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A Lenda urbana do Último Ônibus Noturno, um velho ônibus que percorre as madrugadas de uma cidade, e no qual, embarcam passageiros, cujo destinos atravessam aos caminhos do horror e do sobrenatural.

Tradução autorizada pelo autor.

Adaptação do texto original, narração e edição: Extro

A história original, você a encontra aqui: https://www.reddit.com/r/DrCreepensVault/comments/1axhx09/the_last_bus/

Perfil do Autor: https://www.reddit.com/user/Woundlicker1/

Músicas:

REPULSIVE - Confusion : https://www.youtube.com/watch?v=tWLsrVs26LQ
REPULSIVE - Akane's Regret: https://www.youtube.com/watch?v=iym0s9Pa2LE

#creepypasta #conto #sobrenatural #paranormal #fantástico

Categoria

😹
Diversão
Transcrição
00:00A primeira vez que eu peguei o ônibus noturno foi por pura sorte.
00:20Claro que eu já tinha escutado as histórias.
00:24Todos nós já tínhamos escutado.
00:26Lendas urbanas são algo muito popular onde eu moro.
00:31Suspeito que, em parte, é porque eu venho de uma cidade provinciana, chata e sem graça, com muito pouca coisa a oferecer.
00:42As crianças que crescem por aqui não têm muito o que fazer, então a imaginação delas tende a correr solta, como qualquer escapismo.
00:53Meus amigos e eu éramos obcecados por lendas urbanas durante os nossos anos de formação.
01:02Nós devorávamos as histórias sussurradas nos parquinhos e depois postadas por pessoas anônimas em fóruns online.
01:11Nós achávamos essas lendas assustadoras e emocionantes.
01:18Elas traziam entusiasmo às nossas vidas, que de outra forma seriam entediantes.
01:25Seria justo eu dizer aqui que eu era bastante ingênuo naquela época.
01:30Alguns dos meus amigos eram mais céticos, mas eu realmente acreditava em tudo.
01:40O caroneiro desaparecido da rua Spencer, o homem meio troll do lado sul e a dama branca da mansão Croft eram alguns dos meus favoritos.
01:51Meus amigos e eu assumimos o papel de detetives amadores, investigando cada sítio arqueológico e buscando qualquer evidência desses criptídeos lendários e entidades sobrenaturais.
02:07Mas, para minha extrema decepção, nunca encontramos nada, nem fantasmas ou demônios, monstros, nem sinais de algo fora do comum.
02:22E, por fim, eu também me tornei cético, concluindo que todas essas lendas eram apenas bobagens infantis e que eu estava realmente perdendo meu tempo as investigando.
02:35O último ônibus era mais um desses mitos locais que nós escutávamos quando éramos crianças e que depois eu presumi que fosse mais uma bobagem como todas as outras.
02:50Mas, agora eu sei mais.
02:55Oficialmente, o último ônibus que sai do centro da cidade sai às 15h para meia-noite da rodoviária de High Street.
03:05É um ônibus que as pessoas sensatas pegam se querem chegar em casa em segurança depois de uma noite na cidade.
03:14Os pubs e casas noturnas fecham a uma da manhã.
03:18E a multidão e os bêbados se aglomeram nas ruas, brigando por táxis e formando filas para os churrasquinhos no meio da noite.
03:29Tentando o encontro de última hora ou ligando para os amigos em busca de festas noturnas.
03:35É a mesma cena caótica todas as sextas e sábados à noite.
03:42Geralmente há algumas brigas e algumas pessoas se machucam ao cair bêbadas na calçada.
03:50Tudo costuma ser deprimentemente previsível.
03:54A polícia será chamada, assim como a equipe da ambulância e, eventualmente, a multidão se dispersará.
04:03E, então, começaremos a entrar nas horas do crepúsculo.
04:08Quando um silêncio sombrio retornará às ruas escuras.
04:12Quando todos os cidadãos sensatos e cumpridores da lei estão em casa, aposchegados em suas camas.
04:21Depois do expediente, as ruas são deixadas para os vulneráveis.
04:26Como os moradores de rua sem ter para onde ir.
04:30Forçados a buscar abrigo embaixo das vitrines das lojas.
04:35Envolvendo os seus corpos gelados em velhos sacos de dormir.
04:40E rezando para sobreviver à noite.
04:44E, então, há os predadores.
04:48Aqueles sobre os quais as mães alertam.
04:51As gangues e os homens que espreitam nas sombras.
04:55A espreita de mulheres vulneráveis a quem possam atacar.
04:59Na segunda, pela manhã, você poderá ler as histórias nos jornais locais.
05:06O morador de rua, espancado até virar polpa.
05:10Ou a jovem, abusada sexualmente em um beco.
05:14A polícia abrirá investigações, vai convocar testemunhas e, às vezes, eles capturam os bandidos.
05:21Você terá compaixão pelas vítimas, mas, secretamente, se sentirá aliviado.
05:29Por não ter acontecido com você ou com alguém que você conheça.
05:34Em todos esses casos, os culpados são monstros.
05:39Mas são monstros humanos.
05:42Feitos de carne e osso.
05:44E não os demônios sobrenaturais que eu costumava perseguir.
05:49Durante os meus anos de cinismo, eu acreditava que esses predadores humanos eram a pior coisa que existia.
06:00Que eles dominavam as horas do crepúsculo antes do amanhecer.
06:05Mas eu estava errado.
06:08E agora que eu sei a verdade, eu sei que há coisas muito piores que espreitam nas sombras.
06:15A primeira vez que eu peguei o último ônibus noturno aconteceu em um momento difícil para mim.
06:24Eu tinha acabado de completar 21 anos e havia terminado com minha parceira de dois anos.
06:31Olhando para trás agora, eu vejo como o término foi o melhor para nós dois.
06:37Mas, na época, eu ainda estava devastado com isso e com muita raiva.
06:43Meus amigos me levaram para uma noite na cidade, na esperança de me animar.
06:50Era uma boa ideia, mas infelizmente não deu certo.
06:54Bebi demais.
06:56Comecei pelas cervejas e acabei nas doses de bebidas mais fortes.
07:01Fomos a uma boate onde eu fiz várias tentativas constrangedoras e frustradas de tentar ficar com alguém.
07:10Como se isso não bastasse, eu comecei uma briga com um dos meus melhores amigos.
07:16Dando um soco nele antes de ser expulso da boate pelos porteiros.
07:21E, que nem um idiota, eu decidi andar sozinho pelas ruas.
07:26Completamente embriagado.
07:28De alguma forma, eu consegui andar sem cair de cara no chão.
07:35Eu consegui cambalear até um ponto de ônibus,
07:38sem perceber no meu estado de embriaguez
07:41que o serviço oficial de ônibus havia encerrado naquela noite
07:46e que não haveria ônibus até a parte da manhã.
07:51Eu me lembro de me deitar para descansar no banco.
07:54E eu devo ter desmaiado, porque acordei várias horas depois e vi as ruas vazias.
08:01Eu estava completamente sozinho.
08:05Ou assim eu pensei.
08:07Foi quando eu vi o velho ônibus descendo a rua na minha direção,
08:13soltando fumaça preta pelo escapamento.
08:16O motor barulhento, interrompendo o silêncio da noite.
08:20O veículo estava parcialmente iluminado pelos postes de luz,
08:26embora eu tenha notado com certa preocupação
08:29que, à medida que ele passava pelos postes, as lâmpadas piscavam.
08:35O veículo tinha essa cara retroa dos anos 60.
08:39O tipo de lata velha sobre rodas
08:42que você esperaria ver dentro de uma exposição de carros clássicos.
08:47Ao contrário dos veículos modernos com os quais nós estamos acostumados,
08:54aqueles que deslizam silenciosamente pelas ruas,
08:59aquela caçamba velha e enferrujava,
09:03chacoalhava ruidosamente,
09:05parecendo que poderia quebrar a qualquer momento.
