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Transcrição
00:28A CIDADE NO BRASIL
00:31Quando eu saí da Bolívia foi por causa de que a empresa tinha fechado.
00:36Aí a gente ficou sem chão, porque sem trabalho.
00:45Na época ele era costureira mesmo já, ele não.
00:49E sempre a gente ouvia falar, trabalho no Brasil, que tem muita costura.
00:55Tínhamos amigos que tinham vindo para cá.
00:58Ele se comunicava com minha irmã através de cartas.
01:02Ele, o Francisco, o nome dele, ele mora lá em São Paulo, na rua Amambaí.
01:07E o telefone desse meu amigo.
01:10Mas a gente não conhecia nada.
01:12Foi ele que pesquisou pela internet por qual fronteira a gente tinha que sair, né?
01:20Não estava caindo a ficha que a gente ia deixar a Bolívia, né?
01:25Eu não sentia isso.
01:29A parte mais dolorosa de tudo que foi, foi deixar...
01:34Despedida, né?
01:35Despedida, deixar minha filha.
01:37Porque ela era muito pequenininha.
01:39Ela nem falava na época.
01:46Aí sim, começou a caia a ficha.
01:48Aí meu pai falou, né?
01:50Quando eu estava saindo no...
01:51No ônibus.
01:52No, como se chama?
01:53Um cerrado.
01:55Estava deixando a cidade, né?
01:57Porque tem as casas.
02:00Deixando isso para trás.
02:02Entrando no mato.
02:04Aí que caiu a ficha.
02:05Agora que vai começar outra carreira.
02:08Outra vida.
02:09Outra vida.
02:16A viagem foi muito sofrida para mim.
02:20Na fronteira...
02:22Pior.
02:23Descriminação total.
02:26Se você não fala português, você lascou.
02:29Brasileiro é super ignorante.
02:31Na fronteira é assim.
02:33Tem criança.
02:34Você pode ver um horror estar na fronteira.
02:38Aí que começou tudo.
03:00Cheguei no dia 7 de agosto de 2004.
03:05Nessa casa aí.
03:07Com outras...
03:08Mais 5 pessoas que trabalhavam lá dentro.
03:17Não foi uma coisa bonita para me lembrar agora.
03:20Só tenho coisas ruins na minha cabeça.
03:24Era tudo controlado.
03:26Tudo, tudo, tudo controlado.
03:31Eu achava que pessoas na minha terra iam me ajudar.
03:39Porque a gente não vem com outro propósito aqui.
03:43A gente vem com a intenção de trabalhar, sabe?
03:46De ter umas coisas melhores, talvez, lá.
03:50Porque lá é porque ela estava muito ruim.
03:52Chegar aqui, passar pelo que eu passei, não foi legal.
03:55Tchau.
03:56Tchau.
04:01Tchau.
04:09Tchau.
04:11Tchau.
04:16Tchau.
04:18Tchau.
04:21Tchau.
04:25Tchau.
04:31Tchau.
04:32Tchau.
04:42Tchau.
04:49Tchau.
04:57Tchau.
04:58Tchau.
04:59Tchau.
05:10Tchau.
05:12Tchau.
05:14Tchau.
05:19Tchau.
05:26Tchau.
05:28Tchau.
05:33Tchau.
05:35Tchau.
05:36Tchau.
05:37Tchau.
05:38Tchau.
05:39Tchau.
05:39O que a gente faz?
05:40Ficamos dois, assim.
05:42Parados na estação.
05:44Nestação.
05:44Tinha uma mulher que tava vendendo chiclete, cigarro.
05:48Ela olhou meus brincos, você, peruano.
05:52Ela apontou para mim, falei, não, bolivianos.
05:56Aí ela falou, ali tem peruanos.
05:59Ela apontou para o lugar...
06:02O hotel.
06:02Era um hotel, cheio de peruanos.
06:06Estava bevendo, conversando bastante.
06:10À noite, 30 reais.
06:12Pela noite, você escutou tiros lá...
06:15Tiro, um grito...
06:18Fiquei muito assustada.
06:19Falei, onde eu fui me meter?
06:22No outro dia, a gente acordou bem cedo, saímos...
06:24Aí a gente viu um na banca do jornal.
06:27Falei pro cara, você tem tarjeta?
06:30Eu olhei pra minha cara, tarjeta?
06:32O que é isso?
06:33Ele falou, ódio, o que ele falou?
06:35O que é isso? Na época, eu não entendia.
06:37Eu só fazia isso, isso.
06:39Aí ele deu pra mim e tentamos ligar.
06:43Só que o telefone que eu ligava, tocava, tocava, tocava,
06:47mas ninguém atendia.
06:48Falei, ah, fia, agora.
07:01A gente tentou de novo.
07:04Entrou?
07:05Entrou a ligação.
07:06Da sorte, mas...
07:07Falei, ah, obrigada, senhora, obrigada.
07:11Aí quando me atendeu, era uma boliviana.
07:13Porque ela falava espanhol, né?
07:15Eu tô procurando o Francisco.
07:18Ela, eu não conheço ninguém com esse nome.
07:21Aí eu falei pra ela, não é você?
07:22Ó, senhora, você é boliviana?
07:24Ela falou, sou. Por quê?
07:25E eu tô procurando trabalho.
07:27Já falei.
07:29Procurando trabalho.
07:30Aí a primeira coisa que me perguntou, quem te trouxe?
07:34Eu falei, como assim, quem me trouxe?
07:36Eu vim sozinha.
07:39Ela falou, mentira.
07:43Quem te trouxe?
07:44De onde você quer sair?
07:45Eu não entendia, na época, por que ela perguntava isso, né?
08:07Eles têm uma rede, eles trazem os trabalhadores lá da Bolívia.
08:12Existem na Bolívia agências de emprego, né?
08:16São agências que não são regulamentadas, né?
08:20Que trazem grupos de trabalhadores em ônibus,
08:24num processo, às vezes, até mafioso, numa rede de tráfico de pessoas.
08:28Outros, os próprios bolivianos, os próprios migrantes, né?
08:32Vêm em busca de trabalho e fica sabendo que em São Paulo tem, né?
08:36Essa oportunidade de trabalhar em oficinas.
08:47Ela levou até a casa e, entrando na casa, ela nos recebeu bem legal, né?
08:54Ela deu comida pra gente, né?
08:56Falei, nossa, que essa senhora é muito boa.
08:59Então, se a gente vai trabalhar aqui,
09:04onde a gente vai morar?
09:05Ela falou, não, se acalma.
09:08Você vai morar aqui em casa.
09:10Você é boliviana igual que eu.
