00:00Antes eu quero conversar com o André Anelli, porque o presidente Lula assinou hoje um decreto que reconhece a música gospel como manifestação cultural.
00:07Gesto claro para a comunidade evangélica, né seu Anelli?
00:14É isso mesmo Evandro, muito boa tarde a você e a todos aqui no 3 em 1 da Jovem Pan.
00:18O presidente Lula assinou então esse reconhecimento de que a música gospel, não apenas a música, mas também todos os elementos da cultura que envolvem a religião evangélica, que envolvem então a música gospel, são considerados elementos da cultura também brasileira e que por isso devem ser levados em consideração, inclusive na formulação de políticas públicas para a área da cultura.
00:45O presidente Lula sancionou essa medida que veio do Congresso Nacional e justamente em um momento então em que ele já vai fazendo as vezes de preparação de campanha para a reeleição em 2026 e tendo como vista justamente esse núcleo da população que é considerado mais resistente ao atual presidente da República e bem mais familiarizado, tem mais afinidade com o ex-presidente Jair Bolsonaro.
01:11Então nesse sentido o presidente Lula reconheceu a música gospel e todos os elementos da cultura que envolvem essa música como cultura nacional e o presidente Lula acabou então durante a sanção dessa medida, acabou defendendo todo o texto que considera então esses elementos culturais.
01:30Que a assinatura desse decreto se reconheça a cultura gospel como manifestação da cultura nacional representa mais um passo importante de acolhimento e respeito à comunidade e ao povo evangélico do Brasil.
01:46Com esse decreto o Estado brasileiro confirma que afeto também se expressa como cultura, como identidade, como história viva do nosso povo.
01:56E a gente destaca aqui alguns trechos desse texto que diz o seguinte, que considera como parte da cultura gospel a própria música abrangendo diversos estilos da música gospel como adoração, louvor, hip hop gospel entre outros.
02:17Também formas de expressão corporal e cenográfica, tais como dança de adoração, teatro, encenações religiosas e ainda artes visuais, exposição de pinturas, esculturas, artesanato e outras formas de arte visual inspiradas na fé cristã promovendo o diálogo entre arte e espiritualidade.
02:37A gente relembra que quando o presidente Lula tomou posse em 2019, logo após as eleições então, ele inclusive emitiu uma carta que foi idealizada por alguns dos apoiadores, a exemplo da senadora Elisiane Gama, que é membro da Assembleia de Deus e que inclusive ajudou o presidente Lula na formulação dessa carta de garantias justamente então do governo para a comunidade evangélica.
03:05principalmente no sentido de garantir que não haveria o fechamento de igrejas aqui no país e que seria então considerado a liberdade religiosa como direito fundamental aqui do país, já dando uma resposta também a todas aquelas especulações que foram colocadas durante as eleições de que o presidente Lula representaria o fim dessa parcela da população evangélica. Evandro.
03:31E aí, Mano Ferreira, nós acompanhamos então uma estratégia e um evento feito pelo Palácio do Planalto para reconhecer a música gospel como patrimônio cultural.
03:41E de que maneira que transformar isso, a música gospel, em algo reconhecidamente da cultura brasileira, traz algum tipo de benefício político para o presidente da República em 2026 no teu ponto de vista?
03:54É uma tentativa do presidente Lula de conseguir fazer uma conexão entre o seu grupo político, o PT, e uma parcela muito importante da sociedade brasileira, crescente da comunidade cristã, que é o segmento evangélico.
04:14Vale sempre lembrar que lá atrás, na sua construção, o PT teve um diálogo muito próximo de parte da comunidade católica, a partir das chamadas comunidades católicas de base,
04:29que faziam aquele trabalho pastoral, social, próximo das comunidades.
04:35E esse trabalho foi muito importante para a capacidade do PT de ganhar capilaridade ao redor do país.
04:44O que acontece é que, ao longo das décadas, esse tipo de trabalho social, que sempre foi feito pela Igreja Católica,
04:52passou a ser feito de forma muito expressiva pelas igrejas evangélicas.
04:57E, diferentemente do que acontecia, o PT jamais conseguiu ter uma conexão mais orgânica com essas igrejas.
05:06O que também não quer dizer que o PT não tenha tido apoio de evangélicos em alguns momentos.
05:12Teve. Vale lembrar que até mesmo Silas Malafaia, lá naquela primeira eleição de Lula, em 2002, votou em Lula, fez campanha por Lula.
