- há 7 meses
A proposta do governo de cortar os impostos dos combustíveis e da energia elétrica para reduzir os preços cobrados dos brasileiros é populista. A afirmação é da economista Marina Helena Santos, presidente do Instituto Millenium, em entrevista a O Antagonista.
Segundo ela, o Brasil acumula sucessivos rombos nas contas públicas e o governo precisa reduzir gastos públicos antes de pensar em diminuir os impostos.
"O preço dos combustíveis está alto, então a solução proposta é cortar imposto. E quem vai pagar essa conta? Alguém vai pagar essa conta. Não existe dinheiro do governo. Ele sai do bolso de alguém. Esse dinheiro sai do bolso dos mais vulneráveis. Mas o debate é populista no Brasil", diz.
Marina Helena ainda afirma que o debate político no Brasil é de baixa qualidade já que os governantes e os candidatos não apresentam as propostas para o país e a população não cobra os representantes eleitos.
"Nós ficamos procurando o salvador da pátria, aquela pessoa que virá e, com bala de prata, resolverá os problemas do país. É preciso que, de fato, a sociedade se envolva no processo eleitoral e cobre os representantes eleitos para Executivo e para o Legislativo", diz.
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Segundo ela, o Brasil acumula sucessivos rombos nas contas públicas e o governo precisa reduzir gastos públicos antes de pensar em diminuir os impostos.
"O preço dos combustíveis está alto, então a solução proposta é cortar imposto. E quem vai pagar essa conta? Alguém vai pagar essa conta. Não existe dinheiro do governo. Ele sai do bolso de alguém. Esse dinheiro sai do bolso dos mais vulneráveis. Mas o debate é populista no Brasil", diz.
Marina Helena ainda afirma que o debate político no Brasil é de baixa qualidade já que os governantes e os candidatos não apresentam as propostas para o país e a população não cobra os representantes eleitos.
"Nós ficamos procurando o salvador da pátria, aquela pessoa que virá e, com bala de prata, resolverá os problemas do país. É preciso que, de fato, a sociedade se envolva no processo eleitoral e cobre os representantes eleitos para Executivo e para o Legislativo", diz.
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NotíciasTranscrição
00:00Olá, eu sou o Antônio Timote, o repórter de O Antagonista em Brasília.
00:06Hoje nós conversamos com Marina Helena,
00:09economista formada pela Universidade de Brasília,
00:11com passagem pelo Ministério da Economia,
00:13e hoje CEO do Think Tank Millenium,
00:16que difunde ideias e conceitos liberais no Brasil.
00:20Olá, Marina, tudo bem?
00:23Tudo bem, Antônio.
00:25Tudo ótimo.
00:27Obrigada pelo convite.
00:28Eu que agradeço a sua atenção em conversar com a gente
00:32neste momento tão oportuno.
00:35Vamos lá.
00:36Eu queria já começar o nosso bate-papo
00:38sabendo a sua opinião sobre esses projetos do governo
00:42de interferir via intervenção nos impostos
00:47para tentar reduzir os preços da energia elétrica e dos combustíveis.
00:52Como é que vocês avaliam políticas como essa
00:55que estão sendo estudadas e o governo já enviou
00:58uma proposta para o Congresso com essa possibilidade
01:01de reduzir os impostos sem a necessidade de compensação?
01:05Então você vai fragilizar as contas públicas de um lado
01:07e intervir aí na economia tentando reduzir a inflação,
01:11baixando esses preços na marra.
01:12É muito complicado, né?
01:16Não é a primeira vez que a gente vê esse tipo de política no Brasil.
01:20A gente sabe que, de fato, a tributação no Brasil é muito alta
01:24e isso acaba fazendo com que o brasileiro pague nos produtos em geral,
01:29não só na energia, não só nos combustíveis, valores altos.
01:33Então, no caso, por exemplo, dos combustíveis,
01:36a gente sabe que mais de 40% do valor que é pago são impostos.
01:42Então, de maneira geral, a gente tem uma carga tributária muito alta.
01:46Ela é a maior entre os países emergentes.
01:49E isso atrapalha o nosso crescimento e faz com que todo mundo pague mais caro por tudo.
01:53Então, ter uma estratégia de redução de impostos
01:59de uma maneira mais, vamos dizer assim, bem discutida, seria algo bom.
02:07O problema é que a gente tem contas fiscais ainda que estão longe de um equilíbrio, né?
