00:00A terceira interceptação pelos Estados Unidos de um petroleiro venezuelano
00:05reacende críticas de aliados do governo de Nicolás Maduro e afeta o mercado de petróleo.
00:11Correspondente, Eliseu Caetano.
00:14Os Estados Unidos apreenderam um terceiro navio petroleiro ligado à Venezuela
00:20em águas internacionais do Mar do Caribe,
00:23intensificando assim a aplicação de sanções contra o setor petrolífero do país sul-americano.
00:29De acordo com o governo dos Estados Unidos, a guarda costeira apreendeu o petroleiro Bela 1,
00:34acusado de operar com bandeira falsa e documentação irregular
00:38como parte de um esquema para contornar sanções impostas a Caracas.
00:44A embarcação foi abordada após monitoramento próximo à costa venezuelana.
00:49A ação mais recente ocorre após outras duas apreensões realizadas nas últimas semanas,
00:55marcando uma ofensiva inédita contra o transporte marítimo associado ao petróleo venezuelano.
01:02Um dos navios apreendidos transportava petróleo bruto ligado à Venezuela
01:06e fazia parte da chamada Shadow Fleet, usada para ocultar a origem da carga.
01:12Outro petroleiro, o Centuries, foi confiscado com cerca de 1,8 milhão de barris de petróleo,
01:18segundo as autoridades dos Estados Unidos.
01:21O Washington afirma que os navios utilizavam estratégias de evasão,
01:26como desligamento de rastreadores, troca frequentes de bandeiras e uso de empresas de fachada.
01:33O regime de Nicolás Maduro classificou as apreensões como pirataria
01:37e denunciou como violação do direito internacional na ONU.
01:42A China, destino final de parte do petróleo venezuelano apreendido em operações anteriores,
01:47também criticou, e formalmente, os Estados Unidos.
01:52As autoridades americanas afirmam que as medidas têm como objetivo impedir que a exportação de petróleo
01:58financie o regime venezuelano, mantendo pressão econômica e política sobre Caracas.
02:06Dos Estados Unidos para a Jovem Pan, Eliseu Caetano.
02:10Pois é, os Estados Unidos ampliam a presença militar ao redor da Venezuela
02:14e para falar mais sobre a crise entre os países,
02:17o nosso entrevistado é o doutor em Ciência Política e professor de Relações Internacionais,
02:21José Souza, mais uma vez, gentilmente, atendendo a Jovem Pan.
02:25Professor, boa noite, muito obrigado.
02:28Boa noite, Tiago. Prazer falar com você mais uma vez.
02:31Prazer é nosso.
02:31Bom, professor, uma informação que acaba de chegar,
02:34o presidente Donald Trump reforça as ameaças a Nicolás Maduro
02:38e anuncia uma nova classe de navios de guerra
02:42para esse possível conflito com a Venezuela.
02:47Recentemente a gente se conversou aqui, não é, professor?
02:49A gente falava,
02:50a senhora acredita que efetivamente o presidente dos Estados Unidos
02:55pode deixar de apenas usar retórica e partir efetivamente para um ataque?
03:01Agora, a situação, a tensão, tudo isso vai se escalando, não é, professor?
03:08A gente observa uma escalada das tensões
03:10e escalada da própria atuação norte-americana.
03:14Se a gente estiver falando de um ataque,
03:17é preciso estabelecer quais são as referências desse ataque, né?
03:23O que a gente está chamando de um ataque?
03:25Se a gente for considerar que a apreensão de três petrolíferos,
03:30três navios importantes aí, venezuelanos, né?
03:34Mesmo que talvez com bandeiras diferentes, clandestinas,
03:38ou qualquer coisa que o valha,
03:40esse, de certa forma, já é um ataque.
03:43Acho que os Estados Unidos podem continuar escalando essa perspectiva de ataque,
03:50mas eu não acredito numa possibilidade de invasão
03:54do território venezuelano pelos Estados Unidos.
03:58É importante a gente dizer que essa invasão implicaria em várias coisas, né?
