- há 2 horas
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A dor se transformou em uma luta histórica. Em 1995, após o desaparecimento da filha Fabiana, Ivanise Esperidião encontrou as portas do Estado fechadas. Descubra como um apelo desesperado na novela "Explode Coração" uniu centenas de famílias nas escadarias da Praça da Sé, em São Paulo, dando origem ao movimento "Mães da Sé". Uma história real sobre solidariedade, luto e a busca implacável por respostas.
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Categoria
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NotíciasTranscrição
00:07Música
00:14Documento Jovem Pan
00:16Todos os dias, mais de 60 crianças e adolescentes desaparecem no Brasil.
00:23E muitos deles não são localizados.
00:26Por trás desses números, existem histórias interrompidas e famílias que passam a viver entre duas realidades.
00:34A da vida que continua e a da espera que nunca termina.
00:39Nesta edição do Documento Jovem Pan, nós vamos conhecer histórias de famílias que seguem procurando por crianças desaparecidas
00:47e também entender os desafios enfrentados por quem tenta encontrar respostas.
00:58Todos os anos, milhares de crianças e adolescentes desaparecem no Brasil.
01:04Em 2025, foram em média 66 desaparecimentos por dia, o que totalizou 23.919, segundo o SINESP, Sistema Nacional de
01:17Informações de Segurança Pública.
01:19Histórias interrompidas que deixam para trás famílias em busca de respostas.
01:25Algumas dessas crianças são encontradas rapidamente.
01:29Outras desaparecem sem deixar pistas.
01:38Não tem um hospital, não tem um IML, tanto na capital como na região metropolitana,
01:46que eu não procurasse a minha filha de dia e de noite.
01:51Eu cheguei à beira da loucura, porque nenhuma mãe está preparada para perder um filho dessa forma.
02:02Tivemos 66 desaparecimentos por dia de crianças e adolescentes no nosso país no ano passado.
02:11232 desaparecimentos por dia também no Brasil no ano passado.
02:17Agora, as estimativas são de que em torno de 10% não voltam para as suas casas.
02:26São aqueles desaparecimentos mais duradouros e de mais difícil elucidação.
02:33Então, quando há um desaparecimento de uma criança que você não conseguiu proteger, não conseguiu impedir,
02:40essa é uma perda crescida de uma dor muito aguda, uma dor visceral mesmo,
02:46somada de um sentimento de culpa muito importante, de não ter impedido.
02:51E a gente fica naquela fantasia, se eu tivesse feito isso, se eu tivesse feito aquilo,
02:55e se isso, e se aquilo, e se eu não tivesse ido trabalhar, e se eu tivesse saído 5 minutos
02:59mais tarde, coisas assim.
03:02Então, todo o processo de perda, ele sempre é incrementado de mais sofrimento
03:08quando ele envolve muita culpa, muita raiva e injustiça.
03:11Um dia comum na rotina de uma família que se transformou em desespero que já dura 17 anos
03:19e vivido todos os dias por Sandra Moreno na busca por sua filha, Ana Paula Moreno.
03:26O desaparecimento da minha filha, até hoje, eu acho que todas as minhas respostas em relação a isso,
03:34elas são meia vaga, eu acho que ficam pela metade, porque eu também não tenho essa resposta.
03:41A minha filha saiu de casa num dia para trabalhar, um dia normal, uma rotina normal,
03:48que ela já fazia há quase dois anos.
03:52Ela saía de casa às 5h30 da manhã para trabalhar, às 5h e pouco da manhã,
03:57ela entrava na empresa às 6h da manhã para sair às 14h.
04:01E ela entrou no meu quarto, despediu de mim, disse, mãe, até daqui a pouco, me deu um beijo,
04:06saiu só com a roupa do corpo e da documentação e saiu para trabalhar.
04:12E 13h30 eu descobri que ela não tinha chego na empresa.
04:16Eu soube que minha filha não estava, eu fui buscar as informações que, para mim, naquele momento,
04:25era primordial.
04:26Primeiro, eu voltei na empresa de ônibus para saber se ela tinha pego o ônibus,
04:32porque ela tinha o cartão da passagem, o cartão de passos de ônibus,
04:39e eu fui lá pedir um relatório para saber que horas que ela pegou o ônibus.
04:44Aí eu descobri que ela não pegou o ônibus, que ela não entrou no ônibus.
