem que fazer igual o fulano tá fazendo. Aí vai padronizando, vai ficando
05:44tudo meio igual. E isso você pode, você percebe isso no, no, no, em todas as correntes musicais,
05:53inclusive do samba, do samba-enredo, né, que, pô, que é uma coisa de louco. É, o samba-enredo não
05:59é chatice,
06:00porque você, você, você pega, a escola de samba, a batida, a bateria da escola de samba, nas suas, suas
06:10origens,
06:10ela tinha, a pessoa identificava de longe, porque cada escola batia para um santo. Então, a Mangueira vinha,
06:17fala assim, tá batendo pra Xangô, tá batendo pra, tá batendo pra, pra, pra, pra um orixá diferente,
06:23cada um tinha o seu, e, e via os compositores, né, você identificava aqueles compositores,
06:30Silas de Oliveira, Mano Décio, Silas de Oliveira, Luiz Machado, no Império Serrano, né, você via,
06:36você, os caras vinham com, pô, tanto é a verdade que eu tô falando, ele fala, tu é saudosista,
06:42depois eu falei, não, eu não sou saudosista da Renascença, não, saudosista do tempo que não tinha banheiro,
06:48não, mas do que é bom, samba-enredo, por exemplo, qualquer roda de samba que você comece a cantar samba,
06:56com meia hora, tá todo mundo cantando samba de 30, 40 anos atrás, porque se você perguntar assim,
07:03canta um samba do ano passado, ninguém canta, ninguém canta, nem samba campeão você canta, porque esquece,
07:10por quê? Eu me lembro que o samba-enredo era quase como uma escola, eu aprendia coisas,
07:18você pega um samba-enredo, que é um dos mais bonitos, que o cara fala,
07:23Joaquim José da Silva Xavier, morreu a 21 de abril, pela independência do Brasil,
07:30foi traído, e não traiu jamais, a Inconfidência de Minas Gerais,
07:36Joaquim José da Silva Xavier, era o nome de Tiradentes, foi sacrificado pela nossa liberdade,
07:43esse grande herói para sempre é de ser lembrado, é uma aula de história,
07:48qualquer menino vai aprender sobre Tiradentes com esse samba-enredo,
07:51no ano 10, o Cira de Oliveira, então tem muito isso, então, voltando à vaca gelada,
07:59fria, que você falou do sertanejo, eu acho lindo, está colocando esse universo sertanejo,
08:06a novela tem essa qualidade, ela está botando uma imagem moderna, está trazendo um agro,
08:15um agro mais contemporâneo, eu acho que isso é bem bacana, e as músicas são bonitas.
08:24Agora, e quando o sertanejo se envolve com política, Estefão, porque a gente tem essa vertente também muito forte,
08:30há muitos cantores contemporâneos, digamos, com uma linha mais conservadora,
08:35isso para você como artista?
08:37Eu fico chateado, fico meio decepcionado, cada um segue o seu destino, a política, a ideologia, o que quiser,
08:45agora, o que tem esses meninos todos, os lá de Goiás, por exemplo,
08:49nenhum deles nasceu rico, nenhum deles nasceu fazendeiro,
08:52tudo que eles conseguiram foi através da arte, da música,
08:56e é um absurdo que eles, depois de terem conseguido isso,
08:59eles menosprezem os artistas para ficar do lado do reacionarismo que o agro, em certos setores, tem,
09:07entendeu? Vira fazendeiro,
09:10vira boiadeiro, vira...
09:13Então, essa parte é muito decepcionante,
09:16porque eu não admito um artista, ele pode fazer o que ele quiser,
09:19mas ele não pode apoiar a censura.
09:22Ele não pode ir para o lado de quem censura,
09:27de quem proíbe,
09:30entendeu? Manifestação artística.
09:33Esse é o ponto, se isso estivesse acontecendo na esquerda,
09:38ou na direita, não importa, você não tem o direito,
09:41isso você não tem,
09:42o artista não tem o direito de ficar ao lado de quem censura,
09:47de quem proíbe, de quem persegue e de quem não respeita os direitos humanos.
09:55Você não pode ficar a favor de quem tortura,
09:59de quem mata, de quem trucida, você não pode.
10:04Ah, não, não tem, artista não pode.
10:06Não pode mesmo, eu acho, até pode,
10:09mas, pra mim, deixa de ser artista.
10:13Nesse sentido, tem vários, né, que a gente viu nos últimos anos de alguma forma...
10:17Eu lamento profundamente,
10:18apesar de que eu considero todos eles muito ignorantes também, né?
10:22São pessoas que têm uma cabeça muito limitada dentro de uma bolha,
10:28dentro de um determinado universo, nunca procuraram expandir.
10:32É por isso que, às vezes, se identificam tanto com essa extrema-direita,
10:37absolutamente ignorante, imbecil, boçal,
10:41e sem conhecimento nenhum da importância da vida, né?
10:46Eu sou a favor da vida, sabe?
10:47Muito radicalmente.
10:50Se eu puder te dizer se eu sou radical em alguma coisa,
10:55é em defesa da vida.
10:56Pra mim, é bem claro quem tá do lado da luz e quem tá do lado da morte.
11:02Quem, de alguma maneira, admite a morte,
11:06seja ela como algo que passa por cima da vida,
11:13isso, pra mim, tá errado.
11:17Tá com encosto.
