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00:00A CIDADE NO BRASIL
00:31Está gostando de Miami, filha?
00:33A CIDADE é muito bonita, sim, pai.
00:36Só tenho pena porque eu queria muito que a mamãe não tivesse morrido.
00:41Eu queria que ela estivesse aqui.
00:43Filha.
00:46Se eu pudesse, eu dava a minha vida para trazer a sua mãe de volta.
00:51Não, papai. Eu não quero perder você também.
01:00Olha aquilo, pai.
01:03Dr. Christian Walker.
01:05O que é isso?
01:06É a foto do Dr. Walker.
01:07O famoso genético foi morto esta noite em Gibb's Camp.
01:11Meu Deus.
01:13O que eles estão falando, pai?
01:15Dr. Walker morreu.
01:18Como?
01:20Ele foi assassinado.
01:25Não, pai.
01:29Não, pai.
01:32Não, pai.
02:10O que eu falei para ele?
02:17Senhoras e senhores, senhoras e senhores.
02:21Nós já estamos aqui há horas, hours and hours, e não resolvemos nada ainda.
02:26E olhem, são muitas coisas importantes que nós temos para resolver.
02:30Muitas coisas, muitas coisas para serem resolvidas numa assembleia no momento em que há tantas
02:36indefinições a respeito do futuro desta empresa.
02:39Eu ainda estou muito preocupado com essa notícia que você me deu da morte aí, Dr. Walker.
02:45Você tem certeza que o Dr. Walker morreu mesmo?
02:48Da mesma forma que o Sócrates?
02:50Claro, está aqui, aqui na internet.
02:52O famoso cientista americano morre envenenado misteriosamente em Miami.
02:58Isso é tão estranho, não é?
03:00Mas eu acho que todos aqui presentes devem concordar comigo que não devemos nos deixar
03:05afetar por esses fatos, porque vão prejudicar para o gênero.
03:08Bem, do ponto de vista jurídico, a morte do Dr. Walker não tem nada a ver com a empresa.
03:14Nothing.
03:14Assim, riam da riam, nada de uma dica de nada.
03:17Mas então, se a imprensa descobrir que esse Dr. Christian Walker escreveu um livro em
03:25que cita a nossa clínica de reprodução no Guarujá.
03:29E cita a doutora Júlia como um lugar onde se fazem experiências de modificações genéticas
03:35de seres humanos.
03:36Humanos mais ou menos, né?
03:38Eu diria que são quimeras, uma mistura de seres humanos com um monte de animais.
03:43Meu Deus do céu, irmã.
03:46Da onde você tirou isso quimeras?
03:48Eu leio, Aristóteles.
03:51Eu sou uma pessoa que me informa.
03:53Eu não sou que nem você, que só gosta de números.
03:55Você gosta de se exibir isso, sim, porque você é muito insegura.
03:58Quer saber?
03:59Ninguém melhor do que você, irmã, sabe como você é mal educada e despreparada.
04:05Ah, o que vem de baixo não me atinge.
04:07Então senta no prego.
04:08Você tá ótimo.
04:10Tá ótimo.
04:10Tia irmã, tia irmã, por favor.
04:12Pai, pai, por favor.
04:12Pô, vamos tentar manter a conversa aqui no mais alto nível possível.
04:17Tá aqui, descobri já.
04:18Quimera.
04:19Exatamente.
04:20Era o nome dado ao ser da mitologia grega.
04:22Uma mulher com cabeça de bicho.
04:24Eu já entendi, filho.
04:25Uma mulher com cabeça de bicho.
04:26Mais ou menos parecida, assim, com a irmã, né?
04:29Me poupa.
04:30Ninguém achou mesmo a graça na sua piadinha.
04:33Mais do que quimeras, estamos falando de mutantes.
04:39Pois é, no caso, nós estamos falando da realidade, não da mitologia.
04:43Evidentemente, esta nossa conversa não deve sair desta sala.
04:49Ou isto será um grande escândalo para a progência, não é, doutora?
04:54Eu diria mais.
04:55Isso pode nos levar à falência.
04:58Graças a Deus.
05:00Pelo menos em um ponto a gente concorda, não é, irmã?
05:03Ninguém pode saber dessas experiências na clínica do Guarajá.
05:06Eu fico impressionado.
05:09Nós aqui, em plena assembleia deliberativa, falando de assassinatos.
05:13O que parece é que a maioria absoluta está apenas preocupada com...
05:18Com o escândalo na imprensa, não é?
05:20Com a situação financeira da empresa.
05:24Eu concordo com você, Josias, concordo.
05:28O meu irmão foi assassinado.
05:31Envenenado.
05:32O que eu fico mais chocado é que, aqui, nesta sala,
05:39neste momento, pode estar a pessoa que ordenou este crime.
06:01Quimera?
06:03Quimera?
06:05Quimera?
06:06O que é quimera, Cléo?
06:09Quimera?
06:10Sei, deixa eu dar uma pesquisada aqui na internet.
06:14Quimera.
06:18Vamos lá.
06:20Está aqui.
06:21Figura da Grécia Antiga.
06:23Ela tinha cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de serpente.
06:27Credo?
06:27Ela vomitava fogo, arrasava rebanhos e comia gente.
06:30Tipo uma mula sem cabeça, né?
06:32É, praticamente.
06:33Tipo um ser mutante mistura de vários seres.
06:36Mas por que você pensou em quimeras assim, de repente?
06:38Sei lá, veio na minha cabeça assim do nada.
06:41Quimera.
06:41Olha aqui, com o passar do tempo, o quimera passou a ser o nome de qualquer monstro ou qualquer coisa
06:46fantástica e absurda.
06:47Até mesmo um sonho ou uma fantasia.
06:50Ué, mas é isso.
06:52Quimera pra mim era o mesmo que um sonho, o mesmo que uma coisa impossível.
06:56Mas pelo visto, acho que a quimera tá saindo do mundo da fantasia direto pro mundo real.
