00:00O presidente da Câmara Federal, Hugo Mota, desistiu de levar para a votação em plenário a ordem de perda de mandato do deputado Alexandre Ramagem e restringiu a seus aliados da mesa diretora a essa decisão.
00:13A ideia segundo aliado seria baixar a temperatura com outros poderes e até com os próprios parlamentares, causada pelas polêmicas em relação à não cassação de Carla Zambelli e Glauber Braga.
00:25A tendência mostrada por Mota é que nos próximos dias a mesa diretora da Câmara decida pela cassação de Ramagem e também de Eduardo Bolsonaro, que já alcançou, ele, Eduardo, já alcançou o número de faltas em sessões suficientes para a cassação.
00:43Começar essa com o Dávila, a decisão da Câmara Federal, Hugo Mota impedindo os deputados de tomarem a decisão, isso ficará restrito à mesa diretora, Dávila.
00:54O presidente Hugo Mota me parece aqueles grandes músicos do jazz, cada dia ele improvisa de acordo com uma tonalidade, então um dia nós vamos levar plenário, esse caso a gente leva plenário.
01:06Não, isso aqui vai ser a mesa diretora porque teve uma reação do judiciário que a gente não gostou.
01:11É aquele improviso geral.
01:14Isso é ótimo para o jazz, mas é péssimo para a política pública.
01:19Gera insegurança, mostra fragilidade no comando da Câmara, mostra uma liderança hesitante,
01:26que de acordo com os ventos e com as circunstâncias muda sua atitude em relação à política pública.
01:32Isto mostra que não só o governo, mas a Câmara estão à deriva.
01:40A ausência de critério prejudica o rito, o Mota, o Dávila deu o exemplo do jazz, mas outro poderia falar, bom, é feeling, né?
01:48O presidente tem o feeling de que esse problema será resolvido pela mesa diretora.
01:54Os deputados ficarão de lado dessa vez.
01:58Isso me parece, às vezes, uma dança na beira do precipício, Caniato.
02:05Alexandre Ramagem é delegado de Polícia Federal, deputado federal, foi candidato à Prefeitura do Rio
02:11e teve uma excelente votação, quase um milhão de votos.
02:15Quatro ministros da Suprema Corte votaram para condená-lo a 16 anos de prisão,
02:23perda de mandato de deputado federal e perda de cargo na Polícia Federal.
02:28O ministro Luiz Fux votou pela suspensão de todas as acusações contra Ramagem,
02:35em respeito a uma decisão que tinha sido tomada pela Câmara dos Deputados.
02:40O ministro Fux também votou pela absorvição integral de todos os crimes imputados à Ramagem.
02:47Segundo o ministro, não há provas de uso irregular da BIM.
02:52O exercício das atividades típicas do órgão não configura crime.
02:57E a missão da BIM é justamente fazer levantamentos sigilosos de informações
03:03para orientar a ação do presidente.
03:06O ministro também disse que as anotações apresentadas como provas
03:11são meras opiniões e alinhamento ideológico, e não configura um crime.
03:17Você, Henrique Kriegner, qual é o receio do presidente da Câmara Federal
03:22restringindo o veredito à decisão à mesa diretora?
03:27Que a maior parte da Câmara livrasse, os dois, da cassação?
03:30Eu acho que chega um resultado, um momento, na verdade, Caniato, que bate uma frustração.
03:38Vários parlamentares têm expressado essa mesma frustração,
03:42têm colocado isso nas redes sociais, que é
03:44por que é que nós estamos aqui no Congresso Nacional?
03:47Por que é que nós estamos votando certos projetos ou certas decisões,
03:51tomando decisões no plenário da Câmara dos Deputados, em especial,
03:57se logo vem a Suprema Corte e diz, não, isso que foi decidido não vai ser seguido.
04:02Isso que foi votado aqui, a opinião de vocês, é irrelevante,
04:06porque a ordem de um juiz é esta, ou a ordem dessa turma é outra.
04:11Então, diante disso, eu entendo até uma postura por parte do presidente Hugo Mota,
04:16embora ele possa ter aí outras motivações, que é por que nós vamos colocar em plenário
04:21uma coisa que, a despeito da opinião do plenário, vai ser decidida pelo STF.