09:09Mas, ao invés disso, ela continuou vindo,
09:12descendo a rua vazia
09:15e se aproximando cada vez mais do meu ponto.
09:20Notei que não havia logos ou nomes pintados na lateral do ônibus
09:25e nem o destino acima do parabrisa dianteiro.
09:30O exterior do veículo era todo pintado de preto
09:34e até as janelas eram escurecidas,
09:37o que significava que eu não conseguia ver quem ou o que estava lá dentro.
09:42Senti um arrepio percorrendo a minha espinha,
09:47ao me lembrar dos detalhes que eu ouvira sobre a lenda do último ônibus.
09:54Uma daquelas lendas sobre as quais eu havia pesquisado na minha juventude.
10:00O veículo que eu vi à minha frente
10:03correspondia perfeitamente à descrição do ônibus nas histórias.
10:08O ônibus fantasma
10:10que aparece em uma rua abandonada nas primeiras horas da manhã,
10:16oferecendo carona aos cansados e necessitados.
10:21Quase entrei em pânico naquele momento,
10:24me perguntando se eu estava sonhando
10:27ou sofrendo de alguma ilusão paranoica.
10:30Eu passei grande parte da minha juventude perseguindo essas lendas,
10:35buscando qualquer evidência que pudesse comprovar
10:38a existência de algo fora da nossa realidade.
10:43Mas agora que a verdade parecia estar me encarando,
10:48uma parte de mim queria me fazer levantar e sair correndo.
10:53Mas eu não fiz isso.
10:54Eu não sei se fiquei paralisado de medo
10:58ou se foi a curiosidade que me venceu.
11:01Mas eu me mantive firme e esperei o ônibus chegar.
11:06Me levantei com as pernas bambas
11:08quando o ônibus parou em frente ao meu ponto.
11:12E, apesar da quantidade de álcool que eu havia consumido,
11:18de repente eu me senti bastante sóbrio.
11:20Pareceu levar uma eternidade para o veículo estacionário
11:25e para a porta velha e rangente se abrir.
11:28Quando isso aconteceu,
11:30eu fui surpreendido por um homem simpático e de meia-idade,
11:34vestindo um uniforme azul impecável
11:37e que estava calmamente sentado ao volante,
11:42dirigindo seu ônibus para um local não especificado.
11:46Ele sorriu para mim com um olhar amigável e acolhedor.
11:52Então, ele abriu a boca e falou num tom de voz suave
11:56e quase paternal.
11:58Boa noite, amigo.
12:00Você vem a bordo?
12:02Eu já tinha ouvido falar do enigmático motorista antes,
12:08mas, mesmo assim,
12:10a sua aparência e comportamento me pegaram de surpresa.
12:13Eu tive dificuldade para encontrar as palavras para responder.
12:19Eu fiquei ali gaguejando.
12:22Onde você vai me levar?
12:25Eu perguntei nervosamente.
12:29Para casa.
12:30Eu te levo para a sua casa, eventualmente.
12:34Mas a vida não é sobre o destino,
12:37é sobre a jornada.
12:39Às vezes, é preciso dar um salto de fé.
12:42Então, o que me diz, meu jovem amigo?
12:46Quer ir conosco?
12:48O motorista disse isso com um sorriso tranquilizador.
12:53Mas eu tenho que admitir que fiquei assustado naquele momento.
12:59Aterrorizado, para dizer a verdade.
13:01De alguma forma, eu percebi o quão importante isso seria na minha vida.
13:07E com a decisão que tomei naquele exato momento,
13:11eu poderia moldar o resto dela.
13:14Eu não sabia exatamente o que me esperaria se eu embarcasse.
13:19Mas eu tinha uma boa ideia.
13:21E isso era aterrorizante.
13:23Mas, se eu fosse embora, eu nunca descobriria a verdade.
13:29Então, eu respirei fundo.
13:31Criei coragem e entrei no ônibus.
13:34Vendo o motorista sorrir, enquanto a porta se fechava firmemente atrás de mim.
13:40Mas, quando eu olhei para o motorista do ônibus de perto,
13:44eu senti algo sinistro nele.
13:47E, imediatamente, eu comecei a me arrepender da minha decisão.
13:51Mas, aí, já era tarde demais.
13:55Foi a primeira vez que andei no ônibus noturno.
13:59Ao longo dos anos, eu já viajei três vezes no total.
14:04E sobrevivi para contar a minha história em cada ocasião.
14:09Conseguir pegar o ônibus fantasma não é tão fácil quanto você imagina.
14:15Porque, nesse ponto, não há regras a serem seguidas.
14:19Nem horário ou local definido.
14:21Não sei se é pura sorte ou se o próprio ônibus é quem escolhe os seus passageiros.
14:29No entanto, eu consegui juntar os pontos em comum,
14:33usando minhas próprias experiências e a de outras pessoas que também fizeram a sua viagem.
14:39Nós temos um fórum online que usamos para compartilhar nossas histórias e trocar informações.
14:48É uma questão de segurança, tanto quanto qualquer outra.
14:53O ônibus noturno pode ser letal se você não se mantiver atento.
14:58Ao entrar no ônibus, você verá fileiras de assentos com encosto rígido,
15:15que se estendem até a parte traseira do interior do veículo.
15:19Não há nada de incomum nisso, pelo menos não à primeira vista.
15:26Você também verá outros passageiros, mas você não deve interagir com eles neste momento,
15:33e nem mesmo manter contato visual.
15:36Vá se sentar em um banco vazio em qualquer lugar na frente do ônibus.
15:43Não importa exatamente onde.
15:46Eles virão até você no seu próprio ritmo.
15:50A viagem em si pode durar horas,
15:53ou pelo menos é isso que parecerá enquanto você estiver a bordo.
15:58Você poderá olhar pelas janelas fechadas
16:01e apreciar a paisagem tal como ela é.
16:06Inicialmente, você verá locais familiares,
16:10ruas do centro da cidade e prédios e empresas que você reconhecerá.
16:17No entanto, logo perceberá que algo não está certo com esse cenário.
16:23As ruas estarão completamente abandonadas,
16:26sem trânsito ou pedestres à vista.
16:29Não haverá nenhum comércio aberto,
16:32nem luzes emanando de nenhum lugar ao longo da rua.
16:36E, quanto mais você se afastar do centro da cidade,
16:41mais bizarra será a paisagem que você encontrará.
16:46Em breve, as ruas organizadas e os prédios bem conservados
16:50darão lugar à decadência urbana.
16:53E você verá estruturas em ruínas com mais de uma cidade perdida e esquecida pelo tempo.
17:02Por fim, o ônibus deixará a cidade para trás
17:06e entrará no que parece ser uma densa floresta.
17:09A estreita estrada que você seguirá estará envolta em escuridão,
17:17tendo como única fonte de iluminação os fortes faróis do veículo.
17:23Se você olhar para a mata em ambos os lados da estrada,
17:27ocasionalmente avistará sombras se movendo por trás da linha das árvores.
17:34Serão figuras estranhas e animais não identificados,
17:39com olhos vermelhos brilhando através da escuridão.
17:44Você verá essas criaturas inquietantes por apenas alguns segundos
17:49enquanto o ônibus passa.
17:51Então elas desaparecerão.
17:54A princípio, você pensará que é apenas a sua fértil imaginação te pregando peças.
18:01Mas, no fundo, você saberá que há algo maligno e há espreita dentro daquela floresta.
18:09A esta altura da jornada já deve estar claro que você não está mais no reino dos vivos.
18:17Não sei para onde o ônibus te leva,
18:20mas sei que não é sensato ficar olhando pela janela por muito tempo.
18:26O que se esconde lá fora pode te deixar louco.
18:29Além disso, o seu foco deve estar nas pessoas dentro do ônibus,
18:35pois elas representam a ameaça mais imediata.
18:41Meus colegas online e eu consideramos esses passageiros como almas perdidas.