09:12Eu vou te dar um quarto pra você morar.
09:15E aí eu perguntei, quanto você vai cobrar pela moradia?
09:18Ela falou, não.
09:20Você acha que eu posso fazer isso com vocês, que são da minha terra?
09:23Como a mulher foi tão...
09:25se prontificou tão rápido pra me acolher,
09:29não percebi que tava entrando, sabe?
09:32É uma coisa que ia ser muito ruim pra mim.
09:35A gente não tinha percebido, né?
09:46O primeiro aspecto é a barreira da língua.
09:51Então, assim, como elas não sabem se expressar em português,
09:56eu acho que elas têm no empregador a figura mais próxima.
10:02Então, é tipo o síndrome de Estocolmo, né?
10:06Então, começa a idolatrar o empregador.
10:09E o mais lamentável que eram os próprios...
10:12os próprios paisanos, os próprios concidadãos,
10:17digamos, os paraguaio com os paraguaios,
10:20os bolivianos com os bolivianos que exploravam,
10:23justamente porque eles aprenderam de um grupo que veio antes,
10:28por exemplo, os judeus, os coreanos,
10:29que já tinham esse sistema, essa tradição de trabalho.
10:34Então, praticamente, um passa pro outro.
10:42Como é que você tá se sentindo de volta aqui, nesse lugar, essa aí?
10:46Conta pra gente como é que é a sensação de estar de volta aqui
10:51depois de tantos anos.
10:52Olha, a primeira coisa é tristeza, né?
10:55Porque depois de tantos anos, vem tudo pra minha cabeça.
11:00como eu cheguei, o que que eu deixei, né?
11:04E voltar aqui é a parte mais triste pra mim.
11:07Porque foram quase quatro meses de escravidão.
11:12Fiquei quatro meses fechada com chave,
11:16lá naquele portão, né?
11:19A mulher colocava cadeado na porta.
11:30Eu acreditava, né?
11:31Tudo que ela me falava, ela falava,
11:33você não pode sair na rua, por quê?
11:35Se passar a viatura aqui e ver que você é boliviana,
11:40te colocam dentro da viatura e te leva até a fronteira.
11:43Eu falei, e minhas coisas?
11:44Deixa tudo assim.
11:46Eles fazem sempre isso.
11:47Não tinha liberdade pra sair.
11:50Eram obrigados ficar presos no local de trabalho.
11:54Porque eles trabalhavam sempre,
11:56eles trabalham junto aonde eles vivem,
11:58aonde eles comem e aonde eles dormem.
12:01Então ficava fácil pra você controlar.
12:04Falava, nossa, será verdade?
12:05Aí eu falei, mas eu tenho um passaporte que disse
12:08que eu tenho 90 dias pra ficar legalmente nesse país.
12:12Ela falou, você acredita nisso?
12:14Tudo bem, mas tu falando, eu moro aqui muitos anos.
12:17Se a polícia te pegar, vai te levar pra fronteira.
12:21Ponto final.
12:27Eu não conheço muito aqui porque não saía.
12:34Existe também ali um pacto de silêncio, né?
12:37Entre aspas, onde esse boliviano que chega,
12:41muitas vezes ele tem medo de ser encontrado pelas autoridades,
12:47pelo medo da deportação, né?
12:50Existe muita falta de informação também
12:52de como regularizar o seu status migratório.
12:55Existe aquela coisa, um pacto de honra, né?
12:59O explorador, ele incute essa ideia na cabeça do trabalhador.
13:04E ele acaba aceitando essas condições.
13:07concorre pra essa aceitação dele o fato das condições de vida no país de origem serem ainda piores, né?
13:16Eles buscam um outro país pra solucionar essa necessidade que eles não conseguiram satisfazer no seu país.
13:25Que pode ser a pobreza, a falta de trabalho, a violência.
13:30E a violência pode ser causada pelos humanos e a violência climática.
13:35Porque até então, inclusive, a migração latina, ela não era muito forte no Brasil.
13:41E com a quebra da indústria teste, digamos, organizada,
13:49se terciarizou o trabalho de costura e aí foi onde começou a exploração.
14:06Eu entrava às seis e meia da manhã,
14:08trabalhava até duas horas e meia da manhã.
14:11É porque era muita pressão, muita, muita pressão.
14:14Ela falou assim, olha, aqui a mão de obra é barata,
14:18porque o brasileiro tem costume de usar roupa uma semana e jogar fora.
14:23Ela me pagava 10 centavos, 15 centavos, por peça acabada.
14:31Porque você acha que tem tanto boliviano entrando pra costurar.
14:37Ela falou assim pra mim.
14:39Era tanta produção, a gente contava as peças,
14:42porque o corte chegava de, o quê? 500 peças?
14:47Mais 300 peças.
14:49E a gente, pelo horário que a gente trabalhava, a gente produzia muito.
14:52A gente só tinha meia hora pra comer.
14:54A gente pensava, né? Talvez é assim.
15:04E o pior é que eles trabalhavam tudo de forma manual.
15:09Tudo era anotado pelo empregador numa caderneta.
15:15Então era difícil você saber as quantidades, os pesos, os preços.
15:21E aí era uma exploração total, né?
15:24E a pessoa que veio pra trabalhar, necessitando do trabalho,
15:27ela não ia reclamar nunca.
15:29Entrava às seis e meia da manhã,
15:31trabalhava até duas horas e meia da manhã.
15:35De domingo a domingo, não descansava.
15:44Quarto era do lado da cozinha.
15:47Ela separou com a madeira, né?
15:49Não tinha quarto, era a cama.
15:52Só.
15:53O banheiro era, nossa, um desastre.
15:57Nossa, eu chorava tanto, tanto,
16:00porque era saudades da minha terra,
16:03era saudades da minha comida, do ar.
16:05Porque aqui era muito quente,
16:08o ar entrava quente pelas minhas narinas,
16:10descia quente, sabe?
16:11Era tanta coisa, bem na minha cabeça.
16:14O mais que eu tenho aqui na minha cabeça
16:16foi a saudade da minha filha.
16:19Porque eu deixei ela muito pequenininha, né?
16:22Aí eu tinha uma foto dela, né?
16:24Eu só olhava e chorava, e chorava, e chorava.
16:36Era tanta pressão pra costurar, costurar, costurar, costurar,
16:39eu costurei meu dedo.
16:41Agulha, às vezes, como se você tá com pressa, né?
16:44Pega a agulha, né?
16:47E aí, quando eu fiz o primeiro acidente de trabalho que eu tive,
16:52quando estava sendo explorada,
16:55a agulha entrou por aqui no meio,
16:57e saiu três pedaços do meu dedo aqui.