04:48E a linha que fazia esse... o ônibus que fazia essa linha, de casa, de onde eu morava, até a
04:57empresa,
04:57era uma única linha.
04:58Então, assim, eram poucos ônibus.
05:02E os motoristas eram, geralmente, os profissionais os mesmos.
05:05Então, inclusive, era o mesmo que pegava de manhã a minha filha e que depois pegava eu à tarde.
05:11E aí, quando eu cheguei lá, eu, inclusive, conversei com o motorista.
05:16E ele falou assim, eu até estranhei ela não estar no ônibus,
05:19porque quando vai chegando perto do ponto, eu sempre vou diminuindo,
05:22porque eu sei que ela está já para atravessar a rua para pegar o ônibus.
05:26Com essa informação, eu fui... voltei ali para a região do Alphaville,
05:31porque depois da ponte ali do Alphaville, tudo ali é monitorado, né?
05:35Eu fui... eu mapeei todas as câmeras de segurança.
05:41Mapeei todas elas com numeração, com tudo.
05:44E aí, depois de ter feito tudo isso, eu fui na empresa da monitoração.
05:51E eu pedi para ver.
05:53E lá, eles abriram as imagens para mim desde as 5 da manhã.
05:58Ou seja, às 5 da manhã, ela ainda estava em casa.
06:00Então, eu vi todas as imagens, das 5 da manhã até as 6 e meia.
06:06Meia hora após ela ter entrado no trabalho, que seria umas 6 da manhã.
06:10E a minha filha não chegou nem a circular pelaquela região ali da Alphaville.
06:15Então, ou seja, essas informações, eu tinha todas elas na minha mão
06:22quando eu, às 18 horas, entrei na delegacia para fazer o boletim de ocorrência.
06:27E o delegado falou assim para mim.
06:29Bom, dona Santa, 90% do trabalho que a polícia deveria fazer,
06:35a senhora já trouxe pronto.
06:38Eu confesso para você que eu respirei aliviado.
06:41Falei, bom, então, assim, se numa totalidade de 100%,
06:44falta 10% aí, mais dias, menos dias,
06:46a polícia vai fazer o trabalho dela e eu vou ter uma resposta da minha filha.
06:5116 anos se passam.
06:53Ou eu sou muito competente ou a polícia é muito incompetente.
06:56Como é possível esperar pela volta de um filho mais de 30 anos depois de seu desaparecimento?
07:04Ivanise Esperidião da Silva Santos é um exemplo de luta incansável
07:09durante a espera por sua filha, Fabiana Esperidião da Silva.
07:17Bom, a minha luta começou no dia 23 de dezembro de 1995,
07:23quando a minha filha Fabiana Esperidião da Silva
07:26saiu de casa por volta das 8 horas da noite,
07:31acompanhada de uma coleguinha de escola,
07:34e foram dar um abraço de feliz aniversário na terceira colega.
07:41não tinha festa.
07:43Não tinha festa, elas foram só dar um abraço de feliz aniversário.
07:47E quando ela saiu, eu não estava em casa.
07:50Eu havia saído, que era a antivéspera de Natal,
07:54e eu tinha combinado com a minha cabeleireira para arrumar o meu cabelo.
07:59E aí, elas foram até a casa da colega,
08:03deram um abraço de feliz aniversário na amiga e voltaram.
08:08No caminho, elas se separaram,
08:12cada uma seguiu em direção à sua casa.
08:16E quando eu cheguei em casa,
08:21eu perguntei para a minha outra filha,
08:23cadê a Fabiana?
08:25Logo que eu cheguei, começou aquela chuva.
08:27Ela disse assim, mãe, ela foi na casa da Luciana,
08:30foi na casa da Damares com a Luciana,
08:33mas ela já volta.
08:35E aí, começou aquela chuva torrencial,
08:40aquelas temporais de verão,
08:44e a chuva demorou umas duas horas ou mais.
08:49Quando a chuva passou um pouco,
08:53eu peguei um guarda-chuva, chamei a minha outra filha,
08:57e fui até a casa da menina que foi com ela.
09:01Quando eu cheguei lá, eu bati palma e falei para ela,
09:05eu vim buscar a Fabiana.
09:07Ela disse para mim, tia, a Fabiana já foi embora faz tempo.
09:11Falei, como se ela não chegou em casa?
09:14Foi quando ela disse para mim,
09:16nós nos separamos em frente ao supermercado.
