No Direto Ao Ponto, o diplomata e ex-presidente do Banco dos BRICS, Marcos Troyjo, afirma que as relações entre Brasil e Estados Unidos passam pelo pior momento das últimas quatro décadas.
▶️ Assista à íntegra no canal da Jovem Pan News no YouTube: https://youtube.com/live/9iLXo7SEp9I #DiretoAoPonto
Baixe o app Panflix: https://www.panflix.com.br/
Inscreva-se no nosso canal: https://www.youtube.com/@jovempannews/
00:00Troíro, eu já quero começar perguntando pra você sobre uma das principais imagens desde esse fim de semana, que foi o encontro entre Lula e Trump.
00:08E a gente viu ao longo dessa repercussão uma necessidade muito grande de falar de vitoriosos e derrotados em campos políticos e em espectros ideológicos,
00:18e também comemorações ou falta de otimismo.
00:23Eu quero saber de você, pra além da superfície, o que representa o encontro entre Lula e Trump neste domingo? Boa noite.
00:32Boa noite.
00:33Evandro foi em 1971, numa daquelas visitas secretas à China, quando o então secretário de Estado Henry Kissinger tentava construir uma alternativa
00:48que viesse a quebrar a espinha dorsal do comunismo como força geopolítica, que Kissinger teve uma longa conversa com Xu Enlai, que era o premier chinês.
01:01E aí, num dos jantares, né, que se seguiu aquela negociação, esses dois personagens, que gostam muito de história, começaram a falar sobre a história,
01:11e o Kissinger perguntou ao Xu Enlai, o que o senhor acha da Revolução Francesa?
01:19E o Xu Enlai respondeu, olha, eu acho que tá cedo demais pra gente dizer.
01:25Tá recente demais pra gente dizer.
01:27Aliás, depois, só por curiosidade, parece que foi um erro do intérprete, né?
01:33Quer dizer, o Xu Enlai entendeu o que o Xu Enlai estava perguntando sobre o movimento dos estudantes na França em 1968.
01:39Tinha sido três anos, o cara voltou lá pra mais de duzentos anos.
01:42Mas a resposta serviu da mesma maneira.
01:44Da mesma maneira.
01:45Como eu acho que ela é muito adequada pra caracterizar o encontro desse final de semana na Malásia,
01:55porque, enfim, eu morei nos Estados Unidos em 1982 como estudante de intercâmbio, né?
02:01Tinha 15 anos de idade.
02:02Assim, nesses 43 anos, Evandro, eu não consigo pensar no momento, né,
02:07em que os Estados Unidos e o Brasil estivessem tão distantes um do outro, né?
02:12Duas maiores economias do hemisfério, duas maiores democracias do Ocidente,
02:18e os países estão muito distantes, né?
02:21E eu acho que é até interessante a gente falar um pouco sobre como nós chegamos a essa distância.
02:25Claro, por favor.
02:26Porque, veja, se você pegar mesmo aquele período da corrida eleitoral nos Estados Unidos,
02:32ao contrário do que é a tradição diplomática brasileira,
02:35o presidente da República manifestou a sua predileção por uma da candidata,
02:41que era a candidata do Partido Democrata, a Kamala Harris.
02:43Exato.
02:44E chegou a dizer também que uma eleição do presidente Trump significaria a volta do nazismo,
02:49do fascismo no mundo com uma outra cara, né?
02:51Aí, se você vai correndo na linha do tempo, se você pensar que o presidente Trump tomou posse no dia 20 de janeiro,
02:59aliás, eu acho que a gente esteve aqui logo depois, né, da posse do presidente Trump,
03:03do dia 20 de janeiro até aquele momento na antessala da plenária da Assembleia Geral das Nações Unidas,
03:10não havia, não houve nenhum contato pessoal, né, ou por telefone ou por videoconferência
03:15entre o presidente Trump e o presidente brasileiro, ao contrário do que foi observado na relação do presidente Trump
03:23com todos os outros chefes de governo das economias do dia 20, tá certo?
03:29Aí você vai ter outros fatores que eu acho que agravam essa situação, né?
03:34Por exemplo, a sociedade americana, como se diz, aliás, como a brasileira, está muito polarizada,
03:39não tem essa história, né? Está muito polarizado, etc.
03:41Agora, por exemplo, se tem uma coisa que não polariza os Estados Unidos,
03:45em todo, digamos, em todo o espectro do Partido Republicano e mesmo do Partido Democrata,
03:52é essa história de enfraquecimento do papel internacional do dólar, né?
03:56Ora, quem é hoje, dentre os chefes de governo do G20,
04:01o indivíduo que mais vocaliza, né, vocaliza com mais intensidade
04:06o enfraquecimento do papel internacional do dólar?
04:09É o presidente do Brasil, né?
04:11Outra coisa que, apesar de toda polarização, me parece ser algo consensual
04:15em diferentes corredores do poder em Washington.
04:18É a história de você criar um sistema de pagamento alternativo ao Swift, né?
04:22Quem é uma das principais vozes na tentativa de criar,
04:26ainda que seja só retórica, uma alternativa ao Swift?
04:29É o presidente brasileiro. Então, isso vai agregando.
04:32Aí você tem a cúpula dos BRICS no Brasil em julho.
04:37Eu me lembro que, na quinta ou na sexta-feira anterior à cúpula,
04:40o presidente Trump faz um comunicado, né, uma postagem em rede social,
04:44dizendo que estará atento a ações consideradas por ele anti-americanas.
04:50Eu acho que no último dia da cúpula, ou um dia depois,
04:53é quando é publicada aquela carta, né, a famosa carta de 9 de julho,
04:57que acrescenta 40% de tarifas às exportações brasileiras,
05:02aos 10% que haviam sido anunciados no dia 2 de abril.
