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  • há 5 meses
Transcrição
00:00E por falar em Lua, na coluna Olhar Espacial de hoje, o Marcelo Zureta conta a história de monges ingleses
00:08que podem ter testemunhado há mais de 800 anos o maior impacto lunar já visto pela humanidade.
00:16Vamos com ele, Marcelo Zureta.
00:18Olá, pessoal! Saudações astronômicas!
00:30Na noite de 18 de junho de 1178, Canterbury, na Inglaterra, era uma cidade silenciosa e fria.
00:38O sol havia se posto a pouco e o céu ainda guardava o brilho do crepúsculo.
00:43No pátio de um mosteiro, um grupo de monges descansava após as orações.
00:47Os olhos voltados para o fino crescente da Lua, suspenso no horizonte.
00:52A luz prateada recortava a silhueta das árvores distantes quando, de repente, algo extraordinário aconteceu.
01:00O chifre superior do crescente se dividiu em dois, e do meio dessa divisão surgiu o que só poderia ser descrito como uma tocha flamejante,
01:10cuspindo brasas, fagulhas e labaredas.
01:12Os monges observaram atônitos, enquanto a Lua parecia se contorcer como se estivesse ferida.
01:20Estranho, mas pelo menos cinco monges que presenciaram a cena juraram, sob a honra, que relataram exatamente o que viram, sem exageros.
01:29Aquele, sem dúvidas, seria um dos relatos mais intrigantes da história da observação lunar,
01:36e que só seria explicado 800 anos depois.
01:40O registro chegou até nós graças a Gervas de Canteburi,
01:44cronista do mosteiro que, intrigado com o testemunho dos companheiros,
01:48anotou cada detalhe.
01:50Em sua crônica, ele descreveu o fenômeno com a minúcia que a época permitia,
01:55preservando palavras que atravessariam oito séculos para intrigar cientistas modernos.
02:01Numa tradução livre, Gervas escreveu
02:03Do ponto da divisão, saltou uma tocha ardente, projetando chamas, carvões e faíscas a grande distância.
02:12E que a Lua, como uma cobra ferida, se contorcia antes de retornar ao seu aspecto normal.
02:19Para nós, acostumados com transmissões ao vivo, câmeras exclusivas e uma variedade de instrumentos científicos,
02:26um depoimento surreal como esse pode parecer pouco.
02:30Mas naquela época, mesmo um astrônomo teria dificuldades para descrever aquilo.
02:36Vale lembrar que no século XII, nosso planeta era considerado inviolável e centro do universo.
02:43Não existiam asteroides e a Lua era perfeita,
02:45pois ninguém nunca havia visto sequer uma cratera em sua superfície.
02:50Sem a tecnologia e o conhecimento que temos hoje,
02:53cada registro histórico é como um fóssil,
02:55uma pista rara, frágil e valiosa,
02:58que nos ajuda a compreender os eventos do passado e até mesmo prever os que ocorrerão no futuro.
03:04A astronomia está repleta de histórias onde as anotações detalhadas e registros históricos
03:10foram base para descobertas fundamentais séculos depois.
03:14Foi estudando registros antigos que os babilônios encontraram um ciclo de recorrência de eclipses
03:19a cada 18 anos, o chamado ciclo de Saros.
03:23Da mesma forma, Halley percebeu que um grande cometa reaparecia a cada 76 anos
03:29e com isso acabou desvendando a natureza desses corpos gelados.
03:33E sem Gervase, provavelmente esse estranho fenômeno observado pelos monges de Canterbury
03:38teria desaparecido para sempre,
03:41junto a tantos outros esquecidos por nossos antepassados.
03:45Durante séculos, o relato foi uma curiosidade medieval.
03:48Alguns o viam como uma metáfora religiosa, outros como um erro de interpretação.
03:54Talvez uma nuvem distorcendo a forma da Lua
03:56ou um meteoro em nossa atmosfera, criando uma ilusão de ótica.
04:01A verdade é que, sem evidências, aquele acontecimento seria apenas um lance polêmico
04:06em uma partida cósmica sem VAR.