18:49Parece certo que eles não fazem mais parte do mundo dos vivos.
18:53Há algo que falta neles, como se fosse uma peça importante.
19:00E assim que você conversar com eles, e eles o envolverão caso você queira ou não,
19:06você verá a tristeza em seus olhos vazios e mortos.
19:12Eles querem se apegar a você, porque você tem o que eles querem, a vida.
19:17É por isso que é tão importante que você siga as regras.
19:23Não deixe que eles entrem na sua cabeça, não importa o que você faça.
19:29Existem seis entidades que você provavelmente encontrará ao entrar no ônibus,
19:36cada uma com as suas próprias características e truques únicos,
19:41que tentarão usar contra você.
19:44Com base nas experiências compartilhadas pelos membros do nosso fórum,
19:51juntei uma descrição de cada uma dessas entidades sobrenaturais.
19:57Em primeiro lugar temos o motorista, cuja descrição física eu já abordei.
20:05A primeira tarefa do motorista é fazer você embarcar,
20:09e é por isso que ele parecerá tão simpático e acolhedor.
20:13convidando você a dar uma volta em seu ônibus.
20:18No entanto, assim que a porta se fecha atrás de você e o ônibus começa a se mover,
20:25você verá o sorriso do motorista se desvanecendo levemente,
20:30enquanto ele quebra o contato visual e se concentra na estrada.
20:35Apesar disso, o motorista é uma figura benigna,
20:39que desempenha um pequeno papel, mais importante, nos eventos que se seguem.
20:46A partir de então, sua função é simplesmente dirigir,
20:51e ele cumpre a promessa que fez a você.
20:55Eventualmente, ele o levará para a sua casa,
20:58desde que você não caia em nenhuma armadilha dos espíritos durante a viagem.
21:05Como eu disse, a viagem parecerá durar horas,
21:09mas quando ele o deixar na rua de sua casa e de volta ao nosso reino,
21:15será como se o tempo não tivesse passado.
21:18Ele te deixará ir e, sorrindo, dirá
21:22Tenha uma boa noite.
21:25Espero te ver em breve.
21:27E você ficará parado na calçada,
21:30em frente à sua casa,
21:33perplexo e ainda em estado de choque e descrença,
21:37enquanto observa o ônibus fantasma passando pela rua,
21:42antes de desaparecer inexplicavelmente no final dela.
21:46Depois do motorista,
21:48a primeira passageira que você provavelmente notará é a garota festeira.
21:55Trata-se de uma jovem atraente,
21:58que aparenta ter na média dos 20 anos.
22:01Sua aparência física muda a cada ocasião.
22:06Às vezes, o seu cabelo é castanho, outras vezes é loira.
22:10Da mesma forma, a sua pele pode ser clara ou escura,
22:14dependendo de quem a observa.
22:18O que é sempre consistente é a sua maquiagem e vestimenta.
22:23Um vestido de festa, um salto alto e uma bolsa de grife.
22:28Seu perfume é doce e sedutor.
22:32E você também poderá sentir um toque de álcool em seu hálito.
22:37Você também notará que o rímel dela escorreu,
22:42indicando que ela esteve chorando.
22:45No entanto,
22:46há algo em seus olhos profundos e expressivos que o atrairá.
22:52Uma beleza interior e uma vulnerabilidade,
22:55que mexerão com as suas emoções.
22:59Vale ressaltar que você se sentirá atraído pela jovem,
23:02independentemente do seu gênero ou preferências sexuais habituais.
23:09Você não conseguirá tirar os olhos dela
23:12e se sentirá compelido a se sentar próximo.
23:16A garota festeira se envolverá com você
23:19durante os primeiros estágios da viagem,
23:23o distraindo das cenas bizarras
23:25do lado de fora das janelas do ônibus.
23:28No início, ela será flertadora e divertida,
23:33perguntando sobre você e falando sobre a sua noite.
23:38Mas logo a conversa assumirá um tom mais sombrio.
23:42À medida que a garota conta sobre um evento trágico do seu passado,
23:48um abuso na infância,
23:49um ex-parceiro violento
23:51ou a morte de um ente querido.
23:54A história irá variar,
23:56mas sempre será triste e de sofrimento.
24:00Você se compadecerá dela,
24:03mesmo que você não seja uma pessoa empática.
24:07Depois que ela lhe contar a sua triste história,
24:11a jovem pedirá que você a acompanhe até sua casa
24:15para lhe dar algum conforto.
24:17Você ficará tentado,
24:19mas sob nenhuma circunstância
24:21deverá concordar em acompanhá-la.
24:24É fundamental que você se lembre de quem ela é
24:28e do que ela realmente espera de você.
24:32Meu conselho é recusar educadamente a oferta,
24:36sem lhe causar sofrimento indevido.
24:39A garota festeira pode ser uma alma perdida,
24:43mas, ao que tudo indica,
24:45ela ainda sente emoções humanas.
24:48Ela não ficará brava quando você a rejeitar,
24:51mas, ao invés disso,
24:54ela solucará baixinho.
24:56Você se sentirá culpado,
24:59mas deve seguir em frente e trocar de lugar,
25:03deixando a pobre garota com o seu sofrimento.
25:06A próxima passageira que você encontrará
25:10se senta algumas fileiras atrás da festeira.
25:13Nós a chamamos de aposentada.
25:17Ela é uma mulher idosa,
25:19provavelmente na casa dos 80 anos,
25:23cabelos brancos cacheados,
25:25usando um chale com um casaco de inverno pesado,
25:29e com um pequeno carrinho de compras
25:32com rodinhas estacionada embaixo do assento.
25:36Seu rosto é enrugado
25:37e o perfume que ela usa é bastante forte.
25:40Mas a idosa tem olhos gentis
25:44e um sorriso doce maternal.
25:47Ela vai te lembrar de alguma parente idosa,
25:51como uma avó ou tia-avó,
25:53e você sentirá afeição por ela.
25:56Uma mulher daquela idade e aparência
25:59é a última pessoa que você esperaria encontrar
26:03em um ônibus noturno
26:05nas primeiras horas da manhã.
26:07E, no entanto,
26:08aqui está ela,
26:11mais uma alma perdida,
26:13presa a uma jornada sem fim.
26:16A idosa conversará com você
26:18de forma gentil e saudável,
26:21perguntando sobre sua vida e sua família,
26:24enquanto também o entreterá
26:26com histórias da sua longa e interessante vida.
26:30Você realmente se sentirá à vontade
26:33conversando com ela,
26:34mas não deve se esquecer
26:37de quem ela realmente é.
26:39A conversa terminará com a mulher
26:42pedindo para você acompanhá-la até em casa,
26:45para ajudá-la com as compras ou algo assim.
26:49Ela se oferecerá para preparar algo para você comer,
26:54sua refeição ou lanche favorito,
26:57seja lá qual seja,
26:59e se oferecerá para hospedá-lo durante a noite.
27:03Mais uma vez,
27:05você se sentirá tentado,
27:07mas precisa dizer não.
27:10Nessa ocasião,
27:12não importa o quão educadamente
27:14você recuse a oferta,
27:16não importa o que você diga ou faça,
27:19ela reagirá com fúria absoluta,
27:22gritando todas as obscenidades
27:25possíveis e imagináveis
27:27enquanto o seu rosto se contorce de raiva.
27:31É a última coisa que você esperaria
27:33de uma senhora aparentemente gentil,
27:37mas é isso que vai acontecer.
27:40Assim que ela começar
27:41o seu odioso discurso,
27:44você deve sair do seu assento
27:46e ir mais para o fundo do ônibus.
27:49Seria sensato não se envolver com ela novamente
27:53pelo resto da viagem.
27:55O próximo passageiro que você encontrará
27:59é um homem de meia-idade,
28:01desleixado e conhecido como
28:03o bêbado.
28:06Ele se senta perto do fundo do ônibus
28:08e talvez seja o tipo de pessoa
28:10que você esperaria encontrar
28:12em um serviço noturno.