05:07Então, enfim, mais uma vez, diferentes forças confluindo.
05:12Você tem toda essa empatia que o presidente Trump tem pelo ex-presidente Bolsonaro.
05:19E aí você tem um agravamento também da situação da imposição de sanções
05:23a autoridades brasileiras, seja suspensão de vistos, né,
05:27a mesma aplicação lei mais alinista.
05:28Ou seja, você tem todos os elementos aí de uma tempestade perfeita, né.
05:32É como num desastre de avião, né.
05:34Geralmente, quando você tem um acidente aéreo,
05:36várias coisas que não podem acontecer,
05:39acontecem de maneira razoavelmente sincrônica, né.
05:42O piloto fez uma barbeiragem, o cara da torre de controle estava dormindo,
05:45a fuselagem estava com fadiga, várias coisas acontecem ao mesmo tempo,
05:47e isso gera um acidente.
05:51Tanto que eu acho que dos últimos 50 anos,
05:53talvez o principal desafio de política externa que o Brasil teve,
05:57ou tem, é esse agora de retomar a sua relação com os Estados Unidos.
06:02Então, veja, eu entendo que aquele encontro de hoje,
06:05perdão, que aquele encontro de ontem
06:07mostra, né, de parte a parte, que há,
06:11pelo menos, uma predisposição em se negociar algo.
06:15Vamos ver o que vai ser negociado.
06:18Cass.
06:19Oi, Iru.
06:20A minha pergunta vai da sua experiência à frente do Banco dos BRICS
06:24e da própria ideia que, muitas vezes, o presidente Lula traz
06:28em relação à desdolarização, uma moeda dos BRICS.
06:32E, dentro disso, eu queria saber,
06:34como alguém que vivenciou a experiência da coordenação
06:37de estar à frente desse setor, não só econômico, mas diplomático,
06:41o quão possível ou provável, o senhor avalia que é essa implementação,
06:46esse surgimento de uma moeda do Banco dos BRICS?
06:51Veja, Jess, foi em 1870...
06:54Eu estou todo histórico hoje.
06:55Foi em 1870...
06:57É bom que você constrói o fio,
06:58a gente vai ocupando esse espaço,
07:00ocupando e, de repente, entrega com um laço feito ali.
07:04Mas, veja, foi na década de 70 do século XIX, em 1870,
07:10que houve uma ultrapassagem importante do ponto de vista
07:13da economia internacional, que é quando os Estados Unidos
07:15ultrapassam a Inglaterra na condição de maior economia do mundo.
07:20Então, quando isso acontece,
07:22entre esse momento e o momento em que o dólar
07:25passa a se tornar o padrão monetário dominante
07:28para transações globais,
07:30vão aí décadas, décadas e décadas.
07:32Então, há um momento, que é um momento em que o país
07:34deixa de ser a maior economia do mundo
07:36e um momento em que aquela moeda,
07:39ou aquele padrão, deixa de ser a principal referência.
07:42Eu acho que é muito pouco provável,
07:45ao contrário daquilo que às vezes se argumenta,
07:48que nós consigamos ver uma alternativa ao dólar
07:52no curto prazo.
07:54Porque, para isso acontecer,
07:56primeiro, você deveria ter uma espécie de rechaço,
08:00uma ogeniza,
08:01em relação ao dólar norte-americano.
08:05Quando você olha para reservas de bancos centrais
08:07de diferentes países do mundo,
08:08quando você olha na letra contratual,
08:11em que moeda se faz referência
08:13para a consolidação dessa ou daquela atividade,
08:16quando você utiliza a referência também, por exemplo,
08:19para a valoração dos ativos,
08:21o dólar ainda tem uma posição muito dominante.
08:25Você pode dizer o seguinte,
08:26bom, mas tem o enfraquecimento da economia americana.
08:31Você sabe, mais uma vez, falando em 1870,
08:33esses dias eu estava ouvindo uma conversa
08:35do Stephen Kotkin,
08:36que é um professor da Universidade de Stanford.
08:39Ele está dizendo que,
08:39desde esse momento,
08:41de 1870 até hoje,
08:43faça chuva, faça sol,
08:44com tarifas, sem tarifas,
08:46guerras externas ou não,
08:47os Estados Unidos têm 25% da economia mundial.
08:50Quer dizer, hoje o mundo tem
08:53125 trilhões de dólares de PIB nominal,
08:58PIB americano deve ser 31 trilhões,
09:00quer dizer, mais ou menos um quarto.
09:02Você tem 8 bilhões de pessoas no planeta,
09:04350 milhões de americanos,
09:06350 milhões de americanos tem um
09:07em cada 4 dólares.
09:10Então, em economia,
09:11tem uma outra coisa interessante,
09:12que é o seguinte,
09:12você não substitui algo por nada,
09:15você tem que substituir algo
09:17por alguma outra coisa.
09:18Então, que outra coisa seria essa?
09:21Seriam os criptoativos,
09:22as criptomoedas?
09:24Eu vejo aí um espaço crescente
09:26para as criptos,
09:28mas as criptos são algo
09:29que os bancos centrais não controlam.
09:31Então, eu acho um pouco mais difícil.
09:33Você vai ter algumas coisas
09:34que vão ocorrer em cripto,
09:36mas para o cripto substituir
09:38de forma tão dominante
09:39o hegemônico dólar,
09:40eu acho que é uma coisa
09:40que não vai acontecer.
09:41Qual que é a segunda maior economia do mundo?
Seja a primeira pessoa a comentar