02:12Então, a gente tem um endividamento muito alto,
02:16a gente tem, desde 2014, a gente acumula déficits
02:20e para parar de se endividar, a gente precisaria ter um superávit,
02:24ou seja, a gente precisaria arrecadar mais do que a gente gasta
02:28e não é esse ainda o nosso, a gente está longe desse equilíbrio.
02:34Então, nesse momento, você não dá para você,
02:37o ponto é, não dá para cortar imposto antes de cortar gasto.
02:41Então, foi assim que acabou surgindo o teto dos gastos,
02:46exatamente porque a gente viu que a gente estava com imposto já,
02:49uma carga tributária muito alta, um endividamento alto,
02:53e ali foi dito, olha, o Brasil, por que é tudo isso?
02:56Porque o Brasil gasta demais, o Estado brasileiro gasta demais,
03:00o Estado brasileiro gasta hoje 40% do PIB.
03:04Isso é um gasto de país desenvolvido para serviços públicos
03:08que deixam muito a desejar.
03:10Então, ali a ideia era exatamente essa,
03:12precisa rever esses gastos, para exatamente evitar que a gente continue
03:17aumentando impostos e aumentando dívida, que é imposto futuro,
03:23ou recorrendo à inflação, para resolver nosso problema fiscal,
03:27que é o pior de todos os impostos, que é o mais perverso de todos.
03:31Então, assim, foi essa, por isso que é tão importante,
03:34antes de vir com qualquer medida, de fato,
03:38de diminuição de impostos,
03:41primeiro a gente precisa fazer o dever de casa e cortar gastos.
03:45Você mencionou o teto de gastos,
03:48que é um freio de arrumação nesse aumento desenfreado de gastos públicos.
03:53O governo mudou a regra de cálculo do teto de gastos,
04:00e isso foi interpretado pelo mercado, por vários acadêmicos,
04:03como uma fragilização no arcabouço fiscal brasileiro.
04:08Você acha que o próximo presidente vai precisar de uma nova âncora fiscal?
04:13O teto de gastos foi destruído?
04:16A gente não tem mais teto?
04:17Tem lá uma cobertura cheia de furos?
04:20Como é que você está avaliando esse ponto?
04:24Então, esse foi um tema que a gente discutiu bastante
04:26nas duas últimas publicações do Instituto Millenium.
04:30A gente falou bastante da importância da responsabilidade fiscal
04:33e das âncoras fiscais.
04:35Tiveram os estudos aí do Bruno Funchal e do Jefferson Bittencourt
04:39exatamente trazendo essa discussão.
04:44Porque o fato é, a gente tem escutado, de maneira geral,
04:47na maioria dos candidatos à presidência,
04:52um certo descompromisso.
04:55Eles não têm esse compromisso com o teto.
04:58E isso é uma pena.
05:00Porque, de novo,
05:02quando o teto veio,
05:04ele veio depois da pior crise econômica que o Brasil já teve.
05:08A gente teve uma queda de PIB de 7%.
05:12A gente teve um aumento do desemprego de 7% para 13%.
05:17Até hoje, a gente não conseguiu sair dali.
05:20A gente continua com o número de desempregados muito, muito alto.
05:23É óbvio que veio a pandemia depois.
05:25Mas o fato é, aquela perda nunca voltou.
05:27A gente ainda está com o PIB abaixo do que ele era ali em 2014.
05:31E toda essa crise foi gerada por quê?
05:35Exatamente por gastos muito elevados,
05:38por um aumento desenfiado de gastos do governo.
05:41Que fez com que o Brasil,
05:43que todo mundo que emprestasse para o país,
05:46começasse a duvidar da nossa capacidade de pagamento.
05:49Então, e aí, os estrangeiros são as primeiras a ir embora.
05:51Mas os próprios brasileiros começaram a ir embora também.
05:55E a pedir taxas cada vez mais altas de juros
05:58para compensar investir nessa nossa dívida tão alta.
06:04Então, o teto veio exatamente porque se teve esse diagnóstico
06:11de que a gente já estava vindo de décadas de aumento de gasto.
06:16Primeiro financiados com a hiperinflação nos anos 80,
06:21depois nos anos 90 com uma alta importante de tributos
06:26que faz com que a gente já tenha uma carga tributária tão alta
06:28e por isso que os preços no Brasil são tão caros.
06:31E depois disso, por uma grande alta do endividamento.