04:27O plenário vai e vota. O STF diz, não gostei da votação, voto eu dessa maneira,
04:32e é assim que tem que ser, e pronto, acabou.
04:34Dessa maneira, eu até assino embaixo daquilo que disse o deputado Nicolas Ferreira,
04:39fecha a porta do Congresso e vamos economizar dinheiro aqui com o que nós estamos fazendo,
04:43porque as decisões estão sendo tomadas ali do outro lado, ali da Praça dos Três Poderes.
04:48E é preciso também fazer uma reflexão sobre a condução dos trabalhos por Hugo Mota.
04:54Você deu esse exemplo do improviso, tomar uma decisão a depender de quem são os personagens,
05:02mas, Dávila, essa presidência vem sendo muito questionada.
05:06O Hugo Mota não está na sua primeira legislatura.
05:09É jovem, mas é um político experiente, oriundo de uma família de políticos.
05:14Onde ele tem errado?
05:16Na fragilidade de suas decisões, na hesitação de comprar brigas
05:21e na história de querer fazer média com muita gente.
05:24Não é assim que se lidera uma Câmara Federal.
05:27É preciso, sim, o diálogo, mas é preciso ter firmeza e objetividade.
05:33É só olhar para o seu anterior.
05:35O Hugo, porque o Arthur Lira tinha essa postura.
05:41Aliás, às vezes até exageradamente dura, às vezes sopetão,
05:46colocava as questões de votação, não deixava nem mais tempo para discutir,
05:49mas é só para contrastar a liderança de Hugo Mota com a de Arthur Lira.
05:54Eram dois estilos completamente diferentes.
05:56Não é nem muito um lado, nem muito outro.
05:59A gente precisa de um lado mais moderado.
06:00Mas esta liderança hoje, frágil, que hesita e que tenta fazer média com todo mundo,
06:08não está mostrando muito bom para a reputação de uma Câmara
06:13que já está enormemente desgastada.
06:16Pois é.
06:17E aí havia uma grande expectativa também no trabalho dos deputados, né, Mota?
06:21Nós chegamos a fazer uma análise após as eleições
06:25sobre aquela composição da Câmara dos Deputados, né?
06:28Tantas cadeiras para tal partido, o outro partido ganhou tantas.
06:32Daí aquela avaliação.
06:33Nossa, trata-se da Câmara mais conservadora dos últimos tempos.
06:37Isso teve que tipo de consequência, hein, Mota?
06:41O que mais me chama a atenção, Caniato,
06:44é o grau no qual todo o funcionamento do Congresso
06:52é ditado por duas pessoas.
06:55Então, o presidente da Câmara decide
07:00se vai ser votado de um jeito, se vai ser votado do outro,
07:04se não vai ser votado, se vai ir para a gaveta,
07:07esquece esse assunto, eu vou lá do outro lado conversar.
07:10Mas quantos deputados tem ali na Câmara?
07:15Quantos votos são representados por todos aqueles deputados ali?
07:19E isso não vale de nada, não adianta de nada.
07:22O que dita, o que vai acontecer ou não vai acontecer
07:25é a vontade de uma única pessoa.
07:28Eu fico me perguntando até que ponto
07:30esse sistema corresponde ao ideal
07:34que a gente tem na nossa cabeça de democracia.
07:37A gente vê tantos discursos bonitos
07:39falando do Estado Democrático de Direito.
07:42Mas aonde vai parar o voto do cidadão
07:45que saiu de casa, fez o seu dever,
07:48escolheu o seu representante, elegeu.
07:51O representante está lá em Brasília,
07:53sentado na cadeira dele.
07:55Mas olha, desculpe esse assunto aí,
07:57não vai nem ser votado.
07:59Ele não vai entrar em pauta,
08:01não vai entrar em discussão.
08:02Não importa o que a sociedade pense,
08:05não importa o que a maioria dos deputados desejam.
08:10É isso o aspecto dessa notícia
08:12que mais chama a minha atenção.
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