28:14Eu não recomendaria sentar muito perto do bêbado,
28:18porque ele cheira muito mal.
28:21Seu hálito cheirá álcool e cigarro
28:24e você notará como suas roupas velhas
28:27estão sujas e rasgadas
28:29e sua barba desgrenhada
28:32estará bastante maranhada.
28:35Você provavelmente não vai querer
28:37se envolver com ele,
28:39mas o bêbado vai começar uma conversa
28:41com você de qualquer maneira.
28:43E contra o seu melhor julgamento
28:46você vai se deixar levar por ela.
28:49O bêbado vai se mostrar
28:51surpreendentemente inteligente e perspicaz.
28:55Será bastante educado
28:57sobre assuntos como religião,
28:59filosofia e teoria científica.
29:03Ele contará uma história
29:04em forma de parábola ou fábula,
29:06com um toque sombrio.
29:08Quando conheci o bêbado,
29:10ele me contou a história
29:12do sapo e do escorpião,
29:14o que demonstra a natureza cruel
29:16e destrutiva da vida.
29:19Em seguida,
29:20ele tirará um cantil prateado
29:22do bolso interno do paletó
29:24e lhe oferecerá uma bebida.
29:28Independentemente de suas preferências
29:30alcoólicas,
29:32você ficará tentado
29:33a tomar um gole.
29:35A bebida terá um cheiro
29:37doce e convidativo,
29:39mas é claro que você deve
29:41recusá-la.
29:43Depois que você recusar
29:45a bebida,
29:46o bêbado vai te lançar
29:47um olhar furioso,
29:49antes de balançar a cabeça
29:51e dizer
29:52Essa é a sua deixa
30:01para seguir em frente.
30:04Nesse ponto,
30:05você notou
30:05como os três primeiros passageiros
30:07estavam tentando atraí-lo,
30:10usando qualquer encanto
30:12ou poderes sobrenaturais
30:14que tivessem à disposição.
30:16O objetivo final deles
30:18é induzi-lo a sair do ônibus
30:21e acompanhá-los.
30:23Nem preciso dizer
30:24que você não deve fazer isso.
30:27Não se quiser voltar
30:28para a sua casa.
30:31Ninguém sabe exatamente
30:32o que acontece
30:33com aqueles que caem
30:35em uma de suas armadilhas.
30:38Sabemos que vários membros
30:40do nosso fórum
30:41desapareceram sem deixar vestígios
30:44ao longo dos anos
30:45e que minha cidade
30:47tem um longo histórico
30:49de desaparecimentos inexplicáveis.
30:53O quarto passageiro,
30:54no entanto,
30:55é diferente dos demais.
30:58Ele é um jovem
30:59sentado na última fileira,
31:02escutando música
31:03com fones de ouvido
31:05conectados a um Walkman
31:07estilo anos 80.
31:09Nós o chamamos apenas
31:11de
31:11o cara dos fones de ouvido
31:13e parece que tudo
31:15que ele faz
31:16é escutar música
31:18de olhos fechados,
31:20batendo o pé
31:21no ritmo da música.
31:23O cara dos fones
31:25de ouvido
31:26não tentará
31:27interagir com você
31:28e nem mesmo
31:29reconhecer a sua presença.
31:32Mas isso não quer dizer
31:33que ele não seja perigoso.
31:36Um membro
31:37do nosso grupo
31:38teve um encontro
31:39com o sujeito
31:40e, para ser justo,
31:42aquilo foi uma provocação.
31:45Se sentindo ousado,
31:47meu amigo
31:48se aproximou
31:49do rosto do passageiro,
31:51acenando com as mãos
31:53e estalando os dedos,
31:55na tentativa
31:56de chamar
31:56a atenção
31:57desse espírito.
31:59Quando isso
31:59não funcionou,
32:01ele
32:01tolamente
32:02agarrou os fones
32:03de ouvido
32:04dos sujeitos,
32:05arrancando
32:05da cabeça dele.
32:07Como era de se esperar,
32:09o cara
32:09dos fones
32:10de ouvido
32:11não reagiu bem
32:12a essa invasão
32:13do seu espaço.
32:15Num instante,
32:16ele pulou
32:17da cadeira
32:17e desferiu
32:18um soco
32:19e derrubou
32:20o agressor
32:21com um só soco.
32:23Meu amigo
32:24se lembra
32:24de uma dor aguda
32:25e intensa
32:26na nuca
32:26antes de desmaiar.
32:29Ele disse
32:29que a próxima coisa
32:31da qual ele se lembrava
32:33é de acordar
32:33na própria cama
32:35na manhã seguinte,
32:36com o nariz
32:37quebrado
32:38e um corte
32:38feio na nuca.
32:40Ele também
32:41encontrou um bilhete
32:42no bolso
32:43da sua calça jeans,
32:45escrito de forma
32:46grosseira,
32:47no verso
32:48de uma passagem
32:49de ônibus
32:49antiga,
32:50com o que parecia
32:51sangue seco.
32:53E no bilhete
32:54dizia
32:55Faça isso de novo
32:57e eu arranco
32:58a sua cabeça.
33:00Sem surpresa,
33:01depois disso,
33:02meu amigo
33:03nunca mais subiu
33:04um ônibus noturno.
33:06Não sei qual é
33:08a do cara
33:08dos fones de ouvido,
33:10mas meu conselho
33:11é deixá-lo em paz.
33:14Então,
33:14a esta altura,
33:16você provavelmente
33:17está se perguntando
33:18por que alguém
33:20iria querer
33:21pegar o ônibus noturno,
33:23considerando que você
33:24seria transportado
33:26para uma realidade
33:27alternativa
33:28aterrorizante
33:29e se encontrará
33:31com seres
33:32sobrenaturais
33:33que desejam
33:34prendê-lo
33:35por lá.
33:36Bem,
33:37a resposta
33:38curta
33:39é que
33:39nenhuma
33:40pessoa ação
33:41faria,
33:42exceto
33:43um punhado
33:44de aventureiros
33:45urbanos
33:45enlouquecidos
33:46e investigadores
33:48paranormais
33:49amadores
33:49como eu sou.
33:51A maioria
33:51dos que embarcaram
33:53no ônibus
33:54fantasma
33:54o fizeram
33:55por acidente,
33:56sem perceber
33:57do que estavam
33:58se metendo
33:59até que fosse
34:00tarde demais.
34:02E a maioria
34:03dos que já
34:04andaram no ônibus
34:05pelo menos
34:06uma vez
34:07não tem a mínima
34:08vontade
34:09de fazê-lo
34:09novamente.
34:11Mas existem
34:12aqueles de nós
34:14que procuram
34:15um ônibus
34:15fantasma
34:16pela segunda,
34:17terceira
34:18ou,
34:18no meu caso,
34:19quarta vez.
34:21Bem,
34:22por quê?
34:23Nós temos
34:24nossos motivos.
34:26Na verdade,
34:28geralmente
34:29há uma razão
34:30acima
34:30de todas
34:31as outras.
34:32Nós queremos
34:33ver o ar alto
34:35e fazer a ele
34:37a única pergunta
34:38que nos é permitida.
34:40Eu vou me
34:41arrepender
34:42da minha
34:43primeira viagem
34:44no ônibus
34:45pelo resto
34:46da minha vida.
34:47Embora estivesse
34:48bêbado,
34:49eu tinha
34:50inteligência
34:51o suficiente
34:52para me livrar
34:53de vários
34:54truques
34:54ousados
34:55por aqueles
34:56gols,
34:57mas eu não
34:58estava preparado
34:59para ele.
35:01O ar alto
35:02é o único
35:02passageiro
35:03que ainda
35:04não está
35:05dentro do
35:06ônibus
35:06quando você
35:07entra.
35:08Ele chega
35:09depois,
35:10depois que você
35:11já conseguiu
35:12passar pelas
35:13entidades
35:13fantasmagóricas
35:15e acha
35:16que o pior
35:16já passou.