11:18Você tem relação com a Regina Duarte, Stefano?
11:21Gravei com ela bastante, né?
11:23Fiz uma novela de muito sucesso, Vale Tudo,
11:29da primeira versão, né?
11:31Eu era o motorista da Odete Reutemann,
11:35e convivi muito com ela.
11:37Não só lá, como tive outras oportunidades.
11:40Sempre gostei muito da Regina.
11:44E também um equívoco, né?
11:48Eu acho que, de repente, as pessoas começaram a se obrigarem,
11:55por não estar de um lado, estar absolutamente de um outro.
12:00Você compreendeu?
12:00Como é que chama?
12:01Que é 250 tons de cinza.
12:04Não tinha um livro?
12:0550 tons de cinza.
12:06Não era?
12:07Não era esse livro?
12:08É, 50 tons de cinza.
12:10Então, esse livro mostra pra mim sempre assim,
12:14esse título mostra pra mim o que é a vida.
12:16Tem muita tonalidade nas cores.
12:20Você não precisa fechar uma cor.
12:26Você tem que estar aberto, principalmente.
12:29Você tem que estar aberto.
12:31Agora, a escolha que eu te digo é isso.
12:34Eu nunca fui petista nem lulista.
12:37Eu sempre fui socialista.
12:39Isso eu sempre fui.
12:40Eu fui do Partido Comunista Brasileiro,
12:42do glorioso PCB,
12:45que depois se transformou,
12:47passou pra PPS,
12:49depois virou cidadania.
12:51Eu estive ali sempre,
12:52mas sempre à esquerda,
12:53sempre pensando no socialismo,
12:55como sistema mais justo
12:59e com o embate ao capitalismo,
13:02que, pra mim,
13:04continua sendo um gerador de frustrações e infelicidades.
13:08O capitalismo é isso.
13:10Ele te vende aquilo que,
13:12assim que você compra,
13:14ele mesmo desvaloriza
13:16e diz que tem coisa melhor
13:18do que aquele que ele te vendeu.
13:19Então, você não tem.
13:21Vai ter sempre o iPhone 147, 158,
13:25que é melhor do que o que você conseguiu
13:27com muito esforço comprar.
13:29E ele gera essas frustrações.
13:34Ao mesmo tempo, ele te escraviza,
13:36porque você trabalha pra ele o tempo todo.
13:39Então, eu acho que nós vivemos numa...
13:43A gente já tem que admitir,
13:45e é difícil se você...
13:46Você faz de conta que está tudo certo.
13:49Mas você...
13:50Pô, nós vivemos num regime
13:52absolutamente de escravidão do capitalismo.
13:55É uma farsa.
13:57Essa liberdade que nós temos é uma farsa.
14:00É mentira.
14:01Ah, quanto você ganha?
14:02Você não ganha nada.
14:04Você ganha, quando você ganha, guarda.
14:05Bota no bolso e fica pra você.
14:08Você é um repassador de recursos.
14:10Você recebe com a direita
14:11e olha, trabalha, trabalha.
14:13E você trabalha pra ele.
14:14Pro capitalismo.
14:15Aí ele te paga um dinheiro
14:16e você é obrigado a devolver pra ele.
14:19Em forma de pagar a luz,
14:21pagar o telefone,
14:22pagar a comida.
14:24Se você ver essa giranda,
14:27essa coisa,
14:28ele roda, roda e vai cair na mesma mão
14:30pras mesmas pessoas,
14:32enriquecendo os mesmos grupos.
14:34E você vê que vai...
14:36Esse acúmulo é tão grande
14:38que criou uma sociedade
14:41quase que impraticável.
14:43A quantidade de gente pobre no mundo
14:45aumenta assustadoramente.
14:47Ah, mas não é porque pobre faz filho, não.
14:49É porque quem não era pobre
14:51tá empobrecendo também.
14:53E vai ficar...
14:54Porra, eu falo,
14:55é o país da fila pra comer osso no carro
14:59e o país que tem 5 mil pessoas
15:01esperando o jatinho ficar pronto
15:03de 50 milhões de dólares,
15:0540 milhões de dólares.
15:06Então é uma sociedade meio...
15:10É uma coisa que você já de cara,
15:13você já fica meio assim.
15:15Pô, você tem que trabalhar.
15:17Você tem que botar.
15:18As pessoas precisam trabalhar.
15:19Trabalhar.
15:20Eu quero trabalhar pra quê?
15:22Eu quero trabalhar pra ser feliz,
15:23pra ter o que comer.
15:24Mas não, a pressão é violenta.
15:27Cada dia que passa, aumenta mais.
15:29São novas despesas.
15:30São novas exigências
15:35que essa própria sociedade faz pra você.
15:38E em combate a isso,
15:40o que que tem?
15:41Ah, o socialismo.
15:42Ah, isso é uma utopia.
15:44Cara, se você não pensar na utopia
15:47de ter uma sociedade um pouco mais justa,
15:50você vai criando uma sociedade muito louca,
15:52muito desigual.
15:54Muito desigual, muito perigosa.
15:57Você compreendeu?
15:58Eu vejo...
16:00Anda na rua, você fica com medo de tudo.
16:03Claro, você tem que...
16:05Se você admitir que o país é o pai,
16:10tinha até o Rui Barbosa falava
16:12como é que é a pátria, é o lar amplificado.
