00:00E agora no Conexão nós vamos falar de um outro assunto sobre Estados Unidos e China,
00:04porque a partir da próxima segunda-feira a China deixará suspensas ao longo de um ano
00:10algumas tarifas sobre importações americanas, incluindo taxas adicionais sobre produtos agrícolas.
00:17Foi um desdobramento daquela reunião entre os presidentes Donald Trump e Xi Jinping.
00:22Mas esse armistício está longe de ser um fim na guerra comercial sino-americana,
00:27que ainda é um fator de incerteza para a economia global.
00:32Sobre isso nós vamos falar agora com o Pedro Costa Júnior, analista de relações internacionais
00:38e doutor em ciência política pela USP, que está aqui nos estúdios conosco.
00:42Agradeço muito a presença do senhor, professor.
00:44Bom, meu tio Eduardo, um prazer, um prazer e uma alegria estar aqui.
00:47Olha, professor, essa trégua tarifária traz um alívio para os investidores, nós sabemos,
00:52mas até onde é seguro adotar o otimismo?
00:55Há sinais de que essa disputa comercial entre as duas maiores economias do mundo
01:00esteja se distendendo de forma mais duradoura?
01:04É uma relação muito estável, né?
01:06Quando o Trump ganha em 2016, no primeiro governo Trump,
01:10e ele começa essa guerra comercial com a China,
01:13os chineses foram pegos, Eduardo, mais ou menos de surpresa, de calças curtas.
01:18Acontece que o Biden continuou essa guerra comercial com a China,
01:21que é uma guerra comercial, que se torna também uma guerra tecnológica,
01:25uma guerra tarifária.
01:27Quando o Trump volta, ao contrário de 2016,
01:31os chineses já estão preparados para retalhar.
01:35Eles mapearam onde eles poderiam retalhar nos Estados Unidos.
01:38Um dos pontos que eles calcularam de retalhar foi na base dos republicanos,
01:43na base de onde o Trump tem votação eleitoral.
01:47Ou seja, para jogar os eleitores de Trump contra o próprio Trump.
01:51Onde o Trump é muito forte?
01:53É no agronegócio.
01:55É uma base eleitoral trumpista e republicana.
01:58Então, os chineses miraram exatamente lá.
02:01De maneira que, quando vinha o tarifácio sobre a China,
02:03Trump chegou a fazer um tarifácio, a dizer, de um tarifácio de 125%.
02:08Mas os chineses conseguiram responder dessa maneira estratégica,
02:12e sendo a segunda maior economia do mundo.
02:13Então, para dar um exemplo, a questão da soja.
02:17A China deixou de comprar soja dos Estados Unidos
02:19e foi comprar soja de onde?
02:21Daqui, do Brasil, dos produtores brasileiros.
02:24Então, nossos produtores, obviamente, ficaram entusiasmados com a notícia.
02:27Acontece que nessa negociação que teve agora entre Trump e Xi,
02:31eles acertaram exatamente que os Estados Unidos vão voltar a fornecer soja para a China.
02:38Então, os chineses voltam a comprar soja,
02:41em detrimento, por exemplo, da soja brasileira.
02:43Então, esse acordo é um acordo com duração de um ano,
02:47mas é um acordo que pode mudar durante esse um ano.
02:49Vai depender do calor geopolítico entre os Estados Unidos e China.
02:53São muitos vai e vens, de certo.
02:55Você citou, inclusive, a questão dos produtos de tecnologia.
02:59O setor de tecnologia está no centro dessas tensões comerciais entre a China e os Estados Unidos.
03:05Mesmo com a redução das tarifas sobre os produtos agrícolas,
03:08a questão das tarifas sobre tecnologia, como os semicondutores, 5G,
03:14tudo isso continua em aberto.
03:16A questão dos chips.
03:17Qual é a importância de se resolver essa questão de maneira definitiva
03:22para que a relação entre os Estados Unidos e a China se estabilize, de fato?
