00:00E agora a gente fala sobre a situação do Chile e também um pouco de Venezuela com o especialista em relações internacionais, Victor Cabral.
00:07Boa noite para você, Victor. Seja muito bem-vindo ao Jornal Times Brasil.
00:12Boa noite, Marcelo. Obrigado.
00:15Bom, se a gente observar as últimas eleições aí no Chile, a gente vê que direita e esquerda estão se alternando, né?
00:21Mas dessa vez aparece um personagem aí um pouco mais extremo, um ultradireitista.
00:25Queria que você contasse um pouco melhor para a gente quem é o José Antônio Castro, como é que ele se compara, por exemplo, com o Bolsonaro e com o Milley.
00:33De saída, eu digo que ele tem uma vantagem comparativa aí no caso do Bolsonaro, é porque ele perdeu a última eleição, não contestou o resultado e assumiu a derrota, né?
00:47Bom, o José Antônio Castro tem 59 anos, ele é advogado, já foi deputado pelo Chile durante mais de 10 anos.
00:55Mas, como você disse, ele já foi candidato à presidência duas vezes, foi derrotado e aceitou a derrota, né?
01:00O que é uma grande diferença do que a gente viu aqui no Brasil.
01:04O Caixa, ele tem uma postura do que nós que trabalhamos com o Distrito Internacional demonstramos que ele está alinhado no espectro da extrema-direita global.
01:13Ele tem um passado complexo, ele já afirmou numa campanha que se o Augusto Pinochet estivesse vivo, ele teria votado no Caixa para as eleições de 2018.
01:24O pai do Caixa era filiado ao partido nazista alemão, não apenas lutou pela Alemanha na Segunda Guerra Mundial, como era de fato filiado ao partido.
01:33E ele tem uma postura realmente muito mais extremista em relação aos costumes.
01:38Ele é abertamente contra o aborto, ele é uso de anticoncepcionais, inclusive para a esposa dele,
01:44o que também contraria um pouco da filosofia liberal de que você pode decidir sobre o seu próprio corpo.
01:49Ele tem um discurso anti-migratório muito intenso e tem uma proximidade ideológica com Donald Trump, com o Neb Bukele de El Salvador.
01:58Ele participa das reuniões da CEPAC, que é a grande conferência de ação conservadora liderada pelos Estados Unidos,
02:05assim como das reuniões do Vox, que é o partido de extrema-direita da Espanha.
02:10Então ele está alinhado com a extrema-direita global.
02:12Ele se reúne com Javier Mili na Argentina, com a Giorgia Meloni da Itália, com o Victor Orban da Hungria.
02:18Ele faz parte justamente dessa comunhão que nós temos de grandes lideranças da extrema-direita.
02:24E ele vem realmente com uma pauta muito voltada para tratar sobre questões de criminalidade, anti-migração.
02:30Ele defende que todos os migrantes que estão em situação indocumentada no Chile
02:35sejam ou deportados do país ou saem voluntariamente o quanto antes.
02:41Atualmente, o Chile tem cerca de 337 mil pessoas em situação indocumentada.
02:46E ele acredita que ele vai conseguir expulsar essas pessoas ao máximo, principalmente os venezuelanos.
02:52Muitos de seus apoiadores defendem que os venezuelanos precisam ser expulsos do Chile
02:56porque eles podem trazer o comunismo para o país, ainda que isso não se comprove, não tenha nenhum mastro.
03:02E quando a gente olha para a criminalidade, como no texto que vocês trouxeram anteriormente,
03:08de fato houve um aumento da taxa de homicídios no Chile em relação à última década.
03:13Mas ainda assim o Chile é muito mais seguro do que, por exemplo, o Brasil.
03:17Nós tivemos em 2023 21,2 homicídios a cada 100 mil habitantes,
03:22com o estado de São Paulo sendo o estado mais seguro, com cerca de 8,4 homicídios.
03:26E o Chile, com o seu pior dado, chega a 6 homicídios a cada 100 mil habitantes,
03:31o que faz com que ainda seja um dos países mais seguros das Américas.
03:34Só que, de fato, a taxa de assaltos, distorções e de sequestros,
03:39inclusive de alguns poucos crimes violentos cometidos pelo trem de Aragua,
03:44que é uma gangue que saiu da Venezuela e está se espalhando pela América Latina,
03:48nos poucos crimes que eles cometem, conseguem-se crimes muito mediatizados.
03:52E como boa parte da população chilena vive na região metropolitana de Santiago,
03:57isso se nacionaliza de uma forma muito intensa.
03:59Então, mesmo que os dados indiquem que a criminalidade não é tão absurda
04:03quanto se está sendo vendida na campanha,
04:05o Caixa consegue mobilizar isso muito bem em toda a campanha,
04:09assim como a Jara, que percebeu que ela não iria poder se afachar
04:13a um discurso de segurança pública,
04:15iria ter que falar sobre aumento de prisões,
04:17construção de centros de detenção de segurança máxima,
04:21se alinhando com um discurso que foi, de fato, comum entre todos os candidatos,
04:25de que era necessário ter uma ação rápida e efetiva para o controle da segurança pública.
04:29Vamos agora para uma pergunta da Amália Almeida.
04:33Obrigada pela tua participação.
04:35Queria puxar um pouco a sardinha aqui para o nosso lado,
04:37porque é isso, essa primazia aí do debate sobre segurança pública
04:42acabou afastando o debate sobre as propostas no campo econômico.