16:15Mostrando como deveria ter o sentido de família um país.
16:19Aí você imagina que numa família
16:20você tem dois filhos.
16:22A um é dado tudo
16:24e ao outro é dado nada.
16:27A um é dado carinho, amor,
16:29concessões de trabalho, roupa, estudo,
16:32e ao outro é dado nada.
16:34E esse pai quer que esses dois filhos cresçam
16:36e chega uma hora,
16:37ó, vocês são irmãos,
16:39vocês têm que se dar bem, não.
16:40Eles alimentam o ódio,
16:43eles alimentam a frustração.
16:44Essa sociedade nossa é a sociedade que anuncia um tênis de R$ 1.400
16:55num aparelho de televisão
16:56que passa na favela
16:58e passa na Vieira Souto, na cobertura.
17:01Os produtos que são anunciados
17:03é anunciado para toda a sociedade.
17:06Agora, ao mesmo tempo, fala assim,
17:07mas você não, hein?
17:09Você não tem direito a comprar isso.
17:11Isso aqui nós temos para vender,
17:13temos para...
17:14Mas você não.
17:15Por que que não, eu?
17:17O que que você...
17:17E não dão a menor oportunidade,
17:20igualdade de oportunidade.
17:22Então, essas coisas todas
17:24sempre me levaram a refletir
17:26de que era preciso, de alguma maneira,
17:29lutar, combater,
17:31tentar fazer,
17:32e que está cada dia mais difícil.
17:33Você vê que o mundo está ficando reacionário,
17:38né?
17:39Essa...
17:40O próprio...
17:42Esse próprio sistema injusto do capitalismo
17:45faz com que ideias horrorosas triunfem.
17:50Porque ele cria essa pobreza toda
17:53e depois eles falam assim,
17:54essa pobreza está incomodando muito a gente.
17:57É aí que tem ladrão,
17:59que tem que matar,
18:00que tem que prender,
18:01tem que acabar.
18:02Como se isso tivesse nascido da mão de Deus.
18:06Não foi.
18:07Então, quer dizer,
18:08são essas coisas que aí a gente vai pensando
18:10e vai tocando.
18:11Você hoje ainda é afiliado a algum partido?
18:13Eu sou, ainda...
18:16Devo sair hoje, talvez,
18:19do Cidadania,
18:20que é um partido que vem da origem do Partido Comunista,
18:24e tal,
18:24que por uma série de questões,
18:26o Roberto Freire voltou a ser o presidente,
18:29que é meu grande amigo,
18:30mas está equivocado politicamente,
18:32está querendo levar o partido para o centrão,
18:36que é inadmissível e tal.
18:38e eu nunca mudei de partido.
18:40Meu partido que mudava de nome,
18:41mas agora eu vou...
18:43Provavelmente, se for por esse caminho,
18:45eu vou me desfiliar.
18:46Mas você conversou com o Freire sobre isso?
18:47A gente observa, né?
18:49Já há algum tempo eu conheci com ele,
18:51sempre apoiei muito ele,
18:53mas dessa vez não está dando, não.
18:55A gente pode falar que você hoje está decepcionado
18:57com o cenário político,
18:59com o andamento da política no Brasil?
19:00É, eu estou decepcionado, sim.
19:05Eu acho que a baixa intelectualidade no Brasil,
19:13a burrice e a falta de estudo,
19:17de estudo mesmo acadêmico, etc.,
19:19levou a uma piora em vários setores da sociedade.
19:24E um dos mais atingidos, eu acho,
19:26é a classe política.
19:27Então, falta um bom debate,
19:30uma inteligência,
19:32uma discussão política mais profunda.
19:35Isso é uma crise no mundo.
19:37Nós temos os exemplos mundiais de presidentes
19:40que, sem a menor noção nem de cargos,
19:45de vez em quando aparece um ministro como esse do Canadá
19:50conseguindo fazer uma elaboração de um pensamento.
19:54Então, a nossa classe política,
19:56ela deu uma piorada muito grande,
20:01na minha opinião.
20:02Porque ela virou uma outra coisa.
20:07As pessoas, sabe assim,
20:09o polícia que é policial por vocação,
20:13que tem vontade de entrar para a polícia
20:16por vocação, por ser policial,
20:19por não sei o quê.
20:22De repente, tem aquele outro
20:23que quer entrar para a polícia
20:24para arrumar um dinheiro,
20:25não sei o quê, como diz o outro.
20:26Me arruma um escone em um carro
20:28para eu fazer umas blitzes e tal.
20:30Tem esse tipo.
20:31Então, na política,
20:32hoje está muito dominada por gente
20:34que não pensa absolutamente
20:35em termos coletivos,
20:37em termos de sociedade
20:39e que faz que a esperteza lá dentro
20:42se dá bem, fazer negócio,
20:44arrumar, não sei o quê.
20:46E vira uma profissão,
20:47vira uma coisa meio...
20:49E aí sobra muito pouca gente
20:51nesse outro espeto político
20:56de pessoas dedicadas.
20:59Existe, tem gente competente,
21:01tem gente boa,
21:03mas é muito pouca.
21:05Cada dia é menor o número de pessoas.
21:08O que eu estou querendo falar,
21:10inclusive, é uma coisa
21:12que é muito repetida,
21:13mas é verdade.