03:26Perfeito.
03:28Veja, os Estados Unidos têm a liderança nessa questão dos chips, dos microchips,
03:33têm a liderança na questão dos condutores e semicondutores.
03:36Ao passo que a China tem uma liderança na chamada questão das terras raras e dos minerais críticos.
03:43Foram duas questões que também foram abordadas aí e que são mais sensíveis.
03:47Quer dizer, se flexibilizou da parte da China a questão agrícola, ou questões agrícolas,
03:51mas não com relação à questão das terras raras e dos minerais críticos.
03:55Ao mesmo tempo, os Estados Unidos têm uma cadeia global que comanda esses chips e microchips com aliados.
04:03Aliados, tentáculos ocidentais que comandam essa cadeia.
04:07Um deles, por exemplo, trazer aqui a Holanda.
04:10A Holanda, há uma semana atrás, foi noticiado aqui, muito bem, é uma bela cobertura,
04:15nacionalizou a maior fábrica que eles tinham de chips e microchips, que era uma fábrica chinesa.
04:20Isso faz parte dessa disputa pela liderança tecnológica global.
04:25Faz parte dessa disputa entre Estados Unidos e China pela liderança tecnológica.
04:31Taiwan é um outro ator muito relevante, que tem um grande desempenho em chips, microchips,
04:37e que está nessa disputa geopolítica entre Estados Unidos e China.
04:41Então, os Estados Unidos, nesse momento, esse é o quadro, é a radiografia geoeconômica do momento.
04:45Eles lutam para ter a liderança de condutores, semicondutores, chips e microchips.
04:51Ao passo que a China luta para ter a liderança de terras raras e minerais críticos.
04:56Essa é a disputa tecnológica desse século.
04:57E os dois estão muito interligados nesse sentido, porque a China precisa também exportar essas terras raras.
05:04Os Estados Unidos precisam de alguns dos materiais que vêm da China.
05:08É isso, né?
05:09É isso, e aí entra o Brasil novamente, porque a maior reserva de terras raras do mundo é justamente da China.
05:16A China detém cerca de 48% das reservas descobertas de terras raras do mundo.
05:22Ou seja, praticamente metade.
05:23E os Estados Unidos são muito precários, muito pobres em reservas de terras raras.
05:28Eles detêm cerca de 2% das terras mapeadas.
05:31Então, 48% e 2%.
05:33E a segunda maior reserva de terras raras do mundo é o Brasil, que detém cerca de...
05:38Se a China tem quase metade das terras raras do mundo, o Brasil tem quase um quarto, mais de um quarto, quase um quinto das terras raras do mundo.
05:46Cerca de 23% das terras raras do mundo.
05:49Isso é uma piada.
05:50Quando a China, diante do tarifácio de Trump, nega o acesso a terras raras para os Estados Unidos,
05:56eles têm que achar novos mercados.
05:58E o principal mercado mundial fora a China é justamente o Brasil.
06:03Não à toa, nesses encontros entre o presidente Trump e o presidente Lula, estava a questão das terras raras.
06:08Assunto que vai voltar com certeza.
06:10Agora, quais produtos são os principais que devem se beneficiar dessa suspensão das tarifas,
06:17que começa na próxima segunda-feira, que vai ter um impacto mais direto?
06:22Existe alguma área específica que você acredita que é mais estratégica para a China e para os Estados Unidos daqui para frente?
06:29Esses pontos estratégicos são mais difíceis de serem negociados, como, por exemplo, os miliarais críticos.
06:35E, embora a China tenha conquistado nessas negociações avanços com relação a condutores e semicondutores.
06:41Acontece que, lá atrás, o Deng Xiaoping, ele tem uma frase famosa dele, que ele disse o seguinte,
06:48o petróleo é deles, se referindo aos Estados Unidos, os petrodólares.
06:52Nós não vamos alcançar os Estados Unidos no monopólio do petróleo, na nominação do petróleo global.