06:36Então, isso tudo fez com que todo mundo perdesse,
06:40o Brasil perdeu a credibilidade.
06:42Então, o teto de gastos veio ali exatamente para resgatar isso.
06:46Para dizer, olha gente, realmente a gente tem crescido gastos
06:49de maneira descontrolada, mas daqui para frente não vai ser assim.
06:53Então, se a gente já tem uma carga tributária desse tamanho,
06:5540% do PIB, não é possível.
06:57A gente não vai mais aumentá-lo.
06:59O que a gente vai fazer agora é revisar esses gastos.
07:02Vamos rever esses gastos?
07:04Vamos ver o que está dando certo?
07:06Vamos ver o que não faz sentido?
07:08Hoje, eu tendo a dizer que a maior parte dos nossos problemas
07:12talvez não faça sentido.
07:13A gente tem um Estado que não ajuda a diminuir a desigualdade de renda,
07:20não resolve o problema crônico que a gente tem de pobreza.
07:24Isso é um Estado que gasta 40% do PIB.
07:26A gente tem índices lastimáveis de educação, de aprendizagem.
07:31Então, ele não está cumprindo esse papel que ele deveria cumprir.
07:36Então, o teto de gastos veio exatamente para arrumar isso.
07:40E é muito, muito preocupante que a gente não veja...
07:44A gente veja muita gente com discursos populistas
07:47de que o Brasil é rico, de que pode gastar,
07:50e não diz de onde tirar.
07:52E a verdade é que a gente sabe que isso não é real.
07:55Me conta uma outra coisa, Marina.
07:57Como é que você avalia, dentro desse contexto
08:00de que o Brasil está envelhecendo pobre,
08:04como é que você avalia os desafios do próximo presidente da República?
08:10A gente tem um governo que tentou, de alguma forma,
08:14implantar um projeto liberal,
08:15que parece que não foi tão defendido pelo presidente.
08:19E agora a gente vai para uma nova eleição esse ano
08:22com desafios enormes.
08:25Quais são para você os principais desafios econômicos
08:28do próximo presidente da República?
08:31Ah, são incontáveis.
08:33A verdade é que foi o que você falou.
08:35A gente está aí com várias questões.
08:39Primeiro, demográfica.
08:40Então, a gente perdeu aí.
08:42A gente já deixou de ser um país de jovens,
08:44que isso, obviamente, facilita a questão toda do crescimento.
08:48E a gente envelheceu antes de conseguir ter uma poupança,
08:53criar riqueza o suficiente para dar um conforto para esse momento.
08:57Então, nos últimos...
08:59Só para dar uma ideia do que eu estou falando,
09:02a gente tem aí quatro décadas perdidas, né?
09:04Nos últimos 25 anos,
09:06nos últimos 25 anos,
09:08a gente viu que a renda média no mundo,
09:11per capita, dobrou.
09:13Dobrou.
09:14E a do Brasil cresceu menos de 1% ao ano.
09:17E isso aconteceu em um momento
09:19em que você ainda tinha um crescimento da população.
09:21Imagina agora que nem isso você tem.
09:25Então, a gente corre, sim, um risco,
09:28um risco bem realista,
09:30de começar a perder renda.
09:32Isso já é a realidade.
09:33Isso já é a realidade da última década.
09:36Infelizmente, isso já é uma realidade.
09:38Então, a gente ficou muito para trás
09:41e agora a gente corre esse risco de começar a minguar, né?
09:45E isso é muito triste.
09:49Então, o que precisa ser feito para mudar esse cenário?
09:54Antes de tudo,
09:55precisa que a população entenda isso
09:58e não caia nesses discursos populistas.
10:01Então, o ponto principal é esse.
10:04Você precisa cobrar, de fato,
10:06políticas públicas
10:08que ajudem a fomentar o crescimento.
10:11E não o contrário.
10:12Essa ideia de que a gente tem já uma riqueza,
10:16o Brasil é um país rico
10:18e o que a gente precisa redistribuir a renda,
10:21não é verdade.
10:22Nós somos um país pobre, né?
10:25Então, é muito importante
10:26que a gente consiga ter mecanismos
10:30que façam com que o país possa crescer
10:33e aí sim gerar oportunidade de emprego e renda.
10:36E aí sim enriquecer, né?
10:38Então, é tudo trocado, né?
10:41Esses discursos populistas,
10:43eles não levam isso em consideração.