04:09Foi somente no século XX que o enigma foi finalmente explicado de forma convincente.
04:14O geólogo lunar Jack Hertung decidiu revisitar aquele intrigante depoimento,
04:21mas agora usando o conhecimento moderno sobre impactos cósmicos.
04:25Hertung suspeitava que os monges poderiam ter flagrado
04:29o exato momento em que um grande asteroide teria atingido a Lua.
04:34Cruzando a localização sugerida pelo texto de Gervase,
04:37com fotografias obtidas pelas missões Apolo e Lunar Orbiter,
04:41o geólogo encontrou uma cratera que poderia confirmar a sua tese,
04:45a cratera Giordano Bruno.
04:47Com cerca de 20 quilômetros de diâmetro,
04:50a cratera é cercada por um sistema de raias brilhantes
04:53que se estendem por centenas de quilômetros.
04:56O brilho de suas raias sugere que o material é fresco,
05:00ou seja, que a cratera é muito jovem.
05:04Hertung calculou que o impacto que criou Giordano Bruno
05:06teria sido exatamente o tipo de evento capaz de gerar o espetáculo descrito por Gervase.
05:12Um cone de ejeção bloqueando parte do crescente,
05:15material incandescente refletindo a luz do Sol,
05:19poeira e gases criando distorções que fariam a Lua parecer tremer.
05:23Se Hertung estiver correto,
05:25os monges de Canterbury podem ter testemunhado
05:28um dos raríssimos grandes impactos lunares
05:30numa observação única na história.
05:33Uma conclusão espetacular para uma história fantástica,
05:35onde a ciência desvenda mais um grande mistério da humanidade.
05:40Só que não.
05:41A teoria de Hertung é muito bem fundamentada e parece bastante conclusiva.
05:46Só que em 2008 a sonda japonesa Kaguya
05:48fez uma contagem de pequenas crateras
05:50nas raias do material ejetado da cratera Giordano Bruno.
05:55E com isso, constatou que ela não é tão jovem assim.
05:58A cratera teria cerca de 4 milhões de anos,
06:01quase nada em termos geológicos,
06:03mas uma eternidade comparada aos 800 anos
06:07daquela observação histórica.
06:09E com isso, o problema foi desresolvido,
06:13o mistério revendado,
06:15e o evento relatado pelos monges voltou a ser um enigma.
06:19Há quem diga que o fenômeno poderia ter sido causado
06:21por distorções atmosféricas
06:23ou mesmo por um impacto mais modesto.
06:26Estamos longe de um consenso,
06:28mas quem sabe tenhamos mais uma oportunidade
06:31de esclarecer essa história em breve.
06:33É que em 2032,
06:35um asteroide descoberto no final do ano passado,
06:38o 2024 YR-4,
06:40pode atingir a Lua.
06:42Talvez esse impacto proporcione uma visão espetacular,
06:45semelhante ao que foi observado
06:47há mais de oito séculos.
06:48A probabilidade que isso ocorra ainda é muito baixa,
06:52mas se ocorrer,
06:53será a melhor oportunidade da era moderna
06:55para observar um impacto dessa magnitude
06:58em nosso satélite natural.
07:00Ainda não temos certeza
07:02se os monges de Canterbury
07:03presenciaram o dia em que a Lua foi atingida
07:05por um grande asteroide.
07:07Mas se isso ocorrer em 2032,
07:10não dependeremos apenas de depoimentos criativos
07:12de monges medievais.
07:14Teremos telescópios em todo o mundo
07:16apontado para a Lua,
07:18sondas orbitais capazes de registrar
07:20cada milissegundo
07:21e transmissões ao vivo,
07:22exibindo pela primeira vez
07:24a formação de uma nova cratera
07:27em nosso satélite natural.
07:29E mesmo que isso não ajude a compreender
07:31o que foi visto em 1178,
07:34será literalmente um espetáculo histórico
07:37com direito a VAR.
07:39Bons céus a todos
07:41e até a próxima!
07:43Tchau!
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