00:00Volto a falar sobre a crise, o preço do petróleo no mercado internacional disparou 42% desde o começo da
00:07guerra no Oriente Médio.
00:08Aqui no Brasil, o governo anunciou medidas para evitar a alta dos combustíveis, mas o diesel sofre uma nova alta
00:14com a decisão da Petrobras desta sexta-feira.
00:17O nosso entrevistado agora é o economista Gilberto Braga, professor do IBMEC do Rio de Janeiro, sempre com muita gentileza,
00:23atendendo a Jovem Pan.
00:24Tudo bem, professor? Como vai? Boa noite.
00:26Boa noite, Thiago. Boa noite a todo mundo que está com a gente, né, Jovem Pan?
00:30Bom, professor, eu queria perguntar o seguinte. Nessa semana, a Agência de Energia Atômica chegou a projetar que, com essa
00:39guerra no Oriente Médio,
00:41o mundo pode viver, talvez, o maior choque do petróleo da história. A gente evoca os anos 70, os dois
00:47choques dos anos 70.
00:49Pessoalmente, o senhor que estuda, obviamente, lida com esse assunto todos os dias também com seus alunos.
00:54O senhor acha que isso é possível ou ainda é necessário esperar para saber o desenrolar dessa guerra, professor?
01:02Olha, eu preciso esperar um pouco mais, Thiago. Na verdade, a crise do petróleo dos anos 70, do fim do
01:08século passado,
01:10ela foi uma crise de escassez. Se chegou à conclusão que o produto era finito e que o uso indiscriminado,
01:19em algum momento, fazendo a curva do que se conhecia naquele momento de fonte de produção e o uso que
01:27se tinha do petróleo,
01:28ele acabaria em poucos anos. Então, a partir daí, se formou a OPEP, se começou a controlar os volumes de
01:36extração e produção
01:38e com o passar do tempo. Isso também fez com que novos investimentos fossem feitos e novos produtores surgissem.
01:47O próprio Brasil é um exemplo disso. Passou a ter hoje um papel importante que não tinha há 60 anos,
01:5470 anos atrás.
01:55A crise de agora é diferente. Ela não é de falta de produto. Ela é de falta de condições de
02:04escoamento.
02:05Então, o que a gente observa é que os países árabes já tinham uma logística definida.
02:12Essa logística implicava em você extrair o petróleo, em alguns casos até refinar, e exportar o petróleo, portanto escoar.
02:21E com o fechamento e essas dificuldades de navegação no Estreito de Urmes, o que nós temos é que eles
02:28não têm condições de produzir,
02:30porque não escoando não tem mais como estocar aquilo que estão produzindo.
02:35Então, eles ficam com esse gargalo.
02:39Então, a gente não pode dizer que teremos um novo choque nos mesmos moldes que tivemos no século passado.
02:46Agora, certamente, temos uma questão importante, uma questão nova, que envolve, além da economia geopolítica,
02:55e que, portanto, ultrapassa a economia.
02:58Temos uma guerra instaurada do lado das principais fontes produtoras e exportadoras de petróleo do mundo.
03:06Isso precisa ser resolvido e não se tem hoje uma perspectiva de prazo para essa resolução.
03:12Professor, quero trazer a Priscila Silveira, nossa comentarista, para fazer a próxima pergunta.
03:17Priscila?
03:18Boa noite, Gilberto. Satisfação falar contigo.
03:21Na sua opinião, o senhor acha que pode reverberar uma crise numa inflação global, essa guerra?
03:26E uma outra coisa, será que o nosso país será afetado quanto ao transporte, ao frete, aos alimentos?
03:33Será que atinge de sobremaneira o Brasil?
03:37Bom, primeiro a gente tem que responder por partes, Priscila.
03:41Sua pergunta é excelente.
03:43O que nós temos, primeiro, é que essa inflação global vai, de fato, acontecer.
03:49Ela já começa a afetar várias economias, tanto que os países mais ricos
03:55já estão liberando os seus chamados estoques emergenciais ou estoques de reservas
04:00para, justamente, tentar amenizar esses efeitos.
04:03O petróleo é matéria-prima para tudo ainda no mundo, apesar de todos os avanços,
04:08de todas as transformações, de todas as fontes energéticas alternativas.
04:13O petróleo está presente não apenas como combustível, mas como insumo direto
04:18em todas as cadeias industriais e de serviços no mundo.
04:22Então, é inevitável que isso tenha um choque de preços.
04:26Do ponto de vista brasileiro, sendo diretamente aquilo que você engalou,
04:32nós teremos esse impacto aqui.
04:34É importante entender que essa medida que o governo adotou no fim dessa semana
04:38para tentar amenizar os efeitos, ela tem uma capacidade limitada e no sentido temporário.