04:03A invasão seria uma situação mais dramática que a gente pode considerar.
04:11No entanto, antes dessa invasão acontecer,
04:13a capacidade de dano que os Estados Unidos podem infringir ali para a Venezuela
04:19e, principalmente, para o regime do Nicolás Maduro
04:22é uma capacidade importante, né?
04:26Então, muita coisa pode se fazer
04:28sob a perspectiva de ataque ou ataques
04:33sem necessariamente invadir o território da Venezuela.
04:38É bem provável que essa escalada continue, tá, Tiago?
04:41Acho que não vai parar por aqui.
04:43Talvez a gente esteja num ponto de não retorno,
04:48sobretudo se tratando dos Estados Unidos
04:50e, principalmente, se tratando do Donald Trump.
04:54Professor, vou chamar o nosso comentarista Cristiano Villela
04:56que faz a próxima pergunta. Villela.
04:59Professor, boa noite.
05:00Professor, a escalada nesse conflito,
05:03nessa tensão entre os Estados Unidos e a Venezuela
05:06acaba dando uma demonstração, talvez,
05:09da perda de força que o Brasil tem
05:11enquanto liderança do continente americano,
05:15especialmente dentro da América Latina,
05:17à medida que acaba não sendo ouvido
05:19por nenhuma das duas partes
05:21numa tentativa de buscar uma solução,
05:24de buscar uma solução negociada
05:25em relação a esse caso?
05:28Boa noite, Villela.
05:30Olha, eu acho que essa questão da liderança brasileira,
05:33tem muitas coisas que a gente pode dizer sobre isso,
05:37mas, de fato, a gente pode pensar assim,
05:39quando é que o Brasil estabeleceu essa liderança,
05:42exerceu essa liderança,
05:44conseguiu pontos de convergência importantes
05:47na política regional
05:48e conseguiu lograr efeitos de longo prazo
05:54nessa política regional.
05:55O que eu observo é que, regionalmente,
05:59a política de integração regional,
06:02se você quiser,
06:03ou a política regional,
06:05para ficar aqui um pouco,
06:06uma certa redundância,
06:08se vocês me perdoarem por isso,
06:11ela não consegue lograr efeitos.
06:14A articulação regional do nosso subcontinente aqui,
06:18ela não existe,
06:19ela é extremamente fragmentada.
06:20Nós observamos alguns movimentos,
06:23mas,
06:23na macro-política,
06:25ou numa política que inclua aí
06:27os Estados Unidos,
06:28por assim dizer,
06:29isso não acontece.
06:31Então, eu não vejo o Brasil
06:32como uma liderança enfraquecida,
06:35porque o Brasil não conseguiu estabelecer
06:38uma liderança significativa
06:41de longo prazo,
06:43perene,
06:44na região.
06:45Então,
06:46do ponto de vista da política do Estado brasileiro,
06:49é muito difícil ter
06:50esse tipo de atuação.
06:52a gente observou alguns momentos
06:54de espasmos de liderança,
06:57por assim dizer.
06:58Em alguns momentos,
06:59essa liderança foi mais favorável,
07:02o Brasil conseguiu,
07:03se vocês quiserem,
07:05a gente surfou algumas ondas,
07:08mas,
07:08de fato,
07:09a gente,
07:10vários períodos de crise,
07:11a gente não conseguiu atuar
07:12como uma liderança
07:14que faz a expectativa dos atores
07:17convergirem para determinado ponto,
07:20e que a gente consiga conduzir
07:22uma situação política.
07:24Isso não tem acontecido
07:25nos últimos anos,
07:26nas últimas décadas,
07:28eu diria.
07:28Portanto,
07:29não se trata necessariamente
07:30de uma posição enfraquecida,
07:33porque a nossa política
07:34é,
07:35via de regra,
07:36bastante fragmentada.
07:38O professor,
07:39o presidente dos Estados Unidos,
07:40Donald Trump,
07:42nos últimos dias,
07:42declarou que a ideia
07:43é promover ataques seletivos.