06:58Mas nós teremos o monopólio das terras raras.
07:01E, hoje, 75% a 80% da produção de terras raras, da cadeia inteira dos minerais críticos, é feita na China.
07:11Então, esses pontos sensíveis pouco avançam.
07:14O que avança, por exemplo, é a questão agrícola.
07:15E aí, tem uma questão interessante da gente olhar.
07:18Porque, veja, historicamente, quem é que o Trump está tentando garantir mercados de soja,
07:26de farelo, de milho, de petróleo, de gás, para a China?
07:30E, historicamente, quem fornece commodities no sistema internacional
07:34são produtos da periferia do capitalismo e da periferia do capitalismo.
07:39É a América Latina.
07:41É a África que exporta soja para o mundo, que exporta farelo, milho.
07:46E é isso que o Trump está tentando garantir agora.
07:49Os Estados Unidos se fizeram, no mundo, com a maior superpotência econômica,
07:52exportando manufaturas, produtos de alta tecnologia e alto valor agregado.
07:57Então, isso também, digamos, é uma sintonia dos tempos que nós vivemos
08:02nessa disputa entre Estados Unidos e China.
08:04E, claro, se há um acordo firmado, houve recuos mútuos.
08:10Quem saiu ganhando nesse acordo entre Trump e Xi Jinping?
08:14Quem ganhou mais politicamente, Trump ou Xi?
08:17Olha, geoestrategicamente, o Xi teve uma vantagem.
08:21Teve uma vantagem por quê?
08:22Porque, primeiro, o tarifácio foi reduzido de 125%, como dizia Trump no começo,
08:28para 25%, ou seja, de 5%, e agora em 20%.
08:32Então, essa é uma vantagem do ponto de vista de uma guerra tarifária maior.
08:37Mas, sobretudo, por quê?
08:38Porque a China cedeu, ela foi flexível em pontos da chamada economia primária.
08:45Então, tudo bem, vocês querem que eu volte a comprar soja?
08:47Eu volto a comprar soja.
08:48Gás?
08:49Eu posso comprar gás.
08:50Isso não impacta nessa disputa tecnológica.
08:53Ao passo que, por exemplo, na questão de condutores, semicondutores e chips,
08:56os Estados Unidos é que foram flexíveis.
08:59Então, nesse sentido, foi um ponto para a China, um ponto para a Xi Jinping.
09:02Uma vantagem em relação a Donald Trump.
09:05Mas, considerando o efeito dominó que essas políticas comerciais entre Estados Unidos e China
09:10pode ter sobre as economias em desenvolvimento,
09:13qual que é o impacto que essa suspensão de tarifas,
09:17que começa na segunda-feira, pode trazer, por exemplo, para países como o Brasil.
09:22Não é um impacto bom, não é um impacto positivo.
09:24Mais uma vez, o exemplo da soja.
09:26Quando a guerra comercial estava estabelecida com relação à questão da soja,
09:31o Brasil aumentou o seu mercado.
09:33A China deixou de comprar dos Estados Unidos para comprar do Brasil.
09:37Agora, ela vai deixar de comprar do Brasil para voltar a comprar dos Estados Unidos.
09:41Isso vale para a soja e vale para outros setores em que o Brasil é competitivo.
09:44Mas, mais uma vez, é importante alertar.
09:47Em tempos de instabilidade geopolítica, esse acordo de um ano,
09:52ele pode ser retificado antes que se complete 365 dias.
09:55Não tem nada escrito na pedra.
09:57Perfeito, exatamente.
09:59Estamos esperando o que vai acontecer.
10:01Professor Pedro Costa Jr., analista de relações internacionais
10:04e doutor em ciência política pela USP.
10:07Muito obrigado pela sua participação,
10:09por essa entrevista aqui presencialmente nos nossos estúdios.
10:12E até uma próxima.
10:12Sempre um prazer estar aqui com vocês. Obrigado.
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