00:00Alessandro Visacro, analista de segurança e defesa que atende o Jornal da Manhã.
00:05Alessandro, você dizia, quando a gente interrompeu em virtude do áudio,
00:09que o fechamento do espaço aéreo é uma medida padrão nesses momentos para a segurança, é isso?
00:16Exatamente, tanto para oferecer liberdade de ação para as operações militares
00:20dentro desse volume espacial, como também para prover segurança aos voos civis.
00:29Quando os Estados Unidos fazem uma ação como essa, eles também se expõem a ações terroristas, né?
00:36Como é que funciona isso? Toda a segurança americana também é reforçada num momento como esse?
00:44Sem dúvida alguma. A gente precisa entender que os Estados Unidos, assim como Israel,
00:49estão tendo um desafio que é atacar o regime iraniano e não o país iran.
00:58Isso é a arquitetura do objetivo político norte-americano.
01:03E, ao longo das décadas, desde a Revolução Iraniana de 79,
01:09o Irã tem sido obrigado a adotar abordagens estratégicas bastante flexíveis, bastante ecléticas.
01:18Porque, se a gente pensar, desde 79 para cá, é um país que praticamente viveu sob pressão diplomática,
01:26sob embargo econômico.
01:29Então, ele foi construindo essas alternativas estratégicas.
01:33E um dos pilares dessas estratégias alternativas iranianas tem sido o uso de terceiros,
01:43aquilo que é chamado de proxy warfare, ou guerra por procuração.
01:47Então, esses proxys, o Irã é profícuo nesses proxys.
01:53Como, por exemplo, a milícia Houth no Iêmen, o Qatar e o Hezbollah no Iraque.
02:02E a principal organização que é tida como um proxy iraniano é o Hezbollah libanês.
02:10Até há motivo pelo qual, junto com a ofensiva nos céus iranianos,
02:15Israel também atacou o sul do Líbano, justamente para degradar ainda mais
02:19a capacidade desse aliado incondicional de Teheran, que é o Hezbollah.
02:24Então, essas organizações terroristas, elas se dispõem de redes transnacionais
02:30de alcance global, inclusive na América Latina, inclusive na presença significativa
02:36na América do Sul, e que pode ser, sim, uma opção estratégica, dependendo do contexto.
02:43Fazer uso dessas organizações com as suas capacidades operacionais
02:47para realizar ataques a alvos israelenses e a alvos norte-americanos, sem sombra de dúvida.
02:55Agora, Alessandro, você citou a questão da segurança de um modo geral
03:02e a guerra contra um regime, não exatamente contra o povo ou contra um país.
03:08É possível fazer essa distinção?
03:11É possível ter um ataque cirúrgico num momento como esse e sem ter efeitos colaterais?
03:17E eu pergunto isso porque a gente já teve a informação de que uma escola foi atingida,
03:21de que várias meninas, cerca de 40 ou 50, os números ainda são imprecisos,
03:26teriam morrido nesse tipo de ação.
03:28E muitas vezes a gente vê um conflito e se diz, o ataque foi cirúrgico.
03:32É possível isso, Alessandro?
03:36O dano colateral, ele é inerente às operações militares.
03:40Existe um esforço muito grande no processo de planejamento, no processo decisório,
03:47no processo de execução, no controle e avaliação dos danos,
03:51de mitigar os riscos de danos colaterais.
03:55Isso é importante, sobretudo, no contexto iraniano,
03:58em que tanto os Estados Unidos quanto o Israel,
04:01vamos lembrar que vamos destacar dois momentos importantes,
04:05não só esse agora, mas no segundo semestre do ano passado,
04:09quando ambos os países realizaram um ataque combinado
04:12contra a infraestrutura nuclear iraniana,
04:16eles procuram enfatizar de forma muito clara,
04:21para fins políticos,
04:23que o objetivo dos ataques é o regime,
04:27não é o país, não é o povo iraniano.
04:29Nesse momento, neste momento, é ainda mais importante,
04:34porque esses ataques, eles vêm conjugados com uma onda de protestos,
04:42uma onda de protestos muito significativa,
04:45que causou, sim, repercussões sérias no regime teocrático de Teherã,
04:52e que foi seguida de uma repressão brutal.
04:57Esses ataques, eles visam, justamente, reforçar essa ideia.
