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  • há 10 meses
O processo de confecção da cuia leva em torno de 15 dias, segundo a artesã, de Belém, Maria Santana Magalhães, de 43 anos, que trabalha há 26 anos com cuias. Até o artefato estar pronto para uso, são realizadas 5 etapas: a colheita, quando é retirado o fruto maduro da cuieira; o corte, momento que a artesã serra o fruto; a limpeza, cujo miolo é retirado e descartado; o lixamento, quando a parte interna do fruto é lixada; e a exposição ao sol para o processo de secagem. Por fim, a artesã ainda pode riscar os grafismos e tingir a cuia.

Reportagem: Bruno Roberto
Imagens: Ivan Duarte
Edição: Karla Pinheiro (Supervisão Tarso Sarraf)

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Transcrição
00:00Eu já tenho 26 anos
00:29trabalhando com cunhas.
00:32E como eu tinha que encontrar
00:36algo para eu poder entrar
00:40na feira do artesanato,
00:42e eu riscava ela assim,
00:45uma amiga chegou e disse
00:46olha, vamos para a feira do artesanato
00:47para te apresentar esse teu trabalho,
00:50que não tem.
00:51Aí eu disse, é, vamos lá.
00:53Aí já tem 26 anos
00:55que eu trabalho com ela.
00:57E foi a melhor coisa que aconteceu.
01:00Na minha vida foi eu trabalhar com cunhas,
01:03que é o momento que eu,
01:04é o meu momento,
01:06ali eu paro só para fazer isso.
01:09O meu trabalho específico
01:11é os trabalhos só em cunhas,
01:14tanto em pitingas
01:15quanto nas cunhas pretas.
01:17Aí com elas eu faço
01:19para o tecilho,
01:21para decoração,
01:23eu faço acessórios também.
01:26a gente tira elas
01:27quando elas estão maduras,
01:29para elas ficarem marronzinhas.
01:30Não tem segredo, né?
01:32O segredo é o do comatê.
01:34E aí a gente limpa elas todinho
01:37e bota para secar
01:38que elas vão ficar marronzinhas,
01:40que esse é o único processo.
01:41As pretas,
01:43elas são já bem trabalhadas,
01:45que tem que lixar elas
01:48tanto por fora quanto por dentro,
01:50tem que preparar a tintura,
01:53durmater,
01:54organizar elas todas
01:55para dar certo a pintura.
01:58Então a gente tira com a mão,
01:59não pega ela.
02:01A gente tem que saber o processo,
02:03se ela já está madura para tirar,
02:05porque às vezes as pessoas vão mexer
02:07e ela ainda está mole,
02:09vamos dizer que ela está
02:10ainda está bem bebezinha,
02:13assim, bem molezinha.
02:14Eu identifico ela
02:15quando o brotinho dela
02:18já está bem marronzinho.
02:20Aí, por exemplo,
02:21essa daqui não foi eu que tirei.
02:23Aí a menina que foi lá,
02:24mexeu e pegou.
02:26Ela ainda não está boa,
02:27ela tem que estar toda,
02:29todo esse,
02:30isso aqui todo marronzinho.
02:31As pitingas,
02:33elas são as marronzinhas
02:34que todo mundo conhece
02:36e as pretas é porque
02:39elas vêm com a pintura natural
02:41do Kumatê.
02:42Esse processo de pintar elas
02:44com tintas articial,
02:47como eu falo,
02:48para a coloração já da moda,
02:52eu comecei a fazer há pouco tempo.
02:56Acho que tem uns seis meses
02:57que eu comecei a pintar,
02:58porque eu gosto mesmo
02:59de trabalhar ela toda natural,
03:01fazer o desenho,
03:03riscar e deixar ela toda natural.
03:08E, para mim,
03:09o que eu valorizo mesmo
03:12é ela totalmente natural.
03:14Na feita que a gente pega ela,
03:16a gente corta,
03:19limpa e bota para secar.
03:21Acho que uns 15 dias
03:23ela já está totalmente preparada
03:25para o utensílio.
03:27Tem a lixa que eu compro,
03:31e ela é feita com uma ferramenta
03:34que eu mesmo faço.
03:36Eu passo com aquele ferrinho
03:38da moto ou da bicicleta,
03:41que é uma ferramenta que eu utilizo
03:44para fazer os desenhos nela.
03:46As pessoas,
03:47elas chegam até a se assustar,
03:50dizem, é daqui esse trabalho?
03:51É daqui de Belém ou é de Santarém?
03:53Eu digo, não,
03:53esse trabalho sou eu que faço.
03:55É daqui e as de Santarém,
04:00graças às artesãs de lá,
04:02elas são fortes, né?
04:05E, para mim,
04:06é muito difícil
04:08ver que as pessoas
04:09não conhecem
04:11o artesanato da sua região
04:13como a cuia.
04:15A cuia, para mim,
04:16é um trabalho maravilhoso,
04:18que eu posso chegar em qualquer lugar
04:20e mostrar o meu trabalho,
04:22dizer, olha,
04:22isso aqui é um trabalho da minha terra,
04:25lá da minha comunidade,
04:27que é muito valioso para mim
04:29e para as pessoas de fora também.
04:33Então, eu já dei oficinas
04:35no Curro Velho sobre a cuia
04:38e foi um trabalho
04:41muito importante para mim
04:42e as pessoas gostaram muito
04:44e poder mostrar
04:47para um pouco,
04:49um pouco não,
04:50bastante da nossa cultura
04:51para não morrer.
04:54Porque, em tantos lugares,
04:56todo mundo diz,
04:56ah, o que é isso?
04:57É cabaça?
04:57Isso aqui é a cuia,
04:59isso aqui é a fruta da cuieira.
05:01Ah, mas onde é que tem?
05:02Como é que ela é?
05:03Aí não conhece mesmo.
05:06Para mim,
05:07é importante a gente poder repassar,
05:10porque se acabar,
05:11como é que a gente vai ficar?
05:12hoje os jovens não sabem
05:16o que é o trabalho de cuia.
05:18Só sabem que é
05:19quando a gente começa a explicar.
05:22Para mim,
05:23é maravilhoso poder trabalhar com ela
05:27e mostrar da nossa cultura.
05:28hoje a gente vê que tem gente
05:32para esse mesmo
05:33que não conhece a cuia.
05:35Não conhece,
05:36não usa,
05:37não gosta,
05:38ou tem aquela fala,
05:40uma fala ignorante,
05:42que diz,
05:43ah, isso é coisa de índio.
05:44Para mim,
05:45é até agressivo
05:47quando alguém fala
05:48e eu sempre
05:48lembro eles
05:51que isso é da nossa terra,
05:52que isso é nosso,
05:53que é muito importante
05:55e é importante ainda
05:56passar para os outros,
05:58porque tem poucos
05:59fazedores de cuia
06:00em Belém.
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