07:00Olha isso, na Inglaterra, em Londres, autorizaram experiências com embriões, parte humanos, parte animais, que são chamados de quimeras também.
07:09Jura?
07:09Claro, isso aqui é real, tá escrito aqui na internet, não é ficção.
07:14Mas no Brasil essas experiências são proibidas, né?
07:17Só que eu ouvi dizer que na clínica da progênese, a doutora Júlia andou fazendo mais experiências.
07:25Eu fiquei sabendo.
07:26A família tá toda preocupada.
07:28Eu acho que é por isso que essa palavra quimera veio na minha cabeça.
07:32Quimera.
07:33Engraçado, né?
07:34Hoje a gente chama de mutantes ou transgênicos seres completamente possíveis e reais.
07:40O que antigamente eram quimeras, seres impossíveis.
07:51Pai.
07:52Oi.
07:53Amanhã eu não vou à aula de novo.
07:55Não.
07:57Eu nunca mais vou à escola.
07:59Não, por enquanto não.
08:01Quer dizer, pelo menos enquanto a gente não arruma uma outra escola pra você.
08:05Mas pai, não tem nem outro colégio aqui perto.
08:08É, mas não se preocupe com isso não, porque eu vou resolver.
08:10Mas se eu não for na escola, eu vou ficar burra?
08:14Claro que não, meu amor.
08:15Papai vai te ensinar aqui em casa mesmo.
08:18Mas eu não vou poder brincar com as minhas amigas da escola.
08:22Mas, meu amor, você tem tanto brinquedo, você tem suas bonecas, você pode brincar com a sua irmã.
08:26Você pode brincar comigo.
08:28Eu vou te dar um cachorro, quer?
08:30Eu quero um cachorro.
08:31E até é muito legal ter um cachorro aqui em casa, né?
08:35Tô achando que aquela tua professora vai voltar aqui novamente, sabe?
08:38A tia Érica, ela ficou muito desconfiada.
08:41Ela é uma chata inconveniente.
08:44Seu a minha paciência.
08:46Professorinha, chata.
08:47Mas ela só foi embora porque você disse que ela podia voltar amanhã.
08:50Ela pode voltar quantas vezes ela quiser, porque ela não vai te ver, eu não vou deixar.
08:53Ela quer levar o Angelo ao médico.
08:55Aí, vou descobrir que a Angelo tem asas.
08:57Ninguém vai descobrir as asas da tua irmã.
08:59Eu já expliquei isso.
09:00Eu não vou deixar.
09:01Eu não vou mais sair daqui de casa.
09:03Não, por enquanto não.
09:06Então, já que ninguém vai ver mesmo, posso deixar minhas asas crescerem?
09:14O que você acha?
09:18Pode.
09:21Pode.
09:28Mas com uma condição.
09:30Presta atenção.
09:30Qual?
09:31Você vai me prometer que não vai subir em cima do penhasco pra tentar voar, ok?
09:35Ok.
09:36Então tá bom.
09:41A gente pode deixar as tuas asas crescerem.
09:45Tá com sono.
09:47Pelo menos enquanto a gente não arranja uma outra escola.
09:50Tá bom?
09:52Promessa é dívida, hein?
09:54Tá.
09:55Tá com sono.
10:11Atende esse telefone, desgraçado.
10:16Atende, Eric.
10:20Atende.
10:28Fala, Ramon.
10:29Conseguiu despachar a garotinha?
10:30Não, não consegui nada.
10:32Tô começando a ficar preocupado.
10:35Por quê, Ramon?
10:36Porque a garota não é normal, mano.
10:39Definitivamente, essa garota não é normal.
10:41O que que tá rolando por aí?
10:42A garota é um perigo.
10:45Agora lá no lugar onde a gente tava, tudo que era copo, que tava em cima da mesa, começou
10:48a explodir de repente, Eric.
10:50Tudo isso que tá acontecendo aqui é por causa dela, não é?
10:56Você não vai amarelar agora, né, mano?
10:58Eu não tô falando que eu vou amarelar, mas me fala qual é a da garota.
11:02Me fala, Eric.
11:03Me fala tudo.
11:05A garota é especial mesmo.
11:07Ela não é normal.
11:09A garota dá medo, cara.
11:11A garota é poltergast total.
11:13É por isso que ela tem que dançar na parada, entendeu, Ramon?
11:16Mas por que que isso acontece?
11:19Fala, Eric.
11:21Por que que a garota é assim?
11:23Bom, eu não sei.
11:24Não se liga nisso, tá?
11:26Faz o teu.
11:27Termina esse serviço e volta.
11:28Ok?
11:29Ok.
11:31Eu vou fazer tudo que eu posso por aqui.
11:35Outro pra você.
11:49O que é isso?
11:49É eu, hein?
11:50O que é isso?
11:51O que?
11:51Eu me arrumei pra você.
11:53Ah, não.
11:53Não, não.
11:53Vem, não.
11:54Que eu tô morrendo de cabeça.
11:55Não.
11:56Toma um coprimidinho.
11:57Toma, vai.
11:58Cai e passa.
11:59Eu, Gá.
12:00Eu, Gá.
12:00Eu tô estressado.
12:02Eu tô cansado.
12:03Eu tô preocupado com o Ramon.
12:05Ele acabou de me ligar de manhã.
12:07Tá se borrando de medo.
12:09Tá amarelando.
12:10Esquece o Ramon, vai.
12:11Esquece o dinheiro.
12:12Esquece tudo.
12:13Olha eu aqui, ó.
12:14Sua mulherzinha, toda gostosinha, toda cheirosinha.
12:17Só pra você.
12:17Vem.
12:18Mas tu é chata, hein?
12:19É insistente, né?
12:20E tu é grosso, hein?
12:21Você não sabe que a base de uma relação é você ser amável?
12:25Aqui, não vem com a tua filosofia de revistinha de celebridade, não.
12:27Tá legal?
12:28Que revistinha de celebridade?