10:45Muitos até têm a ideia
10:46de que o governo é que é capaz
10:48de fomentar esse crescimento.
10:50Mas não é essa a nossa história.
10:51A gente tem um governo muito grande
10:53que tentou fazer isso por décadas
10:55e foi extremamente mal sucedido.
10:58Me conta uma outra coisa.
11:00Entre as reformas que estão sendo debatidas
11:02pelos candidatos,
11:03muito de maneira lateral,
11:04a gente não conhece nenhuma proposta,
11:06mas as reformas administrativas e tributárias
11:08são, de fato, as prioridades
11:10que devem ser enfrentadas
11:12no próximo ano, por exemplo?
11:14Sem dúvida.
11:16Além, obviamente, da reforma política, né?
11:20Porque a gente sabe
11:21que todas essas reformas, né?
11:24Elas não são...
11:26Elas...
11:28Primeiro, não dependem apenas do executivo,
11:30muito pelo contrário.
11:31A gente precisa de congresso, né?
11:33No caso das duas,
11:34a gente precisa de PEC,
11:36então a gente precisa...
11:37Não adianta nem ter maioria do Congresso, né?
11:40Você precisa ter três quintos dos parlamentares.
11:43Então, é muito importante...
11:45Por isso que eu falo
11:46que tem que ser além, assim.
11:48A gente fica sempre procurando
11:49o salvador da pátria.
11:50A pessoa que vai vir
11:51e vai fazer aquela proposta
11:53e como uma bala de pata
11:54vai resolver os problemas do Brasil.
11:55Isso não vai acontecer.
11:57Precisa, de fato,
11:58que a sociedade entenda
12:00a importância disso
12:01e cobre seus representantes,
12:03seja no executivo,
12:04seja no legislativo.
12:06E torcer para que o judiciário
12:08também não atrapalhe, né?
12:09Porque a gente sabe
12:10que também é complicado.
12:11Às vezes as reformas passam
12:13e chega ali
12:13e a gente ainda anda para trás.
12:16Então, isso é muito importante.
12:17Mas as duas reformas
12:18são fundamentais, né?
12:20Primeiro, na questão
12:21da reforma tributária,
12:22se eu puder falar um pouquinho
12:23de cada uma delas.
12:25Essa, assim, é...
12:27O Brasil hoje,
12:28a gente tem uma carga,
12:29além de muito, muito elevada,
12:32é muito difícil
12:33pagar imposto no Brasil.
12:34Então, isso torna
12:35tudo muito caro,
12:37é muito difícil
12:37montar um negócio,
12:38é muito difícil empreender
12:39e muito regressiva.
12:42A gente tributa
12:43pessoas que têm
12:44uma renda
12:45de até dois salários mínimos
12:47e elas estão mais de
12:4850% da renda delas
12:50com impostos.
12:51E isso é muito perverso,
12:52porque a maioria desses impostos
12:53são disfarçados,
12:55são impostos sobre o consumo.
12:57Então, é imposto
12:57sobre a comida,
12:58sobre o remédio,
13:00sobre a gasolina,
13:01sobre a energia.
13:02Então, é muito mais alta
13:04a carga tributária
13:05para as pessoas
13:06mais vulneráveis
13:08do que para as pessoas
13:08mais ricas.
13:09Então, a gente precisa
13:10cuidar da regressividade,
13:12a gente precisa
13:13ter menores impostos
13:15sobre o consumo,
13:17né?
13:17E talvez
13:19maiores impostos
13:20sobre a renda, né?
13:21Eu acho que essa
13:22é uma grande distorção
13:23dos nossos impostos.
13:24Mas, fora isso,
13:25também diminuir a complexidade
13:27nesse pagamento.
13:28Então, a gente tem
13:29inúmeros, centenas
13:30de impostos diferentes,
13:32o que não faz nenhum sentido.
13:33Isso tudo faz com que você
13:34crie uma burocracia
13:36e uma lentidão
13:36dos processos
13:37e muita energia
13:38seja gasta
13:39em algo que não é
13:40gerar riqueza, né?
13:41Bons produtos,
13:43com boa qualidade,
13:44com preços menores.
13:45Não, a energia está ali
13:46gasta com advogados,
13:48com contadores, né?
13:50E que não faz nenhum sentido.
13:52Então, a reforma tributária
13:53ela é muito, muito relevante, sim.
