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  • há 2 dias
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00:00:01O que é isso?
00:00:39O que é isso?
00:00:40O que é isso?
00:00:49O que é isso?
00:00:52Eu lembro muitas coisas que eu não tive em infância muito não.
00:00:56Minha infância foi pouca.
00:00:59Eu cuidava de minhas irmãs tudo.
00:01:00Eu andava já pedindo esmola aqui no Canção.
00:01:02Pra criar minhas irmãs tudo.
00:01:04E o menino não tá vendo.
00:01:08Cuidava de nada, meu irmão.
00:01:10Quem cuidava era eu.
00:01:14No parracho, tirando-se um lado no parracho.
00:01:22Minha família do interior, né?
00:01:24Meu pai e minha mãe.
00:01:26E como a seca era muito grande no interior, a seca, a pobreza,
00:01:32então ela achou melhor me entregar pra alguém pra trabalhar como babá.
00:01:37Quer dizer que era pra brincar com a criança, né?
00:01:40Nessa época eu tinha nove anos de idade.
00:01:44Você saiu daqui de cansação com quantos anos?
00:01:48Com dez anos.
00:01:50Porque meu pai me entregou pra essa mulher.
00:01:58Ela falou que ia me botar na escola pra me aprender a ler,
00:02:03pra mim me formar, cego aí na vida.
00:02:04E nada disso aconteceu.
00:02:18Nós levantávamos três horas da madrugada até oito horas.
00:02:20O mais tarde a ver que terminava tudo, e era oito horas.
00:02:23Eu terminava de tudo mesmo.
00:02:24Lavava a panela e tudo, ajeitar tudo.
00:02:26Era oito horas da noite.
00:02:28Na época, a gente fazia muito esse tal de derrubada aí, né?
00:02:32Porque era o serviço do auge, né?
00:02:34O que tava acontecendo na região.
00:02:39Sofrido porque...
00:02:40Trabalhava vigiado, né?
00:02:43Como se a gente fosse preso, bandido, e tivesse roubando as coisas ali.
00:02:48Porque sempre a gente trabalha meio pra esse negócio de fazendeiro, né?
00:02:51Bom.
00:02:53É. Mais ou menos.
00:02:55A gente não tem oportunidade de não ir fora, né?
00:02:59Aí tem que ir pra lá.
00:03:08Eu, como neto de avô escravo,
00:03:11eu sofri também bastante, apanhei.
00:03:14Nunca vi o negro andar de filha de banco,
00:03:17que o negro, o gado negra na senzala.
00:03:20Tem vezes que eu sento aqui, penso, penso,
00:03:22meu Deus, não sei que milagre, eu escapei, ó.
00:03:24Porque é doloroso.
00:03:26Tem vezes que eu choro sozinha, assim.
00:03:28Aí me dá agonia vendo o juiz, aí começa a chorar,
00:03:30me dá uma coisa ruim.
00:03:33É.
00:03:34Toda gente, as pessoas sofrem.
00:03:35Até hoje eu sofro, ó.
00:03:38Tem vezes que eu já falei com o meu marido,
00:03:39que agora eu já espelho,
00:03:40que eu vou beber veneno e vou morrer, ó.
00:03:42Já falei que eu já bebi uma vez.
00:03:45Tchau, tchau, tchau.
00:04:14Tchau, tchau.
00:04:51Tchau, tchau.
00:05:26Tchau, tchau.
00:05:38Tchau, tchau.
00:05:41Tchau, tchau.
00:05:54Tchau, tchau.
00:06:04Tchau, tchau.
00:06:07Tchau, tchau.
00:06:23Tchau, tchau.
00:06:25Tchau, tchau.
00:06:42Tchau, tchau.
00:06:56Tchau, tchau.
00:06:59Tchau, tchau.
00:07:10Tchau, tchau.
00:07:13Tchau, tchau.
00:07:17Tchau, tchau.
00:07:49Tchau, tchau.
00:07:52Tchau, tchau.
00:07:57Tchau, tchau.
00:08:13Tchau, tchau.
00:08:15Tchau, tchau.
00:08:16Tchau, tchau.
00:08:16Tchau, tchau.
00:08:20Tchau, tchau.
00:08:23Tchau, tchau.
00:08:28Tchau, tchau.
00:08:30para alguém, porque aquela coisa, né, vai ter casa, vai ter comida, vai estar numa família
00:08:36que vai estar sendo cuidada, né, então ela preferiu me entregar para trabalhar já menina.
00:08:52Eu lembro, né, lembro que eu não queria sair do seio da minha mãe, dos meus irmãos,
00:08:58e fui levada para a São Tomado da Purificação.
00:09:09Eu orava aqui em Barras, aliás, aqui na minha casa mesmo.
00:09:13Aí apareceu os pessoal procurando gente para ir trabalhar, né, os homens, né,
00:09:18aí disseram assim, estão precisando também de cozinheira, né,
00:09:21aí meu esposo já tinha ido lá botar o nome, eu disse, cara, que foi a gente também que eu
00:09:25vou,
00:09:25junto contigo, para cozinhar para o espinhão.
00:09:26Esse menino, o que é que tu vai fazer?
00:09:28Eu digo, vou, rapaz, eu preciso ganhar dinheiro também, eu e tu trabalhar.
00:09:31Aí nós fomos para lá, né, eu mais ele, foi três homens que levou nós,
00:09:36daqui, três homens, mas lotados de gente, de homens, só de homens, de mulher mesmo, só era eu.
00:09:54A gente ia porque a gente tem um compromisso a cumprir, né, com a família da gente.
00:10:00Eu tenho dois, tenho dois negão, tá lá em casa, tô com saudade, né, mas é sofrido, não é bom,
00:10:10não.
00:10:13Nós temos pessoas que são deslocadas dos seus municípios de origem.
00:10:17Essas pessoas já saem dali vulneráveis.
00:10:20Quando você tira o trabalhador do seu local, do seu habitat natural,
00:10:24e leva para um outro local, ele não conhece as pessoas, ele não conhece os costumes.
00:10:28O Brasil é muito grande.
00:10:29Esses regionalismos, isso deixa o trabalhador vulnerável.
00:10:36Para cada lote, assim, suponhamos, se fosse um lote de dez alqueiros,
00:10:41aí era três motoqueiros, que eram os caras que derrubam com a motosserra,
00:10:44e um meloso, que no caso era eu.
00:10:49O meloso, que era no meu caso, era o meloso.
00:10:51Eu não derrubava de motosserra, não era responsável por carregar a água,
00:10:57carregar o óleo, carregar a gasolina,
00:11:01e carregar o almoço, né?
00:11:05E o material que o motoqueiro usava, a chave, essas coisas assim.
