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  • há 15 minutos
Transcrição
00:00Na coluna Olhar Espacial de hoje, encerrando as homenagens no Mês das Mulheres,
00:06Marcelo Zurita fala sobre uma das mais prestigiadas astrofísicas do Brasil.
00:13Então, vamos com ele, Marcelo Zurita.
00:25Olá, pessoal! Saudações astronômicas.
00:28Apenas na Via Láctea residem algo entre 200 e 400 bilhões de estrelas.
00:34Cada uma aguarda consigo um registro profundo de bilhões de anos de evolução cósmica.
00:39Algumas preservam pistas sobre as condições do Universo na época de sua formação,
00:43como se fossem páginas de um antigo manuscrito cósmico escrito no idioma da Química.
00:49Ao interpretar essas páginas, os astrônomos conseguem reconstruir como a nossa galáxia nasceu,
00:54evoluiu e adquiriu a sua forma atual.
00:56Entre os cientistas que se destacam a decifrar esse passado está a astrônoma brasileira Beatriz Barbui,
01:03cuja pesquisa ajudou a transformar estrelas em testemunhas confiáveis da formação da Via Láctea,
01:09consolidando o Brasil como uma referência em uma das áreas mais relevantes da astrofísica moderna.
01:14Beatriz Leonor Silveira Barbui nasceu em São Paulo em 1950 à fila de professores.
01:20Quando criança, ela costumava subir de noite nos galhos mais altos de uma árvore para observar as estrelas.
01:26Aos 16 anos, ela leu um livro que mudou a sua vida.
01:29O 123 Infinito, do físico russo George Gamow, lhe deu a convicção de que ela queria se tornar astrônoma.
01:36Por isso, ela cursou física na USP, concluindo o bacharelado em 1972.
01:41Em 76, tornou-se mestre em astronomia pelo IAG da USP e resolveu voar mais alto.
01:47Mudou-se para a França, onde obteve seu doutorado em ciências físicas pela Universidade de Paris em 1982.
01:55No mesmo ano, ela retornou para o Brasil, onde se tornou professora e pesquisadora pelo IAG.
02:00A trajetória científica de Beatriz se desenvolveu num período em que a presença feminina nas ciências exatas era muito menor
02:07do que hoje.
02:08Durante grande parte do século XX, a astronomia profissional ainda era um ambiente predominantemente masculino,
02:14onde as mulheres eram subestimadas e até desprezadas.
02:17Mesmo diante dessas barreiras culturais, Beatriz construiu uma carreira internacionalmente reconhecida,
02:23contribuindo para consolidar a participação brasileira em pesquisas de ponta sobre a evolução galáctica.
02:29Um dos principais focos de sua pesquisa está no estudo das chamadas populações estelares,
02:34conjuntos de estrelas que compartilham características físicas e químicas semelhantes.
02:39Esses grupos funcionam como fósseis cósmicos que preservam informações sobre a condição do universo no momento em que se formaram.
02:46Sabemos que o Big Bang formou primordialmente os elementos mais leves, principalmente hidrogênio e hélio.
02:53Todos os outros elementos foram forjados no interior de estrelas pelo processo de fusão nuclear.
02:58Dessa forma, ao analisar a composição química das estrelas,
03:02os astrônomos conseguem identificar quais elementos estavam presentes em diferentes épocas da história galáctica.
03:08Para conhecer a química das estrelas, Beatriz utilizou uma técnica chamada espectrometria,
03:13que permite decompor a luz de uma estrela em diferentes comprimentos de onda.
03:17Cada elemento químico deixa uma espécie de assinatura no espectro da estrela,
03:21produzindo padrões únicos como um código de barras cósmico.
03:24E como estrelas mais antigas são também as de baixa massa e menos brilhantes,
03:29esse tipo de investigação exige observações com grandes telescópios
03:33capazes de coletar luz suficiente de estrelas muito distantes e muito antigas.
