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00:00:23A CIDADE NO BRASIL
00:00:36A CIDADE NO BRASIL
00:01:02A CIDADE NO BRASIL
00:01:07O dia vim para a Amazônia, que aqui é a região de terras sem homens para homens sem terra.
00:01:41A CIDADE NO BRASIL
00:01:47A CIDADE NO BRASIL
00:01:49A CIDADE NO BRASIL
00:01:55A VERDES PASTOS DA FLORESTA DE LEITE E MEL
00:02:06No ano de 1972, saiu os primeiros paus de araras com as famílias lá dessa região que a gente morava,
00:02:15dos parentes nossos.
00:02:19Nós migramos para o sul do Pará, na cidade de Conceição do Araguaia, onde meus pais moram até hoje.
00:02:41A CIDADE NO BRASIL
00:02:54E viemos literalmente para dentro da floresta, para desmatar a floresta e para criar pastagens para gado, plantar num primeiro
00:03:05momento e criar pastagens para um latifundiário da época.
00:03:36A CIDADE NO BRASIL
00:03:39Até o acontecido, eu fui pro Maria, jogava bola na Vila Nova no Rio Maria.
00:03:49A gente estudar nas férias, a gente ia trabalhar na roça, junto do meu pai.
00:03:53Aí... a gente foi conhecer outros meninos na roça, pode dizer que eu largava o estudo, porque eu por minha
00:03:59conta mesmo.
00:04:00Que a gente frio, não voltou mais para a escola.
00:04:04Eu tenho ele de criança, ele é um menino trabalhador, um menino sossegado, calmo.
00:04:11Eu tinha a minha esposa, que é a mãe desse, era muito doente.
00:04:16Então tudo que eu ganhava na fazenda, o dinheiro que eu tirava de saldo na fazenda,
00:04:20eu gastava na doença dela.
00:04:22Então eles tinham que trabalhar para se manter eles, né?
00:04:25Então aí cada calcaçava uma fazenda para trabalhar.
00:04:29Até que chegou esse ponto, que ele caçou essa mardita fazenda lá.
00:04:34Ele é um dos maiores pecuaristas do Pará, do Brasil, né?
00:04:38Ele é dono mais de 30 mil alqueias de terra.
00:04:41Antes eu nem sabia que existia o trabalho, eu vou descobrir depois o que aconteceu comigo.
00:04:46O outro chamou e eu aceitei, nós fugimos.
00:04:48E deu errado tudo.
00:05:10E deu errado tudo.
00:05:28E deu errado tudo.
00:06:14Eu tinha 16, comprei até 17 anos.
00:06:17A vontade de sair, assim, conhecer outros lugares, né?
00:06:20Outras fazendas, atrapalhar fazendas.
00:06:21Como eu não tinha recurso, vivia dos braços também, então ele saía para trabalhar.
00:06:28Eu saía para um canto para trabalhar e saía para outros.
00:06:31Aí isso era a vida dos quatro.
00:06:34Dos quatro filhos.
00:06:36E saía para toda a banda para trabalhar, não me preocupava com ele não,
00:06:38porque eu sabia que eles eram um trabalhador, eles eram um homem direito.
00:06:42Eu não me preocupava.
00:06:44Aí eu saí de Rio Maria com a Xinguara e lá conheci uma pessoa que indicou um hotel Pires, né?
00:06:51Um hotel pioneiro.
00:06:56Um caso é um pouco especial porque, em geral, os trabalhadores vinham de outro estado.
00:07:01Ele morava em Rio Maria e no dia que ele completou 17 anos, não contou para a mãe, Dona Rosa,
00:07:06nem para o pai,
00:07:07que ele ia se virar sozinho.
00:07:10Então ele pegou o ônibus e foi para a cidade chamada Xinguara.
00:07:14Em Xinguara foi buscar trabalho.
00:07:17Ele estava na rodoviária, meio desesperado, um homem se aproximou dele, um tal de seu João,
00:07:22e disse, você está procurando trabalho?
00:07:24Estou.
00:07:24Você conseguiu?
00:07:25Não.
00:07:26Se você quiser, eu tenho uma pensão, você pode ficar na minha pensão.
00:07:30Quando você conseguir trabalho, você me paga.
00:07:34Aí ele foi para a pensão do seu João.
00:07:38E lá ele ficou uns dois a três dias.
00:07:41E depois disso apareceu um empreiteiro, um gato, que comprou o grupo, que eram 17, rapazes.
00:07:50Esse é o sistema, né?
00:07:51A chamada pensão pioneira.
00:07:53O sujeito está lá, mora o dinheiro dele, acaba, ele continua na pensão.
00:07:56O dono da pensão não manda ele embora.
00:07:57Ele vai criando uma dívida com a pensão.
00:07:59Um dia chega lá o gato, né?
00:08:00O arregimentador da mão de obra.
00:08:02Aí compra.
00:08:04Quantos trabalhadores tem aí?
00:08:05Ah, tem seis.
00:08:06Quanto é a questão do evento?
00:08:07Tanto?
00:08:07Aí paga e leva o camarada para a fazenda.
00:08:18Nós fomos para lá na caminhoneta.
00:08:20Nós fomos nós e mais uns 15 companheiros, né?
00:08:24Ninguém sabia o nome dos outros.
00:08:25Ninguém é conhecido bem.
00:08:27Foi enquanto eu vim para fazer a expedição, né?
00:08:29Do senhor Benedito Moutran.
00:08:31Foi onde aconteceu o trabalho, né?
00:08:38Aí chegou lá, o empreiteiro está esperando nós já na fazenda, né?
00:08:44Mas ao chegar na fazenda, eles foram recebidos por homens armados.
00:08:50E foram informados que para sair tinham que pagar as dívidas.
00:08:53Então a primeira dívida era da pensão.
00:08:56A segunda dívida do transporte.
00:08:57E tinham que comprar comida do barracão dentro da fazenda do Espírito Santo.
00:09:09A gente pagava tudo, né?
00:09:11Deixa o calçado de trabalho, roupa, comida, tudo.
00:09:20Na verdade, não é uma dívida verdadeira, né?
00:09:24Aquele trabalhador, ele acredita que tem uma dívida porque ele é levado a essa situação.
00:09:30Qualquer coisa que seja fornecida ao trabalhador durante a viagem.
00:09:34A própria viagem, às vezes uma alimentação da mais rudimentada, mais simples.
00:09:38Às vezes um pão, né?
00:09:40E uma xícara de café.
00:09:41Tudo isso vai sendo cobrado desse trabalhador.
00:09:43E ele já começa a prestar serviço com uma dívida.
00:09:50O alojamento é barraco, né?
00:09:52Feito de pau, madeira, pau-pique, lugar de pau e prático.
00:10:02A água é grota, corgui, né?
00:10:08O Aurai trabalha das seis da manhã às seis da tarde.
00:10:18O nosso elemento central aqui no Brasil, para a caracterização do trabalho escravo,
00:10:26é a noção de trabalho degradante.
00:10:30Endividamento, servidão por dívida, péssimas condições de alojamento, jornadas exaustivas.
00:10:40Somam-se a isso, a restrição à liberdade de locomoção, como algo a mais.
00:10:48Não algo que necessariamente ocorrerá em toda a situação característica de trabalho escravo.
00:11:00Vigilante, viajante, viajante trabalhar, viajante dentro do barraco, né?
00:11:04Era no barraco direto.
00:11:05A gente não podia sair, porque era vigiado, né?
00:11:08Se tivesse que fazer alguma necessidade, ia no mato e voltasse, porque a área era vigiada.
00:11:14Aqui na Amazônia, chama-se capanga, ou seja, pistoleiro, né?
00:11:17Era vigiado.
00:11:23Fizeram pistoleiros.
00:11:25Abilão, Chico, Adão Modesto, Luiz Bang Bang, um conjunto de grandes empreiteiros.
00:11:34Fizeram pessoas de origem pobre.
00:11:36Eram trabalhadores que se transformaram em algum momento em gatinho, depois em pistoleiro,
00:11:42e depois em gato, gatão.
00:11:45Então, eles tinham uma ascensão vertical, substancial.
00:11:49Você ia ser morto?
00:11:51É, isso ameaçava, né?
00:11:53Se tentava sair, matava, né?
00:11:54Não podia se rebeliar, né?
00:11:57Ninguém ficava andando na fazenda, né?
00:11:59Era só lá no barraco mesmo.
00:12:00Eles eram bem uns 10, tudo armados.
00:12:05Então, lá, os colegas de serviço que trabalhavam junto lá,
00:12:10falou que ele, lá, que a fazenda era muito ruim, não pagava o que devia,
00:12:15o boião não prestava, e se fugisse, matava, que nem aconteceu.
00:12:20Só ele não morreu, porque foi Deus que olhou por ele.
00:12:24Com 18, 19 dias, eu tentei a fuga.
00:12:28Ganhou mais um rapaz conhecido por Paraná, né?
00:12:32Ele é abate uns 25 anos, né?
00:12:34Talvez pela idade, ele desesperou e disse,
00:12:37eu não vou ficar, vou fugir.