21:13Eu sou de uma geração
21:14que você admirava até gente da direita
21:18pela inteligência, pela capacidade.
21:20Era muito bonito ver cara de centro.
21:23Às vezes...
21:24Pô, eu me lembro que lá na...
21:25Eu era de Goiás,
21:27os alunos da faculdade de direito
21:30pegavam um ônibus,
21:31iam para Brasília
21:32para ver Santiago Dantas.
21:35Vai falar, vamos ouvir Santiago Dantas.
21:37O Carlos Lacerda
21:38era um orador extraordinário,
21:41um orador brilhante,
21:44inteligentíssimo.
21:45Então, o Roberto Campos,
21:47que era um cara de direita
21:49pra caramba, um economista,
21:51mas era articulado,
21:53era inteligente,
21:54falava o próprio Delfim Neto,
21:55que é um porra que eu execrava,
21:57porque depois passaram a mão
21:59na cabeça dele,
21:59mas para mim ele fazia parte
22:01dos civis da ditadura,
22:03que eram execráveis para mim.
22:05Então, mas eram pessoas inteligentes,
22:08que proporcionavam um bom debate,
22:11um bom diálogo,
22:11e é muito importante que você tenha
22:14para te contrapor
22:15alguém que seja inteligente,
22:19porque isso te leva
22:20a melhorar de vida,
22:21a melhorar seu pensamento.
22:23O cara que está falando
22:24que eu estou...
22:25se contrapor na minha,
22:26é um cara que está me trazendo
22:28um universo novo,
22:29alguma coisa nova.
22:31Então é isso.
22:31Voltaria a se candidatar?
22:33Não, agora não mais.
22:35Não mais.
22:36Muita gente me pede,
22:37muita gente me aconselha,
22:38mas é bem simples,
22:40eu vou te falar,
22:41eu não quis nunca mudar
22:42de profissão.
22:43O meu slogan,
22:44quando eu fui duas vezes
22:46vereador, deputado federal,
22:47era política com arte.
22:49Era o que eu achava sempre...
22:53Era apaixonado por a arte da política,
22:55política com arte,
22:57o que a gente podia fazer.
22:57mas aí chegou um momento
22:59em que eu vi que eu tinha
23:01que me profissionalizar na política.
23:03Quase que abandonar a minha carreira
23:05de vez,
23:07para ser um profissional,
23:08porque o político hoje
23:09é um político profissional,
23:10ele trabalha,
23:11ele acaba uma eleição
23:13e ele já está pensando
23:15como é que eu vou fazer a outra
23:16e usa todo o sistema dele
23:21para poder preparar
23:24a próxima candidatura.
23:26Então, virou uma coisa
23:29meio que profissional,
23:31que não era o meu desejo,
23:34nunca foi.
23:35Eu não queria deixar de ser...
23:36Não tem como deixar de ser artista,
23:39de ser ator,
23:41compreendeu?
23:43Mas eu tinha muito essa...
23:48Eu acreditava,
23:49eu nunca pedia um voto para ninguém
23:50se eu não acreditasse profundamente
23:52de que eu seria capaz
23:53de fazer alguma coisa.
23:53e, por final,
23:55eu já percebi
23:56que eu ia pedir um voto
23:57para ser reeleito.
24:00Mas que eu já tinha
24:02ficado meio assim...
24:04Porra,
24:05não é tanto igual...
24:07Eu pensava...
24:09O sistema lá
24:10já é feito de tal maneira
24:11que não te permite
24:12grandes coisas.
24:13se você for oposição,
24:16aí que você não arruma nada mesmo.
24:18Se você não for de um partido grande,
24:19você não tem nem direito a falar.
24:22Eu brinco que,
24:23quando eu estava trabalhando,
24:24sempre eu ouvia aquela frase
24:25figurante não fala,
24:27figurante não pode falar.
24:31Quando eu cheguei em Brasília,
24:32eu entendi por que figurante
24:34não pode falar.
24:35Eu me sentia um figurante,
24:36não tinha direito nem de falar.
24:38É um minuto que você pode falar
24:39e sai.
24:41Aí você não tem uma liderança
24:42de não ganhar um relatório,
24:46fazer uma relatoria.
24:49É tudo...
24:50É um joguinho.
24:51Um joguinho.
24:52Um joguinho.
24:53O que Brasília te ensinou
24:54que você traz para a carreira de ator?
24:58Brasília...
24:59Na verdade,
25:00na verdade,
25:03eu era de Goiás,
25:05eu morava em Cristalino,
25:06eu passei ali,
25:06eu vi Brasília crescer.
25:08Então,
25:09o Brasília
25:11para mim tinha o espírito
25:13da democracia,
25:16e que o Oscar Niemeyer,
25:19o Luz Costa,
25:19eles fizeram uma cidade
25:21que era para ser
25:24dominada pela democracia,
25:25era para ser preenchida.
25:26Ah, não tem esquina,
25:27não tem que...
25:28Não,
25:28era para estar ali
25:30a efervescência.
25:31E ela sofreu muito
25:32com todos os anos
25:33de ditadura,
25:34ficou uma cidade
25:36esquisita.
25:37então,
25:38ela...
25:40Para dizer a verdade,
25:43ela não me trouxe,
25:44não me ensinou nada,
25:46não.
25:46Assim,
25:47não tem nada
25:47que tenha sido marcante,
25:49assim,
25:50que eu falo.
