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  • há 10 meses
O professor de Relações Internacionais Danilo Porfírio analisa a onda de protestos no Irã. Diferente de anos anteriores, agora a classe comerciante se volta contra o governo. O especialista comenta o fracasso das guerras por procuração e a informação de que o líder supremo, Ali Khamenei estaria sondando asilo na Rússia.

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Transcrição
00:00existências de países como a França.
00:02E o nosso entrevistado agora é o professor de Direito e Relações Internacionais,
00:06Danilo Porfiro de Castro Vieira.
00:09Sempre uma honra te receber aqui, professor.
00:10Tudo bem? Boa noite. Bem-vindo.
00:13Boa noite, Tiago. Satisfação sempre estar com você, meu amigo.
00:16Muito obrigado.
00:18Professor, a gente viu a fala do ex-ministro Roberto Rodrigues,
00:21dizendo que, de uma certa maneira, o tarifaço de Donald Trump
00:26apressou um pouco um acordo, ou pelo menos tirou um acordo,
00:29que hibernava há 26 anos. O senhor concorda com essa leitura?
00:34Sim, e ratifico, intensifico o argumento do professor e ex-ministro da agricultura
00:43em relação à situação do apequenamento político-econômico da Europa.
00:52Preocupação essa que se externa na pressão alemã, Tiago,
01:00em dar celeridade e efetividade a essas tratativas
01:08que pré-contratualmente, vamos dizer assim, já tem 32 anos
01:15e, vamos dizer, institucionalmente, tem 26 anos e agora espero eu
01:23haja a devida ratificação com o sucesso esperado para ambos os entes.
01:31Professor, o Fabrício Naitz, que é nosso editor de internacional,
01:34está por aqui também, participa dessa conversa. Fabrício.
01:37Boa noite, professor. Queria dar uma girada no assunto aqui com o senhor,
01:41professor, porque a gente estava falando agora há pouco sobre os protestos no Irã.
01:45Você, um grande especialista em Oriente Médio, vai poder ajudar a esclarecer
01:48um pouquinho mais o que está acontecendo por lá aqui para a gente.
01:52A gente mencionou aqui na entrada anterior que, nesse século principalmente,
01:58o regime iraniano conseguiu sempre sufocar manifestações populares dentro do país,
02:04se colocar numa posição de força.
02:07E se ainda é o caso, nesse momento, há uma possibilidade de troca de regime real lá no Irã?
02:17Fabrício, primeiramente, boa noite para você.
02:20Sobre a questão do Irã, só fazer alguns adendos aqui.
02:26O regime iraniano começa a passar por certas dificuldades internas desde 2009.
02:41E, a partir de então, nós vamos ver nuances quanto à estabilidade do regime
02:51e a questão das constantes manifestações de resistência.
02:58Então, nós vamos ter, por exemplo, as últimas manifestações antes dessa foram a questão de dois anos atrás.
03:05Então, desde o governo Ahmadinejad, nós estamos vendo o quê?
03:10Inconstâncias em relação ao regime.
03:13O que salva o regime nesse período, entre 2009 e até os dias de hoje,
03:18foram dois fenômenos, que foram as questões referentes à guerra do Iraque,
03:25que fortalecem o Irã na região, principalmente em função da sua crescente influência entre os chiitas do Iraque,
03:35e a própria questão da ascensão do ISIS,
03:40que faz com que inimigos históricos se tolerem,
03:46quando eu falo em inimigos históricos, regime iraniano e americanos,
03:51regime iraniano e israelense se tolerem em prol de uma ameaça comum que era o ISIS até então.
03:59Isso faz com que o Irã tenha o seu momento de expansão naquilo que nós chamamos de arco chiita,
04:07Iraque, Síria, ainda no regime do ditador Assad,
04:13e Líbano, quando a gente fala do Hezbollah.
04:17Mais à frente, depois, teremos a questão do IEM,
04:21e também temos ali questões referentes à influência iraniana na região Dubai,
04:27e o tensionamento com os sauditas.
04:31Entretanto, e isso também se sustenta em função da lógica de guerras prótes,
04:36guerras por procuração, só que esse modelo fracassa fragorosamente
04:41com a ação do Hamas em 2023.
04:47E aí o que nós vamos perceber?
04:48O grande apoiador do Hamas não é páreo para conter, vamos dizer,
04:56a contra-ofensiva, a ação de resposta dos israelenses,
05:01e aí vemos não só uma retração quanto às ações regionais do Irã no Oriente Médio,
05:11a perda da sua influência no arco chiita, o colapso da sua influência,
05:14como também o quê? A mostra que as forças políticas dentro do Irã
05:22nem sequer tinham condições de se manter em segurança,
05:27quanto mais afiançar a segurança dos seus.