04:47E você trouxe, quando você estava falando um pouquinho sobre o Caixa,
04:52o quanto ele se alinha a uma outra direita,
04:55mas, ao mesmo tempo, tem diversos aspectos que não são tradicionais
04:58do ponto de vista do liberalismo de direita.
05:01Então, puxando esse liberalismo para a economia e te perguntando,
05:04dá para imaginar alguma mudança significativa em termos de gestão da economia chilena
05:09numa eventual vitória mesmo do Caixa?
05:13Bom, o Caixa, ele defende um corte de mais ou menos 7% dos gastos públicos
05:22que existem hoje no Chile em um intervalo de 18 meses.
05:26Ele fala que o Chile tem uma má gestão governamental.
05:29A campanha dele não dá muitos detalhes sobre como vai ser a sua gestão da economia,
05:35mas dá indícios de uma necessidade de mais cortes,
05:37de enxugar os gastos do Estado.
05:40Apesar do Chile não ter, por exemplo, um aumento efetivo,
05:43da sua dívida externa e da sua dívida pública,
05:47eles têm essa preocupação em controlar o máximo possível os gastos.
05:50Em relação a aspectos econômicos internos,
05:53o Caixa defende abertamente que as empresas precisam ter mais facilidade
05:57para serem abertas.
05:58Então, ele fala de uma desregulamentação da abertura de empresas,
06:02redução de impostos para o empresariado,
06:05mais investimentos do Estado, por exemplo,
06:09em estabelecer acordos de livre comércio com outros países,
06:12para a expansão de milagros mercados,
06:15mas não dá detalhes sobre como isso funcionaria.
06:18Ao mesmo tempo, ele segue falando de investimentos,
06:21de ampliar investimentos públicos em áreas que são críticas.
06:24Por exemplo, o Chile passa, desde o seu processo ditatorial,
06:29por um processo de enfraquecimento da saúde pública e da educação pública no país.
06:34É uma privatização muito constante,
06:37como sendo um dos dilemas do governo do Augusto Pinochet.
06:39E o Caixa entendeu que essa é uma demanda a ser resolvida,
06:43tanto à esquerda quanto à direita.
06:45Então, na sua proposta, ele fala, por exemplo,
06:48de ampliar investimentos públicos na saúde,
06:51então, de ter mais investimentos em saúde odontológica,
06:54oncologia, geriatria,
06:56ter mais opções de escolas que recebem financiamento público
07:00para as parcerias públicas privadas que existem.
07:03Ele fala de investir mais em rodovias,
07:06as chamadas autopistas, áreas também para as pessoas poderem caminhar
07:10e também desregular o processo de licitação de portos,
07:15pensando justamente numa expansão,
07:17já que o Chile é banhado pelo Pacífico
07:20e tem uma proximidade geográfica
07:21que pode facilitar as suas exportações para o mercado asiático.
07:25Então, é importante que o Chile tenha a expansão dos seus portos
07:28e ele coloca isso na sua campanha.
07:30O grande problema do Caixa é que, em termos econômicos,
07:33essa não foi a principal pauta do seu governo.
07:37Ele fala, da proposta do seu governo, perdão,
07:40ele fala muito mais sobre questões de segurança
07:42do que sobre a economia em si.
07:45Mas o pouco que a gente consegue obter da campanha dele
07:47é justamente isso.
07:48Desde regulamentação, cortes de gastos de investimento público,
07:52há uma preocupação, por exemplo,
07:54de que ele não consiga manter o aquecimento da economia,
07:58já que o Chile está com a economia estagnada já há alguns anos.
08:02O Chile, no máximo, consegue crescer 2,4%,
08:05sendo essa uma das principais crises que o governo do Boric teve
08:08nesses anos, por que ele está à frente do Palácio da Moneda.
08:11E o FMI, inclusive, projeta para esse ano
08:13um crescimento abaixo de 2,5%.
08:16Mas o Caixa promete que ele vai conseguir fazer o Chile crescer
08:19acima de 4%,
08:20mesmo que as médias dos últimos anos indiquem
08:23que talvez isso não seja possível
08:25e as indicações do FMI também demonstram
08:27que a realidade é um pouco diferente
08:29do que ele está tentando vender para os eleitores.
08:32Mas há, de fato, uma esperança a partir do eleitorado
08:36de que ele possa resolver a economia.
08:38Há levantamentos, por exemplo, da Atlas Intel,
08:41com pesquisas de opinião solicitadas pela agência Bloomberg,
08:46indicam que boa parte dos chilenos
08:48têm uma preocupação com a economia.
08:50Dizem que a economia chilena não está boa,
08:52que há um desemprego crescente,
08:54acho que a inflação é uma grande preocupação,
08:56já que ela está acima dos 8% no último ano
08:59e provavelmente deve manter esse índice nesse ano.
09:02Então, aí existe essa preocupação por parte do eleitorado
09:04e eles acreditam que, nos próximos seis meses,
09:07onde existe já o momento em que o Caixa passa a tomar posse
09:11nessa provável vitória que ele deve ter amanhã,
09:14há uma esperança de que talvez a economia chilena
09:16venha, de fato, a encontrar uma solução.
09:21E, para a eleição de amanhã, de fato,
09:24há uma expectativa de fato que o Caixa possa ser o vencedor,
09:27muito provavelmente com uma margem de mais de 20 pontos
09:30de diferença da Jara, indicando de fato...
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