13:55Porém,
13:56quando a gente vê
13:57a nossa situação fiscal
13:59e a gente nota
14:01que a gente ainda tem
14:02gastos tão elevados,
14:04vai ser muito difícil
14:06fazer uma reforma tributária
14:08que no final
14:08não aumente impostos.
14:10Para que seja possível,
14:11de fato,
14:12fazer uma reforma tributária
14:13que no final das contas
14:15vá trazer
14:16uma carga tributária
14:18igual a que a gente tem hoje,
14:20ou menor,
14:21é preciso que as contas
14:23estejam arrumadas.
14:24Então, é impossível
14:25fazer uma reforma
14:26que seja, de fato,
14:27uma grande mudança
14:28se, antes disso,
14:30a gente não rever
14:31os nossos gastos
14:32e aprender a conter
14:33os nossos gastos
14:34e a cortar muitos gastos
14:36que são desnecessários.
14:38E aí é que entra
14:39a reforma administrativa.
14:40A reforma do RH de Estado
14:42ela é muito relevante.
14:44Primeiro,
14:45porque a gente precisa
14:45cortar privilégio.
14:46Não faz nenhum sentido
14:47o juiz com 60 dias de férias
14:49mais recesso,
14:51um monte de penduricalhos
14:52que faz com que a gente tenha
14:53uma alta elite
14:54do funcionalismo público
14:56recebendo mais
14:56do que o teto constitucional.
14:58E, aliás,
14:58agora estão pedindo aumento,
14:59de 39 para 54 mil reais,
15:01o que é uma loucura.
15:03Então, assim,
15:04não faz nenhum sentido.
15:05A gente teve no Brasil
15:06esses dados,
15:07esses dados são chocantes.
15:09Em 35 anos,
15:11a gente viu essa elite
15:12do funcionalismo
15:12tendo um ganho real
15:14de salários
15:14de mais de 80%,
15:17enquanto os trabalhadores
15:19da iniciativa privada
15:20tiveram uma queda
15:21de salário real.
15:23Então, é um absurdo.
15:24Não dá para sustentar.
15:26Então, isso é uma primeira coisa
15:28que é muito importante
15:29da reforma administrativa.
15:30Ela tem que, sim,
15:32separar todos
15:32e ela tem, sim,
15:34que acabar com privilégios.
15:35E, em segundo lugar,
15:37fazer com que o serviço público,
15:38de fato,
15:39esteja como foco
15:40o cidadão.
15:42Então, a gente precisa
15:43que a educação
15:44tenha como foco
15:45o aprendizado do aluno,
15:47que a saúde
15:48tenha como foco
15:49o bem-estar
15:51e a saúde das pessoas.
15:53Então, isso precisa
15:54de todo um outro sistema
15:56de incentivos.
15:57Incentivos em que
15:58você tenha, por exemplo,
15:59avaliação de desempenho,
16:01premi os bons servidores,
16:03né?
16:04ou naqueles que não
16:05estão se dedicando
16:08como deveriam
16:08e estão sobrecarregando
16:10os bons.
16:11Então, a gente precisa
16:12revisar isso
16:13por vários motivos.
16:14Tem o motivo fiscal,
16:16mas o mais importante
16:17de todos,
16:17para conseguir prestar
16:19um bom serviço
16:20à população.
16:23Legal, Marina.
16:24Me tira uma dúvida.
16:24Você mencionou
16:25uma reforma interessante,
16:26que ela foge um pouco
16:27do nosso contexto econômico,
16:29mas ela tem tudo a ver
16:29com o que a gente
16:31está debatendo.
16:32Reforma política.
16:32Você mencionou a necessidade
16:34de ter maioria qualificada
16:35no Congresso, né?
16:36Três quintos
16:37para aprovação de PECs.
16:38O que seria uma reforma
16:40política interessante
16:42na avaliação de vocês?
16:45Também saber
16:46que nada
16:47é livre de defeitos, né?
16:49Depois de muito estudar,
16:51o Milênio tem até
16:52publicações sobre isso.
16:54Uma opção que se tem,
16:56que é discutida no Brasil,
16:57é uma mudança
16:58para que a gente tenha
16:59o voto distrital, né?
17:01Ou o voto distrital misto,
17:03que faz com que as pessoas,
17:05ao eleger o seu deputado federal,
17:08seja alguém talvez
17:09mais próximo delas,
17:11que esteja,
17:12que ela conheça,
17:13que você tenha disputas,
17:15e aí fazendo com que
17:16esse candidato esteja
17:17mais próximo da população,
17:19a fiscalização
17:20acaba sendo muito maior, né?