25:50Ah,
25:52tal coisa
25:52que eu não sabia,
25:54porque eu sabia,
25:54eu não fui iludido
25:56de hora nenhuma,
25:56sabe?
25:56eu já mais ou menos
25:58sabia.
25:59Eu já fiquei,
26:00eu fui muito mais feliz
26:00sendo vereador no Rio
26:01do que deputado em Brasília,
26:03que aqui você fica
26:03mais perto da população,
26:05você...
26:05Ouve mais o clamor
26:07das pessoas,
26:08né?
26:08Ajuda mais,
26:09tem como ajudar mais,
26:10você tem que estar
26:11dentro da sua cidade,
26:12eu gostei mais,
26:13se eu soubesse,
26:13não teria nem saído daqui.
26:16Estefão,
26:16você está com 72 anos,
26:17como você falou agora há pouco,
26:1858 anos de carreira.
26:19É,
26:20eu pareço ter 58 de idade,
26:2372 de carreira,
26:24mais...
26:27Invertendo aqui um pouco
26:28os números.
26:29E você não para de trabalhar,
26:30tem muita coisa aqui legal,
26:31além do Coração Acelerado,
26:33tem a segunda temporada
26:34do Anos do Jogo,
26:35a série da Netflix
26:35que a gente comentou,
26:37fez uma participação
26:38em Ângela Diniz,
26:38assassinada e condenada
26:39da HBO Max,
26:41e está na quarta temporada
26:42de Arcanjo Renegado.
26:43E já fiz a quinta.
26:45Já fiz a quinta também.
26:46Já gravei a quinta.
26:47Já ainda vai ao ar a quinta.
26:48É.
26:48Quer dizer,
26:48é tanta coisa,
26:50né?
26:50E a gente ouve...
26:51E fiz um filme
26:52chamado Dentes Velhos,
26:53um filme de terror
26:54que foi o primeiro
26:54que eu fiz,
26:55cheio de vampiro.
26:56É, agora?
26:56Recente?
26:57É, recente.
26:57Pronto, tá vendo?
26:58Tem mais uma
26:58que não estava aqui
26:59na minha colheita.
27:00É, tem vários aí.
27:00E o mais legal
27:01é que a gente debate
27:02muito na sociedade
27:03hoje a questão
27:04do etarismo,
27:05a falta de papéis
27:06para pessoas mais velhas,
27:08principalmente na televisão,
27:10que é uma indústria
27:11muito do rosto jovem,
27:14apesar de que...
27:15É, é.
27:15É, é.
27:15É uma forma mudando.
27:16E você permanece muito ali.
27:18A que se deve isso,
27:20Estefão?
27:20Você é um solitário
27:22combatente ali?
27:23Cara, eu não...
27:25Primeiro,
27:26eu com sinceridade,
27:27talvez,
27:28eu não me sinto,
27:30a não ser quando
27:30eu estou fazendo,
27:31eu não me sinto muito velho,
27:32assim.
27:33Eu não me sinto
27:34como se fosse
27:35mais velho, né?
27:37Até porque
27:40mudou muito, né?
27:41O pessoal que está
27:42mais velho mesmo
27:43está com 85, 87, né?
27:46Eu ainda tenho
27:46uns dois anos de...
27:48ainda de...
27:49poder me sentir
27:51mais ou menos.
27:52Porque era isso.
27:55Quando eu comecei
27:56a trabalhar,
27:56por exemplo,
27:58a primeira novela
27:59que eu fiz,
27:59eu tinha 17 anos,
28:01que foi Bandeira 2.
28:03O que que acontecia?
28:05Eu, quando apareci,
28:06eu fui capa de revista
28:07e tudo, você quer...
28:08Ah, o garoto de Marcelo...
28:09Porque naquela época,
28:11quando aparecia
28:11um ator jovem,
28:12era uma novidade
28:14muito grande.
28:15Não era toda hora
28:16que a gente tinha
28:17essa quantidade
28:18de jovens talentosos
28:20chegando,
28:20entrando no mercado
28:21e fazendo,
28:22e as escolas de teatro
28:24jogando gente,
28:25etc e tal.
28:26Então,
28:26era uma novidade
28:27enorme mesmo.
28:29De 10 em 10 anos,
28:30aparecia um jovem
28:31de 17 anos,
28:3316 anos.
28:34Então,
28:34era raríssimo.
28:37E ao mesmo tempo,
28:39agora,
28:40por exemplo,
28:41nós temos...
28:43No geral,
28:45cada personagem
28:46que era escrito,
28:47digamos,
28:48se buscava...
28:4950 atores
28:51tinham para fazer
28:52aquele personagem.
28:53Hoje,
28:53cada personagem
28:54tem 500 atores
28:55para fazer.
28:56É muita gente,
28:57né?
28:58É muita gente.
28:59E se escreveu menos,
29:00assim,
29:00vai se escrevendo...
29:01O Jorge Doria,
29:02que era mais cruel
29:03do que eu,
29:04bem mais cruel,
29:05e um dia
29:06nós estávamos
29:06no estacionamento
29:08ali da TV Globo
29:09falando sobre isso.
29:11E tinham vários
29:12velhinhos junto
29:13com a gente ali
29:14e eu pensava
29:14porque é um absurdo
29:15porque não tem mais papel.