03:37Por isso, as pesquisas lideradas por Beatriz Barbui envolvem operação e desenvolvimento
03:42de instrumentos cada vez mais modernos para alguns dos maiores telescópios do planeta,
03:47como o Gemini e o SOAR,
03:49além de coordenar a construção do espectrofotógrafo que será instalado no maior telescópio do mundo,
03:54o Extremely Large Telescope, no Chile.
03:57O trabalho de Beatriz teve especial impacto no estudo do Bojo Galáctico,
04:01região central da Via Láctea, onde se encontram as estrelas mais antigas conhecidas.
04:05Uma região que era difícil de investigar devido à grande quantidade de poeira interestelar
04:10bloqueando parte da luz visível.
04:12Mas com o avanço de detectores sensíveis ao infravermelho
04:15e o acesso a telescópios cada vez mais sofisticados,
04:19foi possível observar as estrelas por trás dessa poeira.
04:22Com isso, foi possível identificar e estudar algumas formadas há mais de 12,5 bilhões de anos,
04:28quase tão antigas quanto o Universo.
04:30Os resultados ajudaram a refinar modelos de formação galáctica
04:34indicando que o Bojo da Via Láctea pode ter se formado de maneira mais complexa
04:39do que se imaginava anteriormente.
04:40E foi dessa forma, localizando e estudando as estrelas mais antigas da nossa galáxia,
04:46que Beatriz Barbui construiu uma carreira científica de sucesso
04:49em uma das áreas mais proeminentes da astrofísica.
04:52Ela tem mais de 200 artigos publicados em revistas científicas internacionais
04:56que foram citados em milhares de trabalhos de outros pesquisadores.
05:00Conquistou reconhecimento e premiações nacionais e internacionais,
05:05abrindo caminho para que ela alcançasse posições de lideranças em diversas instituições científicas.
05:10Entre outras, Beatriz foi presidente da Sociedade Astronômica Brasileira,
05:15representante brasileira no Projeto Gemini,
05:17vice-presidente da Sociedade Astronômica Internacional
05:20e vice-diretora do Instituto de Geofísica e Ciências Atmosféricas na USP.
05:25Além de sua contribuição científica, a trajetória de Beatriz Barbui também evidencia
05:29transformações importantes no ambiente acadêmico.
05:32Nas últimas décadas, houve uma evolução significativa
05:35tanto na qualidade da pesquisa astronômica realizada no Brasil,
05:38quanto na participação feminina nesse campo,
05:41embora ainda existam desafios relacionados à representatividade
05:44e às oportunidades de liderança científica.
05:47O reconhecimento internacional de Beatriz demonstra que a excelência científica
05:51não é determinada pelo gênero, e sim pela combinação de curiosidade,
05:55rigor metodológico e determinação.
05:58A história da Via Láctea ainda está sendo decifrada
06:01e cada estrela analisada amplia o nosso entendimento sobre o passado do Universo.
06:06Novos telescópios e instrumentos cada vez mais precisos
06:09permitem investigar a composição química e a estrutura de estrelas
06:12com um nível de detalhes antes inimaginável,
06:15refinando os modelos que explicam como nossa galáxia se formou e evoluiu.
06:19O trabalho de Beatriz ajudou a consolidar esse campo de pesquisa
06:23e abriu caminho para novas gerações de cientistas
06:26que continuam o aprofundamento a essas questões fundamentais.
06:30E no fim, aquelas mesmas estrelas que se encantavam
06:33com a pequena menina no alto das árvores
06:35ajudaram a transformar Beatriz Barbui
06:37em uma das maiores e mais influentes astrofísicas brasileiras da nossa época.
06:43Bons céus a todos e até a próxima!
06:46Que bacana, Marcelo Zurieta, fechando com chave de ouro esse mês
06:52em homenagem às mulheres, grandes mulheres e suas conquistas.
06:57Muito obrigada por toda essa informação, Marcelo Zurieta.
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