12:29Que papo é esse?
12:30Tá louco?
12:31Revistinha de celebridade só quer saber quem tá com quem, quem casou com quem, quem separou,
12:34quem comprou o carro tal.
12:35Eu não.
12:36Eu tô falando de uma coisa muito mais importante, tá bom?
12:38Eu tô falando de casamento, eu tô falando de amor.
12:41Ninguém merece.
12:42Ninguém merece.
12:44Eric, acho que a gente tá precisando conversar.
12:47A gente precisa discutir a nossa relação.
12:49Mas que mané discutir relação?
12:51Tô afim, tá doida?
12:53Então eu vou tentar te explicar de uma maneira mais simples, tá?
12:56Quando a gente quer amar e ser amado, a gente tem que ser carinhoso, a gente tem que ser apaixonado,
13:03a gente tem que ser dengoso, delicado, entendeu?
13:07Bateu no endereço errado.
13:09Esse negócio de delicadeza, de carinho, não é comigo não, tá legal?
13:14Eric, você tá pedindo pra levar um chifre, sabia?
13:18Você nem brinca com isso, tá?
13:20Nem brinca.
13:21Se eu sonhar que você pulou a cerca, eu te mato.
13:26Do mesmo jeito que eu matei o doutor Sócrates, tá ligado?
13:30Ai, eu só queria saber quem é o mandante desse crime.
13:34Ou a mandante, né?
13:36Porque desde que isso tudo começou, você mudou muito comigo.
13:39Não me enche o saco, Elba.
13:41Ah, meu Deus.
13:42Mulher chata.
14:01Quando eu preciso provar que eu não matei o doutor Sócrates?
14:04Peraí, Maria.
14:05Eu achei que eles é que tinham que provar que você matou, né?
14:08Eles acham que eles já têm provas.
14:10Que provas?
14:11Que provas quer ter?
14:12A seringa.
14:12A seringa com veneno tava na minha mão.
14:15E eu tava na cena do crime.
14:18Como é que isso foi acontecer, Maria?
14:20Alguém colocou alguma coisa na minha bebida.
14:22Bom dia.
14:23Eu apaguei.
14:24Só pode ter sido isso.
14:26O golpe do boa noite, Cinderela.
14:29Foi isso.
14:30Eu tinha que estar naquela festa.
14:33Se eu tivesse lá era te proteger, né?
14:39Acabou o horário de visita.
14:40Mais um pouco, por favor.
14:42Cuide, presta atenção.
14:43Tem um bilhete escrito em código.
14:45A gente precisa decifrar.
14:46Bilhete em código?
14:48É, é um bilhete.
14:48É um bilhete escrito pelo doutor Sócrates.
14:50Vamos, chega de conversa.
14:52Maria tem que voltar pra cela.
14:53Vamos.
14:54Doutor, manda eu voltar pro xadrez, vamos?
14:55Pode deixar, Dino.
14:56Eu mesmo vou levar Maria.
14:57Fica aqui com o Gustavo esperando o advogado.
14:59A gente vai pegar o depoimento dele.
15:01Vamos.
15:06Tchau.
15:07Tchau, Maria.
15:08Fica tranquila, tá?
15:09Tchau.
15:09A gente vai arranjar um jeito de tirar você daqui logo.
15:15Deus te abençoe.
15:16Vem.
15:33Doutor Taveira.
15:35Chegou o advogado da ré.
15:36Ele veio acompanhar o depoimento do senhor Gustavo Grano.
15:39Boa noite.
15:40Boa noite, dedicado Taveira.
15:42O depoente está esperando na sala de interrogatórios.
15:45Doutor Carvalho.
15:46Que bom ver o senhor aqui.
15:50Perdão, delegado, mas qual a necessidade da Maria ficar algemada?
15:53A sua cliente foi presa em flagrante por homicídio.
15:57Se envolveu em briga na carceragem.
15:59Foi considerada perigosa e de péssimo comportamento, por isso está algemada.
16:03Alguma dúvida?
16:04Você brigou na cela, Maria?
16:06Eu só me defendi.
16:07Foi legítima a defesa.
16:08E você tá bem?
16:09Eu não me feri, mas eu podia ter morrido.
16:12O senhor tem alguma novidade do meu abiscopos?
16:16Infelizmente, eliminar foi negado, Maria.
16:18Agora nós só estamos esperando o julgamento do mérito.
16:21Mas olha, fica tranquila, porque se não conseguimos, nós vamos recorrer à segunda instância.
16:26O que acontece?
16:26Eu vou ter que ficar aqui?
16:29Naquela carceragem com aquelas bocas perigosas?
16:33Infelizmente vai, Maria.
16:34Mas eu tenho pelo menos uma boa notícia pra te dar.
16:36Eu acho que nós vamos conseguir.
16:38Eu acabei de entrar com o pedido do exame toxicológico.
16:42Assim a gente vai conseguir verificar se há rastros de sedativo no seu sangue.
16:46Assim, Maria, nós vamos provar que você foi vítima de um golpe.
16:50O senhor acredita mesmo nisso?
16:51Se não acreditasse, não estaria no caso, delegado Taveira.
16:54Doutor Carvalho, nós precisamos da cópia de um bilhete escrito pelo doutor Sócrates.
16:59E está escrito em código.
17:01Eu acredito que ali esteja a chave pra esse mistério.
17:05Eu vou providenciar uma cópia pro seu advogado.
17:07O bilhete está anexado aos autos e a defesa tem direito a vê-lo.
17:11Agora a Maria precisa voltar pro Jardim.
17:14Muito obrigada.
17:15Ano, Maria.
17:16Eu vou te tirar de aça.
17:17Fica com Deus, tá bom?
17:19Tá bom.
17:20Por favor, eu quero ir a minha cópia.
17:29Olha, Simone, eu não quero que você pense que sou só um velho...
17:37um deprimido, né?
17:38Não, não é isso que eu estou pensando.