00:12:39Ele não teve o problema moral da maioria,
00:12:43que é, eu tenho dívida, eu não posso sair.
00:12:45Ele falou, eu vou sair, não vou ficar.
00:12:47Ali não tinha como botar coisa, se não você fugir, né?
00:12:50Não tinha outra saída.
00:12:52O jeito era fugir.
00:12:58Nós ficávamos, assim, tudo num barraco só, né?
00:13:02Aí ele falou, olha, vamos embora sair?
00:13:03Eu falei, como assim?
00:13:05Vamos fugir.
00:13:06Aí eu falei, rapaz, vamos embora, então.
00:13:13Então, às três horas da manhã, eles entraram na mata,
00:13:18colaram da rede, entraram na mata
00:13:20e andaram até às seis horas da tarde na mata.
00:13:38Mas a fazenda é muito grande.
00:13:40Nós não conhecia bem a fazenda.
00:13:43Aí passamos o dia todo andando.
00:13:44Acho que a fazenda é mais de três mil alqueiros, né?
00:14:18Já os pistoleiros estavam lá esperando,
00:14:20porque viu o artesão dizendo que entrou na mata.
00:14:22Vai, vai, vai.
00:14:23O poder abalha de seis e meia, sete horas,
00:14:25nós encontrou com o Chico e os pistoleiros dele.
00:14:42Botar uma picaia na frente, né?
00:14:44Aí a gente caiu em cima deles, né?
00:14:50Aí o primeiro da frente era o colega do meu filho.
00:15:10E aí o Paraná recebeu um tiro na cabeça e morreu na hora.
00:15:16O Zé Pereira recebeu uma ordem de andar e ele imaginando que ia também levar um tiro,
00:15:21ele colocou a mão aqui, abaixou a cabeça e de fato veio um tiro.
00:15:30Eu fui baleado aqui no rosto,
00:15:32ele tirou aqui, saiu aqui, pegou no dedo.
00:15:34Até o dedo hoje ainda é tosto, ainda no caso tiro.
00:15:38Eu caí no chão, é de noite, abaixo de oito horas da noite, fingi de morro, né?
00:15:43Você prendia a sua respiração?
00:15:45Prendi naqueles que pegou eu no chão, eu prendi a respiração e tudo, né?
00:15:49Moriciou o corpo, aí foram aquelas pessoas que estavam mortas mesmo.
00:16:07E ele ouviu a conversa com um dos pistoleiros, ele dizia,
00:16:09vamos jogar no Rio Vermelho os dois corpos?
00:16:12Aí o outro disse, não, vamos jogar de andar fazendo a Brasil Verde,
00:16:16que ficava, não sei, 40, 50 quilômetros desse local onde eles estavam.
00:16:25Aí chegou uma perdoação, ele manobrou, jogou nós lá, né?
00:16:31Jogou o que tinha morrido primeiro, quer dizer, atirou primeiro, aliás.
00:16:36Jogou, aí depois pegou meu filho, jogou por cima.
00:16:40Mas ele estava contando que ele estava morto também.
00:16:43Aí eu escutei, eu não desmaiei, nada, né?
00:16:45Não pediu sentido, aí escutei quando eles saíram, né?
00:16:51Aí eu levantei e fui na fazenda próxima,
00:16:54jogou nós perto da fazenda, distância dos 3 metros, né?
00:16:57As bolsas ficam pra trás, com o documento não,
00:16:59ficava com o clandestino jogado fora, né?
00:17:01Ninguém sabia de onde veio, nem de onde foi de noite, né?
00:17:04Deu jeito.
00:17:15E o Zé Pereira se levantou, meio tonto,
00:17:19viu uma luz, que era da fazenda,
00:17:22foi até lá e o gerente da fazenda socorreu
00:17:24e o levou para Xinguai,
00:17:29onde ele foi hospitalizado e sobreviveu.
00:17:40Eu senti muito mal, né?
00:17:42Um pai, saber notícia de um filho que está baleado no hospital
00:17:46não é coisa muito boa, né?
00:17:49Então, como eu não podia vir no mesmo dia,
00:17:52porque era de noite, não tinha condição nenhuma,
00:17:55a fazenda também não tinha,
00:17:57aí eu tive que aguentar,
00:17:59eu não dormi a noite,
00:17:59eu passei a noite rolando na rede,
00:18:02sem poder sair.
00:18:04Aí no outro dia de manhã,
00:18:05foi a primeira coisa,
00:18:06eu levantei, só passei água no rosto
00:18:08e caí para a estrada, era perto.
00:18:09O primeiro carro eu peguei e saí pra cá.
00:18:15Aí também eu fiquei lá uns 10 dias,
00:18:17saí, né?
00:18:19Depois o marinho.
00:18:30O caso do Zé Pereira é um caso emblemático,
00:18:32considerado emblemático no sistema de combate ao trabalho escravo no Brasil.
00:18:36Vários pontos que hoje fazem parte da legislação brasileira,
00:18:40quer dizer, da política nacional de combate ao trabalho escravo,
00:18:44nascem por conta da pressão causada pelo caso do Zé Pereira.
00:18:48O interessante é que o que aconteceu com o Zé Pereira
00:18:51acontecia com outros tantos trabalhadores no Brasil,
00:18:54naquele momento, na década de 80 e de 90.
00:18:57Existem muitos outros José's, né?
00:18:59Que passaram pela mesma situação,
00:19:02alguns que infelizmente faleceram, né?
00:19:05Alguns que sumiram,
00:19:07que até hoje a gente não sabe, né?
00:19:10Aonde estão.
00:19:12E que, infelizmente,
00:19:15são invisíveis para a sociedade, para o Estado, né?
00:19:18E a exploração, ela se perpetua.
00:19:22É porque aqui é o seguinte,
00:19:25hoje está mais calmo, mas na época
00:19:28a bandidagem era muito grande.
00:19:30Aqui era a bandidagem muito grande.
00:19:33O que mandava mais aqui era fazendeiro e pistoleiro.
00:19:36Era dinheiro.
00:19:39A revolução chega à selva.
00:19:42Cada árvore que tomba escreve uma história bem diferente
00:19:46das que povoavam a terra dos sacis pererês,
00:19:49iaras e cobras grandes.
00:19:51O presidente Médici expressou sua confiança
00:19:54em que a transamazônica possa ser o caminho
00:19:57para o encontro da verdadeira vocação econômica da Amazônia.
00:20:08O governo militar
00:20:10estava, naquela época, financiando empresas multinacionais
00:20:13com isenções para ocupar a Amazônia.
00:20:16A ideia de que aquilo era um vazio,
00:20:18que se não fosse ocupado,
00:20:19viria o estrangeiro tomar conta.
00:20:21Lá, por volta dos anos 70,
00:20:24eu fui fazer uma pesquisa
00:20:25sobre a ocupação da Amazônia,
00:20:27sobre, na verdade, a formação do capitalismo na Amazônia
00:20:30e o papel do Estado na Amazônia.
00:20:32Uma chácara do Severo Gomes,
00:20:34que foi ministro, foi senador e tudo,
00:20:38vinham falar comigo.
00:20:40Disseram, olha, o senhor quer comprar terra?
00:20:41Ele achava que eu queria comprar terra.
00:20:42Eu queria estudar o que está acontecendo.
00:20:45Não se preocupe.
00:20:46Pessoal eu curto.
00:20:47Não pensa de mão de obra.
00:20:49A gente traz, traz de onde?
00:20:52Maranhão, Piauí,
00:20:53da zona mais pobre do Nordeste,
00:20:54leva para lá,
00:20:55a gente mete esse pessoal lá na mata,
00:20:58eles quebram porque tinha que derrubar a mata, né?
00:21:01E lá tem disciplina.
00:21:02Não pode ter facão,
00:21:03não pode ter mulher,
00:21:04não pode ter nada.
00:21:05Se eles se comportam mal,
00:21:07dá uma injeção de álcool neles,
00:21:08nunca mais repetem.
00:21:10E uma vez por mês,
00:21:11a gente leva eles lá para uma cidadezinha
00:21:12porque tinha prostíbulo.
00:21:14Bom, aquilo era o chamado trabalho escravo.
00:21:17Essa ideia de trabalho forçado
00:21:19é antiga no Brasil.
00:21:21Para desenvolver a região
00:21:22na lógica dos militares,
00:21:24eles divulgaram um pacote, assim,
00:21:27de medidas
00:21:29tão benéficas
00:21:30aos grupos econômicos
00:21:32e a pecuaristas
00:21:33de outras regiões do Brasil
00:21:34que quisessem ir para cá,
00:21:36que motivou, inclusive,
00:21:38quem nunca teve
00:21:39nenhuma vocação agrícola.
00:21:49nós não estávamos lidando
00:21:50com o velho fazendeiro
00:21:53de chapéu espora.
00:21:54Nós estávamos lidando
00:21:54com grandes empreendimentos
00:21:57agropecuários,
00:21:59mas que quem era o dono
00:22:01dos projetos agropecuários
00:22:02eram grupos,
00:22:03a maior parte,
00:22:04eram grupos empresariais
00:22:05que não tinham uma tradição
00:22:06de mexer com terra.
