00:00Olá, eu sou Mano Meg e este é o Notícia em Áudio, um podcast do jornal Estado de Minas
00:06que lê aos sábados e domingos uma grande reportagem para você ouvir no seu tempo.
00:12O texto de hoje é da repórter Nara Ferreira.
00:16A ancestralidade e as histórias da culinária quilombola.
00:21Feijão preto, rabada, angu, milho, frango com quiabo.
00:25Os ingredientes populares no cotidiano do brasileiro contam com histórias que retomam aos séculos da resistência negra no país.
00:34Parte da culinária de matriz africana, esses alimentos compõem os saberes que sustentam comunidades quilombolas,
00:42territórios vivos de ancestralidade e cultura onde comida, espiritualidade e pertencimento se unem.
00:50Minas Gerais é o terceiro estado com maior número de quilombolas no país.
00:56São 135.310 pessoas, segundo o Censo de 2022.
01:03Entre elas, 5.735 vivem em Berilo, município do Vale do Jequitinhonha.
01:10Lá, 12 comunidades mantêm suas tradições com base na agricultura familiar, no artesanato, na oralidade e, claro, na comida.
01:21Uma das mais potentes expressões de memória.
01:25Não é só o prato, é todo um saber passado de geração em geração.
01:30A comida tem um lugar sagrado dentro da comunidade e, muitas vezes, carrega símbolos religiosos, formas de cultura e de organização coletiva,
01:41explica o cientista social Rodrigo Rafael Gonzaga, pesquisador da UFMG e integrante do Banco de Fontes Negras da instituição.
01:50O alimento é bem coletivo.
01:53O ato de se alimentar também é coletivo, que fortalece vínculos e afirma identidades.
02:01A culinária brasileira carrega fortes influências das tradições alimentares africanas, trazidas durante o período do colonialismo.
02:10Ingredientes como o feijão preto, o cuscuz e a canjica, amplamente consumidos no país,
02:15têm origem nos hábitos alimentares dos povos africanos escravizados e foram incorporados ao cotidiano nacional com o passar do tempo.
02:25Muitos dos temperos e ingredientes usados atualmente em receitas ao redor do mundo também têm raízes africanas.
02:33O óleo de dendê, o leite de coco e a noz moscada são exemplos de sabores que atravessaram o Atlântico
02:40e ganharam espaço definitivo em cozinhas de diversos países.
02:45No Brasil, especialmente na Bahia, o leite de coco e o dendê são elementos fundamentais na preparação de moquecas e outros pratos com frutos do mar.
02:56Embora muitas vezes não se reconheça a sua origem, esses alimentos de base africana
03:02seguem fundamentais em cozinhas tradicionais e contemporâneas em diversas partes do mundo.
03:09A força simbólica da alimentação, como um elo entre memória, terra e identidade,
03:15também aparece em obras literárias contemporâneas, como Torto Arado, de Itamar Vieira Júnior.
03:23As protagonistas, descendentes de trabalhadores escravizados, vivem em íntima relação com a terra,
03:30de onde tiram o sustento e com a qual mantém um pacto silencioso de sobrevivência.
03:38Assim como nos quilombos de Minas Gerais, a comida em Torto Arado é a expressão de resistência negra.
03:46No coração de Belo Horizonte, mais exatamente no bairro Santa Efigênia,
03:50O quilombo urbano e religioso, Manzo Ungunzo Cayango, também mantém viva essas práticas.
03:58Fundado em 1970 por mãe efigênia, Mametu Munyande, o terreiro que fica na região leste da capital,
04:07é reconhecido desde 2018 como Patrimônio Cultural de Minas Gerais.
04:12A religiosidade de matriz africana estrutura a vida da comunidade, inclusive na alimentação.
04:20Joana Dark da Silva, filha de Mametu e irmã de Macota Quindoyale, é a responsável pela cozinha do Manzo.
04:29Minha mãe trabalhava para um patrão, cuja mãe estava muito doente.
04:33Ele pediu para que ela chamasse o preto velho para benzer.
04:37Depois, quis recompensá-la com dinheiro.
04:39Mas isso não é permitido dentro da nossa tradição.
04:43Então, em agradecimento, ele deu um pedaço de terra que virou a senzala Pai Bendito.
04:49Com o tempo, a área passou a abrigar várias famílias.
04:55No entanto, depois, todas foram removidas do local.
04:59Nos levaram para um abrigo e derrubaram tudo.
05:02Mas voltamos para o território.
05:04Lembra Joana?
05:05A retomada teve apoio de sua irmã, Macota Quindoyale, que foi buscar explicações sobre a expulsão.
05:13Foi ela quem começou a levantar documentos e provas que ali vivia uma comunidade.
05:20Foi aí que descobrimos também que éramos quilombos.
05:24A comida faz parte da história da nossa comunidade.
05:27Não é receita de faculdade.
05:29É saber ancestral.
05:31Cada prato tem uma função espiritual, diz.
05:33Ela explica que as refeições só podem ser preparadas por mulheres mais velhas, que já não menstruam,
05:40pois as comidas sagradas não devem ser manipuladas com o corpo aberto.
05:47Nos quilombos, cada ingrediente tem significado.
05:51O milho representa a fartura.
05:53O feijão preto é associado a ogum, orixá, ferreiro e guerreiro.
05:58A preparação e refeição coletiva reforça vínculos.
06:04A gente não aprendeu em livro.
06:06É no convívio.
06:07Cozinhar é uma forma de ensinar e manter a nossa história viva.