35:18A primeira
35:19coisa que você
35:20notará
35:21é uma cruz
35:22em chamas,
35:23erguida
35:24no topo
35:25de uma
35:25encosta
35:26obscura
35:26com vista
35:27para a
35:28estrada
35:28à sua
35:28esquerda.
35:30Eu me
35:31lembro
35:31da primeira
35:32vez que
35:33vi aquele
35:33símbolo
35:34agourento
35:35e do medo
35:36intenso
35:36que senti,
35:38pois sabia
35:39que algo
35:40ruim
35:40estava por vir.
35:43Um momento
35:43depois de
35:44avistar a
35:45cruz,
35:45eu fiquei
35:46chocado
35:47ao ver
35:47que o
35:48o ônibus
35:48estava
35:49diminuindo
35:49a velocidade
35:50e parando
35:52no acostamento.
35:54Em
35:54seguida,
35:55o motorista
35:56acionou a
35:57porta
35:57basculante
35:58na frente
35:59do ônibus,
36:00abrindo para
36:01o que quer
36:01que estivesse
36:02do lado
36:03de fora.
36:05O terror
36:05quase me
36:06dominou
36:07ao pensar
36:08nos horrores
36:09que se
36:10escondiam
36:10naquelas
36:11terras
36:11sombrias,
36:13nas criaturas
36:14e demônios
36:15escondidos
36:15nas florestas
36:16em encostas
36:17assombradas.
36:19Eu me
36:20lembro
36:20de olhar
36:21para os
36:21outros
36:21passageiros,
36:23de alguma
36:24forma
36:24esperando
36:25que esses
36:25espíritos
36:26malignos
36:27me oferecessem
36:28alguma
36:29proteção
36:30contra o
36:31que quer
36:31que estivesse
36:32por entrar.
36:33Mas,
36:34ao invés
36:34disso,
36:35suas
36:36cabeças
36:36estavam
36:37baixas,
36:38enquanto
36:38todos
36:39mantinham
36:40um silêncio
36:41solene.
36:42Percebendo
36:43que eu
36:43estava
36:44sozinho
36:44nessa,
36:45eu olhei
36:46pela janela
36:47e presenciei
36:48uma cena
36:49que me
36:49arrepiou
36:50até os
36:51ossos.
36:52Havia um
36:53pequeno
36:53abrigo
36:54coberto
36:54à beira
36:55da estrada,
36:56quase
36:57coberto
36:57por
36:58vegetação
36:59rasteira
36:59e apenas
37:00visível
37:01na penumbra.
37:03E,
37:04dentro
37:04desse
37:04abrigo
37:05de ônibus
37:06aparentemente
37:07abandonado,
37:08estava uma
37:08figura
37:09alta
37:10e
37:10encapuzada,
37:11um indivíduo
37:12sinistro,
37:13com o rosto
37:14coberto
37:15e o seu
37:15corpo
37:16consideravelmente
37:17escondido,
37:18sob um
37:18manto
37:19longo
37:19e escuro.
37:21O
37:21estranho
37:22homem
37:23permaneceu
37:24imóvel
37:24e silencioso,
37:26embora eu
37:27logo tenha
37:27avistado
37:28um animal
37:29ao seu
37:29lado,
37:31um grande
37:31cão
37:31preto,
37:33que rosnava
37:33agressivamente
37:35através de um
37:36focinho
37:36cheio
37:37de dentes
37:37afiados,
37:39enquanto me
37:40encarava
37:40com olhos
37:41famintos
37:42e predadores.
37:44E apenas
37:45o fino
37:46vidro
37:46da janela
37:47do ônibus
37:48me separava
37:49dele.
37:51Imaginei
37:51o cão
37:52se soltando
37:53e subindo
37:54os degraus
37:54e correndo
37:55pelo corredor,
37:57cravando
37:58as suas
37:58presas
37:59afiadas
38:00na minha
38:00carne macia.
38:03Felizmente,
38:03o dono
38:04do cão
38:04manteve
38:05o controle
38:05da fera,
38:07embora
38:07estivesse
38:08longe
38:08de estar
38:09fora
38:09de perigo.
38:11Também
38:12notei
38:12o quão
38:13quente
38:13e sufocante
38:14o clima
38:15ficou
38:15de repente,
38:17quando
38:17uma onda
38:18de calor
38:19quase
38:20suportável
38:21me atingiu.
38:22Enquanto
38:23isso,
38:23o ônibus
38:24permanecia
38:25estacionado,
38:26pelo que
38:27me pareceu
38:27uma eternidade
38:29com a porta
38:29entreaberta,
38:31enquanto
38:32o motorista
38:33esperava
38:33para ver
38:34se o seu
38:35passageiro
38:36entraria
38:36ou não.
38:37com o tempo
38:39eu descobri
38:40que a figura
38:41encapuzada
38:42a quem
38:42nós chamamos
38:43de
38:44o ar alto
38:44fará
38:45uma das duas
38:46coisas
38:47nesse momento.
38:48Ou
38:49entrará
38:49ou
38:50permanecerá
38:51imóvel
38:52no lugar,
38:53até que o
38:54motorista
38:54diga algo
38:55como
38:56bem,
38:57hoje à noite
38:58não,
38:59antes de
38:59fechar a porta
39:00e seguir
39:01em frente.
39:03Pelo
39:03que
39:03pude
39:03perceber,
39:05tanto
39:05por experiência
39:06própria
39:07quanto pela
39:08de meus
39:08contemporâneos,
39:10é isso
39:11que acontece
39:11na maioria
39:12das vezes.
39:15De
39:15duas
39:16em cada
39:16três
39:17vezes,
39:18o ar
39:18alto
39:18não sai
39:19do ponto
39:20e ponto
39:21final,
39:22mas às
39:22vezes
39:23ele se
39:23adianta,
39:25andando
39:26pela lama
39:26com as suas
39:27botas
39:28pesadas
39:29enquanto
39:29arrasta
39:30o seu
39:30cão
39:30infernal
39:31pela colheira
39:32e entra
39:32no ônibus,
39:34levando o
39:34motorista
39:35a dizer
39:35Boa
39:37noite,
39:37senhor,
39:38espero que
39:38tenha uma
39:39boa viagem.
39:40O
39:41arauto
39:41não
39:41responderá.
39:43Ao
39:43invés
39:43disso,
39:44ele
39:44andará
39:44pelo
39:45corredor
39:45com
39:46seu
39:46fiel
39:46viralato
39:47seguindo.
39:49Ele
39:49se
39:49sentará
39:50perto
39:50da
39:50frente
39:51do
39:51ônibus,
39:52retirando
39:53o
39:53capuz
39:53da
39:53cabeça
39:54para
39:54revelar
39:55o que
39:55
39:55embaixo.
39:57Até
39:58hoje,
39:58eu não
39:59consigo
39:59explicar
40:00completamente
40:01o que
40:01eu vi
40:02naquele
40:02momento
40:03aterrorizante.
40:05Parecia
40:05que havia
40:06apenas um
40:06vazio
40:07escuro
40:08onde
40:08deveria
40:09estar
40:09o seu
40:10rosto,
40:11com
40:11duas
40:12órbitas
40:13flamejantes
40:14ao invés
40:15de olhos.
40:17Ele
40:17não tinha
40:18uma boca
40:19visível,
40:21portanto,
40:22ele não
40:22deveria
40:23conseguir
40:23falar.
40:25E,
40:26no entanto,
40:27ele falou.
40:28Ele
40:29me chamou
40:29com uma
40:30voz
40:30estrondosa,
40:32divina,
40:33que ecoava
40:34pelo interior
40:35do ônibus.
40:38Venha
40:38também,
40:39criança
40:39mortal.
40:41Venha
40:42sentar-se
40:42comigo
40:43para que
40:43nós
40:43possamos
40:44conversar.