00:22:14Exemplo,
00:22:15Volkswagen,
00:22:16que só produzia veículos,
00:22:18mas decidiu,
00:22:19pelas facilidades
00:22:22oferecidas pelos militares,
00:22:24acharam que era vantagem
00:22:26abrir uma fazenda
00:22:27de engorda de gado
00:22:29aqui no sul do Pará.
00:22:30Da mesma forma,
00:22:31o Banco Bradesco,
00:22:34o Banco Bamerindos,
00:22:36a Supergás Brás.
00:22:42Imagino quantos milhares
00:22:44de trabalhadores
00:22:45precisariam para
00:22:47derrubar essa floresta
00:22:48e transformar isso
00:22:50em fazendas,
00:22:50em pastagem,
00:22:51construir as cercas,
00:22:52as sedes das fazendas
00:22:53para poder trazer o gado.
00:22:56Naquele tempo,
00:22:57não tinha nem motosserra,
00:22:59derrubava-se roçando de foice
00:23:01e derrubando de machado.
00:23:03Então,
00:23:03a intenção dos militares
00:23:05era deslocar a mão de obra
00:23:06para a implantação
00:23:07dessas fazendas
00:23:08e das serrarias.
00:23:11O nordestino
00:23:12que migrou para a Amazônia
00:23:13foi selecionado pelo INCRA.
00:23:16Ele sabe que receberá casa,
00:23:18dois hectares de terra roçada
00:23:20e mais cinco salários mínimos
00:23:22nos cinco meses iniciais
00:23:24da ocupação.
00:23:25Pode plantar
00:23:26e criar gado,
00:23:27beneficiando 25% da área,
00:23:31obterá o título
00:23:32definitivo de posse.
00:23:40A propaganda
00:23:41trouxe mais gente
00:23:43do que essa demanda comportava.
00:23:47E muitas famílias
00:23:49chegavam aqui,
00:23:50não encontravam a terra prometida.
00:23:55A meta de assentar
00:23:57naquela época
00:23:58aproximadamente 500 mil famílias
00:24:00esteve muito longe
00:24:01de ser atingida.
00:24:03E com pouco tempo
00:24:04os militares
00:24:05abandonaram essa política.
00:24:07Pessoas que tinham sido
00:24:08convidadas pelo governo militar
00:24:10para ir para a região
00:24:12para ter terra
00:24:13e ao chegar
00:24:13ele não tinha terra para elas
00:24:15e as certas tinham todas
00:24:17sido compradas de avião
00:24:18e com grande corrupção
00:24:22nos cartórios,
00:24:24com sobreposição
00:24:25de títulos definitivos,
00:24:27sobreposição de títulos
00:24:28sobre a área
00:24:28que não poderia ser titulada
00:24:30porque já tinham
00:24:30antigos moradores.
00:24:32Era o caos fundiário.
00:24:34Quando ia para as serrarias
00:24:36também o emprego era pouco
00:24:37e quando procurava emprego
00:24:39nas fazendas
00:24:40geralmente eram submetidos
00:24:42ao sistema de escravidão.
00:24:43Eu tenho nove anos
00:24:46na Auditoria Fiscal do Trabalho
00:24:47mas eu já tenho uma história
00:24:49antes da Auditoria Fiscal do Trabalho
00:24:50eu já tenho uma história
00:24:51relacionada
00:24:52às questões sociais
00:24:54e principalmente
00:24:55às questões
00:24:57de exploração do trabalho.
00:24:58Eu fui também sindicalista
00:25:00no passado.
00:25:06Dos 15 aos 20 anos
00:25:08eu fui trabalhador rural
00:25:09no interior de Mato Grosso.
00:25:12Eu cresci
00:25:13vivendo essa exploração
00:25:16morava
00:25:17num local isolado
00:25:18sem as condições
00:25:19mínimas
00:25:21de moradia
00:25:23de alimentação
00:25:24ninguém
00:25:26nem eu
00:25:27nem meus
00:25:27meus familiares
00:25:28e nenhum trabalhador
00:25:29daquele tinha carteira assinada
00:25:31tinha nenhum tipo
00:25:32de proteção social.
00:25:38era o que se encontra
00:25:40hoje
00:25:43claramente
00:25:43como trabalho
00:25:45degradante
00:25:45que é um
00:25:46dos aspectos
00:25:47do trabalho escravo
00:25:48contemporâneo.
00:25:49Para fugir disso
00:25:50qual era a outra alternativa?
00:25:51Voltar para os estados
00:25:53de origem
00:25:53não tinha mais jeito.
00:25:56O migrante que chega
00:25:58num pau de arara
00:25:58ele gastou tudo
00:26:00que tinha lá
00:26:00para chegar até aqui
00:26:01não tem como voltar mais.
00:26:03Qual a alternativa
00:26:04que lhe restava?
00:26:06Se não fosse
00:26:07ser escravo
00:26:07numa fazenda
00:26:08ou numa serraria
00:26:09era então
00:26:10tentar se unir
00:26:11e tentar
00:26:12ocupar uma terra
00:26:14conquistar um espaço
00:26:15ocupando
00:26:16um latifúndio
00:26:18uma fazenda
00:26:20e isso foi
00:26:21o que aconteceu
00:26:22com centenas
00:26:23de famílias
00:26:24de imigrantes
00:26:25que chegaram aqui.
00:26:27Minha família
00:26:28chegou para essa região
00:26:29do sul do Pará
00:26:30em meados
00:26:31da década
00:26:31de 70
00:26:32e quando chegamos
00:26:34aqui
00:26:34minha família
00:26:35conseguiu a terra
00:26:37fazendo
00:26:38a ocupação.
00:26:42Junto com
00:26:43outros
00:26:44trabalhadores
00:26:45sem terra
00:26:45que vieram para cá
00:26:46e também não conseguiram
00:26:47a terra
00:26:48coordenados pelo Sindicato
00:26:49dos Trabalhadores Rurais
00:26:50de Conceição do Araguaia
00:26:52ocuparam uma fazenda
00:26:53próxima daquela cidade
00:26:54onde meus irmãos
00:26:55foram assentados
00:26:56pelo INCRA
00:26:57anos depois.
00:26:59A ocupação
00:27:00da terra
00:27:01foi uma alternativa
00:27:02encontrada
00:27:03pelos trabalhadores
00:27:04migrantes
00:27:04sem terra
00:27:05para fugir
00:27:06da prática
00:27:07do trabalho escravo.
00:27:12Eu e meus irmãos
00:27:14com três anos
00:27:14a gente já percebeu
00:27:15que aquilo
00:27:16não ia...
00:27:16o Eldorado
00:27:17era uma ilusão
00:27:18e que aquilo
00:27:18não ia levar
00:27:19a lugar nenhum.
00:27:20Voltamos para a cidade
00:27:21para retomar os estudos.
00:27:23Meu irmão
00:27:23trabalhava como
00:27:24vendedor de picolé
00:27:25e eu trabalhava
00:27:26como servente
00:27:27de pedreiro
00:27:28e estudando,
00:27:29estudando
00:27:30e trabalhando
00:27:31para ganhar
00:27:32o sustento básico
00:27:33porque os pais
00:27:34de fato
00:27:34não tinham nem
00:27:35condições
00:27:35de nos manter
00:27:36lá na cidade.
00:27:37Eu acabei fazendo
00:27:38duas faculdades
00:27:39já com a idade
00:27:40um pouco avançada
00:27:41e o curso de direito
00:27:42que eu fiz
00:27:43eu terminei
00:27:43com 36 anos.