05:31Somado à questão do colapso econômico, e aqui nós temos que nos atentar,
05:36tem então as manifestações, eram manifestações vinculadas a jovens,
05:41a universitários, agora nós estamos vendo parte da burguesia,
05:47da pequena burguesia, que são os comerciantes que sustentaram por um tempo,
05:54aliás, foram um escoro durante longo tempo do regime iraniano,
05:59agora o quê? Se vêm desamparados e se manifestam.
06:02Claro que o modus operandi vai ser a repressão,
06:08mas o Irã, o regime iraniano, está extremamente fragilizado,
06:15tanto que já há cogitações de uma possibilidade de um asilo do Ayatollah Kamanei em Moscou,
06:23já se sonda essas possibilidades, mas nós temos que esperar.
06:27Vamos ver até onde o regime tem fôlego, e vamos ver depois o dia seguinte também.
06:34Professor, você sabe que os jornalistas, repórteres,
06:36perguntam para os especialistas em relações internacionais
06:39se o governo americano pode tomar alguma providência em relação ao Irã.
06:44Mas agora já há um precedente, porque tivemos recentemente a Venezuela.
06:48Claro que são países totalmente diferentes,
06:50mas o presidente Donald Trump anda dando declarações,
06:54falando que poderia, entre aspas, corrigir o que está acontecendo no próprio Irã.
07:00Pessoalmente, professor, nesse caso tudo é possível?
07:04Tiago, eu lembro das nossas conversas anteriores.
07:08A melhor forma de entender o dia de hoje é olhar para a história.
07:11Tiago, eu não observo, por enquanto, uma mudança de modus operandi norte-americano
07:21na região do Oriente Médio.
07:24O Trump, eu digo sempre isso, ele tem uma retórica virulenta no discurso,
07:32virulenta no discurso, e que usa os recursos de poder, entre eles militar,
07:39para forçar a parte adversa para um diálogo assimétrico.
07:46Ou seja, as regras são ditadas por mim.
07:48A questão da Venezuela tem pontos específicos, que são eles.
07:56A questão do controle estratégico do petróleo,
08:00e aí nós temos que colocar isso muito às claras.
08:05O petróleo é sim uma preocupação americana, porque mesmo eles tendo autossuficiência,
08:12a lógica jacksoniana é de manter o controle de reservas,
08:16para que não haja possibilidade de divisão de hegemons globais.
08:21Ou seja, quem detém a primazia do poder tem que ter o controle de recursos estratégicos,
08:27entre eles o petróleo e, no caso, o petróleo venezuelano.
08:30E, tirando de jogo aí, a presença chinesa e russa na região.
08:38E, por fim, a lógica que, para que eu me mantenha como potência global,
08:45numa pretensão hegemônica, eu tenho que ter controle do, vamos dizer, do poder,
08:51do domínio sobre a minha região.
08:52Ou seja, a América volta a ser foco de ação de controle dos americanos,
08:59inclusive interventivamente.
09:01É a lógica que eu chamo de doutrina trampa, alguns colegas também chamam,
09:05que é uma revisão da doutrina Monro e o colorado Polk,
09:10que é a América para os americanos.
09:12E, por último, a lógica do diálogo assimétrico, ao meu ver,
09:18chegou em esgotamento na Venezuela.
09:21O Maduro sempre utilizou o recurso da negociação para se perpetuar no poder.
09:31Desculpe o termo, mas uma concepção meio catingueira,
09:35meio malandra, de se manter no poder pela negociação.
09:39No Irã, o que eu observo, Tiago e Fabrício,
09:42as ações americanas não serão mais interventivas,
09:45como vimos na cooperação de Israel, ainda no conflito entre Hamas e Israel.
09:54Mas nós teremos aqui o exercício da inteligência americana
10:00e, quiçá, da inteligência israelense,
10:03fomentando, fortalecendo essas sublevações dentro do Irã.
10:09Intervenção direta eu não vejo como viável até a segunda hora.
10:14Fabrício?
10:17Professor, a gente mencionava também a questão do Shah, né?
10:21Reza Pá Leve, que, enfim, o filho dele está agora instigando também
10:25protestos dentro e fora do Irã.
10:29Mas o retorno da monarquia, principalmente da dinastia Pá Leve,
10:32parece ser carta fora do baralho, né?
10:34A monarquia cai em 79 num cenário de desgraça popular.
10:39Não é bem por aí?
10:41É esse mesmo, Fabrício.
10:42Não é a primeira vez que o príncipe Reza Cícero Pá Leve se manifesta.
10:52Já na época ainda do conflito, em 2023, 2024,
10:57entre Irã e Israel, ele também se manifesta.
11:03Outrora, nas outras manifestações populares,
11:08inclusive em 2009, ele também se manifesta,
11:12pedindo resistência, combate contra o regime.