17:42Eu, a minha filha e o meu gênero saíram há horas.
17:47Eles foram para uma reunião importante.
17:50Meus netos também saíram e eu fiquei aqui em casa,
17:58sozinho, com minhas lembranças.
18:00Mas isso não deveria ser motivo de tristeza.
18:04Afinal de contas, Mauro, você deve ter ótimas recordações.
18:07Tenho, tenho, sim.
18:08Mas quando penso que tudo mudou, né?
18:15Tudo passou.
18:17Mas por isso é que é tão importante não deixar de viver no presente.
18:22Por mais que o passado seja doce.
18:24O importante, Mauro, é viver o momento, é um instante em sua plenitude.
18:29O meu presente é muito triste.
18:32Morreu um grande amigo meu assassinado.
18:35Ai, que pena. Sinto muito.
18:39A minha família é toda cheia de problemas.
18:43Bom, problemas, Mauro, isso eu também tenho. Tenho um monte.
18:47A nossa empresa está ameaçada de ir à falência.
18:52Mauro, maus pensamentos atraem coisas ruins, hein?
18:55E bons pensamentos atraem coisas boas.
18:57É muito melhor pensar em coisas boas do que em coisas ruins.
19:00Você acredita nisso?
19:01É, tenho certeza disso.
19:04Eu demorei muito para aprender, mas agora eu sei.
19:08Cada um de nós é totalmente responsável por tudo que acontece nas nossas vidas.
19:13Eu não me estresso mais.
19:15Como é que você não consegue se estressar?
19:19Ah, me concentro no presente.
19:22Em cada dia, Mauro, tem sempre momentos perfeitos.
19:26Que são aqueles momentos em que a gente para e pensa assim...
19:30Ai, como é bom.
19:32Como é bom esse momento.
19:33Como é bom estar aqui.
19:35Fazendo exatamente isso que eu estou fazendo agora.
19:39Então, a gente tem que se concentrar nesses momentos.
19:42Então, você é um epicurista.
19:45Vive para o prazer, não é verdade?
19:47Você pode até chamar isso de epicurismo, mas também você pode chamar de, sei lá, atitude zen, ou simplesmente de
19:56amor.
19:57Mauro, a lei é o amor.
20:01Amor à vida, amor próprio, amor ao próximo, amor a Deus, seja qual for a sua região, não importa.
20:07Se você amar a vida, a vida vai amar você.
20:13Para quem quer se soltar, inventa o caos, inventa o mais que se soltar.
20:25Não, pai, eu não quero me esconder nessa ilha do Arraial.
20:28Não tem nada lá.
20:29Totalmente deserta.
20:30Nem Arraial tem mais.
20:31É por isso mesmo que eu estou pensando em levar vocês para lá.
20:34Pai, o que a gente vai fazer numa ilha que não tem ninguém?
20:36Eu vou trabalhar e vocês vão se esconder.
20:39Ah, aqui se esconder o que, pai?
20:40Se esconder.
20:41Que escola?
20:42E nossos amigos.
20:43Olha, se precisar, se eu sentir qualquer perigo rondando no ar perto da gente, vocês vão tirar umas férias comigo
20:49longe de todo mundo.
20:51Socorro, por favor.
20:53Alguém me ajuda, socorro.
20:55Por favor, alguém me ajuda.
20:58O meu filho, ele estava aqui ainda agora.
21:01De repente, ele sumiu.
21:02Quantos anos ele tem?
21:03Um ano e meio.
21:04Vou procurar.
21:05Não, peraí, Aquiles.
21:06Deixa eu ver primeiro.
21:07Vai, me ajuda a subir aqui.
21:19Seu filho é um menino lourinho, moça?
21:21É.
21:25Ele está vestido de azul?
21:27Tá, tá sim.
21:32Aquiles, corre porque o menino está indo ali para a estrada, naquela direção.
21:38Ué, cadê o menino que estava aqui agora?
21:40Ele correu, foi buscar seu filho.
21:42Correu para onde que eu nem vi?
21:43Ih, moça, ele já está lá na frente.
21:58Moleque, cadê o moleque?
22:06Moça, aquele salvou seu filho.
22:09Ele ia ser atropelado.
22:10Meu filho?
22:11Cadê meu filho?
22:11Onde é que ele está?
22:12Calma, ele já está vindo para cá.
22:23Ai, meu filho.
22:27Graças a Deus, graças a Deus.
22:30Muito obrigada.
22:31Nada.
22:40Sabe você o que é o amor?
22:44Não sabe, eu sei.
22:47Sabe o que é o trovador?
22:50Não sabe, eu sei.
22:54Sabe andar de madrugada,
22:56Tendo amada pela mão.
23:00Sabe gostar, não sabe nada.
23:04Sabe, não.
23:06Ah, você não sabe, não.
23:16Não sabe, não.
23:24A sua voz,
23:27você me transmite muita calma, Simone.
23:30Eu resolvi, viu, Mauro?
23:32Eu resolvi aproveitar ao máximo
23:34o que me resta da vida.
23:37Eu quero
23:38que os últimos dias da minha vida
23:41sejam simplesmente os melhores.
23:44Plano ambicioso seu, não é?
23:46Ah, sim, fácil não é,
23:48mas eu estou tentando, Mauro.
23:51Eu vivo à procura
23:52dos momentos perfeitos.
23:54E você tem muitos momentos perfeitos?
23:56Claro.
23:57Agora, por exemplo.
24:00Agora?
24:01Então.
24:03É a primeira vez
24:04que nós estamos conversando
24:05por telefone.
24:07Depois de tantas vezes
24:09que nós conversamos pela internet.
24:11Mas você era a única
24:12que se interessava por cinema,
24:14literatura, poesia.
24:17A única que eu encontrava sempre
24:20nas salas de bate-papo da internet.
24:23Então, nós nos tornamos
24:24amigos virtuais.
24:26E agora nos falamos.
24:28Eu quero lhe agradecer, Simone.