17:22Então, não é que você
17:23votou na pessoa
17:24e não sabe o que ela está fazendo.
17:25Você votou naquela região,
17:27num ambiente menor, né?
17:30E você pode cobrar
17:32aquele seu representante.
17:34Então, essa é uma ideia
17:35que eu vejo
17:37com muito bons olhos.
17:39Mas, isso passa pelo que,
17:42qual que talvez seja
17:43a coisa mais legal
17:44desse tipo de reforma?
17:47é exatamente aproximar
17:49o eleitor
17:51do eleito.
17:53Então, o que é fundamental
17:55em toda reforma política
17:56é fazer com que você,
17:58de fato,
17:59tenha
17:59essa participação
18:01da sociedade,
18:02essa fiscalização
18:03da sociedade.
18:04Então, a gente precisa
18:05ter essa cidadania, né?
18:08De cobrar
18:09boas propostas.
18:10Então, quando a gente fala
18:11de reforma política,
18:12é isso.
18:13Hoje, o que a gente vê
18:14é que as pessoas
18:15que estão lá
18:15representando
18:16a população
18:18estão muito distantes
18:19da realidade.
18:20Eles estão lá em Brasília,
18:21que é um, né?
18:23É o país das maravilhas,
18:26numa realidade
18:26completamente distante,
18:28enquanto que a política
18:29pública está acontecendo aqui,
18:31está acontecendo na cidade, né?
18:33Talvez o papel
18:35mais importante do Estado,
18:36né?
18:36Que é segurança,
18:37saúde e educação,
18:39está acontecendo aonde?
18:40Está acontecendo nos municípios, né?
18:42Está acontecendo nas escolas,
18:44nos hospitais, né?
18:47Na polícia,
18:50enfim,
18:52num outro ambiente,
18:54não está acontecendo lá
18:55em Brasília.
18:55Então, essa desconexão, né?
18:58Do que, lá onde as leis
18:59são feitas,
19:01para o que, de fato,
19:02a população precisa,
19:03muito concentrado,
19:05todos esses recursos
19:06em Brasília, né?
19:07Muito concentrados,
19:08uma burocracia
19:09que está longe
19:10de entender essas necessidades,
19:11isso é muito nocivo.
19:13Então, qualquer reforma política,
19:14ela tem que rever isso.
19:16Agora, o que é mais importante
19:18é isso,
19:19aproximar os eleitos,
19:21os seus eleitores,
19:22e que eles cobrem
19:23aquilo que eles realmente precisam.
19:25Chega de fazer tanto gasto
19:26naquilo que não é necessário, né?
19:29Que acaba andando errado.
19:32A gente está
19:33há oito meses
19:33das eleições, Marina,
19:35e a gente não conhece
19:35nenhum programa de governo,
19:37nenhum programa econômico,
19:38a gente ouve discursos,
19:41algumas palestras,
19:42algumas afirmações,
19:43entrevistas,
19:44mas, de fato,
19:45a gente não conhece
19:46as propostas
19:47que os candidatos
19:48vão apresentar
19:49para a economia,
19:50para a saúde,
19:51para a educação,
19:51para a segurança pública,
19:53para a previdência,
19:54para qualquer que seja o tema.
19:55Como é que você avalia isso?
19:57Isso é ruim
19:58para o debate eleitoral
19:59no Brasil?
20:01Isso é péssimo
20:02para o debate eleitoral
20:03no Brasil,
20:04mas isso só acontece
20:06também
20:06porque a maioria
20:08dos eleitores
20:08não se interessa
20:09por isso.
20:11Então,
20:11não são as propostas
20:13que te motivam
20:15muitas vezes
20:15a votar, né?
20:17Muitas vezes
20:18isso acontece
20:19de acordo
20:20com as emoções.
20:21Então,
20:21a gente tem hoje
20:22um ambiente
20:23muito polarizado,
20:25vários discursos
20:26que fomentam isso,
20:29que trazem vários temas
20:31que muitas vezes
20:31são alheios
20:32àquilo que a sociedade
20:33realmente precisa,
20:35que dispersam,
20:37que tiram do cerne
20:39da questão,
20:40que é exatamente isso.