00:11:13A derrubada, por você fazer ela, é num lugar que não tem acesso.
00:11:16Não vai carro, o senhor entende?
00:11:19O seu material que você vai ter que usar na derrubada,
00:11:21você tem que puxar a pé, cinco, seis quilômetros,
00:11:25da onde o carro chega.
00:11:28O senhor entende?
00:11:29Aí só vinha quando acabasse,
00:11:30porque o fazendeiro não deixava vinho antes, não.
00:11:33Já 30 dias, 35 dias.
00:11:45Aí nós dormíamos no barraco de Londres e na rede, né, senhor?
00:11:55O frio que eu tinha era medo de onça.
00:11:57Medo das onças aí, eu tinha medo de me comer lá dentro.
00:12:00Porque esturrava o meio de onça do barraco.
00:12:08Tinha um quartinho que eu dormia, mas meu esposo, né?
00:12:10E a menina, separada.
00:12:12Agora os outros homens tudo era misturado pra lá.
00:12:14O quartinho lá na cozinha, né?
00:12:18Onde eu cozinhava.
00:12:19Lá eu dormia, mas minha esposa tomava banho,
00:12:21que tinha um banheirinho velho lá, né?
00:12:22A gente tomava banho e tudo lá.
00:12:23Ficava lá, igual a minha menina.
00:12:34Morar num barraco de lona,
00:12:37não ter possibilidade de ter acesso a salários,
00:12:41isso faz com que o trabalhador fique limitado
00:12:43nas suas decisões,
00:12:46na possibilidade até de escolher um outro tipo de vida
00:12:50e se fixe indefinidamente
00:12:53até que seja interpelado pelo poder público
00:12:57numa situação de exploração.
00:13:00Inclusive, é muito impressionante ver
00:13:02no discurso dos próprios fazendeiros
00:13:06quando tenta se defender na justiça
00:13:09e às vezes do próprio ministro supremo
00:13:11quando tenta apreciar um caso, uma denúncia,
00:13:15dizer, mas isso aqui são as condições normais de trabalho,
00:13:19naquela região.
00:13:21Olha, por que eu deveria dar água potável
00:13:24e alojamento construído
00:13:28a trabalhador, veja, nos acampamentos
00:13:31onde eu fui ali contratá-los,
00:13:33eles dizem, não tem.
00:13:34Por que na minha fazenda
00:13:35deveria ser três estrelas?
00:13:37Ou seja, justificando a manutenção da miséria
00:13:42pela miséria preexistente,
00:13:43portanto, reproduzindo essa miséria.
00:13:53Pode dizer que eu não dormia,
00:13:54que eu dormia uma hora da manhã,
00:13:56acordava quatro horas da manhã.
00:13:58Como eu não queria acordar,
00:13:59ela me jogava gelado para me levantar
00:14:00e eu tinha que me levantar.
00:14:03Me levantava, cuidava das coisas,
00:14:05a primeira coisa que eu ia é fazer o café,
00:14:08depois eu ia para o quintal,
00:14:09arrumar o quintal,
00:14:10depois que eu subia para fazer outras coisas.
00:14:11e ela me dava dizer assim,
00:14:14vou chegar até a hora,
00:14:16meio-dia, eu quero estar tudo pronto.
00:14:17Eu corria para fazer tudo de gênero,
00:14:19estava apanhada.
00:14:20E ela chegava e me batia,
00:14:21sem eu fazer nada.
00:14:23Logo no início, eu chorava muito
00:14:26e apanhava, porque chorava,
00:14:29fazia xixi na cama,
00:14:30porque era uma criança, né?
00:14:32Não tinha noção de responsabilidade
00:14:34e eu fui tomar conta de uma criança,
00:14:37quer dizer, uma criança cuidando de outra criança.
00:14:41E aí a criança caía,
00:14:44se machucava
00:14:45e a patroa não queria saber,
00:14:47me espancava, né?
00:14:48Me botava de castigo.
00:14:54Cada vez que eu fazia xixi na cama,
00:14:56ela me batia também,
00:14:58me botava para lavar
00:14:59aqueles lençóis pesados, né?
00:15:05Todo dia ele me batia.
00:15:08E eu não sabia por que era
00:15:10que ele estava me batendo.
00:15:12E sempre era assim,
00:15:13ela me batia de todo tipo,
00:15:14era de pau, era de faca,
00:15:16era de tudo.
00:15:16Me mordia,
00:15:17ela já botou ovo quente
00:15:18em minha boca uma vez.
00:15:21Ela fazia tudo comigo.
00:15:23Já me queimou de água quente,
00:15:25já me botava cuia quente.
00:15:29Ela apanhou de um jeito
00:15:30que ela chegou,
00:15:31ninguém reconhecia ela.
00:15:32Tiraram esses coros
00:15:33das pernas dela, das costas,
00:15:35de tanto apanhar que ela apanhou.
00:15:42Eu perguntei para ela
00:15:43por que eles te batiam.
00:15:45Ah, ela me batia
00:15:46porque quando ela brigava
00:15:47com o marido,
00:15:48ela me batia.
00:15:49E a outra era
00:15:50porque estava nervosa.
00:15:52Então era saco de pancada,
00:15:53que história é essa?
00:15:54Gabriela urrava de gritos
00:15:56e trancada,
00:15:57ela não podia sair na rua.
00:16:00Era o cárcere efetivamente privado,
00:16:02era o verdadeiro cárcere privado.
00:16:03e as barbáries foram muito fortes.
00:16:07A vizinhança sabia de tudo isso
00:16:09e era tipo uma coisa velada,
00:16:12uma coisa escondida.
00:16:20por causa que lá só vivia fechada.
00:16:23Ela era a portão desses de controle,
00:16:25ninguém me via não.
00:16:27Só saía com ela,
00:16:29mas eu não saía dentro de casa não,
00:16:31ficava fazendo as coisas também.
00:16:33Você ficou,
00:16:34quanto tempo você ficou lá?
00:16:35Fiquei 15 anos.
00:16:41É, ela ficava presa lá.
00:16:44Fiquei não tinha direito
00:16:45de sair para lugar nenhum.
00:16:46Fiquei ela com uma escrava,
00:16:48ela mesmo contou,
00:16:49disse que ela tinha ela com uma escrava.
00:16:51Ela terminou passando para mim
00:16:52que em alguns momentos
00:16:52ela pensou em fugir,
00:16:53mas ela dizia fugir para onde?
00:16:55Ela não sabia nem voltar para casa.
00:16:58Podíamos nos perguntar
00:17:00como se consegue escravizar alguém?
00:17:03Qual é o mecanismo?
00:17:04Um dos aspectos mais importantes
00:17:07é a dominação.