24:30Estou me sentindo bem melhor agora
24:32depois da nossa conversa.
24:35Agora eu vou ter que desligar, sabe?
24:37O meu cliente está chegando.
24:38E eu preciso falar com ele.
24:40Liga amanhã de novo?
24:41Claro, ligo, sim.
24:43Ligo.
24:43Até amanhã.
24:44Um beijo.
24:46Até logo.
24:48Beijos.
24:49Fica com Deus.
24:52Oi, vó.
24:52Tudo bom?
24:53Tudo bom, Lucas.
24:55Quem é esse menino?
24:56Meu nome é Valfredo.
24:57Mas pode me chamar de Vavá.
24:59Me encontrei Vavá
25:00no parque do Beirapuera, vó.
25:01Ele perdeu a mãe.
25:02Ficou órfão.
25:03E você trouxe o menino
25:04para cá, Lucas?
25:05O certo era ter levado
25:07para o juizado de menores
25:08ou para o conselho tutelar.
25:10É, vó.
25:11Mas dá uma olhada, vó.
25:12Olha os dentes dele.
25:13Vavá,
25:14mostra o dente.
25:26Minha nossa.
25:28É um deles.
25:30É um dos mutantes.
25:32Mas o que é que esse menino
25:33está fazendo aqui?
25:34Como é que Lucas
25:36achou esse menino?
25:37Foi coincidência, vó.
25:39Destino.
25:40Eu estou muito cansado.
25:42Eu estou com fome.
25:43Vem cá, Vavá.
25:44Eu vou fazer alguma coisa
25:45para você comer
25:46e achar um lugar
25:46para descansar também.
25:48Obrigada.
25:51Vamos lá.
25:53Lucas,
25:54vem cá.
25:56Calma aí, Vavá.
25:56Fica aí.
25:59A tua mãe sabe que você
26:01está trazendo esse menino
26:02para cá?
26:05Não, vó.
26:07Eu acho melhor
26:08ela não ficar sabendo ainda.
26:10Deixa o Vavá comer alguma coisa,
26:11descansar um pouco.
26:13Amanhã eu conto para ela.
26:16licença, Vavá.
26:19Vamos lá.
26:51Então, Ana,
26:52está combinado?
26:54O quê?
26:55Maria vai saber
26:56que não é nossa filha biológica.
26:59Não sei, Pepe.
27:01Eu não sei no que isso
27:02pode ajudar a Maria.
27:04Mas se você acha...
27:06Eu não vejo outra razão, Ana.
27:08O que alguém vai querer
27:10estar prejudicando a Maria
27:11desse jeito?
27:12Isso só pode ter a ver
27:13com o mistério do passado dela.
27:16Mas eu tenho medo
27:17de dar mais um nó
27:18na cabeça da menina.
27:20É golpe em cima de golpe.
27:22Olha só,
27:23ela está lá presa
27:24por um crime
27:25que não cometeu.
27:27E agora a gente
27:28vai contar para ela
27:29que nós não somos
27:30os pais de verdade?
27:31Não, Ana.
27:32Ela não é nossa filha
27:34biológica.
27:35Porque filha de verdade
27:36ela é.
27:37Vai ser sempre, claro.
27:38É, é verdade.
27:40Filha que a gente cria,
27:42ama,
27:42bota no mundo.
27:44Você tem razão.
27:45É.
27:46Se você quiser também,
27:47a gente não conta
27:48nada para ela.
27:49Nem para ela,
27:50nem para a polícia,
27:51sabe?
27:51A gente
27:53pode pesquisar
27:54por conta própria.
27:55Mas como?
27:57Por um bilhete
27:58deixado aqui
27:59há mais de 30 anos?
28:00Ou pela roupinha
28:01de um bebê?
28:02Não,
28:03a gente pode
28:04procurar saber, assim,
28:05se houve alguma
28:06criança sequestrada,
28:07desaparecida,
28:08naquela época
28:09que Maria foi deixada
28:10aqui no circo.
28:12Na época
28:13a gente estava
28:14com muito medo, né?
28:15Não fez nada.
28:17Mas logo depois
28:18você tentou saber.
28:20Mas aí
28:21não chegamos.
28:22Mas hoje
28:23é diferente, né?
28:24Hoje tem vários recursos,
28:25tem o Cadastro Nacional
28:26de Pessoas Desaparecidas,
28:28tem ONGs,
28:30várias ONGs,
28:31tem internet.
28:32Depois da internet,
28:33querido,
28:33ficou muito mais fácil
28:34de pesquisar.
28:35E pode ser legal,
28:37a gente pode,
28:37de repente,
28:38pode achar
28:39até a família
28:40biológica dela.
28:42A gente pode procurar
28:43saber, assim,
28:43se o que a gente descobrir
28:45foi realmente
28:46assim alguma coisa
28:46importante,
28:47aí a gente conta
28:48para ela,
28:49conta para a polícia,
28:50conta para a imprensa,
28:51a gente conta para todo mundo,
28:51a gente faz uns carcels.
28:53Mas se ninguém
28:54descobrir nada,
28:55ó,
28:56boca calada,
28:57não contamos
28:58para ninguém,
28:59muito menos
29:00para a Maria.
29:01Toca aqui.
29:03combinado,
29:04vamos fazer assim
29:04que a gente está falando,
29:05tá?
29:06Vamos embora,
29:07tomara que dê certo.
29:09Mas como é que a gente
29:09vai investigar?
29:10Quem vai investigar?
29:12Eu?
29:14Eu?
29:16Eu vou investigar
29:17por conta própria.
29:20Pepe,
29:21meu amor,
29:23você,
29:23meu amor querido,
29:25meu palhaço maravilhoso,
29:27o maior mágico do mundo,
29:29o dono do circo
29:31Dom Pepe.
29:33Mas você não é detetive.
29:36Uana,
29:37você não conseguiu
29:38descobrir nada,
29:39cara,
29:39a gente chama
29:39profissional,
29:41a gente chama
29:41um investigador particular,
29:44sei lá.