29:17E o Dória,
29:17que era muito cruel,
29:18ele falava
29:18vocês querem o quê?
29:19Ninguém quer ver
29:20dentadura batendo
29:21tremendo na televisão,
29:22não.
29:23O pessoal quer ver
29:23gente nova,
29:24porra.
29:25Arruma um bordão
29:25e vai em frente,
29:26assim,
29:26brincando.
29:27mas é...
29:28é...
29:30essa...
29:30essa...
29:31essa coisa...
29:32ela...
29:33a nossa profissão
29:34tem muitas mudanças,
29:36você está entendendo?
29:37Muita mudança.
29:39Virou uma coisa,
29:40assim,
29:43muito...
29:44muito diferente
29:45do que sempre foi.
29:47A nossa profissão
29:48era uma profissão
29:49que era ruim
29:50para todo mundo
29:50sob um certo aspecto,
29:52era de dificuldades,
29:54ninguém ganhava dinheiro,
29:56ninguém ficava rico
29:57da noite para o dia
29:58como fica hoje,
29:59você está entendendo?
30:02Então,
30:03você tinha que romper
30:04com várias coisas.
30:05Então,
30:05a gente também lidava
30:07com as dificuldades
30:09desde essa época.
30:11Aí,
30:12a televisão é que
30:12modificou muito
30:14esse...
30:15esse...
30:15esse cenário,
30:16né?
30:17E,
30:18por exemplo,
30:18no teatro
30:19era um lugar
30:20para ter
30:21mais espaço
30:22para o pessoal
30:23de mais idade.
30:24Só que o teatro também
30:25hoje só faz quase
30:26quem tem condição
30:27de produzir teatro,
30:28né?
30:28Não tem muito
30:29aquela coisa
30:30de ser convidado.
30:32Então,
30:32falta papel.
30:33Eu trabalho
30:34também porque
30:36eu dei sorte
30:37de encontrar
30:40jovens diretores
30:41que,
30:41de repente,
30:44redescobrem,
30:44assim,
30:45um pouco,
30:45né?
30:45Falar,
30:45ah,
30:46fulano é...
30:47Pô,
30:47o seu Estepan.
30:48Eu trabalho,
30:50vou bem,
30:51finjo que eu estou bem,
30:52e finjo que eu estou
30:54inteiro,
30:54sempre,
30:55para...
30:55Finjo, ótimo.
30:56É,
30:56finjo.
30:57É,
30:58o...
30:59o...
31:00o cara fala,
31:00o artista,
31:01ele não tem direito
31:02nem de ficar doente,
31:03não,
31:03porque se espalharem
31:04que,
31:05olha,
31:05o fulano,
31:06eita,
31:06doente,
31:06não chama não
31:07que o fulano
31:07está morrendo.
31:08Aí é que você
31:08não trabalha mesmo,
31:09né?
31:10Então,
31:10a gente vai fingindo
31:11que está bem
31:12para continuar trabalhando.
31:13Dei sorte,
31:14encontrei a andruxa
31:15que tem toda
31:17uma cabeça
31:19que os artistas
31:20também,
31:21sabe o que
31:21que acontece?
31:22O Brasil tinha
31:23muita mania,
31:24eu falava assim,
31:24que é de moda.
31:26Eu já fui o ator
31:27da moda
31:28na televisão,
31:29no cinema brasileiro,
31:31a ponto de,
31:32porra,
31:32de fazer quatro,
31:33cinco longa-metragens
31:34de papel principal
31:35num ano só.
31:36Eu tinha gente
31:37que me esperava,
31:39o diretor esperava
31:41eu terminar um filme
31:41para poder me chamar
31:42para o outro.
31:43Era assim,
31:43num momento,
31:44aí fiz 20,
31:45eu tenho mais de 70 filmes,
31:47mas naquela época,
31:48tudo que era filme
31:49é Estepan,
31:50Estepan,
31:50Estepan.
31:51Aí passa,
31:52aí depois foi Zé Vilco,
31:53Vilco,
31:53Vilco,
31:53Vilco,
31:53Vilco,
31:55os diretores tinham mania
31:56de,
31:57parece que as pessoas
31:58só chamam os artistas
32:00que alguém testa
32:02que dá certo,
32:03né?
32:03Aí eu também trabalho
32:04muito,
32:05porque...
32:05Autor tem muito isso,
32:06né?
32:06É,
32:09aí no cinema,
32:10o andruxa,
32:11aí eu entro em tudo dele,
32:12nem que seja para fazer
32:13um dia de filmagem,
32:14ele fala que eu tenho que estar,
32:16que eu sou o pé de coelho,
32:17o que não sei o que,
32:18aí o Cacá de Eggs
32:19espalhava para todo mundo
32:21que se filmassem,
32:22ele não dá grana,
32:23dá sucesso.
32:24Aí essa brincadeira
32:25do Silvinho e Guidane,
32:26aí vai passando
32:28e as pessoas...