00:27:45Eu ingressei
00:27:46o único
00:27:47da minha família
00:27:47que consegui
00:27:48estudar
00:27:49e então
00:27:51fui para um seminário
00:27:53lá em Conceição
00:27:53do Araguaia
00:27:54inicialmente
00:27:54com o objetivo
00:27:55de ser padre
00:27:57concluí o seminário
00:27:58menor
00:27:58depois concluí
00:27:59o curso de teologia
00:27:59em Belém
00:28:00foi no período
00:28:01que a teologia
00:28:03da libertação
00:28:03estava sendo
00:28:05perseguida
00:28:06pelo Vaticano
00:28:08e decidi
00:28:09então não me ordenar
00:28:10padre
00:28:11e em 1996
00:28:14quando ocorreu
00:28:15o massacre
00:28:16de Eldorado
00:28:16dos Carajás
00:28:17eu estive
00:28:19no local
00:28:20do massacre
00:28:21no dia seguinte
00:28:22acompanhando
00:28:23o Frei Henri
00:28:24de Rosier
00:28:24na época
00:28:25era advogado
00:28:26da CPT
00:28:27em Xinguara
00:28:28e me convidou
00:28:29para trabalhar
00:28:30aqui
00:28:31e então
00:28:32em agosto
00:28:33de 1996
00:28:34eu então
00:28:36comecei a trabalhar
00:28:37aqui na
00:28:38Diocese
00:28:47de Marabá
00:28:48hoje o sindicato
00:28:49é do trabalho
00:28:50do Ural
00:28:51mas seja tarde
00:28:52não desce de lá
00:28:57em 75
00:28:58foi criada
00:28:59a comissão
00:28:59pastoral da terra
00:29:00em 77
00:29:02chegou a Conceição
00:29:03do Araguaia
00:29:04que era o epicentro
00:29:05do conflito fundiário
00:29:06brasileiro
00:29:06lá tinha
00:29:07o maior volume
00:29:08de violência
00:29:10no campo
00:29:11e de trabalho escravo
00:29:12irmãos
00:29:13vamos ficar de pé
00:29:14e vamos
00:29:16elencer
00:29:16essa Santa Missa
00:29:17invocando
00:29:18o nome do Pai
00:29:19do Filho
00:29:20do Espírito Santo
00:29:21amém
00:29:22era tão grande
00:29:24a violência
00:29:26que
00:29:26eu me recordo
00:29:28que preparamos
00:29:30para o Bispo
00:29:31da Diocese
00:29:31em 79
00:29:33a relação
00:29:34de conflitos fundiários
00:29:36que havia
00:29:36naquela área
00:29:38onde atuávamos
00:29:39mais ou menos
00:29:4045 mil
00:29:41quilômetros
00:29:41quadrados
00:29:50nós tínhamos
00:29:5180 conflitos
00:29:52coletivos
00:29:52pela terra
00:29:53conflitos assim
00:29:54com 300 famílias
00:29:55250
00:29:55500 famílias
00:30:06e do outro lado
00:30:08aqueles que não lutaram
00:30:10pela terra
00:30:10mas foram
00:30:11para o trabalho
00:30:12e estes
00:30:13eram proibidos
00:30:14de sair
00:30:15das fazendas
00:30:28a violência
00:30:29era dos dois jeitos
00:30:31a violência
00:30:32era tão grande
00:30:33que finalmente
00:30:33em 1980
00:30:34quando é assassinado
00:30:36um grande amigo meu
00:30:37Raimundo Ferreira Lima
00:30:38um gringo
00:30:38dia 29 de maio
00:30:39de 1980
00:30:40para quem não sabe
00:30:42o gringo
00:30:42ele foi
00:30:44candidato
00:30:45a cabeça da chave
00:30:46foi assassinado
00:30:47no dia 29 de maio
00:30:49pouco mais de uma semana
00:30:51antes da
00:30:51primeira eleição
00:30:54eu resolvi
00:30:56pela primeira vez
00:30:57começar a anotar
00:30:58o nome dos mortos
00:30:59o dia do morto
00:31:00e as condições
00:31:02as informações
00:31:02que tínhamos
00:31:07quando eu saí
00:31:08em 96
00:31:09a lista
00:31:10tinha 200 nomes
00:31:12205
00:31:13era pela questão
00:31:15da luta pela terra
00:31:16e 95
00:31:17na fuga
00:31:19do trabalho escravo
00:31:22e as denúncias
00:31:23nossas
00:31:23não tinham
00:31:25muito efeito
00:31:25porque não
00:31:26ressoava
00:31:27nem na
00:31:28no mundo
00:31:29da política
00:31:31nem no mundo
00:31:32da sociedade civil
00:31:33a gente era um pouco
00:31:34os malucos
00:31:35os loucos
00:31:36falando de um problema
00:31:37que parecia não existir
00:31:44aí um segundo momento
00:31:45de uma grande mudança
00:31:47e aí tem algo
00:31:49a ver com
00:31:49José Pereira
00:32:04a primeira visita
00:32:05que eu recebi
00:32:06foi do
00:32:07padre Ricardo
00:32:09o pai Ricardo
00:32:10o filho Henrique
00:32:12final desperdito
00:32:13que era
00:32:14presidente do sindicato
00:32:15foi assassinado também
00:32:20ele fugiu mais ou menos
00:32:21no dia 13 de setembro
00:32:23de 89
00:32:23eu o conheci
00:32:25um mês depois
00:32:27dia 14 de outubro
00:32:29eu o visitei
00:32:30em Rio Maria
00:32:34e ele então
00:32:35me contou
00:32:35essa história
00:32:36fiquei muito impressionado
00:32:37e preocupado
00:32:38com os demais
00:32:39que estavam na fazenda
00:32:40tinha um grupo
00:32:41ainda retido
00:32:43eu conversei com ele
00:32:44e falei
00:32:45olha Zé
00:32:45você sobreviveu
00:32:46um conjunto de milagres
00:32:48e você busca socorro
00:32:49numa fazenda
00:32:50acusada também
00:32:51de fazer o crime
00:32:52e é socorrido
00:32:53a fazenda Brasil Verde
00:32:54é uma fazenda
00:32:56que foi denunciada
00:32:57por anos consecutivos
00:32:58por utilização
00:33:00de mão de obra escrava
00:33:01por anos
00:33:02então
00:33:03você tem uma responsabilidade
00:33:05de tentar salvar os outros
00:33:06mas não adianta
00:33:07falar com a polícia aqui
00:33:08tem que ser com a polícia federal
00:33:10aí depois que eu fui
00:33:11conhecer a CPT
00:33:12que ajudou muito
00:33:13me levou pra Belém
00:33:15e eu fiz a denúncia
00:33:15lá em Belém
00:33:22e foi feita a denúncia
00:33:24e a polícia federal
00:33:25entrou com ele
00:33:26na fazenda
00:33:28encontraram pessoas
00:33:30retidas na fazenda
00:33:31libertaram
00:33:38só que saiu no jornal liberal
00:33:41e eles ficou sabendo
00:33:42aí eles fugiram
00:33:43todo mundo
00:33:44chegou lá
00:33:44só estavam os companheiros
00:33:45lá trabalhando
00:33:46a polícia libertou
00:33:47eles
00:33:47fizeram pagamento
00:33:49deles lá
00:33:49encontraram o carro
00:33:51encontraram o plástico
00:33:52manchado de sangue
00:33:54por exemplo
00:33:55ele tem certeza
00:33:55que era dele
00:33:56e do Paraná
00:33:58o Paraná
00:33:59o corpo desapareceu
00:34:01nós não sabemos
00:34:03o nome do Paraná
00:34:04não sabemos
00:34:05o nome do pai
00:34:06e da mãe
00:34:06não temos nenhuma informação
00:34:07sobre o Paraná
00:34:09a família
00:34:09não pôde ser avisada
00:34:16o juiz federal de Marabá
00:34:18vai condenar
00:34:20um dos envolvidos
00:34:21no crime
00:34:21ele não condena
00:34:22penalmente
00:34:23pelo homicídio
00:34:25porque ele não tinha corpo
00:34:28né
00:34:28e nem
00:34:29condenou
00:34:30por tentativa
00:34:31de homicídio
00:34:32condenou
00:34:32só pelo artigo 149
00:34:34e condenou
00:34:36como era réu primário
00:34:37a pena mínima
00:34:38que era dois anos
00:34:40e sendo pena mínima
00:34:41dois anos
00:34:42não precisa ficar preso
00:34:43pode haver uma substituição
00:34:45do cárcere
00:34:46pelo
00:34:47por uma atividade
00:34:48por exemplo
00:34:49comunitária
00:34:50é um caso
00:34:51em que houve
00:34:51uma omissão do Estado
00:34:53assim conta o meu menino
00:34:55que o que
00:34:55o que atirou ele
00:34:56o que atirou ele
00:34:58que quando soube
00:34:59que torceu ele
00:34:59para xinguara
00:35:00para internar no hospital
00:35:02que ele não tinha falecido
00:35:03eles correram
00:35:05os pistoleiros
00:35:06correram
00:35:08o fazendeiro
00:35:09não estava na fazenda
00:35:09nessa altura
00:35:10ele não fica na fazenda
00:35:13aí os pistoleiros
00:35:14correu
00:35:14sumiu no mundo
00:35:15não foi punido