05:03Então, não é só aquilo que é, entre aspas, estratégia de decapitação,
05:07ou seja, eliminar os líderes do regime,
05:12o próprio Ali Khamenei, que foi veiculada,
05:15possivelmente teria sido eliminado,
05:18mas a gente volta àquela ideia da resiliência do regime de Teherã.
05:23Então, desde 79, é um regime que tem enfrentado...
05:28Foi um regime que, em 79, teve a Revolução Islâmica,
05:31ascendeu ao poder de 80 a 88,
05:33travou uma guerra muito brutal com o Iraque,
05:36não é isso?
05:36Enfim, é um regime que tem sempre sobre coerção econômica,
05:41sobre pressão diplomática,
05:43enfim.
05:44Então, os Estados Unidos e Israel têm como objetivo político uma mudança de regime
05:51e como objetivo estratégico militar a degradação da capacidade militar de Teherã,
05:57que se apoia, sobretudo, em dois pilares.
06:00O primeiro é a sua estrutura, sua capacidade, sua força de mísseis e foguetes,
06:06que é muito significativa.
06:08E nas primeiras horas desse conflito, da intensificação desse conflito,
06:14a gente já pode ver alguns alvos sendo atacados por esses mísseis e foguetes.
06:19E o segundo é o seu programa nuclear.
06:22Então, a gente precisa entender claramente esses dois objetivos,
06:26o objetivo político, o objetivo estratégico militar
06:29e os esforços empreendidos para os Estados Unidos e por Teherã,
06:34perdão, para os Estados Unidos e por Israel,
06:35para essa campanha.
06:38E do ponto de vista econômico, Alessandro,
06:41o que pode acontecer se o Irã, por exemplo,
06:43fechar ali o Estreito de Hormuz, a questão do petróleo?
06:48É muito importante porque o Estreito de Hormuz,
06:52ele é a boca do Golfo Pérsico,
06:55por onde passam ali 20% do petróleo consumido no mundo.
06:59E o Irã, ele tem recorrido diversas vezes
07:03a essa ameaça de interrupção do fluxo de petróleo.
07:08A repercussão imediata seria um comprometimento do abastecimento de petróleo,
07:14seria a elevação do preço do barril,
07:17mas a gente tem que pensar nos desdobramentos políticos desse tipo de ação.
07:25Será que isso estaria, em termos estratégicos,
07:29estariam repercussões positivas para o governo de Teherã?
07:34Ou isso estaria uma coesão ainda maior
07:39entre os países que se opõem ao Irã?
07:43Porque é importante a gente lembrar que o Irã,
07:46ele não somente antagoniza Israel e os Estados Unidos,
07:50que por si só já é um feito significativo.
07:53Mas também ele é um país de maioria,
07:58etnicamente é um país persa,
08:00e religiosamente é um país de maioria xiita.
08:04Isso contrasta com a maioria dos países do Oriente Médio,
08:09que são países de maioria etnicamente árabe,
08:12e majoritariamente são sunitas.
08:15E o grande antagonista regional com o Irã
08:18é a Arábia Saudita.
08:20Embora a China tenha promovido uma aproximação
08:23entre o governo de Riad e o governo de Teherã,
08:28esse elemento central na disputa pela primazia regional,
08:33pela supremacia regional, é muito importante.
08:36Então, o Irã nuclear, por exemplo,
08:39ele não é só um problema para os Estados Unidos e para Israel,
08:42é um problema para os países árabes muçulmanos da região.
08:45A questão do comprometimento do fluxo de petróleo
08:48é algo que não afetaria somente os Estados Unidos,
08:54mas também os Estados Unidos, a China, a América Latina, a Europa,
09:00mas afetaria também os países exportadores de petróleo do Oriente Médio.
09:05Então, essas ações, elas são colocadas no cúmputo estratégico de cada oponente.
09:12E aí, nós temos que ver
09:16quanto de benefício isso traria em relação ao custo da ação.
09:21Mas é uma preocupação, é muito significativa,
09:24as ameaças que o Irã, não só pelo lançamento de minas,
09:28mas também pelo alcance dos seus mísseis e foguetes,
09:33pode trazer de prejuízo ao tráfico mercante no Golfo Pérsico.
09:39Alessandro Visacro, analista de segurança e defesa,
09:42muito obrigado pela gentileza da entrevista.
09:44Um bom final de semana aí ao senhor.
09:47Obrigado.
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