17:01Aí eu comecei a chorar.
17:02A mulher me deu importância.
17:04Ela falou, tira você sozinha.
17:06Aí peguei o alicate e fui tirando
17:09as agulhas do meu dedo, né?
17:12Ela não falou nada.
17:13Ela me mandou colocar o dedo no olho da máquina.
17:17Não sei se pegou parte do nervo daqui,
17:21mas é doloroso, né?
17:23Quando eu tenho, dei uma apertadinha aqui, aí dói.
17:37Ela tinha se passado uns três meses.
17:41Como a gente trabalha muitas horas,
17:45ela colocava a rádio,
17:46aí de onde falava, da comunidade boliviana.
17:49E atenção,
17:50uma última notícia.
17:52O taller do irmão René Cucarico acabou de ser assaltado.
17:58Eu falei,
17:59Cucarico,
18:00esse é o irmão do meu amigo.
18:05Depois de trabalhar duas horas da manhã,
18:07a gente foi dormir.
18:08E como eu dormia do lado da cozinha,
18:10e o telefone ficava na sala,
18:13onde era a oficina,
18:15a mulher ligou, sabe?
18:16Bem baixinha.
18:17Ela falou,
18:18Oi,
18:18meu irmão René.
18:20Aqui fala a Elissa.
18:23Falando como ela se conhecesse bem.
18:26Quando eu entrei nessa casa,
18:27eu falei,
18:27eu tenho esse número de telefone,
18:28esse endereço,
18:29porque meu amigo morava aqui.
18:30Passei o nome dele.
18:31O nome dele é Francisco Cucarico.
18:34Luiz Francisco Cucarico.
18:36O irmão é René Cucarico.
18:38Eu tinha passado os nomes para ela.
18:40Ela falou que não conhecia.
18:42Quando no outro dia a questão,
18:44eu falei,
18:44Olha,
18:44você conhece o Cucarico.
18:46Você disse que não conhecia.
18:48Me dá o telefone do Cucarico.
18:50Me dá o telefone.
18:51Eu obriguei ela a dar o telefone.
18:54Aí eu liguei para o meu amigo,
18:55falei,
18:56estou na tua casa antiga.
18:58Aí ele me falou,
18:59que é meu irmão.
19:01Traspassou a casa para ela.
19:03Você está ganhando quanto?
19:05Ele perguntou quanto.
19:06A gente falou a verdade.
19:07Ganhar 10 centavos.
19:09O que ele falou?
19:10Porque calça,
19:11geralmente,
19:12paga um real.
19:12Ele falou,
19:13nem na época.
19:14Ela está te explorando.
19:16Ele falou direto.
19:17Aquele dia eu fiquei perto da vida.
19:19Sabia que ela mentiu para mim,
19:21porque ela conhecia meu amigo.
19:23Ela tinha mentido sobre o pagamento das causas que eu fazia.
19:28Uma ovelha disfraçada de lobo, né?
19:30Ela tirou, né?
19:31Tinha essa cara que,
19:34gente boa,
19:35menos do outro lado.
19:36Era ruim.
19:37Ruim mesmo.
19:38Chegamos aqui,
19:39ele falou,
19:39a gente vai embora.
19:41Aí ela ficou medo.
19:42Porque você está me pagando muito, pô.
19:44Eu vou.
19:45Ela falou,
19:46ai.
19:46Pode ir.
19:47Aí ela falou,
19:47pode ir embora, pode ir.
19:48Mas você termina esse serviço primeiro.
19:51Se a gente saía de lá sem terminar.
19:54A gente não ia receber.
19:55Aí não tinha recebido.
19:56Mas eu tinha que receber,
19:57porque eu mandava dinheiro para Bolívia.
20:00O pouco que eu ganhava,
20:01eu mandava.
20:02Aí foi dia sábado que a gente terminou,
20:05acho que meia noite, né?
20:06Terminamos.
20:07Aí falei,
20:08então eu estou indo embora amanhã.
20:09Então você tem que me pagar.
20:11Aí ela falou,
20:12ah,
20:12não tenho.
20:14Eu tenho só dólar.
20:16Ela falou,
20:17então me paga dólar.
20:18O meu último salário que eu recebi dela
20:20foi 350 reais.
20:23Na época era 100 dólares, né?
20:24Na época.
20:25Falou,
20:26ah,
20:27a gente,
20:27eu te abri as portas da minha casa
20:30e vocês vêm assim.
20:31Eu te ajudei.
20:33Ela me ajudou nada.
20:34Ela me explorou sim.
20:35Ela não me ajudou.
20:36Ela me pegou para o benefício dela.
20:51eu saí dessa casa chorando.
20:55é que eu me lembro,
20:58eu deixei
21:00muita coisa aí.
21:02Que eu cheguei da Bolívia
21:03com
21:04com outro pensamento.
21:06E depois ver
21:07que uma Boliviana
21:09outra Boliviana
21:11tinha me feito isso
21:12foi muito...
21:16foi muita coisa para mim.
21:45É cíclico
21:47a passagem
21:49da condição
21:50de explorado
21:51para explorador.
21:52Esse ciclo
21:54ele demonstra
21:55a dramaticidade
21:57do problema.
21:58Na cabeça
21:59daquele
22:00explorador
22:01o que está se passando
22:03é justamente assim.
22:04Eu passei aqui
22:0615,
22:0710 anos
22:08comendo o pão
22:09que o diabo amassou
22:10no Brasil
22:11para conseguir
22:12ter essa ascensão,
22:14eu consegui vencer
22:16nesse modelo
22:18e vocês vão aparecer
22:20agora.
22:21Por que vocês não
22:22apareceram
22:23há 10 anos,
22:2515 anos atrás
22:26quando eu estava
22:27comendo grama
22:28e agora
22:29que eu estou
22:29por cima
22:30da carne seca
22:31vocês resolvem
22:32aparecer?
22:32O problema
22:33está
22:34na grande
22:35empresa
22:37onde o grande
22:38lucro
22:39vai
22:39para as grandes
22:41multinacionais
22:42e foi
22:43onde a
22:44visão
22:44a mudança
22:46de visão
22:46do poder
22:48público
22:48e do
22:49ministério do trabalho
22:50começou a entender
22:51que
22:52na cadeia
22:53produtiva
22:54existia
22:55uma grande
22:56exploração
22:57dos trabalhadores
22:58no setor
22:59de confecção.