00:17:08Isso é,
00:17:09convencer o outro
00:17:10de que aquilo que você faz é correto.
00:17:13Pode também ter outros mecanismos
00:17:15e as vezes são complementares,
00:17:16não são excludentes.
00:17:17Por exemplo,
00:17:17a ameaça,
00:17:18a violência
00:17:19e o assassinato.
00:17:21Mas o principal
00:17:22é o convencimento
00:17:25de que a pessoa que domina
00:17:27está correta.
00:17:29Porque você sabe,
00:17:30pobre por meio de rico, né?
00:17:32E ela sempre falava para mim
00:17:33que pobre não valia nada
00:17:34e eu ficava botando
00:17:35na minha cabeça aquilo.
00:17:37Ela dizia se eu fugisse
00:17:38e dizia que meu nome
00:17:39estava na delegacia.
00:17:41Aí eu tinha medo de ir presa.
00:17:43Ela me espancava
00:17:45e eu dizia para ela
00:17:46que quando minha mãe
00:17:46chegasse lá
00:17:47eu ia contar para minha mãe
00:17:48que ela me agredia.
00:17:51E ela disse que
00:17:52se eu dissesse para minha mãe
00:17:53que ela me batia,
00:17:55ela ia me jogar no rio.
00:17:56É um rio que tem lá
00:17:58em Santo Amaro
00:17:59que chama Rio Subaé, né?
00:18:01E quando minha mãe
00:18:02chegasse e me procurasse
00:18:03ela dizia
00:18:04que eu tinha fugido de casa.
00:18:05Então eu não dizia.
00:18:06Minha mãe chegava
00:18:07e perguntava
00:18:08está tudo bem, Creuza?
00:18:09Eu dizia
00:18:10está tudo bem.
00:18:12Dona Marlene,
00:18:13eu ainda lembro?
00:18:14Lhe trata bem?
00:18:15Eu trata.
00:18:16Eu não dizia para ela
00:18:17porque eu ficava com medo.
00:18:18Eu tinha medo
00:18:19dela me matar.
00:18:20Ela sempre falava para mim
00:18:21que já matou
00:18:22ou enterrou
00:18:22atrás da casa.
00:18:24Eu tinha medo
00:18:25dela me matar.
00:18:31Eu acho que a maior dificuldade
00:18:33de você conseguir levantar
00:18:36esses casos
00:18:36de trabalho escravo doméstico
00:18:38é porque eles ocorrem
00:18:41num âmbito muito particular,
00:18:43muito privado.
00:18:44Porque depende muito
00:18:45da boa vontade
00:18:46dos vizinhos,
00:18:47das pessoas próximas
00:18:49que elas tenham coragem
00:18:50de denunciar.
00:18:51O Ministério Público
00:18:52não bate na porta
00:18:53da dona de casa.
00:18:55Eles vão lá na carvoaria,
00:18:57nas lavouras e tal.
00:18:59Quantas e quantas crianças
00:19:00estão aí espalhadas?
00:19:00E é escravidão.
00:19:02Porque você não tem salário.
00:19:04Essas crianças
00:19:04não têm salário.
00:19:05E é tão tacanha a coisa
00:19:07que é travestida
00:19:09como uma pessoa
00:19:10fosse um membro da família.
00:19:12Mesmo no trabalho
00:19:13doméstico rural,
00:19:14muitas vezes,
00:19:15por serem fazendas
00:19:16muito distantes,
00:19:19somente através
00:19:20de denúncia
00:19:20de algum trabalhador
00:19:21que conseguiu fugir,
00:19:23que saiu da fazenda,
00:19:24nós fizemos
00:19:25vários resgates
00:19:26dessa forma.
00:19:34não saía assim, não.
00:19:36Só saía mesmo
00:19:36se fosse com ordem
00:19:37lá para poder sair.
00:19:39Não saía assim, não.
00:19:41É o tal de um fiscal, né?
00:19:45O tal de um fiscal
00:19:47armado.
00:19:48Armado.
00:19:49Os caras.
00:19:51Um vez em quando
00:19:52ele ia lá na cantina,
00:19:53lá onde eu ficava,
00:19:54ele ia.
00:19:55Mas era difícil.
00:19:56Mantava mais mesmo
00:19:57era o, como é que chama?
00:19:59O gato, né?
00:19:59Que tem um negócio
00:20:00de um gato.
00:20:01Mantava mais mesmo
00:20:02era o gato que ia lá.
00:20:02O dono da fazenda
00:20:03era difícil mesmo.
00:20:04A gente vê a cara dele.
00:20:05Mas era o gato.
00:20:06A gente vê que o gato
00:20:23Nós levantávamos
00:20:24três horas da madrugada
00:20:25para onze horas
00:20:26e a comida está no ponto.
00:20:28Depois a gente
00:20:28terminava tudo
00:20:28em oito horas da noite,
00:20:30lavar tudo
00:20:30que eu ia dormir, ainda era três horas de novo, do mesmo jeito.
00:20:34Folga mesmo só era o domingo.
00:20:37Só o domingo. Os trabalhadores, né?
00:20:39Agora eu era todo dia.
00:20:41Tinha que fazer de comer pra ir domingo,
00:20:43que não tão trabalhando, né? Todo dia.
00:20:48Mais ou menos uns 40 homens.
00:20:52É muito homem.
00:20:56Tinha um poção lá, como é que chama?
00:20:59É um poço mesmo.
00:21:02Nós bebia água do colo, né?
00:21:04Lá não tinha benfeitoria nenhuma.
00:21:06Aí ali nós pegava água pra comer,
00:21:09nós banhava, nós lavava a roupa.
00:21:17Você percebe quando o trabalhador está humilhado,
00:21:20quando o trabalhador está reduzido
00:21:22a um nada, a um zero à esquerda.
00:21:27E essa é, do meu ponto de vista,
00:21:30a característica principal do trabalho escravo contemporâneo.
00:21:32É alguma coisa muito mais grave
00:21:34do que tão somente a supressão da liberdade.
00:21:37Esse empregador percebe que ele não consegue economizar
00:21:40na semente, não consegue economizar no preço do gado,
00:21:43não consegue economizar na cerca, no arame farpado,
00:21:48nos veículos.
00:21:49E ele economiza onde?
00:21:51Na força de trabalho, que é o elo mais fraco dessa corrente.
00:22:06A gente tinha que trabalhar, mas do jeito que a gente estava trabalhando lá,
00:22:09acho que não era correto, né?
00:22:11Trabalhar demais, ganhar a mixaria,
00:22:14ganhar a mixaria, e às vezes ainda atrasava pra pagar a gente, enrolava.
00:22:19Nós pegávamos um pouco, antes de ir, o senhor entende,
00:22:23pra deixar em casa, pra não deixar a família da gente desamparada de qualquer forma.