11:15Nós temos que relembrar que o regime iraniano,
11:21que a gente pode chamar de um imamado, imamato,
11:25a lógica de um regime religioso em torno de um conselho de grandes sacerdotes,
11:32dentro de uma roupagem moderna,
11:35vamos dizer um tanto parecido com o poder moderador sonhado pelos franceses no século XVIII,
11:43mas com ares divinos, teológicos,
11:46resulta de um colapso do regime monarque,
11:52que outrora era um regime monárquico constitucional.
11:57Na década de 50, Mossadegh foi derrubado.
12:01E depois, o que? Reza Pá Leve,
12:04sobre a retórica do estabelecimento de uma sociedade liberal,
12:11ele o que? Impõe um regime autoritário,
12:15extremamente autoritário.
12:17Lembremos do serviço secreto da época, o SAVAC,
12:22que era um aparelho altamente repressor,
12:27e que gerou a união, ainda mais com as crises do petróleo,
12:33a união entre forças religiosas e forças seculares liberais
12:38e de esquerda contra o regime.
12:40Então, eu vejo como distante a possibilidade
12:47de uma restauração de uma monarquia.
12:50Muito difícil.
12:52Mas também temos que observar quais são, vamos dizer,
12:59as preferências norte-americanas
13:02em caso de um colapso do regime chico.
13:06O professor, o Fabrício nos trouxe já, nessa edição,
13:09a informação de ataques em larga escala dos Estados Unidos
13:13à Síria contra o Estado Islâmico.
13:16Eu acho que é importante dizer
13:17o que estaria por trás dessa ação americana.
13:21O que os Estados Unidos buscam com isso?
13:25Na verdade, os ataques contra o Estado Islâmico
13:30e forças sunitas, sunitas wahhabitas,
13:37na Síria, tem um objetivo.
13:41A manutenção do governo recém-estabelecido na Síria,
13:48que está alinhado ao Reino Unido e aos Estados Unidos,
13:55e também tem uma relação razoável e velada com o Israel
14:05e estabelecer, portanto, uma estabilidade entre os aliados
14:12diante do problema chiíta, do problema iraniano.
14:18É sempre bom lembrar, meus amigos,
14:21que a Primavera Árabe, em 2011,
14:27ela vem posteriormente
14:31àquilo que nós chamamos de revolução
14:35ou revolta verde no Irã.
14:38Tudo bem que são movimentos de insurgência
14:42político-religiosos islâmicos,
14:44de um lado chiíta e de outro sunita,
14:47mas a questão é a manutenção de uma ordem
14:50entre os aliados
14:51diante, obviamente,
14:54de um mal comum,
14:56que ainda é o Irã.
14:58Então, eu vejo que
14:59essas intervenções americanas
15:01servem apenas para manter a estabilidade
15:04e a coesão entre os aliados da América
15:07contra um mal potencial comum.
15:10Esse é o meu ponto.
15:12Professor, dá para a gente dizer
15:13que lá no final de 2024,
15:16a queda do governo de Bachar Al-Assad,
15:18a chegada de Ahmed Al-Shara,
15:19acabou sendo o maior golpe geopolítico recente
15:22para o Irã?
15:25Eu coloco dois pontos, Fabrício.
15:29A queda do regime sírio,
15:32que era o grande aliado do Irã,
15:35e a grande força proxy,
15:40que também era apoiada pela Síria,
15:42no Líbano,
15:43que é o Hezbollah.
15:44O Hezbollah se apagou
15:46em termos militares.
15:48Agora, o Hezbollah está preocupado,
15:51Fabrício,
15:52com a sua própria sobrevivência política
15:54no Líbano.
15:55Então, o que nós vemos?
15:56Aquilo que nós estávamos falando anteriormente.
15:59A zona de influência iraniana,
16:01que era o arco chiíta,
16:02foi reduzido categoricamente.
16:06Então, hoje,
16:07observamos um Irã
16:09extremamente mais fraco
16:12do que observávamos
16:14em tempos posteriores,
16:16extremamente vulnerável.
16:17Eu brinco sempre.
16:20As lideranças, os ayatolás,
16:23com toda a permissão da brincadeira,
16:25devem estar até hoje
16:27com as barbas de molho
16:28em relação ao grande equívoco
16:30que foi a ação Prox,
16:33apoiando o Hamas contra Israel
16:34em 2023.
16:36Então, sem os aliados,
16:38o Irã fica extremamente vulnerável
16:41na região.
16:42Deixa de ser, inclusive,
16:44uma efetiva potência regional.
16:46Professor Danilo Porfírio
16:48de Castro Vieira,
16:49mais uma vez,
16:49obrigado por todos os esclarecimentos.
16:52e depois,
16:53vamos embora?
16:56Vamos embora?
16:58Obrigada.
16:58E depois,
16:59forresti?

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