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  • há 6 horas
Transcrição
00:00E como hoje é sexta-feira, chegou a hora da coluna Olhar e Espacial.
00:06E Marcelo Zurita nos explica o que afinal existe no espaço?
00:13Pois é, Zurita, eu vi que você está aí nos comentários, então vamos com ele!
00:26Olá pessoal, saudações astronômicas!
00:29Você já se perguntou o que existe lá fora? O que nos separa das estrelas?
00:34Entre o Sol e a Terra, tem alguma coisa no meio?
00:37Nossa intuição grita que sim, afinal crescemos cercados por água, paredes, boletos, nosso cérebro odeia o vazio.
00:44Ele prefere imaginar que sempre há algo preenchendo cada cantinho do universo.
00:49E curiosamente, o espaço sempre esteve diante dos nossos olhos, mas precisamos de milênios até começarmos a entendê-lo de verdade.
00:56E por um tempo, a resposta para essa pergunta parecia óbvia.
01:00Para Aristóteles, o vazio simplesmente não podia existir.
01:04Segundo sua visão, a natureza tinha um verdadeiro horror ao nada, o famoso horror vacui.
01:09O espaço não era uma entidade independente, mas apenas um lugar ocupado pelos copos.
01:15Simples assim.
01:15O universo aristotélico era um sistema fechado, organizado e confortável, onde cada coisa tinha o seu lugar e nada ficava sobrando.
01:24Uma estrutura divina, onde esferas de cristal giravam ao redor da Terra carregando os astros do firmamento.
01:30Para ocupar os espaços entre o nosso mundo e as esferas celestes, Aristóteles introduziu um quinto elemento da natureza.
01:36O éter, diferente da Terra, da água, do ar e do fogo, o éter era perfeito, imutável, divino, preenchendo todo o céu.
01:46Ele não apenas resolvia o desconforto filosófico do vazio, como também dava coerência ao universo.
01:52Durante mais de dois mil anos, essa visão atravessou gerações praticamente sem contestação.
01:58Com o avanço da ciência, o éter ganhou um novo papel.
02:01Quando, no século XIX, Thomas Jung demonstrou que a luz se comportava como uma onda, a pergunta foi inevitável.
02:09Onda em que?
02:10Ondas precisam de um meio para se propagar.
02:12O som precisa do ar, as ondas do mar precisam da água.
02:16Logo, a luz precisava do éter luminífero.
02:19Invisível, onipresente, indetectável, mas absolutamente essencial.
02:24O éter era elegante e resolvia os problemas reais da física clássica e seguia tão divino quanto o sinal de Wi-Fi.
02:32Não podemos ver, mas sentimos seus efeitos.
02:34Ao menos, achávamos que sentíamos.
02:37Até que alguém resolveu medir aquilo que todo mundo achava que não precisava ser medido.
02:42Em 1887, Albert M. Shelson e Edward Morley projetaram um experimento engenhoso para detectar o vento de éter.
02:49Se a Terra se movia através desse meio invisível, a velocidade da luz deveria variar conforme a direção do movimento.
02:56Era uma ideia simples, mas o resultado surpreendeu a todos.
03:00Nada.
03:01Absolutamente nada.
03:02Nenhum sinal do éter.
03:04Nenhuma variação de velocidade da luz.
03:06O silêncio foi ensurdecedor.
03:09O experimento de Michelson Morley se tornou um dos mais importantes da história da ciência.
03:14Ele mostrou que o éter simplesmente não existe e forneceu a primeira grande evidência experimental de que a velocidade da luz é a mesma, independente do movimento do observador ou da fonte de luz.
03:25E foi justamente essa observação que abriu o caminho para uma das maiores revoluções da física.
03:31Poucos anos depois, Albert Einstein levou essa ideia às últimas consequências.
03:35Na relatividade, o espaço deixou de ser apenas um palco passivo, onde o espetáculo cósmico se desenvolve.
03:41Ele passou a ser parte ativa da história.
03:43Espaço e tempo se fundiram em uma única entidade, o espaço-tempo.
03:47A gravidade deixou de ser uma força misteriosa agindo à distância e passou a ser a curvatura desse espaço-tempo causada pela presença de massa e energia.
03:57Como numa cama elástica deformada pelo peso de uma bola de boliche, determinando como as bolinhas de gude planetárias seguirão seus caminhos naturais nessa deformação.
04:07O espaço continuava sendo um nada, mas agora um nada com geometria.
04:12Mas mesmo mudando a nossa forma de entender o universo, Einstein não pôde revelar todos os segredos que se escondem no vazio.
04:19Hoje sabemos que o espaço está longe de ser simples.
04:22No nível mais fundamental, ele é um vácuo quântico fervilhante de flutuações, onde partículas surgem e desaparecem em instantes.
04:30Além disso, algo estranho que chamamos de energia escura parece empurrar o próprio espaço acelerando a expansão do universo.
04:38É um enorme oceano silencioso, onde ondas invisíveis moldam galáxias e definem o destino do cosmos.
04:44E nesse oceano, aparentemente vazio, viajam partículas infinitamente pequenas, mas de fundamental importância para a compreensão do cosmos.
04:53Os fótons. Cada tênue ponto de luz que observamos no céu noturno é composto por fótons que viajaram distâncias inconcebíveis antes de nos alcançar.
05:02Trazendo informações valiosas de estrelas e galáxias distantes no espaço e no tempo.
05:07Olhar para o céu é olhar para o passado.
05:10A luz é a grande testemunha da história cósmica, carregando informações sobre estrelas que talvez nem existam mais.
05:16O espaço é o grande corredor por onde o passado chega até nós.
05:20Talvez o mais impressionante seja perceber o quanto essa ideia mudou nossa relação com o universo.
05:26Saímos do medo do nada para a compreensão de um vazio quântico, estranho e profundamente fascinante.
05:33O espaço não é ausência, é possibilidade.
05:36É o cenário onde tudo acontece, inclusive nós.
05:39Ele continua sendo um mistério e talvez seja exatamente isso que nos faz olhar para cima, noite após noite,
05:46tentando entender o nosso lugar nesse imenso e silencioso nada.
05:50Bons céus a todos e até a próxima.
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