00:22:27E o resto, só quando terminasse.
00:22:30Aí, quando terminasse, descontava a compra que você tinha feito
00:22:33pra você fazer um serviço lá no mato.
00:22:36Porque a derrubada que nós fazia, a compra era por conta nossa.
00:22:41Nós comprava da fazenda, aí no final do serviço, descontava,
00:22:46o senhor entendeu que nós tinha pego, e aí o que sobrasse era nosso.
00:22:51Tinha vezes que não sobrava não, porque aí a motosserra quebrava,
00:22:54você tinha que comprar.
00:22:55Tudo que você comprava ali dentro, tinha que descontar no final.
00:23:00Ao chegar na propriedade, o trabalhador tem que comprar
00:23:05os instrumentos de trabalho da cantina do empreiteiro.
00:23:10A comida ele tem que comprar dali também.
00:23:13O plástico que ele vai cobrir a sua moradia também é comprado naquele mesmo local.
00:23:19Então, ele fica prisioneiro dessa dívida,
00:23:21prisioneiro de um valor moral, prisioneiro da alma.
00:23:24Ele não pode sair, porque ele deve. Quem deve, tem que pagar.
00:23:29Às vezes a gente ficava meio constrangido, mas tem família, né?
00:23:33Tem mulher, tem filho. Aí, assim, é sofrido, mas é melhor do que o cara fazer coisa errada aí,
00:23:42mexer com essas coisas que não prestam aí, né?
00:23:45Eu nunca recebi salário, não sabia nem o que era dinheiro.
00:23:50A irmã dela me dava um dinheiro e Natal, ela me tomava o dinheiro.
00:23:54Eu não tinha salário, porém, toda vez que minha mãe ia lá, que era de seis em seis meses,
00:23:59ela dava os restos de comida que tinha na geladeira, coisa, roupa usada.
00:24:05E tava assim, tipo, hoje, trinta reais.
00:24:09Minha mãe voltava toda feliz, né? Porque trinta reais naquela época, né?
00:24:14E pra quem não tem nada, qualquer coisa serve.
00:24:16E ter a menina lá, trabalhando, é a garantia que, de vez em quando,
00:24:22eles, os pais, vai ter um recurso.
00:24:26Mandavam coisa, né? A patroa mandava, né? Comestil, roupa, caçado.
00:24:34Mandava de tudo pra mim, né?
00:24:38A patroa dela ligava pra mim, eu ligava pra ela direto.
00:24:44Era muito difícil, assim, não aguentar com contato, sabe?
00:24:47Só minha tia, pra dizer assim, que eu conversei mais ela, nunca conversei mais ela.
00:24:52Eu tinha, eu tinha disse com a patroa, eu dizia, Gabriela, seu pai tá ligando.
00:24:58Ah, não, eu não vou atender, não.
00:25:02Ela quer dizer que não ia atender, né?
00:25:04Eu não atendia mesmo.
00:25:13Eu ouvia ela falar com ele pelo telefone, mas só que a mulher dizia que eu tinha casado,
00:25:19tinha apartamento bom e não podia falar comigo, né?
00:25:23E aí, ele pegou e não ligava mais pra mim por causa disso.
00:25:26E nas raras vezes que foram permitidas algumas ligações entre ela e o pai,
00:25:33sempre se passava uma outra verdade, uma outra situação,
00:25:36e ela não tinha o direito e a oportunidade de falar.
00:25:39Ela relata com muita, assim, com muita indignação,
00:25:41que nem sequer pro enterro da mãe dela ela teve a oportunidade de voltar no interior.
00:25:45E aí, ela não me falou nada que minha mãe tinha morrido.
00:25:48Aí, foi um ano atrás que ela me falou que minha mãe tinha morrido.
00:25:52Aí, ela me trouxe pra mim ver meu pai, né?
00:25:55E eu chorei pra ficar. Aí, meu pai não deixou eu ficar, não.
00:25:58Meu pai mandou eu voltar de volta mais ela, que não me queria dentro de casa, não.
00:26:01Aí, eu peguei e fui à força com ela pra lá.
00:26:05Eu tinha uns 11 anos.
00:26:07Se antes de minha mãe eu já não tinha pra onde voltar,
00:26:11depois da minha mãe ainda piorou.
00:26:13Aí, eu não tinha pra onde voltar mesmo.
00:26:15Então, eu tinha que ficar ali, nas casas, suportando determinadas situações,
00:26:20porque eu não tinha pra onde ir.
00:26:21Eu ia pra onde? Pra casa do tio ou da tia, né?
00:26:24Que quando eu chegava de férias ou de folga fechava a cara,
00:26:29como dizendo, aqui não é lugar pra você ficar.
00:26:32Esse braço meu mesmo aqui, ó, ele é quebrado, eu não posso botar soço nele.
00:26:36Se eu botar com soço, até a minha mina mesmo, se eu pegar muito tempo, eu derrubo.
00:26:40Ela me empurrou de uma parede, quase no meio dessa parede aí.
00:26:45Aí, eu quebrei o braço, o osso saiu pra fora do meu osso, o braço.
00:26:49Ela botou pra eu lavar dez calçadinhas com o osso estufado do braço.
00:26:52E eu chorando.
00:26:54Quando eu fazia as coisas, eu saio pingado do braço, eu fazendo.
00:26:58Aí, até hoje, eu não posso botar peso no meu braço, meu braço é quebrado.
00:27:04Os caras, se você adoece aí, alguém da sua família adoece aí, é esquecido aí.
00:27:13Se você não tiver dinheiro, os caras aí, os patrão aí, coisa não ajuda ninguém, não.
00:27:21Você não é visto, não. Só quer o serviço seu.
00:27:26Aí, se precisa aí, todo mundo irá pra fora.
00:27:37A dimensão da escravidão moderna é maior ainda que essa do trabalho escravo.
00:27:46que ela tem essas várias vertentes, várias componentes, que no fundo, no fundo, todos podem se reduzir ou se resumir
00:27:57numa mesma ideia, que é a instrumentalização da pessoa, do outro.
00:28:07Fazer do outro uma coisa.
00:28:09Fazer do outro uma coisa pra meu proveito pessoal, pra meu lucro pessoal e financeiro, pro meu proveito de forma
00:28:17mais geral.
00:28:19E todas essas situações onde uma pessoa é coisificada, eu acho que elas merecem a qualificação de escravidão, de escravização.
00:28:39Eu lembro que essa patroa minha, ela ia pra uns lugares, ela saía e levava os filhos e eu também
00:28:49ia acompanhando.
00:28:50Só que quando eu chegava na praia, eu não tomava banho, eu tinha que estar responsável pela criança, brincando na
00:28:56areia, pra não deixar a menina entrar na praia.