00:35:16não foi preso
00:35:16não foi nada
00:35:19solto no mundo aí
00:35:21eu tenho arrependimento
00:35:22assim
00:35:23de eu não ter pegado o cara
00:35:24né
00:35:26fazer o que
00:35:27do jeito que ele fez
00:35:28com o meu filho
00:35:31essa é isso
00:35:33por que que se acha
00:35:34que isso aconteceu
00:35:36deles não sofrerem nada
00:35:38ele ter se arrumado
00:35:40muito
00:35:42advogado
00:35:42né
00:35:42talvez né
00:35:44eu nunca tive audiência
00:35:46com assim com ele
00:35:47né
00:35:47e os caras
00:35:48que ficou sabendo
00:35:49fugiu
00:35:50né
00:35:50e o Pará
00:35:51é um estado
00:35:52muito grande
00:35:53né
00:35:53é difícil de achar
00:35:54uma pessoa
00:35:55aqui dentro
00:35:55ele é um dos maiores
00:35:57pecuaristas do Pará
00:35:58do Brasil
00:35:58né
00:35:59ele é dono
00:36:00mais de 30 mil
00:36:01alqueio de terra
00:36:02o boi dele já foi campeão
00:36:04três vezes brasileiro
00:36:06de exposição
00:36:07de neloro
00:36:08e tanta coisa
00:36:13você acha que ele sabia
00:36:16sabe que eu acho
00:36:17que o proprietário sabe
00:36:18o que acontece
00:36:18dentro da fazenda
00:36:19pode ser fazenda
00:36:21grande pequena
00:36:21sabe sim
00:36:22eu sabia sim
00:36:39naquele período
00:36:40inclusive
00:36:40havia uma indefinição
00:36:41se a competência
00:36:43para processar
00:36:44e julgar
00:36:44crime de trabalho
00:36:45escravo
00:36:46se era da justiça
00:36:47federal
00:36:47ou era da justiça
00:36:48comum
00:36:48essa indefinição
00:36:50esse vazio
00:36:51perdurou
00:36:52por muitos anos
00:36:53e impediu
00:36:54que qualquer pessoa
00:36:55fosse condenada
00:36:56pela prática
00:36:56do crime
00:36:57de trabalho
00:36:57escravo
00:36:58ninguém tinha
00:36:58muito interesse
00:37:00em estabelecer
00:37:01como prioridade
00:37:02definir a competência
00:37:04ou punir
00:37:05responsáveis
00:37:06pelo crime
00:37:06praticado
00:37:07contra
00:37:08José Pereira
00:37:14um camponês
00:37:16chamado
00:37:16expedito
00:37:17Ribeiro de Souza
00:37:18tinha sido assassinado
00:37:19em Rio Maria
00:37:20e o assassinato
00:37:22do expedito
00:37:23teve uma repercussão
00:37:25internacional
00:37:28Le Monde
00:37:29diplomatique
00:37:29já tinha feito
00:37:30duas páginas
00:37:32com ele
00:37:32com a foto dele
00:37:33a legenda
00:37:34desse homem
00:37:34vai morrer
00:37:35a imprensa brasileira
00:37:36acorda
00:37:36para o problema
00:37:37e como ela acorda
00:37:39e começa a falar
00:37:40abre o espaço
00:37:41de entrar na pauta
00:37:42das discussões
00:37:43nacionais
00:37:44a questão do campo
00:37:56diante dos assassinatos
00:37:57no campo
00:37:58de um padrão
00:37:59enorme de violência
00:38:00a partir do assassinato
00:38:01do expedito
00:38:02a CPT
00:38:03então
00:38:03em conjunto
00:38:04com o SEGIL
00:38:04que é uma organização
00:38:06de direitos humanos
00:38:07com a American
00:38:08o ALT
00:38:08que é outra
00:38:09organização
00:38:09de direitos humanos
00:38:11decidiram levar o caso
00:38:12para a curta
00:38:12inteira americana
00:38:17eu fui para a OEA
00:38:19em nome dessas
00:38:20três organizações
00:38:21eu apresentei
00:38:22uma petição
00:38:23contra o governo brasileiro
00:38:24aliás não era uma
00:38:24eram três petições
00:38:25que era um caso
00:38:27de trabalho escravo
00:38:28na fazenda
00:38:29Espírito Santo
00:38:31que é o caso
00:38:32José Pereira
00:38:32o caso
00:38:34da fazenda
00:38:34São Luís
00:38:35na floresta
00:38:36que era um caso
00:38:36de trabalhadores
00:38:37que tinham fugido
00:38:38de uma fazenda
00:38:39e a polícia
00:38:39prendeu os trabalhadores
00:38:40para devolver
00:38:41para a fazenda
00:38:42e o terceiro
00:38:43caso
00:38:43que eu apresentei
00:38:45foi o caso
00:38:45de um trabalhador
00:38:46assassinado
00:38:47que era o João Canuto
00:38:48tinha sido morto
00:38:49em 85
00:38:49e em 91
00:38:50ainda não tinham
00:38:51concluído
00:38:52o inquérito policial
00:38:54acolheram
00:38:54o caso
00:38:55José Pereira
00:39:01uma vez admitida
00:39:02a petição
00:39:04o Estado brasileiro
00:39:05é intimado
00:39:07é notificado
00:39:08para poder
00:39:08apresentar
00:39:09sua defesa
00:39:10então isso
00:39:13incomodou
00:39:13o Estado brasileiro
00:39:16porque poderia
00:39:18sofrer
00:39:18uma condenação
00:39:19o que comprovaria
00:39:21a violação
00:39:22de um tratado
00:39:23internacional
00:39:23assinado
00:39:24pelo Brasil
00:39:27foram anos
00:39:29de idas
00:39:31à comissão
00:39:31interamericana
00:39:32em Boston
00:39:32de articulação
00:39:34de pressão
00:39:35para que
00:39:36de fato
00:39:37o processo
00:39:37pudesse
00:39:38produzir
00:39:39os efeitos
00:39:39que acabou
00:39:40produzindo
00:39:41de uma
00:39:54entrevista
00:39:55para a imprensa
00:39:56alemã
00:39:56canadesa
00:39:58holandesa
00:40:00americana
00:40:02na época
00:40:02mesmo
00:40:03desse caso
00:40:03enquanto a Salina
00:40:04mataram
00:40:05o desperdito
00:40:07eu entrei
00:40:07para o
00:40:08Globo Reporte
00:40:09o negócio
00:40:10que eu saí
00:40:11na rua
00:40:11os pessoal
00:40:12danava a perguntar
00:40:13você que saiu
00:40:13no Globo Reporte
00:40:15e aí
00:40:16foi eu mesmo
00:40:17e todos
00:40:18queriam saber
00:40:18eu falei
00:40:19não
00:40:19aí nesse
00:40:21falei
00:40:21o padre Ricardo
00:40:22o padre Ricardo
00:40:23não
00:40:23tem um lugar
00:40:25para você ir
00:40:25assim
00:40:25fora do Rio Maio
00:40:27eu falei
00:40:27tem
00:40:28aí eu vim
00:40:29equipar a música
00:40:29dos meus avós
00:40:30fiquei um tempo
00:40:31até eu pôr
00:40:31dar uma esfriada
00:40:32porque no Rio Maio
00:40:33foi uma perguntança
00:40:34geral
00:40:35eu tinha medo
00:40:44desse pessoal
00:40:45vir atrás
00:40:47e matar ele
00:40:49eu ficava muito
00:40:50preocupado
00:40:50é assim
00:40:52preocupado
00:40:53às vezes
00:40:53dele
00:40:55ser filmado
00:40:56passar na televisão
00:40:58e eles
00:40:59conheciam ele
00:40:59e às vezes
00:41:00vim atrás
00:41:00querer fazer
00:41:02o mal
00:41:02com ele
00:41:03e menos
00:41:04comigo
00:41:05com a gente
00:41:05que sou pai dele
00:41:08porque havia
00:41:09uma pressão
00:41:10da ONU
00:41:11havia uma pressão
00:41:11da OEA
00:41:12a imprensa
00:41:14também falou
00:41:14muito
00:41:15então houve
00:41:15todo um contexto
00:41:16a morte
00:41:17do Expedito
00:41:18Ribeiro de Sousa
00:41:19mas ele
00:41:20acabou
00:41:21sendo um caso
00:41:22exemplar
00:41:23e no nível
00:41:24político
00:41:25nós pensamos
00:41:26bom
00:41:26nós temos
00:41:26que levar
00:41:27para o sul
00:41:28do Pará
00:41:28algumas pessoas
00:41:30de grande
00:41:31visibilidade
00:41:32para tentar
00:41:33salvar vidas
00:41:36daí o Paulo
00:41:37Bete
00:41:38Cristina Pereira
00:41:39Letícia
00:41:39Batella
00:41:40Ângelo
00:41:40Antônio
00:41:41aí começou
00:41:42Sérgio
00:41:43Manberti
00:41:44essas pessoas
00:41:44começaram
00:41:45aí na região
00:41:46e andar
00:41:48nas ruas
00:41:48com os ameaçados
00:41:49de morte
00:41:49e no nível
00:41:51internacional
00:41:52em nome
00:41:53da Comissão
00:41:54Pastoral
00:41:54da Terra
00:41:55eu falei
00:41:56no plenário
00:41:57da ONU
00:41:57em Genebra
00:41:58fiz uma declaração
00:42:00de que
00:42:01havia
00:42:02trabalho
00:42:03de escravo
00:42:03no Brasil