06:11É o que a gente tem de mais forte.
06:13Afirma Joana Dark.
06:15Entre os pratos tradicionais, Joana destaca a acaçá.
06:20É um prato de angu feito com canjica branca moída, leite de coco, açúcar.
06:25Depois, é enrolado na folha de bananeira em formato de pirâmide, que simboliza o equilíbrio.
06:32Tudo isso é preparado com um pano branco, em um espaço limpo com muito respeito.
06:39O prato é comumente preparado para ritos religiosos.
06:44E nada é descartado.
06:45Restos de alimentos ou de oferendas são enterrados junto às folhas de bananeira ou mamona em forma de composteira.
06:55É uma forma de respeito ao meio ambiente.
06:59Cada prato conta uma história.
07:01O angu, o fubassoado e a feijoada.
07:04Tudo tem uma ligação com o que se planta e colhe dentro do quilombo.
07:09Não é só uma refeição.
07:11É uma forma de manter a nossa memória.
07:13Afirma Fabiana Paula Ferreira, de 44 anos, moradora do Quilombo do Ribeirão, em Brumadinho,
07:20na região metropolitana de Belo Horizonte.
07:23Além de forma de preservação da memória, a culinária também é ferramenta de valorização econômica e cultural dos quilombos.
07:33Em Brumadinho, comunidades como Ribeirão, Marinhos, Sapé e Rodrigues participam do Circuito dos Quilombos,
07:42uma rota de turismo de base comunitária organizada pelo projeto Céu de Montanhas,
07:49projeto de turismo rural e de base comunitária desenvolvido pela Vale, em parceria com a Rede Terra.
07:56Lançado em 2022, o catálogo Céu de Montanhas reúne cerca de 40 vivências rurais, gastronômicas,
08:05artísticas e bem-estar disponíveis na região.
08:08E é uma das iniciativas do Programa de Turismo de Brumadinho.
08:13Durante as visitas às comunidades, os turistas conhecem tradições, cantos, danças,
08:20artesanatos e, claro, receitas quilombolas.
08:24Além disso, tem a oportunidade de participar de uma oficina de pulseira de semente de Lágrima de Nossa Senhora,
08:33colhidas na própria comunidade e experimentam drinks feitos com ingredientes locais.
08:40No almoço, a feijoada do quilombo Ribeirão faz sucesso.
08:45É uma comida comum para a gente, mas que encanta quem chega.
08:49O que para nós é cotidiano, vira aprendizado para quem vem de fora.
08:54Conta Fabiana, que prepara a feijoada com carne de porco, feijão preto e cheiro verde colhido na horta comunitária.
09:02A comida, segundo ela, também varia com as estações.
09:07Se tem muita mexerica, a gente faz bolo, salada, nada se perde.
09:11A visita se encerra em Marinhos, o mais antigo dos quatro quilombos.
09:17Após conhecer as bonecas artesanais feitas pelas mulheres da comunidade,
09:22os visitantes assistem uma apresentação de cânticos tradicionais
09:26e aprendem sobre a história e as manifestações culturais locais.
09:31Uma roda de bênçãos é conduzida pela matriarca Dona Nair, que encerra a visita.
09:37Rodrigo Rafael Gonzaga acredita que o fortalecimento do afroturismo pode ser um caminho de inclusão para os quilombos,
09:46desde que seja respeitosa e participativa.
09:50As comunidades sempre desenvolveram ações isoladas.
09:53Agora estão organizando experiências mais estruturadas, como vivências, festas, oficinas e refeições.
10:00É turismo com base comunitária, que valoriza saberes locais e promove autonomia.
10:07A analista de sustentabilidade do Vale, Daniele Teixeira, avalia que projetos como o Circuito dos Quilombos,
10:14realizado anualmente por meio de reservas agendadas, impactam a região de diversas formas.
10:22A iniciativa responde a uma demanda, a um processo de escuta.
10:26O que é valorizado, o que é local.
10:30Além de promover empoderamento, gera um sentimento cada vez maior de pertencimento para as lideranças
10:36e, principalmente, para as comunidades quilombolas, que por tanto tempo ficaram à margem da sociedade.
10:44É uma forma de dar visibilidade à cultura, ao modo de receber a gastronomia, as tradições, as bênçãos dessas comunidades.
10:54Ainda que sejam quatro comunidades, Fabiana conta que todas são muito unidas, como se fossem uma só.
11:03Hoje, a gente luta para não deixar essa tradição acabar, para que a história e o legado dos nossos não caia no esquecimento.
11:12A gente quer evitar esse negócio de briga, de separação.
11:16A luta hoje é pela resistência.
11:18Resistir para não deixar que tudo isso se perca.
11:22Danieli pontua que o objetivo do circuito de experiências como essa é também permitir que cada vez mais pessoas da própria comunidade
11:32permaneçam em seus territórios, gerando trabalho, renda e valorização à parte do turismo.
11:39A ideia é que o turista vá até lá, conheça, seja recebido e que a principal fonte de renda venha dessa vivência.
11:48Tudo isso de forma estruturada, respeitosa, mas sem que as pessoas precisem de se submeter a outros tipos de trabalho,
11:56que possam viver com dignidade e honestidade a partir daquilo que já possuem, sua cultura, suas tradições e sua gastronomia.
12:06A íntegra desta reportagem foi publicada no Jornal Estado de Minas em 16 de junho de 2025.
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12:25Até a próxima notícia em áudio.
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