23:00O que nos tornou
23:01conhecidos
23:02foram grandes casos
23:04rumorosos
23:04que todos eles
23:05saíram daqui,
23:06eles não se iniciaram
23:08em ministério público
23:09nem no judiciário
23:10nem em outro âmbito,
23:12caso Zara,
23:13caso Marisa,
23:14caso Renner,
23:16caso Brooksfield,
23:17Jimmy Officer.
23:20Em São Paulo,
23:21o próximo passo
23:22dos fiscais
23:23é encontrar a empresa
23:24que manda as roupas
23:25para os bolivianos
23:26costurarem.
23:27A gente sabe
23:28que isso é
23:28o ganha-pão,
23:30por isso
23:31a gente está
23:32notificando
23:33o dono da produção
23:34e não a oficina,
23:35porque a oficina
23:36a gente está vendo
23:36aqui que é o lado
23:37mais fraco
23:38dessa relação.
23:48Os bolivianos
23:49costuravam
23:50para a empresa
23:50espanhola Zara.
23:51Os fiscais
23:52descobriram
23:52que um fornecedor
23:53da multinacional
23:54havia contratado
23:5533 oficinas
23:56e todas tinham
23:57algum tipo
23:57de irregularidade.
24:05Caso Zara
24:06foi um dos casos
24:06mais rumorosos
24:08e o grande detalhe
24:09é que envolve
24:10a maior multinacional
24:11do setor textil
24:13do mundo.
24:41A Zara
24:43ela encomenda
24:45para uma confecção
24:47pagando
24:48para essa confecção
24:50em torno
24:50de R$ 40,00
24:52essa peça.
24:57Essa confecção
24:59ela conta
25:00com apenas
25:01alguns costureiros
25:02altamente qualificados
25:05que são chamados
25:06de piloteiros,
25:08pois são pessoas
25:09que vão fazer
25:10o molde,
25:11a peça piloto.
25:12só que não vai ser
25:13essa confecção
25:14que vai produzir não.
25:16Ela vai contratar
25:17uma oficina
25:18onde teremos
25:20então
25:21trabalhadores
25:22bolivianos,
25:24peruanos,
25:24paraguaios
25:27pagando
25:28de R$ 5,00
25:30a R$ 4,50
25:32a peça.
25:34E daí
25:34essa oficina
25:36vai pagar
25:36um terço
25:37desse valor
25:38para o seu costureiro
25:40por peça.
25:41Então
25:41R$ 120,00
25:43é o preço
25:43para o consumidor,
25:45R$ 40,00
25:46o que vai
25:47da Zara
25:48para a confecção,
25:50R$ 4,50
25:51da confecção
25:52para a oficina
25:53e um terço
25:55disso
25:55que vai
25:56da oficina
25:57para o trabalhador.
25:58Para a auditoria fiscal
25:59do trabalho
26:00ficou claro,
26:01ficou nítido
26:01que havia
26:02uma situação
26:02fraudulenta em curso,
26:04que havia
26:04vários intermediários,
26:06mas que isso tudo
26:06estava apenas
26:08mascarando
26:08uma verdadeira
26:09relação de emprego
26:10que existia
26:11entre esse trabalhador
26:12e a marca.
26:13Foi verificado
26:15que ela era
26:16detentora
26:17do poder econômico
26:18relevante
26:19nessa sua cadeia,
26:20era a empresa
26:21que detinha
26:22por seu porte
26:23condições
26:23de ditar
26:25as regras
26:26desse jogo
26:26e a ela
26:28foi imputado
26:29aquilo que ocorria
26:30na oficina.
26:32Mas fato é
26:32que depois
26:33do fato
26:33que ocorreu
26:34em 2011,
26:35a empresa
26:35no mesmo ano
26:36se comprometeu
26:37perante o Ministério
26:38Público do Trabalho
26:39a regularizar
26:41a situação,
26:41levantar,
26:42fazer uma completa
26:43devassa
26:44em sua cadeia
26:45produtiva
26:46e proporcionar
26:47planos de correção
26:49dessas situações
26:50semelhantes.
26:51Isso foi compromisso
26:52que a empresa
26:52tinha em 2011.
26:58O que aconteceu?
27:00O fornecedor
27:01do qual a Zara
27:02estava comprando
27:04os artigos
27:05fez uma terceirização
27:07dessa confecção
27:10para duas oficinas
27:11de costura
27:12das quais a Zara
27:13não tinha
27:13o menor conhecimento.
27:14Intensificamos
27:15todo o processo
27:16das auditorias sociais,
27:20nos comprometemos
27:21nesse termo
27:22de ajuste de conduta
27:23a realizar
27:24essas auditorias
27:25em prazos menores
27:26para a checagem
27:28das condições
27:29de trabalho,
27:29para a verificação
27:30do cumprimento
27:31do código de conduta
27:32da empresa.
27:33O outro eixo
27:34foi o eixo
27:34dos investimentos
27:35sociais
27:36visando
27:37a integração
27:38dessa comunidade
27:39de imigrantes
27:40vulnerável,
27:41junto a organizações
27:42não governamentais
27:43que lidam
27:44diretamente
27:45com a temática
27:45e que oferecem
27:47uma série
27:47de serviços
27:48e de atendimentos
27:49a essa população
27:50imigrante.
27:51Quando você tem
27:52esse olhar
27:53que é de responsabilidade
27:54sobre essa cadeia
27:55de fornecimento,
27:56pela questão
27:57do trabalhador
27:57que, em certa medida,
27:59ele participou
28:00daquele processo
28:00de confecção
28:01da peça.
28:02Na visão de Zara,
28:03a gente entende
28:04que a gente tem
28:05essa responsabilidade
28:06social sobre esse
28:07trabalhador
28:08e que, portanto,
28:09a gente tem que apurar
28:10sim e que a gente
28:11tem que trabalhar
28:11para que ele tenha
28:12todos os seus direitos
28:13garantidos.
28:22é muito fácil
28:23para uma empresa
28:23que utiliza
28:24trabalho escravo.
28:24Eu usei trabalho escravo,
28:25mas eu vou doar
28:26cesta básica,
28:27eu vou doar roupa,
28:27eu vou doar uniforme,
28:28eu vou doar não sei o que lá,
28:29eu vou comprar tal coisa,
28:30ou eu vou doar um milhão
28:31para projetos de combate
28:32ao trabalho escravo.
28:34Isso é legal,
28:35mas mais legal seria
28:37se essa empresa,
28:38na hora de produzir,
28:39eu olhasse e falasse,
28:40pera lá,
28:41os meus fornecedores,
28:43eles estão
28:44de acordo com a lei?
28:45Os fornecedores,
28:47os meus fornecedores
28:48estão de acordo com a lei?