40:46Como
40:46você pode
40:47imaginar,
40:48eu estava
40:48completamente
40:50apavorado
40:50naquele
40:51momento.
40:52Tanto
40:52que eu
40:53pensei
40:53que fosse
40:53apagar
40:54ali mesmo,
40:56mas
40:56por razões
40:58que eu não
40:58conseguia
40:59explicar,
41:00eu
41:00obedecia
41:01as ordens
41:02do
41:02arauto,
41:04sentindo
41:04que
41:04fisicamente
41:05eu não
41:06conseguia
41:07resistir
41:07a ele
41:08como se
41:08minhas
41:09pernas
41:09não
41:10estivessem
41:11mais
41:11sob o
41:11meu
41:11controle.
41:13Eu
41:13me
41:14lembro
41:14de olhar
41:15para os
41:15outros
41:16passageiros
41:17enquanto
41:17caminhava
41:18pelo
41:18corredor,
41:20esperando
41:20que um
41:21deles
41:21pudesse
41:21me
41:22ajudar.
41:23Mas
41:23todos
41:24os
41:24quatro
41:24mantinham
41:25a cabeça
41:26baixa,
41:27enquanto
41:28murmuravam
41:29algo
41:29juntos,
41:30recitando
41:31uma espécie
41:32de oração
41:33em uma língua
41:34que eu
41:34não conseguia
41:35entender.
41:36Se
41:37tornou
41:37óbvio
41:38para mim
41:39que o
41:39arauto
41:39tinha
41:40algum
41:40tipo
41:40de
41:41poder
41:41sobre
41:42aquelas
41:42almas
41:43perdidas
41:44e que
41:44todas
41:45estavam
41:45presas
41:46sobre
41:47esse
41:47feitiço.
41:49Talvez
41:49eles já
41:50tenham
41:50sido
41:51como
41:51nós,
41:52vítimas
41:53do
41:53ônibus
41:54fantasma
41:55e dos
41:55poderes
41:56divinos
41:56do
41:56arauto.
41:58De
41:58qualquer
41:58forma,
41:59eles não
42:00me
42:00ofereceram
42:00nenhuma
42:01ajuda
42:01naquele
42:02momento
42:02e logo
42:04eu percebi
42:04que estava
42:05completamente
42:06à mercê
42:07dele.
42:08Involuntariamente
42:09eu me
42:10sentei na
42:10fileira
42:11logo atrás
42:12do
42:12arauto.
42:13Sua
42:14cabeça
42:14se virou
42:15de um
42:15jeito
42:15nada
42:16natural
42:16para
42:17me
42:17encarar,
42:18enquanto
42:19seu
42:19cachorro
42:20rosnava
42:21agressivamente
42:22na minha
42:22direção.
42:24Mas
42:24felizmente
42:25ele resistiu
42:26à vontade
42:27de morder
42:27a minha
42:28perna.
42:29E eu
42:30não consigo
42:31descrever
42:31o cheiro
42:32do arauto,
42:34a não ser
42:34dizer que
42:35ele fedia
42:36algo morto.
42:38Os
42:39orbes
42:39flamejantes
42:41que ele
42:41tinha
42:41no lugar
42:42dos olhos
42:43me encaravam.
42:44E eu
42:45não conseguia
42:46desviar
42:46o olhar,
42:47por mais
42:48que tentasse.
42:49eu
42:50me
42:51sentia
42:52em
42:52chamas,
42:53como se
42:53minha própria
42:54alma estivesse
42:55queimando
42:56debaixo
42:57daquele
42:57olhar
42:58odioso.
42:59Em
43:00meu
43:01estado
43:01de
43:02horror
43:02abjeto,
43:03eu
43:03imaginei
43:04o que
43:04aquele
43:05monstro
43:06poderia
43:06fazer
43:06comigo.
43:08Imaginei
43:09que ele
43:10poderia
43:10acabar
43:10comigo
43:11com
43:11facilidade.
43:13Mas
43:13esse
43:14era o
43:14menor
43:15dos meus
43:15medos.
43:16eu
43:17acreditei
43:18que
43:18poderia
43:19me
43:19tornar
43:20igual
43:20aos
43:21outros,
43:22como
43:22uma
43:22alma
43:23perdida
43:23anônima,
43:25viajando
43:25nesse
43:26maldito
43:26ônibus
43:27por toda
43:28a eternidade.
43:30De
43:30qualquer
43:30forma,
43:31eu estava
43:31impotente
43:32para fazer
43:33qualquer
43:34coisa
43:34naquele
43:34momento,
43:36além
43:36de
43:36permanecer
43:37imóvel
43:38no meu
43:38assento,
43:39esperando
43:40que o
43:40arauto
43:41falasse.
43:43Apesar
43:44da ausência
43:45de olhos
43:45de alguma
43:46forma,
43:47eu
43:47podia
43:47perceber
43:48que ele
43:49me
43:49observava
43:50de uma
43:50posição
43:51superior,
43:53que me
43:53considerava
43:54com total
43:55desprezo,
43:57como se
43:57eu fosse
43:58uma
43:58formiga
43:59prestes
44:00a ser
44:00esmagada.
44:02Até
44:03hoje,
44:03não sei
44:04se ele
44:04estava
44:05falando
44:05em voz
44:06alta
44:07ou se
44:07a sua
44:07voz
44:08estrondosa
44:09estava
44:09apenas
44:10na minha
44:10cabeça.
44:12De
44:12qualquer
44:13forma,
44:13eu
44:13me
44:14vi
44:14totalmente
44:14paralisado
44:16enquanto
44:16ele
44:16pronunciava
44:17suas
44:18palavras.
44:20Vejo
44:21que mais
44:22um
44:22mortal
44:22encontrou
44:23seu
44:23caminho
44:23para
44:24morrer.
44:26Confesso
44:27que
44:27dei pouco
44:27tempo
44:28para
44:28sua
44:29raça
44:29desprezível.
44:31No
44:31entanto,
44:33devo
44:33respeitar
44:33as
44:34regras.
44:35Por
44:36esta
44:36razão,
44:37eu
44:37considerei
44:37passagem
44:38segura
44:39e
44:39responderei
44:40ao
44:40momento.
44:42Me
44:42perdoe
44:43o que
44:43quiser
44:44mortal.
44:45Eu
44:45lhe
44:46transmitirei
44:47meu
44:47conhecimento
44:48infinito.
44:49Pois
44:50bem,
44:51este
44:51foi um
44:52momento
44:53que eu
44:53revivi
44:53inúmeras
44:54vezes
44:55na minha
44:55mente
44:56ao longo
44:56dos
44:56anos.
44:58Eu
44:58poderia
44:58ter
44:59perguntado
45:00literalmente
45:00qualquer
45:01coisa ao
45:02Arauto.
45:03Os
45:03números
45:04vencedores
45:05da
45:05loteria,
45:07quem
45:07matou
45:07JFK,
45:08o
45:08sentido
45:09da
45:09vida,
45:10porque
45:11ele
45:11vê e
45:11sabe
45:11tudo.
45:12Então,
45:13as
45:13possibilidades
45:14são
45:15ilimitadas.
45:17Um
45:17sujeito
45:17do
45:18nosso
45:18fórum
45:19perguntou
45:19ao
45:20Arauto
45:20como
45:20ele
45:21morreria
45:21e
45:22ele
45:22lhe
45:23disse
45:23que
45:23os
45:24seus
45:24vícios
45:24o
45:25matariam
45:25em
45:25seis
45:26meses.
45:27Bem,
45:28esse
45:28cara
45:29usava
45:29coisas,
45:31mas
45:31riu
45:31do
45:31aviso
45:32do
45:32Arauto
45:33e
45:33continuou
45:33usando.
45:35Seis
45:35meses
45:36depois,
45:36ele
45:37morreu
45:37de
45:37uma
45:37overdose.