29:44Será que vai dar certo?
29:46Então foi por isso.
29:49Foi isso, filha.
29:53Pai,
29:53eu não fazia ideia.
29:56Foi uma época difícil
29:57da nossa vida.
29:59eu tinha perdido o emprego,
30:00sua mãe também,
30:02e a gente não tinha ninguém.
30:04Acabou sendo despejado.
30:07E aí foi morar na rua?
30:08Foi.
30:10Você era um bebê,
30:12e eu e sua mãe
30:13tivemos que ir dormir
30:14na rua com você.
30:16Mas, caramba,
30:17eu não lembro de nada.
30:19Mas você era
30:19muito pequena, filha.
30:21Muito pequena.
30:23No começo,
30:24eu e sua mãe,
30:25pra sobreviver,
30:26a gente teve que pedir esmola.
30:28A sua mãe ficava
30:30tomando conta de você
30:31e eu ia pra rua
30:32tentar alguma coisa.
30:33Trabalhei como flanelinha,
30:36guardador de carros.
30:38Mas era difícil.
30:40O que a gente ganhava
30:41não dava
30:41porque a gente precisava.
30:44Aí um dia
30:44você precisou
30:45de um remédio.
30:46Você tava com anemia.
30:48Anemia?
30:49É.
30:51na rua,
30:52tem fogão,
30:53sem geladeira,
30:54sem dinheiro.
30:56A gente comia
30:57quando dava.
30:58Quando não dava,
30:59a gente enganava a fome.
31:02Eu tinha muita vergonha
31:03de pedir aos outros,
31:04sabe, filha?
31:05E sua mãe também.
31:08Aquela noite chovia muito
31:09em São Paulo,
31:10tava difícil arrumar dinheiro.
31:12Sua mãe tava
31:13desmaiando de fome.
31:15Aí você foi ao mercado.
31:18Fui
31:19e roubei.
31:21Que horror, pai.
31:23Eu tava desesperado, filha.
31:25Você tava com anemia,
31:27mal nutrida,
31:28sua mãe passando muito mal,
31:29eu perdi a cabeça.
31:31Fui lá e tentei
31:32levar comida na marra.
31:34Aí acabou sendo preso.
31:37Foi o pior dia da minha vida.
31:41E a minha mãe?
31:45Sua mãe morreu
31:46enquanto eu tava na cadeia.
31:48Ah, pai.
31:50Ah, pai.
31:59Você queria tanto saber,
32:00não é, filha?
32:03Agora você já sabe.
32:06Ai, mãe, me perdoa.
32:09Me perdoa,
32:10eu não tinha ideia.
32:12Você não teve culpa nenhuma.
32:15só queria
32:16alimentar a gente.
32:34Oi.
32:40O que foi?
32:42Desculpa,
32:43eu não tô me sentindo bem, não.
32:44Tá sentindo o quê?
32:45Sei, eu tô sentindo
32:46uma energia estranha.
32:48Aquela sensação
32:49de que tem alguém
32:49querendo me fazer mal, sabe?
32:51Você não acha que isso é
32:52só uma impressão sua?
32:54Não é impressão, não.
32:56A intuição é real.
32:57É como, sei lá,
32:59como se toda vez
33:00que eu tô em perigo
33:00alguma coisa
33:01tenta me avisar
33:02e eu tô sentindo isso agora.
33:03Será?
33:07Você sabe que a doutora Júlia
33:09fez experiências, né,
33:10nos embriões,
33:11naquela clínica da progênese
33:12no Guarujá, não sabe?
33:14Sei, sei assim,
33:16meio por alto, né,
33:17só de saber pelos outros mesmo.
33:18Porque esse assunto
33:19é um tabu na minha família,
33:20todo mundo prefere abafar.
33:21Pois é.
33:22O Lucas e eu,
33:24a gente fez parte
33:25dessas experiências.
33:27Jura?
33:28É, a doutora Júlia
33:28convenceu os nossos pais
33:30de que nós dois
33:31podíamos ser crianças
33:32super dotadas.
33:33Janete, então...
33:35Meu, então você é mutante.
33:38Então é por isso
33:38que você tem essa
33:39super intuição.
33:41Tony,
33:44nós todos somos mutantes.
33:47você também é.
33:49Eu?
33:51Mutante?
33:51Teu equilíbrio,
33:52tua agilidade...
33:53Não, não, não,
33:53peraí, peraí.
33:56Você tá me dizendo
33:57que eu sou campeão
33:59de Kung Fu
33:59porque eu sou mutante,
34:01é isso?
34:02Eu acho possível.
34:04O Lucas lê pensamentos,
34:05eu tenho essa espécie
34:06de clarividência.
34:07Janete, deixa eu te explicar
34:07uma coisa.
34:09Eu sou campeão de Kung Fu
34:10porque eu treino muito,
34:12muito, entendeu?
34:13Eu tenho...
34:13Eu tenho talento,
34:15eu tenho...
34:15Eu tenho vocação,
34:16é isso.
34:17O teu equilíbrio,
34:17tua agilidade,
34:18velocidade,
34:20você realmente acha
34:21que são normais?
34:22Sei,
34:23mas eu nunca pensei
34:23que essas minhas habilidades
34:24fossem consequência
34:25de uma mutação genética.
34:27Mas são, Tony.
34:29São sim.
34:31Você tem certeza disso?
34:34Absoluta.
34:38E há quanto tempo
34:39que você não vê
34:40o seu filho?
34:41Ah, que nada,
34:42eu vejo ele direto.
34:44Como assim?
34:45Como é que você
34:45nunca me contou
34:46isso antes?
34:47Ah, normal, né, Selinha?
34:49Ó, tá assim
34:50de coisa da minha vida
34:51que você nem imagina, meu.
34:53Nossa, Batista,
34:54você agora falou
34:55de um jeito
34:56como se você tivesse
34:56feito alguma coisa horrível.