28:49Aquela matéria-prima
28:50que eu estou comprando,
28:52está com trabalho escravo
28:53ou não está
28:53com trabalho escravo?
28:54Isso é uma etapa
28:55da produção,
28:56isso é uma etapa
28:57da responsabilidade empresarial
28:58que as pessoas evitam,
29:00porque significa o quê?
29:01Significa você mexer
29:02no seu core business,
29:03significa você mexer
29:04no seu centro de produção,
29:06no seu negócio,
29:07no coração do seu negócio
29:08e tornar ele realmente
29:10responsável.
29:11Todo o processo de controle
29:12e monitoramento
29:14da cadeia de fornecimento,
29:15existe uma ferramenta
29:16que ela foi desenvolvida
29:18e ficou muito robusta,
29:20que é a ferramenta
29:21da rastrabilidade.
29:23100% de todos os artigos
29:25que a empresa compra
29:27no país
29:28e que o cliente
29:30vai encontrar em loja,
29:32apresenta uma etiqueta
29:33do projeto,
29:34do fabricado no Brasil,
29:36aí o cliente acessa
29:37por meio de um smartphone,
29:38ele acessa o aplicativo
29:40que vai dizer para ele
29:42de que fornecedor
29:44a Zara comprou
29:44aquela peça
29:45que ele está adquirindo
29:46na loja
29:47e que oficina de costura
29:49esse fornecedor
29:51utilizou para confeccionar
29:52essa peça.
29:53Isso dá uma garantia,
29:55traz um conforto
29:56para esse consumidor
29:57dizendo,
29:58essa peça foi confeccionada
30:00em condições dignas
30:01de trabalho,
30:02respeitando os direitos
30:03dos trabalhadores,
30:05em cumprimento
30:05com a legislação
30:06trabalhista local
30:07e obviamente
30:08em cumprimento
30:09com o código de conduta
30:10da Zara.
30:12Por que que, enfim,
30:13não investem dinheiro
30:15no que foi acordado
30:16com os poderes públicos
30:18em vez de preferir
30:22iniciativas alternativas
30:23que têm muito pouca efetividade?
30:25Qual que é a efetividade
30:25dessa, por exemplo?
30:26O problema,
30:27ele é muito mais complexo.
30:29E um problema
30:29não é um problema
30:30de rastreabilidade da peça,
30:32é um problema
30:33da produção,
30:34de como é que
30:34essa produção é feita,
30:35qual que é a forma
30:36de organização do trabalho,
30:38como que esses trabalhadores
30:39podem ser mais produtivos,
30:41ou seja,
30:42produzir mais
30:42com menos custos,
30:43com menos prejuízos,
30:45mas ela prefere
30:46tomar iniciativas
30:48cosméticas,
30:49pontuais,
30:52extemporâneas
30:52e completamente externas
30:54à questão produtiva
30:56que essa sim
30:56continua gerando pressão
30:58sobre a sua cadeia produtiva.
31:13essa combinação
31:14puro negro
31:15e maravilloso.
31:17Quando você passa
31:19pela vitrine,
31:20na rua...
31:20Eu que fiz.
31:21Olha a peça,
31:23eu fiz isso.
31:24Olha o meu trabalho.
31:32Olha essa camisa,
31:33essa coisa que você tinha
31:34nos outros,
31:34essa naranja daí.
31:36Bonita, né?
31:38É legal,
31:39bonito isso aí.
31:45É tudo mão de obra nossa,
31:47né?
31:49O que fez isso?
31:50Legal, né?
31:51Ai, estou chorando.
31:57As nossas peças,
31:58eu vi na TV.
32:00A blazer que a gente costurou
32:01veio na jornal da Globo,
32:04né?
32:04Porque ela estava usando
32:05um blazer que a gente
32:06tinha feito.
32:07Por que a gente
32:08se conhece?
32:09Porque...
32:10O modelagem...
32:11A modelagem que a gente fez,
32:13o desfio que ela tinha,
32:15era o nosso.
32:16Falei,
32:16nossa,
32:17olha a nossa peça,
32:18Está lá,
32:18com aquela mulher.
32:22E esse trabalhador
32:23que participa
32:24do processo produtivo,
32:25ele também tem direito
32:26à felicidade, né?
32:28E essa felicidade
32:29vai se dar
32:29com uma parcela
32:31daqueles lucros
32:32também distribuídos
32:33a eles, né?
32:34Então você não pode
32:35ter sempre
32:36o desenvolvimento
32:37de uma atividade
32:39que leve
32:40a uma linha
32:40de exploração
32:41que as pessoas
32:42mal têm,
32:42condição de se alimentar,
32:44de se vestir.
32:45As pessoas têm
32:45que ter direito.
32:53A grande luta
32:54do operário
32:55no mundo
32:56era a dos três oitos,
32:57né?
32:58Isso levantou
32:59a Inglaterra
33:00o berço
33:01do sindicalismo mundial.
33:02Oito horas
33:03para lazer,
33:04oito horas
33:05para dormir,
33:06oito horas
33:06para trabalhar.
33:07Não se quer
33:08nenhuma situação
33:09em que o trabalhador
33:10não cumpra
33:11com as suas tarefas.
33:12É óbvio
33:12que ele tem
33:13que trabalhar.
33:14Todos nós
33:14trabalhamos.
33:15Aqui,
33:15nesse momento
33:16estamos todos
33:17nós trabalhando.
33:18Na verdade,
33:19a exploração
33:20do trabalho
33:21sempre existia,
33:22porque o sistema
33:23capitalista
33:23é aquele que
33:24explora na China,
33:26no Japão,
33:27nos Estados Unidos,
33:28no Brasil,
33:29na Bolívia,
33:30na Argentina,
33:31em qualquer parte
33:32do mundo.
33:32O Brasil,
33:33ele é sempre lembrado
33:34no mundo inteiro
33:35como um local
33:35com trabalho escravo
33:36exatamente porque
33:37a gente combate
33:38esse trabalho escravo.
33:39A gente dá
33:40visibilidade a isso.
33:42Então,
33:42de certa forma,
33:43o Brasil,
33:43nesse sentido,
33:44acaba prejudicado
33:46diante de um país
33:47como a Argentina,
33:48ou diante de um país
33:49africano,
33:50ou asiático,
33:51ou europeu,
33:52ou norte-americano,
33:53que chega e fala
33:54olha,
33:54vocês têm trabalho escravo,
33:55a gente não.
33:56Então,
33:57não,
33:57peraí,
33:57todos os países do mundo
33:58têm trabalho escravo.
33:59O Brasil faz parte
34:00de um processo
34:00que é global.