07:46Ele usou essa expressão.
07:47E hoje,
07:47em Mara Lago,
07:48quando ele fala
07:50em aumentar a frota,
07:52trazer navios mais poderosos,
07:54inclusive com canhões,
07:57com uma forma de direcionar
07:59um ataque mais robusto
08:01para a Venezuela,
08:02de que forma
08:03o governo americano
08:05se arma efetivamente
08:06para esse ataque?
08:07Porque,
08:08se for comparar
08:09poderio militar,
08:10não tem comparação,
08:11não é, professor?
08:13Definitivamente,
08:14a gente está falando
08:15da maior capacidade militar
08:18do mundo
08:18há muito tempo já,
08:21mas que,
08:22em vários momentos,
08:23não conseguiu
08:25ganhar as guerras
08:27e estabilizar os países
08:29como preconizou
08:30no início
08:31da sua ação.
08:33Então,
08:34a gente pegar
08:34historicamente aqui,
08:36a gente pode falar
08:36do Vietnã,
08:37a gente pode até falar
08:38da invasão
08:39dos Estados Unidos
08:41à Cuba,
08:41à Bacia dos Porcos,
08:43que também não conseguiu
08:45lograr efeitos.
08:46a gente pode falar
08:47mais recentemente
08:48de Iraque,
08:48a gente pode falar
08:49de Afeganistão.
08:50Então,
08:51de fato,
08:51as forças armadas
08:52não se comparam.
08:55No entanto,
08:56invadir,
08:57fazer o ataque,
08:59invadir,
09:00é uma coisa.
09:01Depois,
09:01se apropriar de tudo
09:02e conseguir
09:03uma estabilidade mínima
09:05é algo bem diferente.
09:07Então,
09:07acho que,
09:08pelas duas razões,
09:09os Estados Unidos
09:10não precisam
09:11se expor
09:13ao ponto
09:13de fazer
09:14essa invasão.
09:15acho que tem
09:16outras formas,
09:18como eu disse,
09:19de dano
09:20bastante significativo.
09:22Eu vejo
09:22que uma transição
09:24do regime
09:25venezuelano
09:27para o Maduro
09:28deixar o poder
09:29é algo que está
09:30sob a perspectiva
09:33norte-americana
09:34e aí a gente
09:34precisa ver
09:35o quanto
09:36de força
09:37que os Estados Unidos,
09:38eu quero dizer
09:39força bélica,
09:40os Estados Unidos
09:40vão precisar
09:42fazer
09:43para que isso
09:43aconteça.
09:44então,
09:44acho que,
09:45sobre a sua
09:46pergunta,
09:46quanto que o governo
09:48norte-americano
09:48se arma?
09:49Ele se arma
09:50na proporção
09:51de que ele consiga
09:52depor
09:54a liderança
09:55do Maduro
09:56e isso
09:57não vejo
09:58exatamente um tempo
09:59para acontecer.
10:00Vai acontecer
10:01em algum momento,
10:02como eu disse também,
10:03estamos num ponto
10:04de não retorno,
10:06mas também não acho
10:07que os Estados Unidos
10:08vão apostar
10:09tantas fichas
10:10para uma
10:11invasão
10:13ao território
10:14da Venezuela,
10:15que não é um país
10:16pequeno,
10:17que não é um país
10:18de geografia fácil,
10:20de avanço
10:21de tropas,
10:22por assim dizer,
10:23então ataques
10:24pontuais
10:25de embarcações
10:28e aeronaves,
10:29provavelmente,
10:30isso pode acontecer,
10:32acho que isso está
10:32também aí
10:33no radar
10:35das Forças Armadas
10:36norte-americanas
10:37até a medida
10:38que o Trump
10:39possa dizer
10:40que ele depois
10:41um regime ditatorial
10:42na América Latina.