00:42:03e
00:42:05para surpresa
00:42:06nossa
00:42:07o
00:42:08embaixador
00:42:09do Brasil
00:42:11na ONU
00:42:12reconheceu
00:42:14que havia
00:42:14um problema
00:42:15que era
00:42:16o Celso Amorim
00:42:17o Brasil
00:42:18na realidade
00:42:19foi o primeiro
00:42:20país
00:42:20mesmo nessa época
00:42:21de admitir
00:42:23que havia
00:42:24trabalho escravo
00:42:25nenhum país
00:42:26havia assinado
00:42:27a convenção
00:42:28mas não admitiam
00:42:28que havia
00:42:29o Brasil
00:42:29admitiu
00:42:29e foi um passo
00:42:30importante
00:42:31e sem dúvida
00:42:33teve uma grande
00:42:34repercussão
00:42:34no mundo
00:42:35enfim
00:42:36pelo menos
00:42:36no mundo
00:42:37diplomático
00:42:38nos governos
00:42:59então a gente
00:43:00conseguiu
00:43:01pegar
00:43:03esse caso
00:43:03José Pereira
00:43:04não somente
00:43:05como
00:43:06simplesmente
00:43:07entre aspas
00:43:08o caso
00:43:09José Pereira
00:43:09era uma vítima
00:43:11sem atendimento
00:43:12que merecia
00:43:13uma indenização
00:43:14pelos danos
00:43:15graves
00:43:16que ela tinha
00:43:16sofrido
00:43:17mas
00:43:17para além
00:43:18desse caso
00:43:19as medidas
00:43:20de reparação
00:43:21eram medidas
00:43:22de reparação
00:43:23para a sociedade
00:43:23toda
00:43:24o Brasil
00:43:25o Brasil
00:43:25merecia
00:43:26ter uma política
00:43:27de combate
00:43:27o trabalho escravo
00:43:28para que esse caso
00:43:29emblemático
00:43:30não se repetisse
00:43:31em outros
00:43:32cultos
00:43:33para que não
00:43:34constasse
00:43:35de um relatório
00:43:36contra o governo
00:43:36brasileiro
00:43:37foi feita
00:43:38então uma proposta
00:43:39de acordo
00:43:39amigável
00:43:41essa proposta
00:43:43foi feita
00:43:44provavelmente
00:43:45em 96
00:43:48fazia parte
00:43:48da proposta
00:43:49de uma corte
00:43:49amigável
00:43:50além de
00:43:50indenizar
00:43:51José Pereira
00:43:52aprovar
00:43:54a mudança
00:43:55do artigo
00:43:55149
00:43:56do código
00:43:56penal
00:43:57brasileiro
00:43:57dando uma definição
00:43:59do que era
00:43:59trabalho escravo
00:44:05a proposta
00:44:06era também
00:44:07de aprovar
00:44:09o projeto
00:44:10de amendo
00:44:11constitucional
00:44:11que prevê
00:44:12a perda
00:44:13da propriedade
00:44:14que ia utilizar
00:44:14a mão de obra
00:44:15escravo
00:44:15fazia parte
00:44:17da proposta
00:44:17uma campanha
00:44:19nacional
00:44:20pela erradicação
00:44:22do trabalho escravo
00:44:22o governo
00:44:24brasileiro
00:44:26aceitou
00:44:26discutir
00:44:27a proposta
00:44:28mas não chegava
00:44:28a uma conclusão
00:44:29foi empurrando
00:44:30empurrando
00:44:30não chegava
00:44:32um desfecho
00:44:33essa questão
00:44:34e termina
00:44:362002
00:44:37sem ter
00:44:39nada assinado
00:44:40o estado demorou
00:44:43vários elementos
00:44:44que o estado
00:44:45alegava
00:44:46para postegar
00:44:47postegar
00:44:47eu lembro
00:44:48certa vez
00:44:50eu enviei
00:44:51em nome da CPT
00:44:52da nossa campanha
00:44:53um ofício
00:44:55que o título
00:44:55era
00:44:56blá blá blá
00:44:57caso
00:44:58José Pereira
00:44:59assinatura
00:45:00postegada
00:45:00mais uma vez
00:45:01ficamos
00:45:03dois
00:45:03três anos
00:45:03aguardando
00:45:04a assinatura
00:45:05desse acordo
00:45:06que finalmente
00:45:07somente
00:45:07foi assinado
00:45:08em maio
00:45:09junho
00:45:102003
00:45:11já no governo
00:45:13Lula
00:45:13durante o meu período
00:45:15todo
00:45:15nós estávamos
00:45:16mandando lá
00:45:17os procuradores
00:45:18para acabar
00:45:19com o trabalho
00:45:20forçado
00:45:21fizemos uma nova
00:45:22regulamentação
00:45:23que ficou pronta
00:45:24só que isso
00:45:25ficou pronta
00:45:26em outubro
00:45:27de 2002
00:45:29o Lula
00:45:30foi eleito
00:45:30presidente
00:45:30em outubro
00:45:31de 2002
00:45:32eu achei
00:45:32que era mais justo
00:45:33que isso
00:45:34se transformasse
00:45:35em uma política
00:45:35de Estado
00:45:36não fosse do meu governo
00:45:38então deixamos
00:45:39para o Lula
00:45:40assinar
00:45:40o decreto
00:45:41coisa que ele fez
00:45:42e levou adiante
00:45:43esse programa
00:45:44de redução
00:45:45do trabalho
00:45:47forçado
00:45:47nós chamamos
00:45:48de trabalho escravo
00:45:51eu acho que o mérito
00:45:52do governo
00:45:52Fernando Henrique
00:45:53é ter reconhecido
00:45:54diante das Nações Unidas
00:45:55a persistência
00:45:56desse crime
00:45:57em 1992
00:45:57ele reconheceu
00:45:59diante da ONU
00:46:00reconheceu
00:46:01diante do Brasil
00:46:02e segurou a pressão
00:46:03de falar
00:46:03tem trabalho escravo
00:46:04vamos combater
00:46:05o governo Lula
00:46:06na hora que ele assume
00:46:07ele aumenta
00:46:10a capacidade
00:46:10de fiscalização
00:46:11e aumenta
00:46:12o combate
00:46:12do trabalho escravo
00:46:13de uma forma
00:46:14muito grande
00:46:16de 1995
00:46:17até 2002
00:46:18ou seja
00:46:19durante o governo
00:46:20Fernando Henrique
00:46:21cerca de 5 mil
00:46:22pouco mais de 5 mil
00:46:23pessoas foram
00:46:24libertadas
00:46:25do trabalho escravo
00:46:25agora
00:46:26de 2003
00:46:28a 2010
00:46:28durante o governo Lula
00:46:30foram mais de
00:46:31mais 40 mil quase
00:46:32né
00:46:33sei que 40 mil
00:46:34não tenho o número exato
00:46:35mas foi uma coisa
00:46:36dessa grandeza
00:46:37o que mostra
00:46:38que o poder
00:46:38de fiscalização
00:46:39ampliou-se muito
00:46:41nesse momento
00:46:47banheiro inexistente
00:46:48né
00:46:48a água deve ser tirada
00:46:49desse córrego
00:46:50que passa aqui
00:46:50ao lado do barraco
00:46:57esse desmatamento aí
00:46:58aqui não tem desmatamento
00:47:00isso aqui é o que
00:47:01essa madeira tirada
00:47:03isso é o que
00:47:07o novo governo
00:47:09o governo Lula
00:47:11ele assume
00:47:12em janeiro de 2003
00:47:13em março de 2003
00:47:15ele então assina
00:47:16o primeiro plano nacional
00:47:17pela erradicação
00:47:18do trabalho escravo
00:47:24e assina o acordo
00:47:26amigável
00:47:27então é assinado
00:47:29o acordo amigável
00:47:30com José Pereira
00:47:35ele encaminhado
00:47:36ao congresso
00:47:37o pedido
00:47:37de liberação
00:47:38de 52 mil reais
00:47:39para idenizá-lo
00:47:47só 10 anos depois
00:47:49só 10 anos depois
00:47:51olha eu fui
00:47:52para Tucuruí
00:47:53lá
00:47:53ocupei uma terrinha
00:47:55lá
00:47:55fiquei por lá
00:47:56né
00:47:56aí
00:47:59ajudei
00:47:59uma
00:47:59minha mãe
00:48:00que ela morava
00:48:01em Belém nesse tempo
00:48:02né
00:48:02ajudei ela lá
00:48:03fazer muitas coisas lá
00:48:04uma casa para lá
00:48:05e o dinheiro é custo
00:48:07né
00:48:07comprei uma terra
00:48:08fui tique
00:48:08abri a terra
00:48:09tudo
00:48:09ainda em mata
00:48:10e acabando
00:48:12depois surgiu
00:48:12uns negócios lá
00:48:14muito
00:48:14um lugar muito ventinho
00:48:15malarioso
00:48:16de malária
00:48:17eu vendi
00:48:18aí eu vim pra cá
00:48:20de volta
00:48:20eu vim pra cá
00:48:21e eu fiquei
00:48:22por aqui mesmo
00:48:25aí ele
00:48:26hoje o que ele tem
00:48:27desse dinheiro
00:48:27é um barraquinho
00:48:28que ele mora lá
00:48:32ele foi
00:48:33indenizado
00:48:33uns 52 mil
00:48:34quem pagou
00:48:36a indenização
00:48:36disse que foi
00:48:38o estado
00:48:38né
00:48:39o país
00:48:40né
