Pular para o playerIr para o conteúdo principal
  • há 6 horas
Transcrição
00:00E hoje é sexta-feira, pessoal. Chegou a hora da coluna Olhar Espacial com Marcelo Zurita.
00:07E hoje ele fala sobre um dos registros astronômicos mais intrigantes da história.
00:13Qual será? Vamos acompanhar Marcelo Zurita.
00:25Olá, pessoal! Saudações astronômicas.
00:29Em 1883, definitivamente não foi um ano monótono.
00:33Foi o ano da inauguração da ponte do Brooklyn e do início das viagens do lendário Expresso do Oriente.
00:39Na Indonésia, o vulcão Krakatoa explodiu com força devastadora.
00:43E no México, algo absolutamente fora do comum foi registrado cruzando o céu.
00:49Ou melhor, cruzando o sol.
00:50Não foi um eclipse, não foi um planeta, nem uma mancha solar.
00:54Foram centenas de objetos escuros envoltos por uma estranha névoa atravessando silenciosamente o disco solar.
01:01Numerosos demais para serem ignorados e rápidos demais para serem confundidos com fenômenos solares conhecidos.
01:07Mas o que seria aquilo, então?
01:09Um pássaro? Um avião?
01:10O Chapolin Colorado?
01:12Ou os primeiros registros fotográficos de OVNIs da história?
01:15A resposta só surgiria quase 130 anos depois e surpreenderia muita gente.
01:21Esse intrigante fenômeno foi observado a partir de Zacatecas, no México, pelo astrônomo José Arbol Ibonilha.
01:28E desde então, ocupa um lugar singular na história da observação astronômica.
01:32O Observatório de Zacatecas havia sido inaugurado poucos meses antes e participou das observações do trânsito de Vênus em 1882.
01:41A astronomia vivia uma fase de transição, em que a fotografia começava a se consolidar como uma ferramenta científica revolucionária.
01:49E Bonilha fazia parte dessa vanguarda.
01:51Nascida em 1853, Bonilha formou-se engenheiro topográfico e foi pupilo do astrônomo Francisco Dias Covarrubias.
01:59Estudou técnicas modernas de observação e fotografia astronômica.
02:02E participou da fundação do Observatório de Serro de la Bufa, que dirigiu por vários anos.
02:08Foi ali que ele não apenas testemunhou, mas também descreveu e fotografou o estranho fenômeno.
02:13Bonilha realizava observações solares diárias, com um telescópio de 10 polegadas, acompanhando manchas e protuberâncias solares.
02:21Mas na manhã de 12 de agosto de 1883, algo quebrou completamente a rotina.
02:27Por volta das 8 horas, um objeto luminoso entrou no campo de visão.
02:31Ao cruzar o brilho intenso do sol, transformou-se em uma silhueta escura cercada por uma névoa e deixando um rastro difuso.
02:37Antes que o espanto passasse, o fenômeno se repetiu e depois novamente e outra vez.
02:43Ao longo de dois dias, Bonilha contabilizou 447 objetos atravessando o disco solar.
02:50Não era um evento isolado, mas uma verdadeira procissão celeste.
02:53O mais intrigante é que essas passagens não foram observadas de outras cidades mexicanas com observatórios ativos, como de Puebla ou da Cidade do México.
03:02Um detalhe que mais tarde se mostraria fundamental.
03:05Mesmo sem compreender a natureza do fenômeno, Bonilha fez o que se esperava de um bom cientista.
03:11Registrou cuidadosamente suas observações e enviou o relato junto com uma das fotografias para a revista L'Astronomie,
03:18uma das publicações científicas mais respeitadas da época.
03:22À frente dela estava Camille Flammarion, figura central na divulgação científica do século XIX.
03:28Graças a ele, as observações de Bonilha ganharam projeção internacional e não se perderam nos arquivos de um observatório remoto.
03:36Ainda assim, nem Flammarion nem seus contemporâneos conseguiram oferecer uma explicação convincente.