20:41O que vai permitir
20:42que esse país
20:43finalmente cresça,
20:46gere oportunidade
20:47de emprego e renda?
20:49Não tem uma inflação
20:50tão elevada.
20:51Essas são questões
20:52muito importantes,
20:53mas as pessoas parecem,
20:54não,
20:55é muito triste dizer isso,
20:57mas não é isso
20:59que ganha eleição.
21:01Então,
21:01enquanto isso for real,
21:02agora,
21:03a partir do momento
21:04que as pessoas
21:04começarem a cobrar,
21:05mas espera aí,
21:06qual que é a sua proposta?
21:08E começar a cobrar
21:10esse confronto?
21:11Não,
21:12vamos lá,
21:12eu quero ouvir
21:12a sua e a dele,
21:14né?
21:14A partir do momento
21:15que isso aparecer,
21:17né?
21:18Que você tiver essa demanda,
21:19eu tenho certeza
21:20que eles vão ser obrigados
21:21a sim,
21:21falar de propostas,
21:22né?
21:22E a se comprometer
21:23com essas propostas.
21:25E aí você começa a ver,
21:26não,
21:26esse aqui está dizendo isso,
21:27aquele aí está dizendo aquilo,
21:29né?
21:29Em assuntos relevantes,
21:31o que eles estão falando
21:32em relação à educação?
21:33Gente,
21:33a gente ficou dois anos
21:34com as escolas fechadas,
21:36foi o país do mundo
21:37que ficou mais tempo
21:38com as escolas fechadas,
21:40a gente teve uma,
21:41a pior perda,
21:43né?
21:43Para as futuras gerações,
21:45de todo o mundo.
21:47E quem é que está falando nisso?
21:48Ninguém está falando nisso.
21:50Como é que a gente faz
21:51para que a gente
21:52volte atrás desse tempo perdido,
21:55né?
21:55Para a gente,
21:56de fato,
21:56não deixar essas gerações
21:58tão para trás assim,
21:59como é que a gente faz?
22:01Isso não é discutido.
22:02O que a gente vai fazer
22:03em relação à saúde
22:04depois de tudo que aconteceu?
22:05O que foi aprendizado?
22:07Qual foi o aprendizado daquilo
22:08e como é que a gente leva adiante?
22:11Isso não é debatido.
22:13Como que a gente vai gerar
22:14emprego e renda no Brasil?
22:16Então,
22:17esse tipo de debate
22:19não acontece.
22:20O que acontece
22:20é isso que a gente está vendo.
22:22Ah,
22:22o preço do combustível está alto,
22:23então vamos cortar imposto.
22:25Tá,
22:26mas quem vai pagar essa conta?
22:28Alguém vai pagar essa conta.
22:30Não existe dinheiro do governo.
22:32Ele sai do bolso de alguém.
22:34E, infelizmente,
22:34no Brasil,
22:36quem mais paga
22:37o bolso,
22:39de onde ele mais sai,
22:40é exatamente
22:40das pessoas mais vulneráveis.
22:42Mas é muito...
22:43Mas não é isso, né?
22:44A gente tem esse discurso populista,
22:46uma polarização imensa.
22:48Infelizmente,
22:49isso não é o ambiente propício
22:51para você ter debate
22:52de alto nível
22:53de propostas
22:54que muitas vezes
22:54são complexas.
22:55Você precisa ter paciência
22:57para entender
22:57e acabar
22:58comparando
23:01e vendo
23:02o que é melhor,
23:03de fato,
23:03para a sociedade.
23:04Então,
23:05torço
23:06para que a gente comece
23:07a cobrar isso, né?
23:09Bom,
23:10você mencionou muito
23:11a polaridade.
23:11Eu queria terminar
23:12a nossa entrevista
23:13com uma pergunta
23:14que tem sido feita
23:14há muito tempo
23:16nesse país.
23:17A possibilidade
23:18do surgimento
23:18de uma terceira via,
23:20de mudança,
23:20de polarização.
23:21você acredita
23:23que isso é possível
23:24neste país?
23:25Ou a gente está
23:26fadado
23:26a essa dualidade
23:28do bem contra o mal,
23:29do vermelho
23:30contra qualquer outra cor
23:32que seja?
23:33Como é que você avalia isso?
23:34E como é que vocês
23:35veem isso aí
23:36no Milênio?
23:38Com muita preocupação.
23:42Não é uma coisa
23:42que está acontecendo
23:43só no Brasil.