00:48:40que eu entrei
00:48:41o Frei Henrique
00:48:43ele entrou na justiça
00:48:44contra o país
00:48:45né
00:48:45por ser menor de idade
00:48:47disse que foi o país
00:48:48que pagou
00:48:49veio do
00:48:50Ministério da Justiça
00:48:51o pagamento
00:48:52e você acha
00:48:53que a indenização
00:48:54foi justa
00:48:57olha eu acho
00:48:58que
00:48:58pela gravidade
00:49:00pela
00:49:00trem sim
00:49:01eu acho
00:49:02que foi
00:49:03não foi tão
00:49:04assim né
00:49:05eu acho
00:49:05que foi
00:49:06merecia mais
00:49:07falar a verdade
00:49:07merecia mais
00:49:09porque
00:49:09eu era menor de idade
00:49:11e surgir
00:49:13né
00:49:13acho que foi
00:49:15foi pequena
00:49:16merecia mais um pouco
00:49:19mas ele é considerado
00:49:21até hoje
00:49:22como um divisor
00:49:22de água
00:49:23tenho antes
00:49:25do caso
00:49:26José Pereira
00:49:27e tenho depois
00:49:28porque depois
00:49:29do caso
00:49:29José Pereira
00:49:30temos
00:49:31uma política
00:49:33pública
00:49:33de combate
00:49:34ao trabalho
00:49:34escravo
00:49:35que foi
00:49:36instalada
00:49:37aos poucos
00:49:38e que teve
00:49:39essa amarração
00:49:41internacional
00:49:42dando um amparo
00:49:43internacional
00:49:44aos compromissos
00:49:46nacionais
00:49:46então nós avançamos
00:49:48muito
00:49:49depois da mudança
00:49:50do código penal
00:49:51que ocorreu
00:49:52em dezembro
00:49:53de 2003
00:49:54e essa mudança
00:49:55põe na frente
00:49:56quer dizer
00:49:57estabelece
00:49:58um critério
00:49:59de importância
00:50:01e de responsabilidade
00:50:02em relação
00:50:03à dignidade
00:50:04da pessoa
00:50:04humana
00:50:05do trabalhador
00:50:05o conceito
00:50:06de trabalho escravo
00:50:07no Brasil
00:50:07ele é elogiado
00:50:08internacionalmente
00:50:09por isso
00:50:10porque ele
00:50:11ele abarca
00:50:12situações
00:50:13que vai além
00:50:14daquela questão
00:50:15da simples
00:50:16arma
00:50:16da simples
00:50:19imposição
00:50:19do empregador
00:50:20ele abarca
00:50:21outras formas
00:50:22como por exemplo
00:50:23o isolamento geográfico
00:50:24também a retenção
00:50:25de documentos
00:50:26é uma outra forma
00:50:27de cerceamento
00:50:29dessa liberdade
00:50:31e eu diria
00:50:32que a tal ponto
00:50:33que o Brasil
00:50:34se tornou exemplo
00:50:36em várias formas
00:50:38de promoção
00:50:38daquilo que a OIT
00:50:39chama trabalho decente
00:50:40o Brasil
00:50:41passou a ser um grande
00:50:43exemplo
00:50:44passou a
00:50:46transmitir
00:50:47a sua experiência
00:50:48para outros países
00:50:50em desenvolvimento
00:50:51não quer dizer
00:50:51que tudo esteja perfeito
00:50:52aqui
00:50:52que tenha resolvido tudo
00:50:53não
00:50:53mas diminuiu muito
00:50:54todos os indicadores
00:50:55em relação
00:50:57a essas formas
00:50:57piores formas
00:50:58de exploração
00:50:59do trabalho
00:51:00o Brasil
00:51:00melhorou muito
00:51:01vinha melhorando
00:51:02mas melhorou muito
00:51:03no governo
00:51:04do presidente Lula
00:51:04a ponto da experiência
00:51:06brasileira
00:51:06a própria OIT
00:51:08querer levar
00:51:09para outros países
00:51:14o Brasil
00:51:16no combate
00:51:17ao trabalho escravo
00:51:18ao trabalho forçado
00:51:19ele se destaca
00:51:20dos 187
00:51:22estados-membros
00:51:23178
00:51:24ratificaram a convenção
00:51:25e se comprometem
00:51:27a erradicar
00:51:28o trabalho forçado
00:51:29mas não quer dizer
00:51:30que tenham ações
00:51:31que implementem ações
00:51:33e para você implementar
00:51:35você tem que primeiro
00:51:35reconhecer
00:51:36que tem o problema
00:51:37no seu território
00:51:39então a maioria
00:51:40dos países
00:51:41não faz
00:51:42estamos falando
00:51:43de graves violações
00:51:44de direitos humanos
00:51:46onde
00:51:46às vezes
00:51:47um caso
00:51:48um animal
00:51:49dentro de uma propriedade
00:51:50rural
00:51:51melhor tratar
00:51:52do que um ser humano
00:51:53por exemplo
00:51:54então
00:51:54são situações
00:51:56muitas vezes
00:51:56inaceitáveis
00:51:59entrar em outro trabalho
00:52:00escravo
00:52:01eu acho que eu não entro mais não
00:52:01não sai mais
00:52:04para longe
00:52:04por isso que eu não
00:52:07entro mais
00:52:08e agora está mais
00:52:09assim
00:52:09não está tão violento
00:52:11como era
00:52:11na década de 80
00:52:13era mais violento
00:52:14que surgiu
00:52:15muita lei
00:52:16muita fazenda
00:52:17hoje
00:52:17é muito carteira
00:52:19carteira assinada
00:52:20é trabalho
00:52:21é carteira de trabalho
00:52:22assinada
00:52:22admiro muito o trabalho
00:52:24mas surge ainda
00:52:25mas digamos surge
00:52:27e por que
00:52:28que você acha
00:52:29que ainda continua
00:52:30eu acho que
00:52:33acho que falta
00:52:34fiscalização
00:52:34mais um pouco
00:52:35fiscalização
00:52:36e
00:52:38eu acho que
00:52:39também
00:52:39consciência
00:52:40do próprio fazendeiro
00:52:41e do trabalhador
00:52:42também
00:52:42que antes de
00:52:43ir para uma fazenda
00:52:44era consultar primeiro
00:52:45como é
00:52:46ir
00:52:47acho que
00:52:48mais falta
00:52:48consciência
00:52:49do fazendeiro
00:52:50mas
00:52:51diminuiu bastante
00:52:52o trabalho escravo
00:52:53bastante mesmo
00:52:54você teve mais de 50 mil pessoas
00:52:57libertadas da escravidão
00:52:58desde 95
00:52:58você teve
00:52:59querendo ou não
00:53:00dois governos
00:53:01PSDB e PT
00:53:02que surgem
00:53:04que são as duas
00:53:04principais forças históricas
00:53:06pós-redemocratização
00:53:07no Brasil
00:53:08que implantaram
00:53:10um dos principais
00:53:11instrumentos
00:53:12do mundo
00:53:12para a efetivação
00:53:14da dignidade humana
00:53:15e de combate à escravidão
00:53:16agora
00:53:17o combate ao trabalho escravo
00:53:19ele gera
00:53:20um contra-ataque
00:53:36foi uma luta
00:53:37de décadas
00:53:38diferentes movimentos
00:53:39juristas
00:53:40e etc
00:53:41para poder então
00:53:43inserir no código penal
00:53:45aquelas condições
00:53:47que caracteriza
00:53:49de fato
00:53:49o trabalho escravo
00:53:50o que nós estamos presenciando
00:53:52atualmente
00:53:53é uma desconstrução
00:53:55disso
00:53:55determinadas estruturas
00:53:56que apoiam esse governo
00:53:57como bancadas ruralistas
00:53:59como grupos
00:54:00de determinados empresários
00:54:01do setor
00:54:02da construção
00:54:04por exemplo
00:54:04pressionam
00:54:05pela aprovação
00:54:07de leis
00:54:07que mude o conceito
00:54:08de trabalho escravo
00:54:09que mude o combate
00:54:10do trabalho escravo
00:54:12que flexibilize
00:54:13determinados conceitos
00:54:14trabalhistas
00:54:14que enfraqueça
00:54:15a fiscalização
00:54:17ou seja
00:54:17que mude
00:54:18este cenário
00:54:19e com isso
00:54:20a tendência
00:54:21é a continuidade
00:54:23do trabalho escravo
00:54:24e até a ampliação dele
00:54:33o espírito do direito
00:54:35do trabalho
00:54:35é um espírito
00:54:36de proteção
00:54:37ele começa a ser desenvolvido
00:54:39no mundo inteiro
00:54:40para proteger
00:54:41aquele
00:54:42que é
00:54:42hipossuficiente
00:54:43aquele que não tem
00:54:45o mesmo poder
00:54:46econômico e social
00:54:47do que o outro
00:54:48que o emprega
00:54:50o trabalhador
00:54:51só tem sua força
00:54:51de trabalho
00:54:52então essa legislação