03:41As hipóteses levantadas, como pássaros, insetos ou poeira na frente do telescópio,
03:46pareciam frágeis diante da quantidade, da regularidade e do aspecto dos objetos.
03:52O mistério permaneceu em aberto.
03:54Com o passar das décadas, o episódio ganhou uma nova leitura fora da astronomia acadêmica.
04:00Entusiastas da ufologia passaram a considerar as fotografias de Bonilha como os primeiros registros ufológicos da história,
04:07muito antes do termo OVNI existir.
04:09Objetos desconhecidos, numerosos, fotografados cruzando o Sol no século XIX.
04:15Para a ufologia, o caso era simplesmente irresistível.
04:18Mas a ciência tem seu próprio ritmo.
04:20Aquilo que outrora era apenas espanto, no século XXI tornou-se um problema físico bem definido.
04:26Em 2011, pesquisadores mexicanos revisitaram o caso analisando com ferramentas modernas os dados originais deixados por Bonilha.
04:35O primeiro passo foi simples.
04:37Se os objetos não foram vistos de outras cidades, eles não poderiam estar muito distantes.
04:41Colocando na calculadora, para ser visto em Zacatecas e não ser visto na cidade do México,
04:47os objetos não poderiam estar além de cerca de 65 mil quilômetros da Terra.
04:52Uma distância extremamente pequena em termos astronômicos.
04:56Mas calma que piora.
04:57O formato irregular dos corpos e a neve ao redor são características típicas de fragmentos cometários.
05:03Ao analisar o tempo em que cada objeto levava para cruzar o disco solar, frações de segundo,
05:08e assumir velocidades compatíveis com cometas próximos da Terra,
05:12os cálculos indicam algo ainda mais inquietante.
05:15Esses fragmentos podem ter passado entre 500 e 8 mil quilômetros de altitude,
05:21mais próximos do que muitos satélites artificiais atuais.
05:24As fotografias também permitiram estimar o tamanho desses corpos.
05:28A comparação entre os fragmentos e o diâmetro do Sol revela dimensões da ordem de dezenas a centenas de metros.
05:35Objetos assim não são poeira, insetos ou ilusões óticas.
05:39São corpos reais, com massa e potencial destrutivo significativo.
05:43A explicação mais plausível, portanto, se impõe com força quase épica.
05:48José Árbol e Bonilha observou os fragmentos de um cometa que passou extremamente próximo da Terra,
05:53já profundamente despedaçado.
05:55Hoje sabemos que cometas podem se fragmentar de forma dramática ao se aproximarem do Sol.
06:01Casos recentes, como o do cometa 73P, Schwarzman-Wachmann,
06:05mostram que um núcleo pode se dividir em dezenas ou centenas de pedaços.
06:09No final do século XIX, porém, esse tipo de fragmentação extrema ainda era pouco conhecido.
06:15Bonilha e Flammarion estavam diante de um fenômeno real,
06:18mas à frente de seu tempo e potencialmente perturbador.
06:21Se aqueles fragmentos tivessem atingido a Terra, muitos teriam energia comparável ao evento Tunguska em 1908.
06:28Centenas de impactos devastadores em poucos dias.
06:32Se a hipótese estiver correta, nosso planeta passou perigosamente perto de algo muito semelhante
06:37ao impacto do cometa Shoemaker-Levy 9 em Júpiter em 1994.
06:42Graças ao trabalho de José Arbol e Bonilha, o episódio de 1883 lembra que o céu está longe de ser um palco tranquilo.
06:50Ele é dinâmico, às vezes perigoso e profundamente indiferente à nossa existência.
06:55Também nos lembra que a ciência é um processo histórico construído aos poucos,
07:00mas fundamental para o nosso conhecimento do cosmos e para a proteção do nosso planeta.
07:04Bons céus a todos e até a próxima!
07:06Bons céus a todos e até a próxima!
Comentários

Recomendado