00:00Minutos, já que a gente falou de Venezuela, vamos falar de um lugar mais agradável.
00:03Veneza, por que não?
00:05E amanhã já começa o Festival de Veneza, pessoal.
00:09E o nosso cineasta 001, o cronista mais ácido da cultura brasileira,
00:14Josias Teófilo, já está na Itália nesse momento pra acompanhar tudo de perto,
00:19que é a 82ª edição do evento, que vai receber diversos artistas, né, Josias?
00:23Bom te ver, meu irmão, como a Julia Roberts, o próprio George Clooney,
00:26que é uma figurinha carimbada aí na Itália, e vários filmes inspirados na atualidade,
00:31trazendo vários debates, né, que podem acabar sendo inevitáveis,
00:35já se antever diversas polêmicas e debates.
00:37Mas eu te pergunto aqui, Josias Teófilo, diretamente de Itália,
00:41até que ponto os festivais, né, cara, e os filmes têm que falar de atualidade e causas?
00:47Será que isso tornou uma obrigação, quase, um pedágio ideológico
00:50que os diretores e produtores têm que pagar?
00:53O que você acha?
00:56Pois é, Marinho, então, estou aqui em Veneza,
00:59pro 82º Festival de Veneza, que é o festival mais antigo do mundo, né?
01:04Então, o festival ainda não começou, começa amanhã,
01:07mas existe uma grande demanda pra se comentar a questão,
01:11o tema do momento da esquerda, que é a questão da Palestina, né?
01:16Situação de Gaza.
01:17E tem todos, se espera que vá acontecer alguma coisa,
01:21os artistas vão se manifestar e tal.
01:24Eu, pessoalmente, acho muito chato essa coisa de que todo festival tem que ter,
01:29tem que se posicionar politicamente.
01:31Se você vê os festivais do passado, em que tinha tantos filmes relevantes,
01:35a política não entrava, né?
01:37E eu tenho saudade dessa época.
01:39E eu tenho a impressão que isso começou, principalmente, em maio de 68, né,
01:43quando o Festival de Cânia aconteceu naquela época e foi,
01:47e já loucou dar, com o Truffaut, eles pararam o festival e acabaram
01:52indo lá pra se juntar aos manifestantes e foi toda aquela comoção, né?
01:59E, então, é uma coisa muito, cada vez mais obrigatória,
02:04essa necessidade de comentar a atualidade, né?
02:06E se fala cada vez menos de cinema.
02:09Se você for ver os festivais de cinema do passado,
02:11as pessoas chegavam, os cineastas chegavam com uma proposta estética
02:15ou falar de algum tema específico,
02:18mas não necessariamente eles estavam envolvidos em política.
02:21Aliás, eu escrevi um artigo na Cruzoé falando sobre o problema
02:26do documentário biográfico, né?
02:28Que dá a impressão, vendo o documentário,
02:31que todos os artistas, porque é obrigatório,
02:34eles tentam sempre relacionar o artista com o seu momento político, né?
02:38Sendo que tem artistas que não tinham relação nenhuma com política.
02:42Tinham artistas que ignoravam solenemente o tema
02:46ou que comentavam, mas não nos seus filmes ou não nos festivais, né?
02:51Então, dá a impressão, pelos documentários,
02:54que todo artista, por exemplo, está tratando de artistas americanos,
02:57que todos eles se opuseram à guerra do Vietnã,
03:03todos eles participaram da revolução sexual, da liberação sexual,
03:07e, na verdade, se você for ver direitinho,
03:10a história é muito mais complexa.
03:12Tem grandes artistas que não estavam interessados nesse tema
03:15e eu acho que os festivais poderiam muito bem se focar
03:18no tema dos filmes, na questão estética, cinematográfica,
03:25porque tem muito o que se debater esse tema.
03:28E, para terminar, eu só queria falar uma coisa a mais,
03:31que é, eu tenho a impressão, as pessoas, esses documentários,
03:35eles sempre tendem a fazer parecer que os artistas mudaram o mundo.
03:39Eu tenho a impressão que o mundo muda sozinho e os artistas vão junto.
03:46Eu não esperava nada além de uma frase final sonora,
03:50pelo menos esse primeiro comentário.
03:51Vamos aqui com o Mano Ferreira, então, Josias.
03:52Primeiro, eu estou decepcionado porque eu achei que você ia entrar
03:56de uma gôndola mostrando os canais de Veneza.
03:59Não gostei.
03:59Está muito mirrado esse cenário, hein?
04:01Muito mirrado.
04:03Muito mirrado.
04:04Eu estava esperando uma coluna meio greco-romana, enfim, mas tudo bem.
04:07Acabou de falar sobre a questão artística que falta
04:10e aí ele me aparece nesse cenário.
04:12Ele é a prova do que a gente está dizendo, né?
04:16Com essa fuleiragem desse quadrinho aí.
04:19Amanhã vai melhorar que eu vou estar lá no festival mesmo,
04:22no Lago Unido.
04:23Boa.
04:24Boa.
04:24Mas qual que é a grande expectativa para o festival?
04:28O que é que a gente pode esperar de melhor?
04:31Olha, o principal é o filme do Guilherme Del Toro,
04:34o Frank Stein de Guilherme Del Toro.
04:36Inclusive, ele disse que não usou inteligência artificial,
04:39que não utilizou aquele fundo verde,
04:45fez efeitos práticos,
04:47que são efeitos que não utilizam da manipulação digital
04:50tão claramente assim, né?
04:52E esse daí é o grande.
04:54Agora, eu, pessoalmente, eu gosto muito de cinema francês, né?
04:57Então, eu estou muito animado para ver o filme de François Alzon.
05:01Tem um livro de...
05:02Um filme também de Olivier Sayas.
05:06E tem vários filmes aí muito interessantes.
05:09Tem também filmes restaurados, né?
05:13Então, tem uma grande quantidade de obras restauradas,
05:16como um dos meus filmes prediletos,
05:19que é o Cais das Brumas,
05:21Quai de Brum, de Marcel Carnet,
05:24um filme de 1939, uma coisa linda.
05:27É, meu amigo Josias,
05:30saudade do tempo onde a arte realmente era feita só para ser arte,
05:33para realmente elevar os sentidos de nós seres humanos
05:36e não como veículo político partidário,
05:39mas você deu um panorama bem completo do que a gente pode esperar
05:42e, com certeza, a gente conta contigo
05:43para repercutir os resultados por aí.
05:46Tenho certeza que você vai brilhar também, como sempre.
05:48Tamo junto, mestre. Obrigado.
05:50Até amanhã.
05:50É isso.
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