No Dia Nacional de Combate e Prevenção ao Escalpelamento, celebrado nesta quinta-feira (28/8), histórias como a de Raísa Oliveira revelam a força de meninas e mulheres atingidas por esse grave acidente ainda existente em comunidades ribeirinhas. Na Santa Casa de Misericórdia do Pará, em Belém, o Espaço Acolher transforma dor em cuidado e luta por políticas públicas.
REPORTAGEM: BRUNA LIMA IMAGENS: IGOR MOTA EDIÇÃO: BIA RODRIGUES (SUPERVISÃO: TARSO SARRAF)
00:00Meu acidente ocorreu em 2011, no dia de outubro de 2011, no rio Cupijó, que é onde eu moro, na área ribeirinha.
00:23Eu vinha na embarcação com mais alguns familiares meus para um culto religioso e, infelizmente, por a falta de informação, eu abaixei para pegar um objeto no fundo da embarcação e acabou que enrolou o meu cabelo e ocasionou a perda de 70% do meu couro cabeludo.
00:39Eu não percebi nada de imediato, eu só vim entender que estava acontecendo alguma coisa que era na minha cabeça quando eu cheguei na minha cidade.
00:48Quando eu cheguei na cidade, eu recebi os primeiros socorros na minha cidade, não tinha tratamento adequado.
00:55De lá eu vim para um socorro da 14, onde eu fiquei, mais ou menos, eu acredito, três dias, também não ter tratamento.
01:03Aí, através de uma junta de pessoas da minha cidade, eu vim para a Santa Casa.
01:08Cheguei na Santa Casa e que foi um dos primeiros.
01:11Na verdade, os primeiros atendimentos de cirurgia foi na Santa Casa, que eu fiz a primeira cirurgia e o primeiro atendimento.
01:17Para mim, foi um processo doloroso e longo, mas eu decidi, nos meus 16 anos, que a minha dor ia ser a minha maior força para conscientizar outras mulheres, outras meninas de ribeirinhas.
01:31Eu converso muito com a minha comunidade, eu sempre converso.
01:35Como a gente mora muito longe, então é difícil ter acesso.
01:37Então, sempre que eu estou numa comunidade, numa igreja ou na escola, quando eu estudava, né, na escola, eu sempre falava sobre prenda sempre o cabelo, meninas não vão para trás, meninas ficam na frente, meninos podem ir para trás.
01:53Alguns têm, mas é pouco que têm cabelo grande. Então, eu sempre, qualquer oportunidade que eu tenho de falar sobre a prevenção, eu falo.
01:59Ela foi tirar a água, né, no momento, aí o braço dela escapou e ela caiu.
02:06Quando eu escutei o barulho, eu socorri ela e o levou ela para o posto novamente, aí transferiram a gente para tudo ir.
02:16De lá, transferiram a gente para casa.
02:18Eu não conhecia nada, né, nadinha, nunca tinha a minha tábua ou não.
02:24Sou soube desse, e aí, mas soube que dela, é tão maravilhoso, então, a gente acha muitas pessoas que ajudam a gente, né.
02:33Na verdade, já aconteceu com uma senhora lá, mas eu nunca tinha visto, só ouvia falar, nunca tinha visto pessoalmente, né.
02:42É muito difícil, né, a gente é ribeirinho, mora na beira do rio, aí eu fico mais tempo, assim, andando com ela, passa de dois em dois meses, eu tô aqui com eles, né.
02:56Com a força de Deus e as pessoas que me apoiam, né, aí tá sendo meio difícil, mas a gente tá levando a vida com fé em Deus, né.
03:06O Espaço Acolê, ele foi criado em 2006, inicialmente, para atendimento às vítimas de papelamento.
03:15Elas vêm do município dela, vêm para o ponto supongo metropolitano, né, para o regional, hospital regional metropolitano,
03:24e de lá, quando ela tá estabilizada, ela vem para a Santa Casa para receber os cuidados do cirurgião plástico.
03:31Dependendo do tipo de acidente, ele vai determinar as condutas.
03:37Aí ela fica internada um mês, dois meses, e quando ela sai do tratamento, do tratamento hospitalar,
03:47ela vem para cá para continuar a fazer o curativo e as outras consultas, aguardando nova cirurgia, se for o caso.
03:56Quando ela chega aqui no Espaço Acolê, a gente vai dar todo um outro atendimento também,
04:01dar continuidade na cobertura desse acompanhamento.
04:06E aqui também ela tem a classe hospitalar, que é uma sala de aula, uma arquidoteca,
04:11e ela entra em contato, se for criança com outras crianças, se for adulto com outras adultas,
04:17e começam a perceber que as pessoas seguem a vida, mesmo acidentadas,
04:23elas já continuam tanto o tratamento quanto a vida.
04:28Casam, estudam, têm filhos, né, e o nosso trabalho é nesse sentido,
04:35de que a gente consiga garantir que esse acidente seja ressignificado na vida dela.
04:42Mulheres que sofreram um acidente têm uma situação de uma dupla violência.
04:48A violência no acidente, que nós consideramos uma violência de gênero,
04:51porque é uma acidente que acontece com mulheres na região da Amazônia-Paraíse,
04:56a maior incidência na região da Bacia do Marajó,
04:59e foram muitas das vezes essa mesma mulher que teve o cabelo abulsionado
05:05e um eixo, por um eixo de um barco familiar, de seu companheiro, muitas das vezes,
05:12ele a abandona.
05:13Então, são muitos casos de violência, muito.
05:16O trabalho da psicologia, no atendimento diretamente às vítimas de papelamento, são dois.
05:22Quando elas estão internadas, nascem para casa, na parte clínica,
05:26durante o processo cirúrgico, e após a alta, quando ela toma realmente consciência
05:32que aquele cabelo, a fantasia dela, que ela achava que poderia recuperar
05:37ou queria voltar a nascer, ela aqui vai tomar consciência que o cabelo não vai nascer,
05:43com o bebê total, e que ela vai precisar ressignificar suas relações de vida,
05:50suas relações com si mesmo, a pensar a partir de uma nova mulher
05:55que teve uma bruta abunção, perdeu o pavilhão auricular desses dois,
06:03toda a sobrancelha mexeu com a fórmia.
06:07Então, são muitas as sequelas com o acidente que pode proporcionar.
06:11É uma questão que a gente precisa entender como um problema do Estado,
06:15os municípios que se saibam de uma maior incidência,
06:18Asbreves, Portel, Melgácio, Curraginho,
06:23esses municípios já precisam também ser justificados.
06:28Eu entendo que precisam de ter ações que também comecem a responsabilizar esses municípios
06:35por diminuir, mas a gente precisa ser radicado.
06:38É um acidente que mutila mulheres da Amazônia.
06:42Para mim, Raiza, todos os dias é dia de combate ao escapelamento para mim.
06:48Eu acho que uma das importâncias é que a gente tem visibilidade,
06:52e com essa data as pessoas entendem, olha, existe, não somos uma estatística,
06:56existe as vítimas de escapelamento, e entre outras coisas.
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