09:20E aí, logo em seguida,
09:24acho que uns 10 minutos depois,
09:27chegou a menina, a mãe e a irmã,
09:30para saber se ela tinha chegado.
09:33E as horas foram passando,
09:36e aí você começa a perceber
09:39que alguma coisa de muito grave aconteceu.
09:46Já era por volta de umas duas horas da manhã,
09:49quando eu acordei o pai dela,
09:51que até então ele não sabia,
09:52ele estava dormindo.
09:54Eu acordei ele e falei para ele,
09:57nós temos que ir na delegacia,
09:59a Fabiana desapareceu.
10:03E eu lembro que a primeira coisa
10:06que eu ouvi do pai da minha filha,
10:09ele disse para mim que a culpa era minha.
10:15Que eu, naquele ano,
10:17eu voltei a estudar,
10:19eu tinha acabado de ingressar
10:21numa universidade,
10:24e eu tinha voltado a trabalhar.
10:26Eu esperei minhas filhas crescerem,
10:28para me retomar os meus estudos,
10:30e trabalhar,
10:33porque eu queria fazer uma faculdade.
10:36E aí eu disse para ele
10:37que não era a hora,
10:39nem o momento,
10:40de apontar quem era o culpado
10:45naquele momento.
10:46Falei, se eu tivesse que culpar alguém,
10:48eu culparia você,
10:49porque você estava em casa
10:51na hora que ela saiu,
10:53e você deixou ela sair.
10:56E fomos até a delegacia,
10:58que não ficava muito longe
11:00de onde nós morávamos,
11:02que é o 87 DP.
11:05Quando eu cheguei lá,
11:06o delegado falou para mim assim,
11:08muito calmamente,
11:11volto para casa, mãe.
11:13Isso é coisa de adolescente.
11:15até o dia amanhecer,
11:17a sua filha já voltou para casa.
11:21Aí eu saí daquela delegacia
11:23e dei continuidade
11:25nos hospitais da região
11:28e nas delegacias,
11:30para saber se tinha dado entrada
11:32alguma ocorrência de atropelamento,
11:36de violência física.
11:39E aí o dia foi amanhecendo,
11:42já era dia 24,
11:43o dia foi amanhecendo,
11:45e eu fui perguntando
11:46para outras pessoas.
11:48E as pessoas falavam
11:49que não tinha visto.
11:52E por volta de umas 10h30 da manhã,
11:54eu voltei na delegacia.
11:57Eu estava de plantão,
11:58era uma delegada,
11:59e aí ela disse para mim,
12:01assim,
12:02de uma forma bem grosseira,
12:05você não sabe
12:06que tem que esperar 24 horas?
12:09Aí eu falei para a doutora,
12:12eu já ouvi esse argumento
12:14essa madrugada.
12:16E eu só saio daqui
12:17quando a senhora minha tem bem.
12:19E eu lembro que eu cheguei
12:20num distrito policial
12:23e um policial falou para mim assim,
12:25mãe, você já foi no IML?
12:27Falei, fazer o que no IML?
12:29moço.
12:31Aí ele falou,
12:32vá ao IML,
12:33porque o IML é o último lugar
12:36que a família vai procurar
12:38o seu desaparecido.
12:39E muitas vezes,
12:41quando a família chega lá,
12:43o seu desaparecido já foi
12:46enterrado como indigente.
12:49E aí um dia,
12:51uma colega minha de faculdade
12:53me ligou
12:54e me passou o telefone
12:56de uma organização
12:58que tinha no Rio
12:59que trabalhava com todo tipo
13:01de violação de direitos
13:03da criança e do adolescente.
13:05E eu liguei
13:07naquela organização
13:09e cadastrei minha filha.
13:10eles falaram para mim
13:13mandar uma correspondência
13:15com fotos,
13:17uma cópia do boletim de ocorrência
13:19e fizesse um breve relato
13:22de como ocorreu o desaparecimento dela
13:25e deixasse um telefone de contato.
13:28e aí eu,
13:29no dia seguinte,
13:31já providenciei tudo isso
13:33e mandei,
13:36coloquei no correio
13:37para o Rio.
13:39E aí eles ligavam
13:40uma vez,
13:41duas vezes na semana
13:42para saber se tinha
13:44informação dela.
13:47E passando
13:48umas três semanas,
13:50eles me ligaram
13:52me chamando,
13:54falando que a escritora
13:55Glória Pérez ia colocar
13:57dentro da novela
13:58Explode Coração,
14:00depoimentos de mães
14:01que estavam procurando
14:03por seus filhos desaparecidos.