23:45E eu queria deixar
23:46uma reflexão, né?
23:48A quem que interessa isso?
23:51A quem que interessa?
23:52Será que isso,
23:53de fato,
23:53interessa à população?
23:55Ou será que isso,
23:56de fato,
23:57só interessa
23:58a quem quer
23:59estar no poder?
24:00Então,
24:01eu acho que a discussão,
24:02a minha experiência
24:03e o ano que eu passei
24:04em Brasília
24:05me ensinaram
24:06que o grande problema
24:07do Brasil não é ideológico.
24:09Está longe de ser ideológico, né?
24:11Lá, todo mundo se conhece,
24:13todo mundo toma café junto,
24:16almoça, né?
24:18Se encontra,
24:19são amigos, né?
24:21Então, não é isso, né?
24:23E eu acho que é isso
24:25que é importante.
24:25A gente tem que despertar
24:26para isso.
24:28Quais são os pontos,
24:29de fato,
24:30de divergência, né?
24:31O que, de fato,
24:32a gente precisa para crescer?
24:34Então,
24:34e eu acho que um outro ponto
24:36também relevante
24:37é que a cada eleição
24:38vem aquela grande esperança
24:41de que vai vir
24:42aquele salvador da pátria
24:43e vai resolver
24:44todos os nossos problemas.
24:46Só que isso não existe.
24:47A gente tem uma democracia
24:49e a gente tem freios
24:50e contrapesos.
24:52Então,
24:52vai muito além do executivo.
24:54Primeiro que o executivo,
24:55além do presidente,
24:56a gente tem o governador,
24:57a gente tem o prefeito
24:58e fora isso,
24:59a gente tem o legislativo.
25:01E hoje,
25:02na nossa situação fiscal,
25:04tudo que vai se fazer
25:05vai precisar passar sim
25:08pelo legislativo.
25:10E antes,
25:10isso é muito importante
25:11que seja dito.
25:13Lá atrás,
25:15a gente tinha como
25:16comportar esse aumento
25:18de gastos.
25:18Então,
25:19todo mundo vinha
25:19com um projeto
25:20de política pública
25:21e tudo bem.
25:22Então, tá,
25:22mais esse,
25:23mais esse,
25:24mais esse,
25:24porque a gente tinha
25:25como aumentar a carga.
25:26A gente tinha como
25:27se endividar.
25:28Só que agora acabou.
25:29A gente já está no muro.
25:31A gente já tem
25:32tributos muito altos.
25:33a população não aguenta mais.
25:35A gente já tem
25:36uma dívida muito alta.
25:37Há muitos anos
25:38a gente não cresce.
25:39O desemprego está
25:39muito elevado.
25:41Não dá mais.
25:42O brasileiro
25:42não aguenta mais.
25:44Então,
25:45isso faz com que também
25:46qualquer discussão
25:48dentro do Congresso
25:49seja muito mais difícil,
25:51porque você não pode
25:52mais dar tudo
25:53para todo mundo
25:54e todo mundo
25:55fazer o que bem entende.
25:56Então,
25:56chegou a hora
25:57sim,
25:58de se discutir.
25:59Isso é que faz sentido,
26:00isso aqui não faz.
26:02Então,
26:02vamos trocar isso
26:03por aquilo.
26:04Então,
26:05é uma discussão,
26:06é isso que eu queria dizer.
26:07É muito maior
26:08do que uma pessoa só.
26:09É muita gente.
26:11É um time.
26:12E só vai funcionar
26:13se a gente,
26:15como sociedade,
26:16cobrar aquilo
26:16que a gente quer.
26:17A gente precisa fazer isso.
26:20Marina,
26:20muito obrigado
26:21pela sua atenção.
26:23Espero que a gente
26:24possa voltar a conversar
26:25em outras oportunidades.
26:27Será um grande prazer.
26:29Muito obrigada
26:29pelo convite.
26:31Boa tarde a todos.
26:33Você que nos assiste,
26:34obrigado
26:34e continue apoiando
26:36o jornalismo independente
26:38de Antagonista
26:38e a Cruzoé.
26:39Nos siga nas redes sociais
26:41e nos acompanhe
26:42no antagonista.com.
26:45Até a próxima.
26:46Tchau.
26:46Tchau.
26:47Tchau.
26:47Tchau.
26:48Tchau.
26:48Tchau.
26:48E aí
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