00:00E já chegou a hora da coluna de hoje Olhar Espacial.
00:04E ele, Marcelo Zurita, nos conta a história de Andréa Aguês,
00:09a mulher que enxergou o que era invisível aos olhos humanos.
00:14Então, vamos com ele, Marcelo Zurita.
00:26Olá, pessoal! Saudações astronômicas.
00:29A astronomia existe porque a luz das estrelas despertou a curiosidade dos nossos ancestrais mais remotos.
00:35Por milênios, ampliamos o nosso conhecimento sobre o universo observando o brilho de estrelas, nebulosas e galáxias.
00:41Mas alguns dos objetos mais fascinantes do cosmos são justamente aqueles que não emitem absolutamente nenhuma luz.
00:49Buracos negros estão entre os fenômenos mais extremos previstos pela física,
00:53regiões onde a gravidade se torna tão intensa que nada, nem mesmo a luz, consegue escapar.
00:59Durante muito tempo, eles foram considerados quase entidades teóricas, inferidos principalmente por cálculos.
01:05Torná-los observáveis exigiu uma combinação rara de paciência, genialidade e coragem científica.
01:12Foi exatamente esse desafio que guiou a carreira de Andréa Aguês,
01:16a astrônoma que dedicou décadas da sua vida para encontrar algo que, por definição, não pode ser visto.
01:22O buraco negro supermassivo no centro da nossa galáxia.
01:25Guess nasceu em 1965 em Nova Iorque e, desde jovem, demonstrou fascínio pelo espaço.
01:31O auge das missões do programa Apollo inspirou aquela menina que sonhava em ser astronauta.
01:36Sua mãe incentivou essa curiosidade, comprando-lhe um telescópio.
01:40E o interesse pelo céu acabou se transformando em uma carreira científica.
01:44Durante sua formação acadêmica, primeiro no MIT e depois no doutorado no Caltech,
01:49ela passou a se interessar por um dos maiores mistérios da astrofísica,
01:53os buracos negros gigantes que poderiam existir no centro das galáxias.
01:58Desde meados do século XX, os astrônomos já suspeitavam que muitas galáxias poderiam abrigar esses objetos colossais.
02:05No caso da nossa própria galáxia, havia uma fonte compacta de rádio localizada na direção da constelação de Sagitário,
02:12conhecida como Sagitários A-Estrela.
02:14As evidências eram intrigantes, mas havia um problema fundamental.
02:18Como comprovar a existência de algo que não pode ser observado diretamente?
02:23Buracos negros são objetos extremamente compactos,
02:26onde uma grande quantidade de massa está comprimida em uma região muito pequena no espaço.
02:31Nessas condições, forma-se ao redor dele uma região chamada de Horizonte de Eventos,
02:35além da qual nada pode escapar.
02:38Como consequência, eles não refletem nem emitem luz.
02:41A única maneira de detectá-los é observar os seus efeitos gravitacionais sobre o ambiente ao seu redor,
02:48afetando a órbita de estrelas próximas.
02:50Só que medir isso não é nada simples.
02:52O centro da Via Láctea está escondido atrás de densas nuvens de poeira interestelar que bloqueiam a luz visível.
02:59Além disso, a região onde essas estrelas se movem é extremamente pequena no céu,
03:04exigindo imagens com altíssima resolução que nossos telescópios não alcançavam.
03:08Superar esses obstáculos foi o desafio que André Guedes decidiu enfrentar.
03:13Para enxergar além da poeira interestelar, era necessário observar no infravermelho,
03:17um tipo de radiação invisível aos olhos, mas capaz de atravessar essas nuvens.
03:22Ainda assim, havia outro obstáculo importante, a atmosfera da Terra.
03:26Até mesmo em nossos melhores telescópios, a turbulência da atmosfera distorce as imagens captadas.
03:32Ou melhor, distorciam.
03:33Utilizando os telescópios gigantes do Observatório Keck, no Havaí, Guedes e sua equipe ajudaram a desenvolver e aplicar técnicas avançadas
03:41de ótica adaptativa.
03:42Esse sistema utiliza espelhos deformáveis que se ajustam centenas de vezes por segundo para compensar as distorções da atmosfera,
03:50permitindo obter imagens muito mais nítidas do céu.
03:53Com essa tecnologia, começou um projeto que exigiria algo raro na ciência moderna.
03:57A ciência é de décadas.
03:59Em vez de fazer observações isoladas, a equipe passou a monitorar continuamente as estrelas próximas ao centro da galáxia.
04:06Ano após ano, registravam suas posições com precisão, construindo um verdadeiro filme do movimento dessas estrelas.
04:13E foi esse filme que revelou a resposta.
04:16Algumas dessas estrelas exibem órbitas extremamente rápidas ao redor de um ponto aparentemente vazio.
04:21Uma delas, a chamada S2, chega a atingir velocidade superior a 7 mil quilômetros por segundo.
04:28Para que uma estrela se mova dessa forma, é necessário que exista uma enorme concentração de massa naquele local,
04:35cerca de 4 milhões de vezes a massa do Sol, comprimida em um volume relativamente pequeno.
04:41Nenhum aglomerado de estrelas ou nuvem de matéria poderia permanecer estável nessas condições.
04:46A única explicação consistente com as leis da física era a presença de um buraco negro supermassivo.
04:52Assim, observando cuidadosamente o movimento de estrelas, Andréa Gués conseguiu demonstrar empiricamente
04:57a existência do monstro cósmico no centro da nossa galáxia.
05:01Não vendo o objeto em si, mas observando a dança gravitacional que ele impõe às estrelas ao seu redor.
05:07Resultados semelhantes foram obtidos de forma independente pela equipe liderada por Reinhard Genzel.
05:12Juntos, esses trabalhos estabeleceram uma das evidências mais sólidas da existência de buracos negros supermassivos.
05:18Em 2020, Gués e Genzel foram laureados com o Nobel em Física por essa descoberta.
05:24E ela se tornou apenas a quarta mulher na história a receber esse prêmio.
05:28Mas o caminho até esse reconhecimento não foi simples.
05:31A astronomia observacional, especialmente nas décadas de 80 e 90, ainda era um ambiente dominado por homens.
05:37Gués frequentemente relata que precisou enfrentar expectativas reduzidas e a falta de modelos femininos na área.
05:43Em vez de aceitar essas limitações, decidiu concentrar sua energia na curiosidade científica que a motivava.
05:50Seu trabalho também ilustra algo fundamental sobre como a ciência realmente funciona.
05:55Grandes descobertas raramente surgem de um único experimento espetacular.
05:59Muitas vezes, elas são construídas lentamente, com medições cuidadosas repetidas ao longo de anos ou décadas.
06:06Graças a esse trabalho, hoje sabemos que praticamente todas as grandes galáxias podem abrigar buracos negros supermassivos em seu centro.
06:14Desempenhando um papel importante na evolução galáctica.
06:17Mas essa compreensão começou com observações detalhadas de um pequeno grupo de estrelas orbitando um ponto invisível no céu.
06:23A trajetória de Andrea Gués mostra que às vezes a ciência precisa da persistência, da coragem e da genialidade de
06:31uma mulher
06:31para enxergar aquilo que é invisível aos olhos.
06:34Mostra ainda que a evolução do conhecimento humano depende dos avanços, não apenas tecnológicos, mas também culturais.
06:41Bons céus a todos, feliz dia das mulheres e até a próxima!
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