34:12na Carolina do Norte,
34:16ou na Flórida,
34:18encontrei haitianos, mexicanos,
34:21guatemaltecas,
34:23fazendo serviço
34:24de colheita de tomate,
34:28ou outro de cultura de tabaco,
34:32tratado também,
34:34como gente
34:35não sendo gente,
34:37que não precisa de lugar
34:39para dormir,
34:40para comer,
34:41pode ser tratado,
34:44se vira.
34:45O que me interessa
34:46é a tua produção,
34:48é a tua contribuição produtiva,
34:51é um preço,
34:51se possível,
34:52zero.
34:52mesmo Estados Unidos
34:54possui trabalho escravo,
34:56a França
34:57possui trabalho escravo,
34:58vai checar a situação
34:58da exploração
34:59das argelinas
35:00e das argelinas
35:01como empregadas domésticas,
35:03na Alemanha
35:04tem trabalho escravo.
35:06Mas por que
35:06um país rico
35:07tem trabalho escravo?
35:08Porque um país rico
35:09ele explora
35:10trabalhadores pobres
35:11que podem ser
35:12da sua própria nacionalidade
35:14ou podem ser estrangeiros.
35:24quando a gente fala
35:25de país rico
35:26a gente tem que lembrar
35:27que não é todo mundo
35:27que é rico num país.
35:28Ele é um país
35:29cuja média da população
35:31vive numa condição
35:33de uma qualidade de vida,
35:34desenvolvida,
35:35tudo,
35:36só que não significa
35:37que dentro do país
35:38você não tenha
35:39exploração,
35:40você tem exploração,
35:41você tem essa busca
35:43por reduzir custos,
35:45seja para competir globalmente
35:46numa cadeia
35:47ou seja,
35:48para fazer valer
35:48o seu negócio local
35:49de exploração sexual.
36:04Existe um patamar
36:08civilizatório mínimo
36:09que é aceito
36:11por todas as nações
36:13como práticas
36:15que não podem ocorrer.
36:17o nome técnico
36:18disso no direito internacional
36:21é juscógenes.
36:23Não pode ocorrer.
36:24Desde 1926
36:26que a gente tem
36:27compromissos internacionais
36:28mais robustos
36:29para erradicar
36:31trabalho escravo
36:32e tráfico.
36:33E somente recentemente
36:34com o protocolo
36:35de Palermo
36:36que foi incorporando
36:38a compreensão
36:40que traficar,
36:43como diz o Papa Francisco,
36:45é o nome moderno
36:46da escravidão.
36:47tudo isso
36:48é escravidão.
36:49Seja para a finalidade
36:51da exploração sexual,
36:54do casamento forçado,
36:57da mendicância forçada,
36:59do tráfico de órgãos
37:00e do trabalho escravo.
37:02Tudo isso é escravidão.
37:04Tudo isso
37:04trata alguém
37:06como coisa,
37:08instrumentalizar.
37:16nós temos muita facilidade
37:19de movimento
37:20da mercadoria,
37:22do capital financeiro,
37:24assim,
37:24segundos.
37:26mas nós temos muita dificuldade
37:28de permitir
37:29que as pessoas
37:29se movimentem.
37:37temos muitos muros físicos,
37:42muros políticos,
37:43muros legais
37:45que impedem
37:47a circulação,
37:48a livre circulação
37:49da mão de obra
37:50e, especialmente,
37:51dos migrantes.
37:53Então,
37:53aí entra toda a questão
37:54do tráfico de pessoas,
37:56a questão da exploração,
37:59da escravidão,
38:01dos coiotes,
38:03do tráfico de drogas,
38:05justamente porque
38:06as pessoas
38:07são impedidas
38:08de circular livremente.
38:11O Protocolo de Palermo,
38:12que é o tratado internacional
38:14que rege
38:15todas as formas
38:16de proteção
38:17ao tráfico de pessoas,
38:18inclusive,
38:19tráfico de pessoas
38:19para fins de trabalho
38:20análogo ao escravo,
38:22ele garante
38:23a prerrogativa
38:25de todos esses estados
38:26que o ratificaram,
38:27o Brasil ratificou
38:28o Protocolo de Palermo,
38:30no sentido de que
38:30esse país
38:31deve criar mecanismos
38:34para manter
38:35o trabalhador
38:35em solo nacional
38:36e não ser deportado,
38:38ainda que ele esteja
38:39em situação migratória
38:40irregular.
38:41Não são apenas
38:43razões
38:43de ordem
38:44humanitária
38:46que empolgam
38:47o combate
38:48ao trabalho escravo.
38:50São razões
38:52de ordem
38:53econômica.
38:55Trata-se
38:55de proteger
38:56o empregador
38:57cumpridor
38:58da legislação
38:59da concorrência
39:00desleal
39:01de quem
39:02deliberadamente
39:03a inobserva.
39:04E é isso
39:05que eu queria dizer,
39:07ainda que isso
39:07não traga
39:08uma imagem
39:09tão
39:11midiática
39:12ou emocionante,
39:13é um problema
39:14cultural
39:14e é um problema
39:16de ordem
39:17econômica,
39:18não apenas
39:19humanitária.
39:25o capital
39:26procura regiões
39:27onde o trabalho
39:28é desregulamentado,
39:29onde as regras
39:30ambientais
39:31também são mais
39:32frouxas,
39:33explora o trabalho,
39:33explora o ambiente.
39:35A entrada do capital
39:36leva
39:37de recursos
39:38de investimento,
39:39leva
39:39ao desenvolvimento
39:41de uma massacrística
39:41local,
39:42inclusive os trabalhadores
39:43começam a perceber
39:44e se encontrar
39:45como explorados,
39:46começam a reivindicar,
39:47começa a se gerar lei,
39:49começa a se melhorar,
39:50aquilo começa
39:51a se estruturar
39:52e aí
39:52essa nuvem
39:53de investimento
39:54procura outros lugares
39:55do mundo
39:55onde o negócio
39:56é desregulamentado.
39:57O Brasil,
39:58há 50 anos,
39:59no boom,
39:59o mês do boom
40:00durante a ditadura,
40:01foi isso, né?
40:25O que o Brasil tem
40:27que difere
40:28de outros países
40:29são os elementos
40:32do conceito penal,
40:34do tipo penal brasileiro,
40:36do trabalho degradante
40:37e a jornada exaustiva.
40:39Só o trabalho degradante
40:40sem o cerceamento
40:43da liberdade
40:44já configura o crime
40:45e em outros países
40:47às vezes
40:48isso não é considerado,
40:49não é caracterizado
40:50como trabalho escravo.