45:39Em
45:40outro
45:40caso,
45:41havia
45:41uma jovem
45:42que,
45:42na época
45:43do seu
45:43encontro
45:44com Arauto,
45:45estava
45:45presa
45:46em um
45:46relacionamento
45:47abusivo
45:48e controlador.
45:50Ela
45:50perguntou
45:51à entidade
45:51o que
45:52aconteceria
45:53se ela
45:53continuasse
45:54com aquele
45:54seu
45:55namorado
45:55otário.
45:57Bem,
45:58ela foi
45:58informada
45:59de que
45:59sua vida
46:00acabaria
46:01a menos
46:01que ela
46:02rompesse
46:02o relacionamento.
46:04Isso
46:04provou-se
46:05a motivação
46:06que ela
46:06precisava
46:07para deixá-lo.
46:08e
46:09cerca
46:10de
46:10um
46:11ano
46:11depois,
46:12o
46:12desgraçado
46:13foi
46:13preso
46:14por
46:14acabar
46:15com a
46:15vida
46:15de
46:15outra
46:16garota.
46:17E
46:17então
46:18ele
46:18foi
46:18condenado
46:19à prisão
46:20perpétua.
46:21Mas
46:22é claro
46:23que eu
46:23não sabia
46:23de nada
46:24disso
46:24na época.
46:26Eu
46:26não sentia
46:27nada
46:28além
46:28de puro
46:28medo
46:29enquanto
46:29permaneci
46:30imóvel
46:31no meu
46:31assento,
46:32tremendo
46:33dentro
46:33das minhas
46:34botas
46:35enquanto
46:35o
46:36Arauto
46:36me
46:36encarava
46:37com
46:37desgosto.
46:39Naquele
46:39momento
46:40arrepiante
46:41eu só
46:41consegui
46:41pensar
46:42em uma
46:42pergunta
46:43que
46:43gaguejei
46:44com meus
46:45lábios
46:45trêmulos.
46:47O
46:47que é
46:49você?
46:50Juro
46:51que consegui
46:52ouvir
46:52a criatura
46:53zombar
46:54com
46:54desprezo
46:55antes
46:55que ela
46:56desse
46:56a sua
46:56resposta.
46:58Infelizmente
46:59vocês
47:00jamais
47:00compreenderão
47:02que eu
47:02sou
47:02o que
47:03represento.
47:05No
47:05entanto
47:05eu me
47:06
47:06uma
47:06resposta
47:07e
47:08portanto
47:08explicarei
47:09meus
47:10termos
47:10mais
47:11simples.
47:12Eu
47:12sou
47:13passado
47:13presente
47:14e
47:14futuro
47:15e
47:16vejo
47:16tudo
47:17de onde
47:17estou
47:18e
47:18ainda
47:19assim
47:19jurei
47:20não
47:20ter
47:20vindo
47:21em seu
47:21mundo.
47:23Ele
47:23fez
47:24uma
47:24pausa
47:24momentânea
47:25virando
47:26seus
47:27olhos
47:27flamejantes
47:28em
47:28direção
47:29à
47:29paisagem
47:30escura
47:31do
47:31lado
47:31de
47:31fora
47:32da
47:32janela.
47:33Eu
47:35estimulo
47:36que
47:36você
47:36
47:37diante
47:37de
47:37mim
47:38é o
47:38meu
47:38reino,
47:39meu
47:39domínio.
47:41Ofereço
47:41santuário
47:42àqueles que
47:43não têm
47:43para onde
47:44viver,
47:45dando
47:45lado
47:46a
47:46almas
47:46perdidas,
47:48que
47:48estão
47:48presas
47:49entre os
47:49reinos
47:50mortais
47:50e
47:51eternos.
47:52Talvez
47:53você
47:53venha aqui
47:54um dia
47:54e se
47:55torne
47:55o
47:55presidente
47:56permanente
47:57do meu
47:57reino
47:58sombre.
47:59Ou
47:59talvez
48:00não.
48:01Você
48:02poderia
48:02ter
48:03perguntado
48:04sobre
48:04qual
48:04é
48:04o
48:05seu
48:05destino
48:05final,
48:07mas
48:07escolheu
48:08não
48:08fazer.
48:09E
48:09eu
48:10respondi
48:10a sua
48:11única
48:11pergunta
48:12permitida
48:13e cumpri
48:13a minha
48:14obrigação.
48:16E
48:16agora,
48:16meu
48:16filho,
48:17eu
48:18me
48:18despeço
48:18de
48:19você.
48:20Com
48:20isso,
48:21ele se
48:21levantou
48:22da
48:22cadeira
48:23e chamou
48:23seu
48:23cão,
48:24que
48:24deslizou
48:25pelo
48:25corredor
48:26em direção
48:27à
48:27saída.
48:27Eu
48:29fiquei
48:29pasmo
48:30em estado
48:30de choque.
48:32Eu
48:32ainda
48:33tinha
48:33tantas
48:34perguntas
48:35a fazer
48:36que
48:36abri a
48:37boca
48:37sem
48:38pensar.
48:39Espera,
48:40eu
48:40gritei
48:40para
48:40ele,
48:41imediatamente
48:42me arrependendo
48:43da minha
48:44decisão
48:44de gritar.
48:46O
48:46arauto
48:47se
48:47virou
48:48bruscamente,
48:49com
48:49seus
48:49olhos
48:50ardendo
48:51cada
48:51vez
48:51com
48:52mais
48:52intensidade,
48:54o
48:54seu
48:54cão
48:54rosnando
48:55enquanto
48:55mostrava
48:56os
48:56dentes
48:57afiados,
48:58puxando
48:58a guia
48:59enquanto
48:59tentava
49:00me
49:00alcançar.
49:02Quando
49:02o arauto
49:03voltou
49:03a falar,
49:04o seu
49:05tom se
49:05tornou
49:06raivoso
49:06e
49:07ameaçador.
49:08Preste
49:09atenção
49:09ao meu
49:10aviso,
49:10sei de
49:11hora.
49:12Eu
49:12tolerei
49:13sua presença
49:14em meu
49:14reino
49:14até agora,
49:16mas não
49:16deixe a minha
49:17paciência.
49:19Eu
49:19posso
49:20infringir
49:20a você
49:21uma
49:21cor
49:22que
49:22vai além
49:23de
49:23seus
49:23piores
49:23pesadelos.
49:24E
49:25eu
49:25não
49:26vou
49:26hesitar
49:26em
49:27fazer
49:27isso
49:27se
49:28você
49:28quebrar
49:29as
49:29regras
49:29novamente.
49:31Senti
49:32todo o
49:32sangue
49:33sumindo
49:33do meu
49:34rosto
49:34e o
49:34meu
49:35corpo
49:35inteiro
49:35tremia
49:36incontrolavelmente,
49:38enquanto um
49:38terror
49:39absoluto
49:40me
49:40dominava.
49:42Nem
49:42preciso
49:42dizer
49:43que eu
49:43fiquei
49:43caladinho.
49:45Eu
49:45fiquei
49:46apenas
49:46observando,
49:48chocado
49:48e atônico,
49:49enquanto o
49:50arauto
49:50deslizava
49:51pelo corredor,
49:53arrastando
49:54consigo
49:54o seu
49:55rosnante
49:56cão
49:56infernal.
49:58O
49:58motorista
49:59parou
49:59o
49:59ônibus
50:00lentamente
50:01para
50:01permitir
50:02que
50:02aquela
50:02criatura
50:03terrivelmente
50:04divina
50:05desembarcasse.
50:07Comecei
50:08a sentir
50:08pontadas
50:09de alívio
50:10ao pensar
50:11que o
50:11meu
50:11calvário
50:12estava
50:12quase
50:13no
50:13fim.
50:14Mas
50:14havia
50:15uma
50:15última
50:16reviravolta
50:17em seu
50:17episódio
50:18macabro.