00:29:00Quando ela ia sair à noite pra jantar, ela ia como se fosse um casal de namorado, ela e o
00:29:06marido abraçados, de mão usada, e eu atrás segurando a criança.
00:29:10E a criança era muito pesada, eu sentia dor nas costas.
00:29:12Ela morou aqui num bairro de Itapuã, é um bairro famoso aqui de Salvador, onde a praia é muito próxima.
00:29:20Ela foi duas vezes na praia, e das duas vezes ela foi proibida de entrar dentro.
00:29:24Porque ela foi lá pra cuidar dos filhos dos irmãos, que tiveram direito a ter filho, e ela perdeu toda
00:29:33a oportunidade.
00:29:37O que é a cultura da escravidão, em grande parte?
00:29:40A cultura da escravidão, mesmo no passado, e isso se reflete no trabalho.
00:29:44Para as elites, não era necessário trabalhar no passado.
00:29:47Hoje em dia é, mas de qualquer maneira.
00:29:49E para os muito pobres, não adiantava trabalhar, porque você não saía daquela condição.
00:29:53O grande déficit que o Brasil sempre teve foi o da desigualdade.
00:29:56Eu acho que você não pode desvincular essa questão do trabalho da desigualdade.
00:30:13Uma das características da escravidão no Brasil era a sua hereditariedade.
00:30:18Isso é, filho de escrava, escrava era.
00:30:23Mesmo se o pai fosse branco, salvo se conseguisse a alforria, se o pai libertasse-se.
00:30:29Caso contrário, ele continuaria escravo.
00:30:31Era uma escravidão de longa duração, essa da América.
00:30:36As pessoas não tinham um constrangimento moral ou ético de ter escravo.
00:30:40Isso não envergonhava ninguém, porque fazia parte da liberdade, que é muito recente,
00:30:48como valor, como concepção que eu devo estar tendo.
00:31:06Eu sou o neto dos meus avôs escravos.
00:31:11Meus avôs maternos e paternos que veio fugir de Pernambuco.
00:31:21Chegou aqui no Mimbó.
00:31:24Esse quilombo foi fundado em 1919,
00:31:29pelos meus dois avós, maternos e paternos.
00:31:33tiveram muitos anos escondidos numa caverna.
00:31:37A caverna fica aqui na serra, na margem à esquerda, que desce para o rio Canidé.
00:31:48Então, se ele se esconder por muitos anos, até com medo de ser capturado,
00:31:52de alguém vir atrás em busca dele.
00:31:55Ele havia fugido da taca, que não aguentava mais apanhar mais as canas de engenho.
00:32:00Pernambuco.
00:32:09E no Mimbó, eu vi vários preconceitos, racismo.
00:32:13Foi uma comunidade pisada, fechada.
00:32:16Nós era tratado como um animal selvagem, ninguém tinha nós como pessoas.
00:32:24Dias atrás, na eleição para prefeito e vereadores,
00:32:27eu me candidatei em candidato a vereador para ajudar a comunidade,
00:32:31no intuito de ser eleito para ajudar essa comunidade.
00:32:35Falta de trabalho, nós não temos trabalho.
00:32:37Um monte de obrazinha que aparece é por conta de indicações de políticos, né?
00:32:43Vereador, prefeito, essas coisas.
00:32:45E a nossa comunidade, nessa parte, para esse lado, nós não somos vistos.
00:32:51Não há vagas para a gente nesse meio.
00:33:03Em setembro de 81, quisemos ter um espaço aqui na comunidade
00:33:07para chegar ao ponto dos turistas nos conhecerem como pessoas,
00:33:11pessoas negras na comunidade.
00:33:13Foi um tratado de 81 até agora.
00:33:17Mas, mesmo assim, melhorou.
00:33:19Mas ainda existe o racismo ainda.
00:33:21Hoje, os preconceitos aqui entre nós.
00:33:23Aqui no Mimbó.
00:33:26Porque aí, muitas vezes, a gente sai daqui para ir para São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro,
00:33:32como nós já andamos quase nesse estado, quase todo o Brasil,
00:33:37a procura de serviço para a gente dar uma melhor condição de vida para a nossa família.
00:33:43Então, se o governo, o municipal, o estadual, ou até mesmo o federal,
00:33:49gerasse emprego para essa população, com certeza nós não estaríamos tendo muitas pessoas da comunidade
00:33:56que hoje vive fora.
00:33:58E, às vezes, as pessoas nem chegam a trabalhar.
00:34:02Sai daqui numa promessa bonita.
00:34:03Quando chega lá, as pessoas ficam jogadas, como já aconteceu o caso.
00:34:13No Brasil, você tem esse ressurgimento frequente de episódios
00:34:19que, tipicamente, demonstram o quanto o racismo continua operando.
00:34:24Esse menino, esse adolescente amarrado num posto da praia do Flamengo.
00:34:35E o menino gritando, não, senhor, não, senhor, eu também sou trabalhador.
00:34:40Como se eles tivessem, conscientemente, o conscientemente,
00:34:45ainda se colocando como sujeito do mestre, do patrão.
00:34:56Durante esse período que eu fiquei nessas casas, trabalhando, eu sofri muita violência.
00:35:02Violência física, a psicológica e a racial também.
00:35:07Porque eu era o tempo todo xingada, de negra nojenta, negra feia, negra isso, né?
00:35:14E as crianças da casa faziam brincadeira, chacota com o meu cabelo,
00:35:20porque o meu cabelo crespo, então eles puxavam o cabelo, dava risada.
00:35:24Essa cultura de casa grande e senzala era muito comum.
00:35:29Você ouvir queixas, há tempos atrás,
00:35:31ah, pois é, agora a minha empregada resolveu que quer estudar, não sei o quê.
00:35:36Coisas óbvias, querer estudar, gente.
00:35:38A promessa de botar na escola não aconteceu, ela não me botava na escola.
00:35:43Eu só vim estudar, fazer o Mobral com 16 anos.
00:35:48Com 16 anos aqui, já aqui em Salvador, foi que eu fui terminar de se alfabetizar.
00:35:54Você tem 4 anos?
00:35:56Eu não me lembro muito bem, não, assim.
00:35:59Você lembra quando você nasceu, mais ou menos?
00:36:01Não.
00:36:02Nem o dia?
00:36:05Sei, mas mais ou menos, assim, você deve ter 4 anos.
00:36:09Eu, pelo menos, eu acho que eu tenho uns 20 e poucos.
00:36:15Rapaz, ela...
00:36:18Acho que ela tem uns 35 anos.
00:36:22Por que você não se lembra? Você nunca registrou?
00:36:26Nunca teve curiosidade?
