00:00Então, nos últimos anos, a gente teve aqui na Amazônia uma série de eventos extremos,
00:04em especial de secas extremas, que trouxeram impactos sem precedentes
00:07para os ecossistemas e para as populações ribeirinhas, indígenas, ao longo dos rios amazônicos.
00:13E durante esses eventos, um processo nos chamou muita atenção, que foi o aquecimento das águas.
00:19Então, a gente notou para alguns lagos em que a gente acompanhava de perto,
00:22especialmente o lago Tefé e outros lagos da Amazônia Central,
00:26temperaturas da água muito elevadas, temperaturas de até 41 graus Celsius,
00:30como aconteceu no lago Tefé, e que é uma temperatura que vai além da capacidade de tolerância térmica
00:34de muitos dos animais aquáticos, como peixes, botos e outros.
00:39Então, a partir dessa constatação alarmante que a gente teve desde 2023 do aquecimento dos lagos,
00:45a gente pensou em avançar nesse estudo e trazer respostas sobre o que estava acontecendo
00:50e aumentar a escala, não olhar para apenas os poucos lagos que a gente tinha dados em campo,
00:55mas olhar com dados de satélite uma escala maior, olhar para muitos outros lagos
00:59e responder o que está acontecendo com os lagos amazônicos.
01:02E a resposta é que está acontecendo algo muito alarmante.
01:04A gente tem tido um aquecimento generalizado de lagos amazônicos,
01:08seguindo tendências globais de aquecimento de lagos.
01:10Então, a gente estimou uma temperatura, um aumento da ordem de 0,6 graus Celsius por década,
01:16mas que culminam durante eventos extremos, como secas, a temperaturas muito mais elevadas,
01:20a ondas de calor na água.
01:22A gente costuma falar de ondas de calor no ar,
01:23dessa vez a gente está vendo ondas de calor também dentro da água,
01:26com temperaturas muito extremas.
01:28Na Amazônia, tudo está conectado, né?
01:31Então, quando a gente fala de peixes morrendo por temperatura excessiva,
01:35ou mesmo dos botos, que são animais topo de cadeia morrendo,
01:38a gente está falando do impacto em toda a cadeia ecológica
01:40e das populações que interagem e dependem diretamente dessas cadeias.
01:45Pesca é a base da economia da Amazônia Ribeirinha, da Amazônia Central.
01:49Então, é a base da dieta, a principal fonte de proteína são os peixes.
01:54Quando a gente vê o impacto dessa proporção de mortandades de peixes em vários lagos amazônicos,
01:59não só por temperatura, mas também por outros fatores,
02:02como falta de oxigênio ou mesmo a falta do lago,
02:04o lago seca, num tempo onde os peixes acabam morrendo,
02:07a gente está falando de um grande impacto nas populações locais,
02:10um impacto enorme na segurança alimentar dessas populações.
02:14Então, a gente tem muitos relatos distribuídos em toda a Amazônia.
02:17Aqui no Pará, a gente viu muitos relatos.
02:19Por exemplo, a gente tem um estudo com parceiros da UFOPA, lá em Santarém,
02:24no Lago Grande de Monte Alegre.
02:25É uma tragédia o que aconteceu nos últimos anos lá.
02:29Quase todo o lago seca e apenas poucas poças ficam,
02:32e com poucos peixes ali, com muita mortandade.
02:35Então, a gente está falando de um impacto enorme,
02:36não só, como eu falei, na segurança alimentar dessas populações,
02:39mas também na economia.
02:40Porque quem depende, os pescadores que dependem desses recursos
02:43para o seu dia a dia, ficam sem recursos.
02:47Então, é muito alarmante e a gente tem que pensar em soluções.
02:50Tem que pensar em formas de adaptação e de buscar soluções
02:54para apoiar essas populações que têm sido cada vez mais vulneráveis a essas crises.
02:58A gente estudou, com imagem de satélite,
03:01a gente estudou 24 lagos distribuídos em toda a Amazônia Central,
03:04desde lá do Médio Solimões, que a gente chama, na região do Amazonas,
03:09até aqui embaixo, na região de Santarém, Monte Alegre,
03:12e mais aqui para baixo, até no baixo rio Amazonas.
03:15Então, a gente olhou toda uma distribuição de lagos na Amazônia Central,
03:19que são bastante representativos de lagos amazônicos,
03:22e que convergem também para as tendências que a gente tem visto em escala global,
03:26de um aquecimento generalizado de lagos,
03:28e que durante eventos extremos tornam temperaturas ainda mais elevadas.
03:32A partir dessas metodologias que a gente vem desenvolvendo nos últimos anos,
03:36de monitorar a temperatura da água por satélite,
03:41o MapBiomas Água, em especial junto com o WWF Brasil,
03:44eles lançaram uma plataforma online para monitorar a temperatura da água dos lagos amazônicos.
03:50Então, são, em grande parte, os mesmos lagos, com alguns adicionais,
03:54mas que é uma ideia de olhar para uma escala maior e trazer respostas.
03:58Em tempo real, sobre o que está acontecendo com esses lagos.
04:00A temperatura da água se mostrou uma variável chave
04:04para a gente entender o que tem acontecido nos últimos anos.
04:07Então, a partir de satélites, a gente consegue ter essa compreensão em mais ampla escala
04:12e poder trazer uma resposta.
04:14Será que os lagos estão de novo aquecendo quando vier uma nova seca?
04:17Todo ano a gente tem a excitação seca dos rios.
04:20Isso é natural.
04:21O problema é quando essa excitação seca se torna muito mais forte do que o normal,
04:25quando vem uma seca extrema.
04:26Em 2025 a gente não teve.
04:27Finalmente, depois de dois anos de muito sufoco, de duas tragédias em sequência,
04:3323, 24 e 25, a gente não teve uma seca extrema.
04:37E as temperaturas não subiram tanto como naqueles anos.
04:41Então, ter plataformas desse tipo, estratégias de monitoramento
04:45que nos permitam trazer respostas em tempo real é muito importante.
04:49Mas também é importante salientar que satélites não trazem toda a resposta que a gente precisa.
04:54A gente precisa estar em campo e precisa ter estratégias de monitoramento de longo prazo no território.
04:59Porque por satélite a gente ainda não consegue ver muita coisa.
05:02A mortandade dos animais a gente não consegue ver por satélite.
05:05O valor de fato que a temperatura da água está chegando,
05:08o satélite ainda tem um pouco de dificuldade de estimar.
05:11Então a gente precisa ter novas formas, novas estratégias de monitoramento no terreno,
05:15no território, para que a gente consiga, ao longo dos anos, ir entendendo, acompanhando
05:19e trazendo respostas sobre o que a emergência climática está trazendo para os lagos da Amazônia.
Comentários