50:19Assim
50:20que o
50:20ar alto
50:21desceu
50:21do
50:21ônibus,
50:22os
50:22meus
50:23companheiros
50:24de viagem
50:24se levantaram
50:25repentinamente
50:26de seus
50:27assentos,
50:28todos se
50:29virando
50:29simultaneamente
50:31em minha
50:31direção.
50:32E,
50:33para
50:33meu
50:33horror,
50:34eu vi
50:34seus olhos
50:35que estavam
50:36negros
50:37como
50:37a
50:37zeviche
50:38e suas
50:39bocas
50:39estavam
50:40escancaradas,
50:42revelando
50:42como
50:43buracos
50:44negros.
50:45Parecia
50:45que todos
50:46tentavam
50:46gritar,
50:47mas
50:48nenhum
50:48som
50:48era emitido.
50:50Aterrorizado,
50:52eu me
50:52virei
50:53para a
50:53janela,
50:54e então
50:55vi o que
50:55espreitava
50:56na floresta
50:57escura
50:58de ambos
50:58os lados
50:59da
50:59estrada.
51:01Eram
51:01centenas
51:02de olhos
51:03vermelhos
51:03e flamejantes,
51:05emergindo
51:06da fileira
51:07de árvores.
51:08Eram
51:08olhos
51:09que
51:09pertenciam
51:10a feras
51:10profanas
51:11que o
51:12ivavam
51:12como
51:12lobos
51:13na
51:13noite,
51:15todos
51:15focados
51:16no nosso
51:16ônibus.
51:18Gritei
51:18de horror,
51:19temendo
51:20que o
51:21ar alto
51:21tivesse mudado
51:22de ideia
51:23e estivesse
51:24convocando
51:25seus
51:26asseclas
51:27infernais
51:28para me
51:28despedaçar.
51:30O
51:31oivo
51:31aumentou
51:32rapidamente
51:33de volume,
51:34se tornando
51:35tão alto
51:36que quase
51:36fiquei surdo.
51:38O
51:38que
51:38aconteceu em
51:39seguida
51:40permanece
51:41como um
51:41borrão
51:42na minha
51:42memória.
51:44Eu me
51:44lembro
51:45de um
51:45estrondo
51:46horrível
51:46e da
51:47pressão
51:47que se
51:48acumulou
51:48dentro
51:49da minha
51:49cabeça,
51:50até que
51:51pensei
51:51que o
51:51meu
51:51crânio
51:52fosse
51:52explodir.
51:54De repente,
51:55houve um
51:56clarão
51:56ofuscante,
51:57me forçando
51:58a esconder
51:59os olhos
51:59sobre as
52:00mãos.
52:01Um
52:01momento
52:02depois,
52:02eu abri
52:03os olhos
52:03novamente,
52:05apenas para
52:06descobrir que
52:06as feras
52:07haviam
52:07desaparecido,
52:09assim como
52:10os meus
52:10macabros
52:11companheiros
52:12de viagem.
52:13eu estava
52:14sozinho
52:15dentro do
52:15ônibus,
52:16apenas eu
52:17e o
52:18motorista,
52:19enquanto
52:19continuávamos
52:20por aquele
52:21trecho
52:22solitário
52:22da
52:23estrada.
52:24Tenho
52:24pouquíssimas
52:25lembranças
52:26do resto
52:27daquela
52:27jornada.
52:30Acho
52:30que não
52:31demorou
52:31muito
52:31para
52:32deixarmos
52:33o
52:33reino
52:33das
52:33trevas
52:34e
52:34retornarmos
52:35às
52:36ruas
52:36da
52:36cidade
52:37que eu
52:37conheci
52:38e
52:38reconhecia.
52:40Quando
52:40chegamos
52:41à minha
52:41rua,
52:42eu não
52:42pude
52:42acreditar.
52:44Eu
52:44imaginei
52:44que era
52:45algum
52:45tipo
52:45de
52:45pegadinha
52:46macabra.
52:48Fiquei
52:48sentado
52:49no banco
52:49por algum
52:50tempo
52:50até que
52:51finalmente
52:51precisei
52:52ser avisado
52:53pelo
52:53motorista
52:54que me
52:54chamou
52:55dizendo
52:56É o
52:57seu
52:57ponto,
52:58amigo.
52:58Venha,
52:59por favor.
53:00Eu não
53:00posso esperar
53:01aqui a
53:01noite
53:01toda.
53:03Com
53:03alguma
53:03apreensão,
53:04eu caminhei
53:05pelo
53:05corredor
53:06e desci
53:06do
53:07ônibus,
53:08sentindo o
53:09ar fresco
53:09na pele
53:10enquanto
53:11retornava
53:12ao reino
53:12dos
53:12vivos.
53:14Ainda
53:14me lembro
53:15do motorista
53:16me desejando
53:17boa noite
53:18antes de
53:18partir.
53:20Então,
53:21essa é a
53:22minha história,
53:24mas não
53:24o fim
53:25dela.
53:26Você pode
53:27se perguntar
53:28por que
53:29eu não
53:29abandonei a
53:30minha obsessão
53:31pelo ônibus
53:32fantasma,
53:33mesmo depois
53:34do meu
53:34encontro
53:35aterrorizante.
53:36bem,
53:38por muito
53:39tempo
53:39eu
53:39abandonei,
53:41mas no
53:41fim a
53:42curiosidade
53:43levou
53:43a melhor.
53:45Eu não
53:45gosto
53:46da incerteza
53:47da vida,
53:48de não
53:48saber o
53:49que me
53:49espera.
53:51Eu
53:51costumava
53:52pensar
53:52que a
53:53vida
53:53era uma
53:54incerteza,
53:55mas agora
53:56eu sei que
53:56não.
53:58O
53:58arauto
53:58está lá
53:59fora e
54:00pode me
54:00dar as
54:01respostas
54:01de que
54:02eu
54:02preciso.
54:03Eu
54:03não
54:04vou
54:04desperdiçar
54:05minha
54:05oportunidade
54:06uma
54:06segunda
54:06vez.
54:08Durante
54:09anos
54:09eu
54:10persegui
54:10o
54:11ônibus
54:11e o
54:12peguei
54:12mais
54:12duas
54:13vezes.
54:14Em
54:15ambas
54:15as
54:15ocasiões
54:16embarquei
54:17e evitei
54:18as
54:18armadilhas
54:19preparadas
54:20pelos
54:20macabros
54:21passageiros
54:22e
54:22nas
54:23duas
54:23vezes
54:23esperei
54:24o
54:24arauto
54:25embarcar.
54:26Mas
54:27ele
54:27não
54:27se
54:28moveu
54:28do
54:28seu
54:29abrigo
54:29e
54:30assim
54:30as
54:31minhas
54:31esperanças
54:32foram
54:32frustradas.
54:33Tem
54:34sido
54:35extremamente
54:36desanimador.
54:37Mas
54:38eu
54:38não
54:38vou
54:38desistir.
54:40Hoje
54:40à noite
54:41eu
54:41vou
54:41procurar
54:41um
54:42ônibus
54:42mais
54:42uma
54:43vez
54:43e
54:44continuarei
54:45procurando
54:45por ele
54:46até que
54:46o
54:46arauto
54:47atenda
54:47ao
54:47meu
54:48chamado.
54:49Eu
54:50sei
54:50dos
54:50riscos.
54:51Uma
54:51noite
54:52eu
54:52posso
54:52embarcar
54:53num
54:53ônibus
54:54fantasma
54:54e nunca
54:55mais
54:55voltar
54:56para
54:56casa.
54:57Mas
54:58mesmo
54:58assim
54:59eu
54:59preciso
54:59fazer
55:00isso.
55:01Preciso
55:02saber
55:02a
55:02verdade
55:03custa
55:03o que
55:04custar.
55:05E agora
55:06se me
55:07dão
55:07licença
55:08eu tenho
55:08um ônibus
55:09para pegar.
55:10e agora.
55:40Legenda Adriana Zanotto
56:10Legenda Adriana Zanotto
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