00:36:28Não, por causa que eu não tive quase estudo, não.
00:36:31E também, eu não sei os números direito, não.
00:36:36É, mas que eu não sei direito, não.
00:36:37Só sei o MRG.
00:36:40Em alguns momentos, a gente perguntava assim,
00:36:42foi questionado durante o processo, você teve direito a estudar?
00:36:45Enquanto as irmãs dela estudavam em colégios particulares e tal,
00:36:50a Maria Helena, ao gosto dela, era professora de uma escola pública.
00:36:55Poucas vezes ela foi matriculada.
00:36:57E das vezes que ela foi matriculada, ela tinha que ficar vigiada por A, por B, por C,
00:37:00porque ela não podia nem se comunicar com outras pessoas.
00:37:05E eu fiquei crescendo assim e observando que meu patrão, dia de domingo, estava em casa no feriado.
00:37:12E eu não, eu estava ali. Eu só tinha folga de 15 em 15.
00:37:17Isso a partir dos 21, né? E depois que deixasse tudo pronto.
00:37:21Na verdade, eu só vi receber ordenado quando eu fiz 21 anos, porque naquela época não era obrigado eu pagar
00:37:28salário.
00:37:29Isso me incomodava.
00:37:31Todo trabalhador tem seus direitos, tem seu sindicato e a gente doméstica não tem.
00:37:37Eu pensava assim que Deus ia me ajudar, que eu ia sair de lá.
00:37:44Alô, alô, domésticas de Salvador. Atenção!
00:37:48Venha defender seus direitos e fortalecer a nossa classe.
00:37:52Estamos organizando o Sindicato das Domésticas de Salvador.
00:37:56Contamos com a sua participação.
00:37:58Nossos encontros serão no segundo e no quarto domingo do mês, no Colégio Antônio Vieira. Venham!
00:38:07E ali pra mim foi como uma luz no fundo do túnel, porque eu nunca tinha ouvido ninguém dizer que
00:38:12ia defender doméstica.
00:38:13Pela primeira vez eu estava ouvindo.
00:38:20Depois, quando minha patroa chegou na cozinha, eu perguntei a ela.
00:38:25A senhora me mostra aqui na folhinha qual é o segundo e quarto domingo do mês,
00:38:29que a reunião era duas vezes no mês, segundo e quarto domingo.
00:38:34Depois, quando ela terminou de marcar, ela virou pra mim e perguntou,
00:38:37Por que você está tão interessada no Colégio Antônio Vieira e no segundo e no quarto domingo do mês?
00:38:43Todo segundo e quarto domingo do mês tem uma missa.
00:38:47Porque se eu dissesse a era que era um grupo de doméstica que estava começando a se organizar para fundar
00:38:53um sindicato,
00:38:55ela com certeza ia me tirar de participar.
00:38:58Era sagrada.
00:38:59A minha folga era ir pra essa reunião.
00:39:02E aí foi, foi, foi que hoje é esse sindicato que está aqui.
00:39:22A história de Gabriela chegou assim.
00:39:25Alguém ligou pra aqui pro sindicato.
00:39:30Ligou anonimamente, não se identificou e disse que havia uma jovem que era muito estranho.
00:39:39Ela saia pra botar o lixo e entrava ligeiro, não parava pra conversar com ninguém.
00:39:44Ia comprar o pão e também não parava pra conversar.
00:39:48Viver ela assim, assustada.
00:39:58Os vizinhos tinham, né?
00:40:00Havia toda a movimentação, que Gabriela não podia sair,
00:40:04que Gabriela ficava trancada em casa quando os patrões saíam,
00:40:08os empregadores saíam, os filhos também.
00:40:11E que ela apanhava, tanto que ela muitas vezes ouvia a Gabriela gritando,
00:40:17pedindo socorro, porque estava apanhando, porque estava apanhando.
00:40:21Eu tinha tomado uma surra dela.
00:40:23Pedi a sorte a Deus.
00:40:24Eu falei, um dia Deus vai me ajudar que eu saia daqui.
00:40:26Vai chegar alguém pra me ajudar.
00:40:28Aí quando foi de manhã cedo que eu disse que estava limpando o quintal,
00:40:30ela tinha ido trabalhar.
00:40:32Aí eu vi alguém chamando o portão.
00:40:33Mandou eu abrir, ela disse que não podia abrir.
00:40:36E ela tinha me trancado, não podia abrir.
00:40:37Ela disse, ah, mas nós quer entrar.
00:40:39Ela falou, eu não posso abrir, não.
00:40:41E ela botava um vigia pra mim vigiar.
00:40:48Então assim, existiu essa denúncia, que depois foi pra parar no Ministério Público.
00:40:53O Ministério Público acionou a polícia, a delegacia de polícia.
00:40:57E num primeiro momento, o carcere privado dela era tão forte,
00:41:01que quando eles chegaram lá, ela estava trancafiada em casa.
00:41:03E os patrões dela, os algozes, eles não estavam em casa também.
00:41:09Aí ela mandou eu contar a minha história, eu contei.
00:41:12Aí ela falou, não fale pra ninguém que eu vou lhe tirar você daqui.
00:41:18E aí ficou aquele remolito todo na rua, foram viaturas, foram pessoas da...
00:41:22que ela achava que era da justiça, que ela na verdade não sabia bem o que era.
00:41:26E eles não tinham uma ordem de arrombamento.
00:41:29Então, nesse primeiro momento, eles disseram, olha, nós vamos providenciar a papelada,
00:41:34nós vamos providenciar os papéis e retornamos aqui.
00:41:38Aí ela chegou, na mesma hora que ela chegou do trabalho, o telefone tocou.
00:41:41E a vizinha dela falou que tinha ido dar água em lá.
00:41:45Aí eu pensei, a uma vez que não era pra me falar, né?
00:41:48Aí eu peguei e disse, não, não veio ninguém não.
00:41:50Aí ela disse, eu sabia dizer agora.
00:41:51Aí ela pegou um fio de sete pés que começou a me bater, eu tive que ir dizer.
00:41:56Aí como ela me pegou, o marido me pegou, aí as filhas pegaram também.
00:41:59Esse dia andei morrendo esse dia.
00:42:02A tia bateu ela muito.
00:42:04Foi.
00:42:05Só depois que eles conseguiram realmente uma ordem de arrombamento,
00:42:08que foram lá resgatar ela.
00:42:16Eu fiquei pensando, eu comecei a chorar, pensando que eu ia presa.
00:42:19Porque ela me disse que qualquer coisa eu ia presa, aí eu fiquei com medo.
00:42:22Aí eles disseram, ah, vou descer lá pra baixo, tomar um banho na roupa da delegacia.
00:42:25Aí eu fiquei, eu cheio mesmo.