10:44Professor,
10:45só para a gente fechar,
10:46a gente sabe que
10:47nos últimos anos,
10:48até nas últimas décadas,
10:50nós tivemos
10:50uma lealdade
10:51muito grande
10:52das Forças Armadas
10:53para o regime
10:54chavista
10:54e é claro
10:55que o presidente
10:58da Venezuela
10:59só continua
10:59no poder
11:00por causa
11:00desse apoio
11:02militar também.
11:03Eu pergunto,
11:03será que o governo
11:04americano
11:05não teria
11:06condições
11:07de tentar
11:08uma aproximação
11:09com as Forças Armadas
11:11ou isso
11:12é muito utópico,
11:13é muito fácil
11:13falar,
11:14mas na prática
11:15é muito complicado
11:15porque há uma
11:16lealdade muito grande?
11:20Olha,
11:20essa é uma
11:21pergunta intrigante.
11:25Eu não vejo
11:26como o perfil
11:27de liderança
11:28do Donald Trump
11:30essa questão
11:33do diálogo.
11:34O Donald Trump
11:35tem uma liderança
11:37bastante forte,
11:38bastante
11:39personalista
11:41e de demonstração
11:43de força.
11:45Então,
11:45se isso
11:45acontecesse,
11:46a narrativa
11:47ia ser no sentido
11:48de
11:48depusemos
11:50um regime
11:51ditatorial
11:52e aí
11:53com o adendo
11:54de
11:54sem pegar em armas
11:56ou usando
11:56força mínima
11:57ou algo
11:58nesse sentido,
11:59lembrando que
12:00acredito ainda
12:02que o Nobel
12:03da Paz
12:03é um objetivo
12:04do Donald Trump.
12:06No entanto,
12:07essa questão
12:09negociada
12:10fica
12:11bem difícil
12:14de se dar
12:15na prática,
12:16até porque
12:17se tem ali
12:18umas forças
12:19armadas,
12:20um exército
12:21bastante nacionalista
12:22e bastante resistente.
12:23cotejar também
12:25a liderança
12:26do Nicolás Maduro
12:27é um líder
12:27extremamente resistente,
12:29extremamente
12:29arraigado
12:31ali,
12:32sem
12:32muita
12:33disposição
12:34ao diálogo.
12:35A gente vê,
12:36a gente discute
12:37aí nas últimas,
12:38na última década,
12:39por assim dizer,
12:40vários momentos
12:41da crise
12:42venezuelana,
12:43vários pontos
12:44de inflexão
12:45da crise
12:46venezuelana
12:47e o Maduro
12:48jamais demonstrou
12:49uma capacidade
12:51de diálogo
12:52ou mesmo
12:52de cumprimento
12:54dos acordos
12:54que ele mesmo
12:55assume.
12:57E eu acho
12:58que isso
12:58se reflete
12:59um pouco
12:59também
13:00nas próprias
13:01forças armadas.
13:02Então,
13:03a gente precisa ver
13:03como que a configuração
13:05de possíveis aliados
13:06de Venezuela,
13:07Rússia e China
13:08vão se dar,
13:10também não acho
13:10que eles vão
13:11ir ao socorro
13:12da Venezuela
13:13de uma maneira
13:13muito veemente.
13:17mas também
13:18acho que fica
13:20um pouco no ar
13:20essa questão
13:21de temos como dizer
13:23que, por um lado,
13:24isso pode acontecer,
13:26mas também
13:26há várias dificuldades
13:28de acontecer
13:29essa negociação
13:30de forças armadas
13:31até que as forças armadas
13:33venezuelanas
13:34se coloquem
13:35contra o Nicolá Maduro.
13:37Professor José Souza
13:38de Relações Internacionais,
13:40doutor em Ciência Política,
13:42muito obrigado
13:42mais uma vez
13:43pela sua gentileza,
13:44um bom Natal,
13:45boas festas
13:46e volto sempre.
13:46professor,
13:47um abraço.
13:49Tiago,
13:49sempre muito gentil
13:50você,
13:51muito obrigado
13:51e ótimas festas
13:52para você também,
13:53para todos os seus.
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