40:59Nós estamos indo
41:00fazer uma inspeção
41:01para averiguar
41:03uma denúncia
41:03de trabalho escravo
41:04que foi apresentada
41:05por E-mail.
41:06A denúncia
41:06de que há seis
41:07trabalhadores
41:08vivendo em condições
41:09degradantes
41:10e essa notícia
41:11de fato
41:11diz que eles são
41:12trabalhadores chineses.
41:13a verificar se eles têm,
41:15se eles estão legalizados,
41:16se eles foram trazidos
41:18regularmente,
41:20se eles foram de alguma forma
41:25submetidos ao tráfico
41:26de pessoas.
41:27Os empregadores,
41:28nesses casos,
41:28eles também são chineses
41:30e eles, às vezes,
41:32também já foram submetidos
41:33a essas condições
41:35e as mesmas condições
41:37que eles hoje,
41:38hoje,
41:39compõem aos seus trabalhadores.
41:41Para o empregador,
41:43a mão de obra estrangeira
41:44acaba sendo
41:45uma mão de obra barata
41:46porque ele simplesmente
41:50admite esse empregado
41:52sem direitos trabalhistas
41:55e explora, por exemplo,
41:58a mão de obra de chineses.
42:00Eles já estão acostumados
42:01no ritmo de trabalho
42:02lá na China,
42:04diferentemente do Brasil.
42:05Eles não têm uma jornada
42:06de oito horas apenas
42:08e 44 semanais.
42:10Então, eles trabalham
42:11dia e noite,
42:12horas a fio,
42:13porque no país deles
42:15não tem esse respeito
42:17aos direitos trabalhistas.
42:19E, então,
42:20acaba sendo uma mão de obra
42:22barata,
42:23onde eles conseguem
42:24lucrar mais
42:25e concorrer
42:26de forma desleal
42:27no mercado.
42:48E, então,
43:19Música
43:42O artigo 7º da Constituição prevê que os direitos trabalhistas são aplicáveis
43:48tanto a trabalhadores brasileiros e estrangeiros.
43:52Então não há diferença de tratamento em âmbito nacional.
43:56Chegou há oito meses, começou a trabalhar aqui.
44:01Mesmo história.
44:02O dinheiro fica puxado para eles.
44:04Se eles precisam comprar alguma coisa, eles caem aqui.
44:07É completamente vulnerável.
44:09Eu não tenho mais.
44:10E agora que eu estou.
44:12Cal, cal.
44:13Cal.
44:14Tudo bem?
44:14Tudo bem, velho.
44:17Então nós vamos ver o almejamento deles.
44:28Pode vir, pode filmar.
44:38Se o outro dorme é onde?
44:40Embaixo?
44:43O que vai dizer?
44:43É um banheiro único para todo mundo?
44:46Ah, é só.
44:51Onde eles trabalham?
44:53A gente acorda às sete horas aqui.
44:54Fiz ondas na loja, a futura.
44:57E aí até o fechamento?
44:59Não, o fechamento não sou eu.
45:01Entendeu?
45:01Eles tomaram os alimentos.
45:03Aí isso aí está de jeito de momento.
45:05O que mais?
45:06E não tiveram?
45:07Quatro horas.
45:09E o salário deles?
45:10Como é que o seu pago?
45:11Olha, eles quando vêm aqui, eu acho que legal, entendeu?
45:15Não ficou tanto quanto de pago, não ganha.
45:17Só precisa de a gente do trabalho, pago com comida.
45:26Um salário, mais paciente que teria, um parecer ninguém gasta tanto.
45:31Entendeu?
45:31Mas eu lembro, mas isso aqui, olha, isso é mil, alguma coisa, né?
45:36Mas o senhor entrega o dinheiro para eles?
45:38Não, eu só falava, se precisar, pago.
45:41Se não precisar, a gente lembra lá.
45:42Você sempre tem que pedir ao senhor, toda vez que precisa.
45:45Mas ele não competiu.
45:46Sou menino e economizado, não competiu.
45:48Mas e aí, esse dinheiro que eles estão juntando?
45:50Eles estão juntando, está fazendo uma poupança?
45:52Como é que é isso?
45:53É, de vezes eles querem, entendeu?
45:56Se eles querem assim, também é bom, entendeu?
45:58Um poupado, não tanto.
46:00Tá, então.
46:00Porque a época eu também não falava nada disso também, entendeu?
46:05São alojados, são vulneráveis porque não falam o nosso idioma.
46:09Oito meses estão aqui.
46:10Não tem repouso semanal remunerado.
46:12Trabalho de segunda a domingo, nessa jornada de 12 às 24 horas.
46:17Tem uma jornada exaustiva, que é uma exploração demasiada.
46:21Preencha a retenção de salário, que forma uma espécie de servidão por dívida ardilosa, fraudulenta.
46:27Preencha a retenção de documento.
46:28Então já tem três, já tem um tripé aí pra me apoiar.
46:31Concordo com essa tese, trabalho escravo.
46:37Tem o pior caso, que foi o caso do Ian.
46:41Ele era torturado pelo empregador.
46:45Ele veio para o Brasil, né, atraído pela falsa promessa de um excelente trabalho, morar bem no Brasil.
46:53E mais tarde ele traria a família.
46:57E houve atuação já lá na China de coiotes, pra que ele pudesse ingressar no país.
47:05E a partir daí ele começou a trabalhar nessa pastelaria.
47:11Ele trabalhava mais de 15 horas por dia.
47:15Ele não tinha salário, porque ele tinha que pagar passagem, né, o deslocamento da China para o Brasil.
47:23E ele não interagia no balcão.
47:27Ele trabalhava escondido, fazendo pastel.
47:31Então ele não aparecia pro público.
47:34A equipe acredita que ele começou a ficar deprimido.
47:39E com isso, e cansado também, e com isso ele passou a não render o que o empregador desejava.
47:46E aí ele começou a ser agredido, torturado, jogado panela de azeite quente nas costas.
47:53Ele levou, numa das agressões, uma concha, sabe aquela concha de sopa na orelha.
48:00Até hoje ele tem essa orelha deformada.
48:02Então ele foi torturado.
48:05Por diversas vezes a vizinhança próxima ouvia aqueles gritos, aqueles choros, aquele gemido, né, de dor.
48:16Mas ao mesmo tempo não ouvia um pedido de socorro.
48:19Começou a achar tudo muito estranho.
48:21Até que um belo dia, ele saiu, teve que sair da pastelaria para ir na farmácia comprar uma pomada para
48:29queimadura.
48:30Aí foi onde viram que havia um chinês ali.
48:33E que estava queimado.
48:35O último dia da agressão foi quando ele novamente recebeu uma panelada de azeite quente no corpo.