32:28A outra coisa é que,
32:29como eu disse no início
32:31da nossa conversa,
32:32é,
32:33talvez seja um grande motivo
32:35de eu trabalhar,
32:35é o fato da minha felicidade
32:37de estar trabalhando,
32:40assim,
32:40eu tenho uma paixão
32:41pelos meus colegas,
32:42assim,
32:44por todo um set de filmagem,
32:45assim,
32:46é um amor de família
32:49que eu tive
32:51desde o meu passado,
32:52o fato de eu ter vindo
32:53trabalhar muito novinho,
32:55eu sempre digo
32:56que eu tive duas criações,
32:57eu tive a minha família
32:58de sangue
32:59e tive a minha família
32:59de artista,
33:01eu fui criado
33:02pelo Grande Otelo,
33:03eu fui criado
33:04pelo Rodolfo Arena,
33:06eu fui criado
33:07pelo Fregolente,
33:08eu fui criado
33:08pelo Paulo Gracinda,
33:11essas pessoas
33:11com quem eu trabalhei,
33:12eu estava vendo agora
33:13Feijão Maravilha
33:14que está passando
33:14de novo no Globoplay,
33:17porra,
33:18morrendo de saudade
33:19ali com a quantidade
33:19de Casarré,
33:20Walter W,
33:21pessoas com,
33:22eu convivi demais
33:24com essa gente
33:25e essa gente
33:25me ensinou tudo,
33:27então,
33:28quando eu estou longe
33:30do set de filmagem,
33:32quando eu estou longe,
33:33é como se eu estivesse
33:34longe da minha família,
33:35eu sinto muito isso,
33:36então,
33:37eu tenho a impressão
33:37que isso também
33:38tem uma grande influência
33:40de quando chega agora,
33:41isso aí eu estou falando
33:42assim da parte artística,
33:43agora a parte de mercado,
33:45isso aí a cada dia,
33:48tem mais,
33:50nego,
33:51ah,
33:52estão entrando
33:53novos artistas,
33:54influencers,
33:55tem gente que está
33:57indo trabalhar
33:58porque consegue
33:59milhões de seguidores,
34:00algum...
34:01E aí se eu te perguntar,
34:02você é uma pessoa
34:03que sempre foi muito
34:03combatida na área artística
34:05e principalmente
34:05pelos direitos do ator,
34:07né?
34:08É,
34:08sempre.
34:08Como é que você vê
34:09essa questão
34:10da chegada
34:11dos influenciadores
34:13nesse campo
34:13de atuação
34:14do trabalho artístico?
34:15Cara,
34:16eu acho que você tem que...
34:19Você não pode analisar
34:20nada novo
34:21com a visão antiga,
34:22a gente tem que aguentar
34:24que as coisas
34:25estão chegando,
34:26eu passei aqui,
34:27agora eu olhei ali,
34:28eu trabalhei em jornal,
34:30porra,
34:30trabalho na minha infância,
34:31eu fui criado
34:32com cheiro de linotipo,
34:34porra,
34:34na gráfica,
34:35eu fui auxiliar
34:36de revisor,
34:37fui revisor,
34:38fui auxiliar de revisor
34:39e você vê hoje
34:41uma redação,
34:42um livro,
34:43como funciona,
34:44você fala,
34:44pô,
34:45é inacreditável,
34:46é ficção científica,
34:48não tem mais nada a ver
34:49com aquela coisa nossa
34:50de prova de paquê
34:52e não sei o quê,
34:53imprime,
34:54corrige,
34:54etc e tal.
34:55Um cara fez um reportagem
34:57para o artista
34:58visitando uma velha profissão
35:00e me levaram no Globo
35:01para ver,
35:02encontrar um revisor.
35:03Tinha um cara lá
35:04das antigas
35:05que estava se aposentando
35:06e ele com um velho dicionário
35:08assim,
35:09aí ele chegou
35:10e falou assim,
35:10acabou,
35:11ele falou para mim,
35:12acabou,
35:13não tem mais jeito,
35:14hoje é Google,
35:15aí você bota aí na internet,
35:16você escreve
35:17e vem a correção
35:19e corrige.
35:20A gente tinha,
35:21aquilo era,
35:22porra,
35:22lendo um para o outro,
35:23então, quer dizer,
35:24eu estou querendo dizer isso,
35:26assim,
35:26não dá para analisar
35:27as coisas,
35:27as novidades,
35:28então,
35:29a primeira coisa
35:30que eu faço
35:30é assim,
35:31influência,
35:33é algo novo,
35:34é uma novidade,
35:36até que ponto
35:37esse pessoal
35:38traz audiência?
35:39Já teve experiências horrorosas
35:41de colocar em novela,
35:43em coisa de filme,
35:44achando que por a pessoa
35:45ter 40 milhões de seguidores
35:47que ia dar certo
35:48e foi um fracasso,
35:49entendeu?
35:50Você bota quem não tem só,
35:51eu tenho perseguidores
35:53e às vezes dá certo,
35:55então,
35:56essas,
35:56mas eu sou sempre aberto
35:58para não ter preconceito,
36:03compreendeu?
36:04E o influência,
36:05o que é influência?
36:06Tem bons e ruins,
36:08eu me lembro
36:08que uma historinha
36:09que eu gosto muito
36:10de contar,
36:11quando eu fui homenageado
36:12por uma escola de samba,
36:14que era
36:14a difícil é o nome
36:16de Pilares,
36:16aí fizeram o samba,
36:17eu falei,
36:18pô,
36:18como é que vai ter samba
36:19em rede com o Estepano
36:19e essa ciência?