00:42:26O que foi que eu fiz, que agora eu vou presa?
00:42:28Peguei e contei tudo.
00:42:30E elas me contavam mentindo.
00:42:31Mas eu peguei e falei, a pessoa tem que falar a verdade, não é andar mentindo, não.
00:42:45E nós estávamos trabalhando lá, se não me engano eram uns 160 pessoas.
00:42:51Porque lá era mil alqueiros derrubados, que nós íamos fazer, né?
00:42:54Aí eu vi as motosserras aí parando.
00:42:57Até eu pensei que tinha sido algum acidente, porque a gente tinha uma combinação,
00:43:02que se algum companheiro machucasse um vizinho da gente ali nos lotes,
00:43:06a motosserra parasse, a gente já procurava saber o que tinha acontecido, o senhor entende?
00:43:10De repente, eu estava na frente, né?
00:43:13Já ouviu, o cara mandou, mandou eu parar e procurou se eu tinha arma.
00:43:17Eu falei, não senhor, não tem não.
00:43:19Aí eu já suviei os meninos que estavam pra trás, que o motoqueiro anda atrás,
00:43:23o meloso anda na frente.
00:43:24Aí paramos e levamos nós todo mundo pra sede.
00:43:27Eu me lembro, isso era entre nove e meia pra dez horas da manhã.
00:43:33Aí ele tirou nós lá do moto.
00:43:50Eu estava com as panelas no fogo, botando no fogo, aí o soldado chegou e disse,
00:43:55suspenda bem a minha comida.
00:43:56Eu digo, é agora.
00:43:57Aí eu, cadê a menina que está com você aqui, a meninazinha de menor?
00:44:00Eu digo, está bem aqui, minha filha.
00:44:02Está aqui comigo.
00:44:03Eu não pude deixar ela, porque eu não ia deixar ela, não tinha mais quem deixasse ela.
00:44:06Então, se eu trouxe, eu preciso de trabalhar pra ganhar o meu,
00:44:08eu decriar meu filho, né?
00:44:11Aí tudo bem.
00:44:13Aí mandaram eu, entendeu?
00:44:14Eu tirei as panelas e subo ali no carro, que era um caminhão.
00:44:19Eu subi.
00:44:20O primeiro que eu subi no carro foi eu, pra direção do carro, né?
00:44:23Fiscais da Delegacia do Trabalho do Pará e agentes da Polícia Federal
00:44:27foram à Fazenda Brasil Verde, em Sapucaia, no sul do estado.
00:44:31Eles encontraram 80 trabalhadores em situação irregular dentro da propriedade.
00:44:36Nesse início, logo a mamãe já me viu passando a televisão.
00:44:40Aí a mamãe disse, pronto.
00:44:41Meu Deus do céu, minha filha, não vem mais aqui, não.
00:44:43Onde eu cheguei aqui, a via estava em tempo de se acabar.
00:44:47Choro.
00:44:47Eu fiquei preocupada e perdi minha vida.
00:44:50Não foi emprego, não.
00:44:50Foi minha vida.
00:44:52Fiquei preocupada.
00:44:53Na hora mesmo assim, a gente fica até meio com medo, né?
00:44:58Porque é polícia pra todo lado aí, não é?
00:45:03Não que a gente tenha, assim, problema com a justiça.
00:45:05É porque a gente fica meio...
00:45:06A gente não espera isso, né, senhor?
00:45:09E outra, é...
00:45:11Os fazendeiros não gostam, não.
00:45:17Manter um trabalhador em condição análoga de escravo significa não cumprir a legislação
00:45:22trabalhista, não cumprir a legislação fiscal, né?
00:45:25O trabalhador não vai receber os seus salários, não se recolhe fundo de garantia,
00:45:29o trabalhador não vai ter direito às férias, não se recolhe INSS.
00:45:33Então você tem uma enorme lucratividade.
00:45:36Porque qualquer empresário que exerce sua atividade na forma da lei, tem um custo.
00:45:44E aquele empresário que não exerce a sua atividade, que não movimenta a sua atividade na forma da lei,
00:45:51tem um produto muito mais barato pra pôr no mercado, porque o custo dessa produção, qualquer que seja ela, é
00:45:59muito menor.
00:46:08E quando nós vamos numa operação dessa, retirar o trabalhador de lá, a ação é efetiva.
00:46:14Você vai lá, retira o trabalhador, faz com que o trabalhador receba aqueles direitos que ele tem,
00:46:21que estão previstos na legislação.
00:46:23Ou seja, você vê a coisa funcionando, né?
00:46:26Você resolve o problema. Retira o trabalhador e dá uma condição melhor a esse trabalhador.
00:46:32Porque nós estávamos com 15 dias, aí os 15 dias foi o Ente que a Federal fez ele pagar os
00:46:3515 dias pra nós lá dentro.
00:46:36A Delegacia do Trabalho determinou o pagamento do salário atrasado e a indenização dos 80 empregados.
00:46:42Cada um recebeu, em média, 150 reais.
00:46:46Eu não tinha mais esperança de sair daqui mais. De jeito nenhum.
00:46:49Ah, eu tô muito feliz, garçadinho. Pagou, pagou.
00:46:52O pessoal do Ministério do Trabalho aí só saíram de lá depois que eles tinham acertado com nós todo mundo.
00:46:59O resgate de um trabalhador escravizado não é apenas o momento em que direitos trabalhistas são reencontrados,
00:47:05mas é o direito em que a empatia humana ela é reencontrada,
00:47:09em que a gente deixa claro para que o trabalhador escravo que ele não é uma coisa, mas ele é
00:47:14um ser humano.
00:47:20Era nesta casa, em um bairro de Salvador, que Gabriela Silva foi mantida presa por mais de 10 anos.
00:47:26Gabriela disse ainda que era agredida e humilhada constantemente pela família.
00:47:30É, o filho, o marido, todos eles me batem.
00:47:34Aí teve um dia, a gente tava aqui, aí tava passando na televisão o sofrimento dela, sabe?
00:47:38Aí eu falei, lindo, a Renata tá lá sofrendo em Salvador.
00:47:42Ele disse, olha, bem nós falamos que não era pra lá ir, mas ela acompanhou ela.
00:47:47A professora diz que Gabriela tem problemas mentais e que trata a jovem hoje com 25 anos como uma filha.
00:47:54Ela pode sair daí agora, vem aqui correndo me abraçar e pedir mil perdão, entendeu?
00:47:57Ela tem distúrbios, eu vou provar tudo isso.
00:48:01Nós tivemos conhecimento através da imprensa.
00:48:12E ela só foi resgatada com 25 anos, mais ou menos, porque ela não tinha nem sequer a ideia da
00:48:17idade dela quando foi resgatada.