48:43E aí ele urrava de dor e os vizinhos, então, chamaram a polícia civil.
48:49O escravocrata foi preso e ele foi conduzido ao hospital.
48:53E a partir dali nós atuamos, o Ministério Público do Trabalho e o Ministério do Trabalho e Emprego.
48:59Não houve esforços para ficar, nós colhemos depoimento por duas vezes desse trabalhador.
49:07Seis horas cada um em pé no leito do hospital, para que ele pudesse falar.
49:15Ele estava muito mal ainda.
49:17Para ele pudesse contar um pouco da situação dele.
49:20A partir dessas provas, o Ministério Público do Trabalho ingressou com uma ação em face desse empregador.
49:27O trabalhador recebeu as verbas recisórias, mais um dano moral individual e mais um dano moral coletivo.
49:37Na esfera criminal, esse escravocrata foi condenado por tortura e redução de trabalhador à condição análoga de escravo.
49:46É a primeira condenação no Rio de Janeiro que temos de trabalho escravo na esfera criminal, que envolveu também o
49:56crime de tortura.
50:19E eu fiquei com muita, muita mágoa dessa mulher, mas nunca denunciei ela.
50:26Eu saí de lá para não olhar para trás.
50:30Depois de tanto tempo que eu venho agora aqui, vem tudo isso na minha cabeça.
50:37Por gratidão a tudo, eu falei, deixa lá, não denuncie a ele.
50:43Por gratidão.
50:44Porque no momento não se acolheu, né?
50:46Não se acolheu, talvez um tempo errado, mas a gente deixou.
50:53E como é que vocês chegaram aqui? Conta agora um pouco dessa...
50:57Santo André.
51:00A gente foi para São Mateus, né?
51:04Saímos das confecções, né?
51:07Donde eu trabalhei, foram quatro confecções que a gente trabalhou.
51:10E aqui chegamos a uma oficina de um brasileiro.
51:13Aqui em Santo André.
51:14Aqui em Santo André.
51:15Ele praticamente, ele não sabia nada de costura. Nada, nada, nada.
51:20Mas tinha máquina.
51:20Tinha máquina.
51:22Aí, começamos a costurar com ele.
51:25Aí conhecimos duas pessoas, né?
51:27Eles que falaram assim, Sandy, monta a sua oficina.
51:31Para que vocês estarem trabalhando para os outros ganharem.
51:34Você sabe, você faz tudo.
51:36Então faz.
51:37Fazia 24 horas direto para trabalhar.
51:40E eles viram que a gente era esforçado.
51:43Que a gente merecia, sabe, uma chance para sair disso.
51:47De costureiro para oficinista.
51:50Para ter nosso próprio negócio.
51:52Pela minha gente, próprio boliviano, não vi esse abraço, essa ajuda, sabe?
52:08Sou brasileira que me ajudou a montar a oficina.
52:11Há quantos anos vocês estão aqui?
52:14Doze.
52:15Doze anos.
52:16A gente caiu, mas se levantou.
52:35Então, eu sou aqui na feira faz três anos.
52:38Essa feira é parte para fazer, sabe, encontro da comunidade boliviana e latina.
52:43Então, tudo isso que a gente vê aqui é nosso, sabe?
52:47A nossa comida típica, tem nossos sucos, tem chá, sabe?
52:53Então, tudo isso aqui é um pedacinho da Bolívia.
52:57Bom, Roberto.
52:59Então, esse é meu trabalho, né?
53:01Fora de semana.
53:02Trabalho aqui.
53:05Tem minha barraca.
53:07Comecei com a máquina de sorvete.
53:10Coloquei um freezer, um salgado de lá, né?
53:17Antigamente, não tinha isso nem.
53:21Aquela cultura, aquele patriotismo que fala.
53:28Agora, quando eu comecei a dançar, conhecer mais minha cultura, me enriqueci muito.
53:34Eu gosto de onde eu saí, sabe?
53:38E é bom lembrar porque eu não posso me esquecer de onde eu vim.
53:50Eu tenho nove irmãos.
53:51Dos nove, oito vieram para cá, né?
53:55A gente ajudou muito, meu pai, minha mãe e meus irmãos.
53:58Minhas irmãs, o que que aconteceu com elas?
53:59Saíram da minha casa de costureira para ser cuidadora de idoso.
54:04De cuidadora de idoso, fizeram curso de cuidadora de idoso.
54:07Agora são enfermeiras.
54:08Três enfermeiras.
54:13Trabalhei por cinco anos, desde meus três anos até meu dezessete.
54:18A gente ganhava pelo que fazia.
54:21Eu trabalhei registrada já, trabalhei com comércio, numa banca de jornal.
54:26Estou grávida, então não tem como eu trabalhar agora.
54:29Estou fazendo oito hoje.
54:33É pequeno, né? Menina.
54:36Agora a minha trema já está na faculdade.
54:39Entendeu? Só falto eu.
54:41Então, hoje cheguei primeiro e vou ficar para o último, mas eu vou conseguir.
54:45O ano que vem, eu quero fazer mesmo.
54:48Eu quero fazer curso de enfermagem.
54:50Para ser instrumentista, para fazer cirurgias.
54:54Quero fazer isso.
54:55E eu vou conseguir.
54:56Porque assim, não foi à toa que eu cheguei aqui, só para morrer, talvez sem costura.
55:05Não é que ser um trabalho denigrante, não é.
55:08É um trabalho bom, dá para ganhar, você coloca seu horário.
55:11Mas é bom para mim, como pessoa.
55:14E o seu grande sonho?
55:18Eu tranquei estudo lá com dois anos de carreira lá, bioquímica, farmácia, que estava fazendo lá.
55:26Deixei.
55:26Mas a gente não podia ficar parado.
55:30Aqui fiz curso de informática.
55:34Me formei, mas não errei a sua professora, porque não tem espaço, muito espaço.
55:40Então, a única opção que a gente teve é trabalhar.
55:44Mas continuar.
55:46Nesse ramo de informática, eu gosto, né?
55:51Eu colo para Sandy.
55:53Eu sou mais brasileiro que o brasileiro.
55:57Eu amo o Brasil.
56:01Amo a rua.
56:03A rua.
56:04Amo a pessoa que passa mesmo sem conhecer.
56:37Amo a pessoa que passa mesmo sem conhecer.
57:11Amo a pessoa que passa mesmo sem conhecer.
57:42Amo a pessoa que passa mesmo sem conhecer.
58:13Amo a pessoa que passa mesmo sem conhecer.
58:47A CIDADE NO BRASIL
59:05A CIDADE NO BRASIL

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