05:21Então, já houve momentos de aliança, mas essa conexão de base não era orgânica, não era tão substancial.
05:33O que Lula tenta fazer agora, com movimentos como esse, é acenar para esse público,
05:39para tentar recuperar essa capacidade que o PT perdeu ao longo dos anos,
05:44de se comunicar com o público religioso engajado, que nos últimos anos acabou se transformando em um público majoritariamente antipetista.
05:54E eu chamo a atenção para um aspecto extremamente curioso dessa estratégia,
05:59porque é uma sinalização que tenta conectar o gospel com a cultura.
06:05E a gente sabe que o segmento cultural, de forma geral, é muito próximo do PT e, ao mesmo tempo,
06:13tem uma rejeição de boa parte da população que está nessa base mais conservadora.
06:19Então, ao tentar juntar esses dois mundos, o mundo da cultura e o mundo das igrejas evangélicas,
06:27na prática, o presidente Lula tenta fazer essa conexão, criando a quebra de uma rejeição,
06:35como se fosse água e óleo.
06:38Quando se pensa nos conservadores e nos trabalhadores da cultura, por exemplo,
06:44muitas vezes são interpretados pelas pessoas como se representassem mundos opostos,
06:51um mundo conservador e um mundo mais progressista.
06:53E esse gesto é a tentativa, ao mesmo tempo, de dizer que a cultura pode ser mais aberta para o conservadorismo
07:03e que a igreja evangélica e a música gospel pode se aproximar do campo político progressista.
07:12Fala, Bruno Mousa, quero te ouvir.
07:15Interessante os números, quando a gente analisa o número dos evangélicos,
07:19os motivos pelos quais o Lula vem tentando fazer essa aproximação com esse público.
07:23Quando a gente pega, vamos usar os dados do próprio governo do IBGE,
07:26o Instituto do próprio governo, né?
07:29Na década de 90, os evangélicos representavam por volta de 9% da população brasileira.
07:35Uma década depois, saltou para casa dos 15%.
07:37Na década de 2010, para algo como 21%, repito, segundo números do próprio IBGE.
07:43E agora nós temos algo muito próximo a 30% da população que se dizem evangélicos,
07:51que se consideram evangélicos.
07:52E aqui também tem um outro ponto extremamente relevante nesses dados,
07:57que é, de onde vem esse crescimento dos evangélicos?
08:00O que nós vemos foi uma queda de 65% a algo próximo a 52%, 53% do número de católicos.
08:08Então, basicamente, a gente viu que o número de católicos diminuiu,
08:13incrementou dos evangélicos, ao passo que de ateus saltou de 8% para 9%.
08:18Então a diferença não está aí, segundo o IBGE.
08:21Está realmente nessa mudança de católicos para os evangélicos.
08:25E quando eu comento que 57% dos eleitores, mais ou menos,
08:29segundo as últimas pesquisas, são eleitores pêndulos,
08:32ou seja, aqueles que não são militantes ativos na política,
08:36aí está a tomada de decisão dos votos.
08:38E o Lula não conversa com esse público.
08:41Veja, quando a gente vê as pesquisas aqui,
08:43grande parte delas tem o quê?
08:451.500, 2.000 votos de pessoas que são entrevistadas.
08:49Eu fiz um evento há pouco tempo que tinham 400 pessoas.
08:54Foram 72 horas, um evento cristão, eu sou católico,
08:57e grande parte, quando eu falo grande parte,
08:59algo como 95% do público, das 400 pessoas, eram evangélicos.
09:05Nesse grupo, assim, eu não ouvi ninguém
09:08sequer falando carinhosamente que não gostava do Lula.
09:12Então a dificuldade dele entrar nesse público,
09:15ela é realmente muito dura.
09:17E é normal fazer esse aceno,
09:18porque aí tem um voto importantíssimo,
09:20um percentual importante dos votos
09:24que ele tenta jogar para ele.
09:25Mas eu acho que há uma resistência muito grande
09:28que passa por valores,
09:30e esses valores vão contra o que, basicamente,
09:33os evangélicos pregam
09:34e o que o campo progressista prega em linhas gerais.
09:37Bom, eu quero te ouvir, Zé Maria Trindade,
09:39sobre esse aceno do presidente da República.
09:41Não é de agora que ele faz esse movimento.
09:43É só a gente perceber quem foi a indicação
09:45para o Supremo Tribunal Federal,
09:47que é outro detalhe que será definido em 2026.