34:58Pode ficar tranquila,
35:00Selinha,
35:00que eu nunca roubei
35:01nem matei ninguém, meu.
35:02É, não roubou,
35:04não matou,
35:06só cobiçou
35:07a mulher do próximo, né?
35:10Também não sou
35:11nenhum santo, né, meu?
35:14Bom, mas então,
35:16voltando ao assunto
35:17do seu filho,
35:18como é que você faz
35:19pra ver esse menino
35:21se ele nem sabe
35:21que você quer o pai dele?
35:22Ué, eu vejo ele de longe.
35:25Jura?
35:26Oh, se juro.
35:28Há pouco tempo atrás aí
35:30eu descobri
35:30o atual endereço
35:31da minha ex.
35:32Então eu apareço lá
35:33sempre de manhã cedinha
35:35na hora que o moleque
35:35tá indo pra escola
35:36e fico olhando ele de longe.
35:38Na rua mesmo.
35:39Nesse momento, Batista,
35:41nessa hora que você
35:41fica olhando pra ele,
35:43você não tem vontade
35:44de chegar e contar tudo.
35:45Olha, eu sou o seu pai.
35:47Oh, meu.
35:49Direto, né?
35:50Direto, meu.
35:52Toda vez que eu vejo
35:52um garoto
35:53eu penso nisso.
35:54Essa barca é furada.
35:55Moleque vai pensar o quê?
35:56Que eu sou louco?
35:57Imagina,
35:58sete da matina,
35:59moleque com o maior sono
36:00andando pelo meio da rua
36:01indo pra escola
36:02eu caio de paraquedas
36:03na frente dele.
36:04E aí, Bichu, beleza?
36:06É o seguinte, meu,
36:07não leva mal não,
36:08mas eu sou teu pai, falou.
36:10É, isso ia ser
36:11bem esquisito mesmo.
36:13Eu tô muito afim
36:13de mudar essa situação aí,
36:15só que ainda
36:15não sei como, manja.
36:18E se você procurasse a justiça?
36:19Que, botar advogado?
36:21Claro.
36:22Hoje em dia
36:22com o exame de DNA
36:23você tem como provar
36:24que você é o verdadeiro
36:25pai desse menino.
36:27É, periga.
36:28Sei lá.
36:30Tô maquinando ainda.
36:31Pode até ser, né, meu?
36:33Eu, se estivesse no seu lugar,
36:34se eu fosse você,
36:35eu não pensava duas vezes.
36:37Imagina,
36:37nunca que eu ia deixar
36:38um filho meu crescer
36:39longe de mim
36:40e ainda por cima
36:40com o nome de outro, Batista.
36:51Alguém aqui me ajude!
36:53Alguém me ajude,
36:54pelo amor de Deus,
36:55me diga uma palavra.
36:56Meu filho,
36:56o nome dele é Bavai,
36:57ele desapareceu,
36:58ele sumiu.
36:59me ajudem,
37:00pelo amor de Deus.
37:01Meu filho tá sumido,
37:02tá desaparecido.
37:03Calma, calma, calma,
37:03minha senhora, calma.
37:04Fica tranquila.
37:05Meu senhor, por favor,
37:06dê um copo d'água pra gente.
37:07Calma, minha senhora,
37:07eu vou lhe explicar
37:08o que é preciso fazer
37:09quando uma pessoa desaparece.
37:10A primeira coisa
37:11que a senhora tem a fazer
37:11é procurar no local
37:12onde a senhora acredita
37:13que ele desapareceu.
37:14Por favor, senta aqui.
37:15A senhora já fez isso?
37:17Oh, meu filho nasceu
37:18e se criou
37:19na favela de Paralisópolis,
37:20ali perto do Morumbi.
37:22Sei.
37:22Ele quase nunca saiu de lá.
37:25Bem, então pergunte
37:26a todo mundo
37:26que a senhora puder
37:27ali do local.
37:28Olha só.
37:29Obrigado.
37:29Eu já perguntei.
37:31Olha, me contaram
37:32que teve uma briga
37:33com meu marido
37:34e daí então
37:35meu filho sumiu.
37:36Ora, ele pode estar
37:37em qualquer lugar
37:38de São Paulo.
37:39Como é que eu vou achar
37:40meu filho
37:40uma criança
37:41no meio de 20 milhões
37:43de pessoas?
37:44Sei.
37:44Calma, minha senhora.
37:45A senhora pode tentar
37:45refazer o trajeto dele.
37:47Leve uma foto
37:48do seu filho.
37:48Pergunta no caminho
37:49se alguém o viu.
37:50Isso funciona muito.
37:51A senhora pode perguntar
37:52nos bares,
37:52nas lojas,
37:53nos postos de gasolina.
37:54Mas eu fiz isso
37:55o dia inteiro, doutor.
37:57Uma pessoa ou outra
37:58diz que viu ele passando,
37:59mas ninguém sabe
38:00para onde é que ele foi.
38:02Sim.
38:02E a senhora já procurou
38:03com todos os seus parentes?
38:04Não.
38:06Não, meus parentes não.
38:07Eu tenho uns tios,
38:08uns primos,
38:09mas meus parentes
38:10têm medo
38:11de meu filho.
38:12Medo?
38:14Ué, mas por que medo?
38:15Ai,
38:16é difícil de explicar,
38:18sabe?
38:19Meu filho tem
38:20uns dentes caninos
38:21assim, que são
38:21meio proeminentes,
38:22assim, como se fosse
38:23um vampirinho,
38:24entendeu?
38:25Aí as pessoas
38:26têm medo dele.
38:27E a senhora já procurou
38:28com os amiguinhos dele
38:29da escola?
38:30Não.
38:31Meu filho não tem
38:32amigos da escola,
38:34doutor.
38:35Todos têm medo
38:36de meu filho.
38:37E não é só
38:38por causa dos dentes,
38:39não.
38:41Ele tem uma doença
38:42que faz nascer
38:44pelo no corpo,
38:45sabe?