36:20E teve,
36:21fizeram 18 sambas
36:23maravilhosos,
36:23aí no final ganhou um samba,
36:26aí eu fiz uma reunião
36:27com o sambista,
36:28presidente da escola,
36:29Maneco Baraçal,
36:30não sei o que,
36:30e ele falava assim para mim,
36:32bom,
36:32agora que já está escolhido o samba,
36:34você não se meteu na escolha,
36:36mas agora você disse,
36:37tem alguma coisa
36:37que você gostaria
36:40de modificar,
36:41o que faltou?
36:41Eu falei,
36:41não,
36:42está ótimo,
36:42não,
36:42não,
36:43não pode falar,
36:43não sei o que,
36:44aí insisti tanto,
36:45eu falei assim,
36:45olha,
36:45tem um pedaço do samba
36:46que fala,
36:47Estepano,
36:47é exemplo de vida,
36:51Estepano,
36:52é nosso samba na avenida,
36:55aí eu falei,
36:56pô,
36:56um negócio que me incomodou um pouco,
36:57esse Estepano,
36:58esse exemplo de vida,
37:00me sinto assim,
37:02meio constrangido,
37:04aí o compositor olhou para mim,
37:06eu não falei,
37:07isso é bom ou mau exemplo,
37:10aí é o influencer,
37:13tem o bom,
37:14o mau,
37:14o mau,
37:15o influencer é ruim,
37:16o influencer é boa,
37:17mas é isso,
37:19então,
37:19eu fico aberto,
37:20eu por exemplo,
37:21fui presidente do sindicato,
37:22durante muitos anos,
37:23e eu sempre combati o preconceito ao contrário,
37:28por exemplo,
37:29eu não admiti o preconceito com gente bonita,
37:32que a pessoa fala,
37:32não,
37:33porque a televisão só quer rostinho bonito,
37:35o artista feio,
37:37não,
37:37todo mundo tem que trabalhar,
37:38agora,
37:39o preconceito também,
37:40você era um garoto bonito,
37:41você deve estar comendo alguém,
37:43para arrumar esse papel,
37:44essa menina deve estar dando para alguém,
37:45para poder,
37:46eu falei,
37:47isso é um preconceito,
37:48que é inadmissível,
37:50por exemplo,
37:50eu dei registro profissional para todas as paquitas,
37:54estão todas aí hoje,
37:56porra,
37:57extraordinárias atrizes,
37:58que eu ficava pensando,
37:59o que vale mais,
38:00a pessoa fazer um curso de teatro ali,
38:03ou trabalhar com a Xuxa,
38:05trabalhar com a Marlene Matos,
38:06desde os 11 anos,
38:08gravando,
38:08com aquela disciplina ferrinha,
38:11era um artista,
38:12virou,
38:12que a nossa profissão também,
38:14o que acontece,
38:15que eu gosto,
38:16que ela,
38:16como toda profissão parecida,
38:18que depende do público,
38:20não adianta ser filho do presidente do Flamengo,
38:23e jogar na ponta esquerda do Maracanã lotado,
38:26que se for uma merda,
38:27vai ser vaiado,
38:27e acabou,
38:28a nossa profissão também,
38:30não dá para ficar se escondendo,
38:31quando não se tem talento,
38:32isso é o que salva a gente,
38:34o público é quem faz o favor de juiz ali,
38:36adorei a participação,
38:37vocês,
38:38estamos chegando ao final das nossas entrevistas,
38:40não temos mais tempo,
38:41não é agora?
38:42Está na hora?
38:43Ele já quer pegar o meu papo?
38:44Não,
38:45ele é quem está agudeado,
38:47ele fica só me olhando assim,
38:49ele faz assim toda hora,
38:51olha gente,
38:52nós estamos terminando,
38:55eu adoraria continuar falando,
38:58parte 2,
38:59vamos marcar a parte,
39:02já está pré-marcado,
39:03pré-agendada a parte 2 com o Estepano,
39:05tenho certeza,
39:06porque daqui a pouquinho,
39:07daqui a um mês,
39:07ele vai ter de novo mais uma lista,
39:09vai,
39:09gigante de trabalho,
39:10então não para,
39:11eu gostei,
39:12porque essa é entrevista mesmo,
39:13porque eu não aguento mais fazer podcast,
39:17não,
39:17é entrevista,
39:18vai para a TV,
39:18porque eu falo,
39:18só me chama a fazer podcast,
39:20eu falei,
39:20quando é que vai ter um podcast?
39:22Não,
39:23aqui é entrevista,
39:24mas deixa eu encerrar então aqui,
39:25antes da gente terminar,
39:27deixa eu dar o recado,
39:28você pode nos ver no canal do YouTube,
39:31fala,
39:32vamos lá gente,
39:33eu adorei que você decorou,
39:34você sabia falar tudo de cabeça,
39:38a gente vai tentando aqui,
39:39mas enfim,
39:40não me desconcentra,
39:41senão vou esquecer o texto,
39:42fala,
39:43juro que eu vou ficar calado,
39:45vamos lá gente,
39:46esse foi o nosso programa semanal da Coluna Gente,
39:49diretamente do seu canal no YouTube,
39:51na plataforma Veja Mais,
39:52na versão podcast,
39:53e também nas TVs Samsung,
39:56LG,
39:56TCL e Roku,
39:57está vendo?
39:57rapidinho,
39:58valeu tudo,
39:59fiquem bem,
40:00até a próxima segunda-feira,
40:01tchau,
40:01tchau.
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