09:49Jorge Messias, evangélico,
09:52bastante reconhecido ali naquela comunidade,
09:53que tem apoio, inclusive, de integrantes da bancada evangélica
09:57no Congresso Nacional,
09:58que não necessariamente apoiam o presidente da República
10:01e que foram aliados sinceros e importantes também
10:05para o ex-presidente Jair Bolsonaro.
10:07Então, o quanto todos esses movimentos
10:09vão virando uma grande colcha de retalhos evangélica
10:13para o presidente da República, hein, seu Zé?
10:16Zé, é importante dizer que não há no Brasil
10:19uma guerra de evangélicos contra católicos.
10:22Todos nós somos cristãos, né?
10:24Há uma convivência pacífica, muito boa,
10:28e o que há é isso que o Gusa falou.
10:30É uma decisão de costumes,
10:33de projeto de Brasil para o futuro,
10:35de defesas, de teses.
10:37A gente vê claramente, né,
10:39a defesa da tese da esquerda,
10:41do PT, do PSOL, é diferente
10:43da defesa das teses que são pregadas
10:47pelos católicos e pelos evangélicos.
10:50Então, tem um grupo de católicos ali,
10:52principalmente dos, vamos dizer assim,
10:56os mais, vamos dizer, centrados na Bíblia, né,
11:02que são grupos que se formam dentro
11:05da própria igreja católica, né,
11:08e os grupos evangélicos.
11:10A bancada evangélica do Congresso Nacional
11:13tem gente do PT, tem deputado de vários partidos, né,
11:18mas as tendências de, por exemplo,
11:20quando se fala de aborto,
11:22de combate à violência,
11:25de drogas e de costumes,
11:26a gente vê claramente a decisão.
11:29Os carismáticos católicos, por exemplo,
11:31tendem, tendem a não apoiar o governo,
11:34apoiar o presidente Lula,
11:35isso fica muito claro.
11:38É importante dizer também
11:40que é muito justo, legítimo,
11:42que os evangélicos assumam o poder.
11:46Lá atrás, quando era candidato ao governo de Minas,
11:49Tancredo Neves,
11:51teve essa ideia de levar pastores
11:53para o debate político
11:54e convidou alguns para serem candidatos.
11:57E eles é que começaram ali
12:00a levar para o Congresso Nacional
12:03a pregação evangélica.
12:05Então, há debates dizendo,
12:08olha, não está certo o crucifixo
12:10na mesa diretora da Câmara,
12:14não está certa a Bíblia aqui,
12:16porque é preciso tornar
12:18um ambiente laico,
12:20sem a possibilidade de intervenção
12:22de igreja, né?
12:23Mas, na verdade, não é só igreja.
12:26Existem vários setores da sociedade
12:28que se dividem.
12:30Está muito difícil para o governo
12:32ir atrás do voto evangélico, né?
12:35Mas tem que fazer um esforço
12:36de, pelo menos,
12:38neutralizar um bombardeio
12:39muito forte
12:41e que é muito usado.
12:42Eu assisti, fui num encontro aqui
12:45sobre exatamente essa ideia
12:48dos evangélicos
12:49de assumirem o poder.
12:51Porque tem que assumir o poder,
12:52não para levar o Estado
12:54a ser um Estado evangélico,
12:56mas sim para que tenha
12:57a diversidade religiosa.
13:00É muito importante
13:01que o Supremo também
13:02tenha evangélicos
13:03e tem evangélicos,
13:05mas não representantes
13:06do mundo evangélico
13:08com teses firmes, nada.
13:10É apenas para ter uma nova visão.
13:13E nesse encontro
13:14eu me lembro muito bem
13:15que alguns advogados,
13:20juristas e pessoas
13:22que estavam no governo
13:23falando claramente
13:24de que, olha,
13:25nós precisamos ocupar.
13:27Afinal, já são 36% dos brasileiros
13:30que são evangélicos.
13:31Há quem diga
13:32que o Brasil já não é mais
13:33essa pátria católica.
13:35Porque é um costume de falar
13:36que é católico,
13:37mas não frequenta a igreja,
13:39o evangélico não.
13:40Quando ele é evangélico
13:41ele frequenta a igreja
13:42ou ele faz parte
13:43da comunidade
13:44que é muito mais forte
13:46e muito mais aguerrido.
13:48Então, não há
13:49uma guerra entre evangélicos
13:51e católicos.
13:52O que há
13:53é uma disputa política
13:54sobre teses.
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