38:46Ele é tão
38:47pequenininho ainda,
38:48doutor.
38:49Olha, meu filho
38:50não tem nem
38:51dez anos de idade,
38:53mas ele já tem
38:54o corpo cheio
38:55de pelo.
38:57A senhora
38:58está falando sério
38:59comigo?
38:59Estou, doutor.
39:01Isso é uma doença.
39:03Bem,
39:04então se a senhora
39:05não achou ele
39:06nem na rua,
39:07nem na casa
39:07dos seus parentes,
39:08e muito menos
39:09com os amiguinhos
39:09dele na escola,
39:11eu sugiro que a senhora
39:11procure outras delegacias.
39:13Se eu já fui
39:14nos juizados menores,
39:15eu fui em todos
39:16os hospitais
39:17aqui por perto.
39:19Bom,
39:19nós podemos tentar
39:20também outras clínicas,
39:23pronto-socorros,
39:23e corpo de bombeiro também.
39:25Isso funciona muito.
39:27Agora,
39:27minha senhora,
39:29infelizmente,
39:29nós temos que procurar
39:30também
39:30o Instituto Médico Legal.
39:38Não, doutor.
39:41O senhor não vai me pedir
39:43uma coisa dessa?
39:46Não me peça isso.
39:49Calma,
39:49vai dar tudo certo.
39:50Se a senhora quiser,
39:51pode registrar
39:52o boletim de ocorrência
39:53informando as autoridades
39:54do desaparecimento.
39:55Mesmo se necessário
39:56esperar 24 horas.
39:58O melhor pode ser feito
39:59a qualquer momento,
40:00depende da senhora.
40:02já tem mais de 24 horas,
40:04doutor.
40:05Muito mais de 24 horas.
40:08Eu quero,
40:10por favor,
40:12o senhor registre
40:13o desaparecimento
40:15de meu filho.
40:16Calma.
40:17Mas fica calma,
40:17vai dar tudo certo, tá?
40:19Fica calma.
40:21Qual que é o nome
40:22da senhora?
40:23Altina.
40:25Altina.
40:25A senhora tem
40:26alguma foto dele aí,
40:27Altina?
40:27É esse senhor.
40:28Deixa eu ver, por favor.
40:29Ah, ele aqui.
40:31Como ele é bonitinho.
40:32É, bonitinho mesmo.
40:36Mas fica calma
40:37que a gente vai encontrar.
40:38Fica calma.
40:39Tá certo, por favor.
40:41Qual que é o senhor merece,
40:42por favor?
40:44Favela Paraisópolis.
40:47Barra 19.
40:50Barra 19?
41:02Espera um pouco
41:03antes de abrir a cela.
41:04Eu vou ter uma conversa
41:05em particular com a presa.
41:14Muito bem.
41:15De volta para a carceragem.
41:19Prefere ir para o seguro
41:19ou para o xadrez?
41:20Não, não.
41:21Naquele cubículo
41:21eu não quero ficar, não.
41:22É impossível viver ali.
41:23Aquilo não é humano.
41:24Tá.
41:25Prefere voltar para a cela
41:26da Machadora?
41:27Não, não.
41:27Por favor,
41:27me coloca numa outra cela
41:28sem ser com a tal
41:29da Machadora.
41:30O que você vai dar para mim
41:31se eu fizer o que você quer?
41:32Como assim?
41:33O que é isso?
41:34É uma questão de segurança
41:35e a minha integridade física
41:36que está em jogo.
41:37E o seu dever
41:38como delegado
41:39é exilar
41:39para que eu não seja
41:40assassinada aqui dentro.
41:42Maria,
41:43é que eu tenho a impressão
41:45de que você vai passar
41:46um bom tempo
41:47aqui na minha delegacia.
41:48Não, não.
41:49Se Deus quiser, não.
41:50Eu pretendo sair daqui logo.
41:51É, mas pelas provas
41:52que já foram reunidas
41:53eu tenho a impressão
41:53de que seu habeas corpus
41:54vai ser negado
41:55em todas as instâncias.
41:56Você vai ter que aguardar
41:59o julgamento
41:59na cadeia
42:00provavelmente aqui
42:01na carceragem feminina
42:03da delegacia de homicídios
42:04junto com as presas perigosas.
42:06Não, pelo amor de Deus.
42:07Por isso que eu estou te dizendo, menina.
42:09Eu posso facilitar muito
42:10a tua vida aqui.
42:12Se você for boazinha
42:14e deixar eu fazer
42:15tudo o que eu quero fazer
42:16com você.
42:17O senhor está insinuando...
42:18Pensa bem, Maria.
42:19Eu posso te dar
42:20um mínimo de conforto
42:21aqui dentro
42:22se você se entregar para mim.
42:25O pessoal da carceragem
42:26está no esquema
42:27e eles sabem que eu alivio
42:28para presas bonitas
42:29como você.
42:32Bom,
42:34hoje eu vou colocar você
42:35na cela que você quer
42:37para mostrar a boa vontade
42:38e para provar
42:39que eu não sou um monstro.
42:41Mas amanhã...
42:44Amanhã a gente volta
42:45a conversar sobre esse assunto.
42:46Tá bem?
42:48Macanete.
42:50Coloca a Maria
42:51na cela 2.
42:56Ok,
43:24Voltou a franguinha
43:26É, pena que não puseram você aqui com a gente
43:29Pra Machadona terminar o serviço
43:32Ah, mas vai rolar
43:34Uma hora dessas vai rolar
43:36O Taveiro é sádico
43:38É, e na hora que ele se cansar de você
43:41Ele vai te botar pra cá de novo, neném
43:46E aí, eu vou te quebrar todinha
43:50Vai depenar essa manga
44:10Passos pela noite
44:12Mistério e solidão
44:18O ar que alimenta os sonhos
44:21Que percebe na escuridão
44:24Tive, tive, tive
44:24Tive, tive
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