14:05Se eu queria
14:07participar da novela.
14:10E eu agarrei
14:11aquela oportunidade
14:12com unhas e dentes.
14:14Era eu que investigava,
14:16não era a polícia,
14:16era eu.
14:19Eu infernizava
14:20a vida daqueles dois
14:22investigadores
14:23que eram responsáveis
14:25pelos desaparecimentos
14:27da minha filha.
14:28Eu sabia os dias
14:29que eles estavam
14:30de plantão,
14:32quando eu não ia lá
14:33eu ligava.
14:34E eu falava
14:35para eles,
14:36se eu tivesse dinheiro,
14:38vocês encontravam
14:40a minha filha,
14:40vocês não encontraram
14:41a minha filha até agora
14:42porque eu não tenho dinheiro.
14:45E aí eu fiz um desabafo
14:47naquela oportunidade.
14:52até de uma forma irresponsável,
14:57eu falei que se alguém
14:58estivesse passando
15:00pela mesma situação
15:01que eu,
15:02porque eu não conhecia ninguém,
15:05quem quisesse me ligar,
15:07deixei um telefone
15:08à disposição.
15:09Um telefone que nem era meu.
15:11Era uma extensão do telefone
15:13da dona da casa
15:13que eu morava.
15:15E para a minha surpresa,
15:19no dia seguinte,
15:20eu acordei com o telefone
15:22tocando por volta
15:23de umas oito horas.
15:24Era mãe,
15:26era pai,
15:27era produção de rádio,
15:29de TV,
15:30de jornal.
15:31E você como jornalista,
15:33você trabalha com factual.
15:37E naquele momento
15:39nós éramos factual.
15:41E as pessoas perguntavam
15:43para mim
15:43onde e quando
15:46me encontrar.
15:48E nos anos 90,
15:50a Praça da Sé
15:52era o palco
15:53das grandes manifestações
15:55da sociedade civil.
15:58Era lá que aconteciam
15:59os grandes protestos
16:01e manifestações.
16:03E aí eu marquei
16:04de me encontrar
16:05com aquelas pessoas
16:07do próximo domingo,
16:10nas escadarias
16:11da Catedral da Sé.
16:13E no dia 31 de março
16:16de 96,
16:18quando eu cheguei
16:19na Praça da Sé,
16:21por volta das nove horas
16:23da manhã,
16:24já tinha mais de
16:25cem pessoas ali.
16:28Era mãe de criança,
16:31mãe de adulto,
16:32tinha mãe que veio
16:34que vieram
16:35de várias cidades
16:36do interior,
16:37mães que vieram
16:38de Bauru,
16:39São José,
16:40de várias cidades
16:42do interior
16:43vieram.
16:44E eu fiquei, assim,
16:47muito chocada,
16:49porque eu não sabia
16:50que São Paulo
16:51tinha tanta gente
16:53desaparecida.
16:54E todas as matérias
16:56que saíram
16:57falando sobre
16:59o nascimento
17:00daquele movimento
17:02se referia como
17:04nasceu em São Paulo
17:05um movimento
17:06de mães
17:07que procuram
17:07por seus filhos
17:08desaparecidos,
17:09as mães da Sé,
17:11pelo fato
17:12de estarmos
17:13na Praça da Sé.
17:15E assim,
17:17eu transformei,
17:18a partir daquele dia,
17:20a minha dor
17:21numa luta.
17:22Não só pela minha filha,
17:24mas por todas
17:25aquelas pessoas
17:26que ali estavam,
17:27buscando
17:30o seu último
17:32fio de esperança.
17:35Já se passaram
17:3630 anos
17:37e eu ainda
17:39não encontrei
17:40minha filha.
17:43Mas
17:44eu tenho aprendido
17:45muito
17:46com essas mulheres.
17:49Elas fazem parte
17:50da minha vida,
17:51da minha história.
17:53foi com elas
17:55que eu aprendi
17:56a dividir.
17:58Porque quando você
17:59compartilha
17:59da mesma dor
18:00com outra pessoa
18:01que está
18:02na mesma situação
18:03que você,
18:05a impressão
18:06que dá
18:07é que a sua dor
18:08fica mais amena.
18:11E assim,
18:12eu tenho
18:15sobrevivido
18:15ao longo
18:16dessas três décadas.
18:18Tchau, tchau.
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