00:54:54de proteção
00:54:55tem um papel
00:54:57de trazer dignidade
00:54:59então o que nós precisamos
00:55:01é garantir
00:55:02que essa legislação
00:55:04continue protegendo
00:55:05nós não podemos
00:55:06avançar
00:55:07numa seara
00:55:08de lucro desmedido
00:55:10de lucro selvagem
00:55:11porque senão
00:55:13o próprio sistema
00:55:14capitalista
00:55:15de produção
00:55:15não cumpre
00:55:16com o seu papel
00:55:17o capitalismo
00:55:18quando começa
00:55:19ele destrói
00:55:20muita coisa
00:55:20antes de ter lei
00:55:22direitinha
00:55:22consolidação
00:55:23das leis do trabalho
00:55:24não tem lei nenhuma
00:55:25depois que tem
00:55:26essas leis
00:55:27as pessoas vão
00:55:28pela margem
00:55:29quem é que escapou
00:55:30disso
00:55:31então usa essa gente
00:55:33essa questão
00:55:33de trabalho escravo
00:55:34quando é que ocorre
00:55:36isso aí
00:55:36ocorre
00:55:37uma situação
00:55:37de muita precariedade
00:55:39muita miséria
00:55:39falta de alternativa
00:55:40no fundo
00:55:41para acabar
00:55:42com o trabalho escravo
00:55:43precisa ter
00:55:44não só vigilância
00:55:45da sociedade
00:55:45ação dos governos
00:55:47mas progresso
00:55:48melhoria de condição
00:55:49de vida
00:55:49para todos
00:55:50e o próprio capitalismo
00:55:51deixar de ser
00:55:52selvagem
00:55:53isso tudo é fruto
00:55:55de um capitalismo
00:55:55selvagem
00:55:56o trabalho
00:55:58escravo
00:55:59ou semi-escravo
00:56:00ou o trabalho infantil
00:56:02ou a exploração
00:56:04das empregadas
00:56:05domésticas
00:56:06etc
00:56:06tudo isso está ligado
00:56:07a base social
00:56:08muito desigual
00:56:09que acaba
00:56:11levando
00:56:12induzindo também
00:56:13o trabalhador
00:56:14aceitar condições
00:56:15porque não tem
00:56:15alternativa
00:56:16então eu acho que
00:56:17não pode ser visto
00:56:20de maneira separada
00:56:21legislação tudo bem
00:56:22mas bolsa família
00:56:23não
00:56:23não
00:56:24que a bolsa família
00:56:25é o que habilita
00:56:26primeiro ajuda a estudar
00:56:28que é fundamental
00:56:29para escapar
00:56:29desse ciclo vicioso
00:56:31maldito
00:56:32de trabalho escravo
00:56:33segundo
00:56:34ela dá condições
00:56:35de vida
00:56:36que permite
00:56:37a pessoa
00:56:38ter um poder
00:56:38de negociação
00:56:40maior
00:56:41com o patrão
00:56:42o problema
00:56:43a ser
00:56:45erradicado
00:56:46são as distorções
00:56:47do nosso modelo
00:56:48de desenvolvimento
00:56:49que ele
00:56:50pode trazer riqueza
00:56:52mas concentra riqueza
00:56:53na mão de alguns
00:56:54que ele pode trazer
00:56:55progresso
00:56:56mas ele faz com que
00:56:57alguns avancem
00:56:58para o século 21
00:56:59enquanto outros
00:57:00retornem para o século 19
00:57:26o agronegócio
00:57:29no Brasil
00:57:30principalmente em relação
00:57:31a pecuária extensiva
00:57:33é uma prática
00:57:34meio
00:57:35ultrapassada
00:57:36e irracional
00:57:37porque
00:57:38essa história
00:57:40de ter áreas
00:57:40cada vez maiores
00:57:41para o gado
00:57:42ficar pastando
00:57:43e passeando
00:57:43em milhares
00:57:45de hectares
00:57:45de pastagem
00:57:46isso é uma coisa
00:57:47ultrapassada
00:57:48e é possível
00:57:50criar gado
00:57:52em menos
00:57:52extensões de terra
00:57:53através da forma
00:57:54mais intensiva
00:57:55isso se faz
00:57:57em regiões
00:57:58até em outros
00:57:59estados do Brasil
00:58:00e também
00:58:01em outros países
00:58:02se faz assim
00:58:03mas no Brasil
00:58:05infelizmente
00:58:06a concepção
00:58:07dos ruralistas
00:58:08é que tem que ter
00:58:09extensões cada vez
00:58:10maiores
00:58:10para jogar cada vez
00:58:11mais quantidade
00:58:12de gado ali dentro
00:58:17não há nenhuma
00:58:19preocupação
00:58:19do Estado brasileiro
00:58:20em forçar
00:58:21o setor ruralista
00:58:22a adotar
00:58:23essas práticas
00:58:24ou seja
00:58:25vão utilizar
00:58:25os seus próprios
00:58:26lucros
00:58:27para modernizar
00:58:28a produção
00:58:29é uma lógica
00:58:32perversa
00:58:33com a natureza
00:58:35principalmente
00:58:35se falando
00:58:36de Amazônia
00:58:45nós sofremos
00:58:47uma resistência
00:58:49muito grande
00:58:50do Congresso Nacional
00:58:52principalmente
00:58:52da chamada
00:58:53bancada ruralista
00:58:54a bancada ruralista
00:58:55é fortíssima
00:58:56é organizada
00:58:57é articulada
00:58:58e representa
00:59:00talvez
00:59:01o ativo
00:59:03econômico
00:59:04que mais cresce
00:59:06e que garante
00:59:07superávit
00:59:07na balança
00:59:08comercial brasileira
00:59:09já há
00:59:10alguns anos
00:59:12isso é real
00:59:12a pujança
00:59:15do agronegócio
00:59:16brasileiro
00:59:17é real
00:59:17precisamos
00:59:18dessa articulação
00:59:19para enfrentar
00:59:20e erradicar
00:59:21o trabalho escravo
00:59:22contemporâneo
00:59:22no Brasil
00:59:33você sente algum
00:59:34algum rancor
00:59:36qual o seu sentimento
00:59:37contra esses
00:59:39fazendeiros
00:59:40eu achei não
00:59:41eu achei rancor
00:59:41não precisa guardar
00:59:42isso é besteira
00:59:43já aconteceu
00:59:44e não andar
00:59:46atrás disso
00:59:47nada
00:59:48deixa pra lá
00:59:49é melhor
00:59:50evitar
00:59:53encontrar com eles
00:59:55acho que não
00:59:56encontro mais
00:59:56porque já passou
00:59:57muitos anos
00:59:58e eu não ando
00:59:59quase para fora
01:00:02você tem medo
01:00:04de que
01:00:07o fato de você
01:00:08estar dando
01:00:09essa entrevista
01:00:09aqui
01:00:11pode
01:00:11sei lá
01:00:13despertar
01:00:15algum rancor
01:00:16deles
01:00:16eles mandarem o capanga
01:00:17te matar de vez
01:00:19eu acho que não
01:00:20porque eu de entrevista
01:00:21mais assim
01:00:22revista
01:00:23jornal liberal
01:00:26empresa fora
01:00:27né
01:00:27eu achei
01:00:28não vem
01:00:28atrás
01:00:28não
01:00:29e
01:00:30para chegar
01:00:31em mim
01:00:31primeiro
01:00:32tem que passar
01:00:32pela CPT
01:00:33né
01:00:35eu achei
01:00:36não
01:00:36tem perigo
01:00:37não
01:00:38se você
01:00:38não tivesse
01:00:39fugido
01:00:39o que você
01:00:40acha que teria
01:00:40acontecido
01:00:41mas nós
01:00:42tínhamos trabalha
01:00:42há muitos
01:00:42anos
01:00:43né
01:00:44eu acho
01:00:45que sim
01:00:47pelas graças
01:00:47de Deus
01:00:48ele escapou
01:00:48desse
01:00:50treinar
01:00:50ele está
01:00:50um homem sadio
01:00:51gordão
01:00:52ele continua
01:00:53toda a vida
01:00:54um rapaz
01:00:55calmo
01:00:56ser trabalhador
01:00:56todo mundo
01:00:57gosta dele
01:00:58então eu acho
01:00:59que ele está
01:01:00feliz
01:01:18você tem
01:01:19algum sonho
01:01:21não
01:01:22só de viver
01:01:23mesmo
01:01:25sonho
01:01:25já
01:01:26passado
01:01:26só sonho
01:01:27mesmo de viver
01:01:27ficar quieto
01:01:28aqui na vida
01:01:29entre os amigos
01:01:30conhecidos
01:01:31né
01:01:31todo mundo
01:01:32é conhecido
01:01:32todo amigo
01:01:33amigo
01:01:33não tem
01:01:34violência
01:01:34nenhuma
01:01:34né
01:01:35aqui tem
01:01:36mais de
01:01:36acho
01:01:36mais de
01:01:3730 anos
01:01:37que morreu
01:01:37gente matada
01:01:38é um lugar
01:01:39calmo
01:01:39aqui
01:01:39aí é o lugar
01:01:40de viver
01:01:41meu sonho
01:01:41é ficar
01:01:41aqui mesmo
01:01:43é um lugar
01:01:44calmo
01:02:07nada
01:02:34o que foi
01:03:03Legenda Adriana Zanotto