04:47É fácil entender isso.
04:48A Petrobras, ela produz e exporta 60%, ela produz 60% do petróleo,
04:5640% do petróleo e 60% é produzido pelas demais empresas privadas.
05:01O petróleo, ele é algo que é extremamente controlado, não é um produto de varejo,
05:06é um produto trabalhado em grandes volumes, em grandes navios,
05:12é tudo volumes bastante expressivos.
05:14Então, a ANP, por exemplo, ela controla a vazão dos poços,
05:18ela sabe qual é a produção média de cada uma das empresas nos poços que produz,
05:23e isso é comercializado em volumes com uma certa antecedência,
05:29pelo menos uma parte disso são fechados os contratos.
05:32Então, quando o governo sobretaxa a exportação,
05:35o produto, ele não é como batata frita industrializada,
05:39que é colhido num dia e no dia seguinte está na prateleira do supermercado.
05:43Ou seja, ele vai ser vendido, o petróleo, pelos contratos que já estão apalavrados
05:48e as empresas brasileiras vão pagar o preço dessa sobretaxa
05:52que vão ter que honrar os contratos de exportação.
05:55Ou seja, tributar na fonte o petróleo produzido, que vai ser exportado,
06:01porque já estava apalavrado e contratado,
06:03não vai fazer com que ele deixe de ser vendido para o seu comprador no exterior
06:08e apareça amanhã, por exemplo, na bomba de combustível na forma de gasolina ou de diesel.
06:15Isso é uma ilusão, é uma falta de compreensão de como o mercado funciona.
06:19Agora, zerar o PIS e a COFINS e esperar que os estados zerem o ICMS,
06:25isso tem um efeito inicial positivo,
06:29porém, isso não resolve a questão estrutural,
06:31porque enquanto os preços estiverem voláteis,
06:35a gente não sabe o que vai acontecer.
06:37O que se sabe é que existe uma defasagem,
06:40essa defasagem é de 48% na gasolina e de 78% no diesel
06:46e agora começa a ser amenizado com esses reajustes
06:49que estão sendo praticados na venda do produto no mercado interno.
06:53Pois é, professor, eu queria perguntar para o senhor justamente,
06:55o governo faz um anúncio num dia e no dia seguinte a Petrobras fala em aumento do diesel.
07:00Não é algo incoerente ou não?
07:05Na verdade, a questão do diesel é uma defasagem absurda.
07:11Ele já estava há muito tempo atrasado, vamos dizer assim,
07:15era um preço que você tem um risco de falta de produto no mercado brasileiro.
07:21Por quê? Se a Petrobras não é capaz sozinha de abastecer o mercado brasileiro
07:27e boa parte do diesel é importado por outras petroleiras,
07:32o que acaba acontecendo é que quando você não consegue repassar no preço interno
07:37por conta da interferência da Petrobras o preço real do diesel,
07:41do que ele está custando no exterior, da cotação do barril do petróleo, do produto,
07:47o que acaba acontecendo é que essas empresas elas deixam de importar.
07:51Então o mercado ele fica com uma limitação de oferta.
07:56Então era necessário esse reajuste de preço e o que o governo fez foi tentar amenizar o efeito disso
08:03na inflação, primeiro tirando a carga tributária dos tributos federais, do PIS e da COFIS
08:10e no dia seguinte zerando este peito praticamente, fazendo o reajuste na refinaria.
08:17Priscila, mais uma pergunta para o professor?
08:20Sim, professor Gilberto, o senhor acha, por exemplo, que se continuar subindo esse petróleo
08:26pode afetar o Banco Central e ele ter que elevar de alguma forma a taxa de juros?
08:32Olha, a expectativa nesse primeiro momento, até por conta de todo o discurso que já se fez,
08:37por conta de ser um homem eleitoral, da aprovação ruim nas pesquisas do governo atual,
08:43do presidente da república, é de que seja mantida a ideia de que a SELIC vai ser reduzida agora
08:50nas reuniões do dia 17 e 18 de março.
08:53Obviamente que esse é um recado de momento, é um recado que está contratado,
09:00se discute se vai cair 0,25 ou 0,50 pontos percentuais,
09:07mas pode ser que se a guerra continuar, se a volatilidade do preço do petróleo
09:13permanecer no sentido de incremento, ainda que oscilando para cima e para baixo,
09:19mas no médio e longo prazo com uma tendência de aumento.
09:22Aí pode ser que nós tenhamos não só a interrupção do ciclo de queda da taxa básica
09:29e até mesmo a possibilidade da necessidade de subir os juros novamente para conter a inflação
09:35em função desse efeito na economia de uma forma macroeconômica.
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