00:48:19Porque ela perdeu um pouco a noção do tempo.
00:48:22viveu muito tempo presa num determinado lugar.
00:48:33Aí me levou pra casa de apoio, eu fiquei lá, pra casa de apoio.
00:48:38Aí vinha procurar minha família.
00:48:41Quando eu cheguei lá, eu fui pincelada, bem vestida.
00:48:45Eu digo, rapaz, como você disse que a patroa estava mal tratando?
00:48:53Bem caçada.
00:48:55Eu só falo mal tratado, não falo mentira, né?
00:48:59O que eu não sei.
00:49:01Aí eles me trouxeram pra cá.
00:49:14Meu pai foi assim...
00:49:17Pra minhas partes foi ruim.
00:49:19Que meu pai não...
00:49:23Não me aceitou, sabe?
00:49:27E aí quando...
00:49:36Desculpa.
00:49:37Não, não tem problema não, Gabriel.
00:49:39O Renato...
00:49:43Eu cheguei em Salvador.
00:49:44Meu pai andou me batendo com espigada.
00:49:50Ela se aguardando com aquele que tinha batido.
00:49:53O batido vinha todo azul.
00:49:54As pessoas reparavam, não via ranhão.
00:49:56Lugar nenhum.
00:49:58Ela dizia que ela batia, mas eu...
00:50:03Ela não batia não, né?
00:50:05Era...
00:50:05É que ela era muito mentirosa, né, mãe?
00:50:08Ele assinou um papel, disse que ia receber esse WhatsApp comigo.
00:50:13Aí...
00:50:13Aí eu vim pra casa dele.
00:50:15Aí eu peguei e saí de casa de novo por causa disso.
00:50:19E além da queda do Coice.
00:50:21Quando ela conseguiu ser resgatada, naquele momento onde...
00:50:24Onde deveria se celebrar,
00:50:26Ela recebe a apunhalada maior que a da família.
00:50:29Que não aceitou ela dentro de casa.
00:50:31Pela...
00:50:32O quê?
00:50:32Pela simples ignorância dela ter aparecido no jornal.
00:50:37Dela ter...
00:50:39Acreditavam que ela estava muito bem em Salvador.
00:50:42E que ela tendo saído de Salvador, ela seria um peso a mais a se cuidar.
00:50:46Lá na cidade de Cansansão.
00:50:48Como ela chegou aqui mesmo.
00:50:50Ela chegou com a roupa do corpo e o chinelo.
00:50:52Ela não trouxe uma roupa.
00:50:55Nem dinheiro...
00:50:56Nem dinheiro acho que ela não deu a ela.
00:50:57Que ela chegou aí igualmente e uma pedideira desmola.
00:51:02Aí minha tia estava falando que ela gostava muito dela.
00:51:05Mas essas pessoas que moram pra lá, a pessoa que mora pra cá não sabe da vida delas.
00:51:09É que ela vai lavá-la tanto.
00:51:15Já lavá-la tanto, tanto.
00:51:17Eu falo a verdade mesmo.
00:51:20A miséria cegou, tirou, arrancou toda a dignidade das pessoas, né?
00:51:30Ou seja, desse pai, dessa família que acha que é normal levar essa menina para trabalhar pra alguém, né?
00:51:39Todas as mazelas que ela passou, a Gabriela é a única responsável na cabeça da família dela que não tem
00:51:47essa consciência do que é a exploração do trabalho infantil, né?
00:51:53Do que é o cárcere privado.
00:51:55As pessoas ainda pensam que podem fazer isso, né?
00:51:58Eu acho que ainda temos uma cultura escravagista que ainda está no inconsciente coletivo das pessoas.
00:52:05Ainda é muito forte, porque são 100 anos só de abolição da escravidão.
00:52:11É um tempo muito curto, né? Pra uma história.
00:52:19Eu fiquei da cagotinha minha.
00:52:24Fiquei lá, fiquei lá. Fiquei com ela um ano e pouco.
00:52:29Aí depois ela me disse também que não podia eu ficar muito tempo lá e arranjei um ano e vivi
00:52:33mais ele.
00:52:35Morei com ele 15 anos, depois comecei a apanhar dele também, me separei dele também.
00:52:42Aí vim morar aqui no Canção um ano sozinha também.
00:52:46Aí arranjei isso, aí tô vivendo com isso.
00:52:49Ela não tem nenhum tipo de referencial de família.
00:52:54Tanto não teve pela criação, pela falta de criação, porque toliram ela do convívio familiar.
00:53:01Como também ela não tem formação nenhuma, ela é semi-analfabeta, ela só sabe escrever o nome dela.
00:53:07Como ela não tem nenhuma possibilidade de inserção no mercado de trabalho de forma alguma.
00:53:12Então ela é um fantasma.
00:53:14Ela é uma verdadeira desgraçada, no sentido literal da palavra.
00:53:18Até a graça dela, o nome dela, tiraram dela. Tiraram tudo dela.
00:53:31Eu tenho vez em quando que eu vejo assim, umas rosas.
00:53:36Tem vezes de noite que eu não durmo, eu fiquei com problema, de noite eu não durmo.
00:53:39Eu tava falando até que ia passar uma vez pra passar remédio pra mim.
00:53:43Eu ando a noite toda e ando de casa.
00:53:45As vizinhas daí ficam tudo de mirada, que eu saio fazendo tudo.
00:53:48É prato, é alguma coisinha, eu lavo os pratos sem ter nada o que fazer.
00:53:51Amanhã tudo e assim, eu não consigo dormir de noite.
00:54:04A violência física maltrata e as marcas são perceptíveis na maioria dos casos.
00:54:14Mas a violência psicológica, a coação moral, também deixa marcas indeléves.
00:54:21Hoje, eu acho que Gabriela se firma pela necessidade de criação dos filhos.
00:54:27Pela aquela força inata da mãe, ser humano, de querer cuidar da sua cria, de cuidar da sua própria.
00:54:38Eu tenho uma menina de 7 anos, um menino de 4 anos e uma menina de 4 meses.
00:54:46Jameson, Graziella e Maria Vitória.
00:54:51O menino de arrendatório, eu nunca vi eles com fome, porque muita gente faz caridade pra ela.
00:54:56Eu nunca vi eles andar sujos. E aquela menina vai direto pra escola.
00:55:00Segunda-feira mesmo eu estive lá, vi eles bem limpinhos, bem calçadinhos.
00:55:05A mulher do conceito dela falou que ia tomar os filhos dela, porque ela ia andar rapidinho.
00:55:09Mas a mãe disse, não é melhor pedir do que roubar, porque a pessoa roubando vai pra cadeia e pedindo
00:55:13não.
00:55:14A mulher, ela não quer que tire os filhos dela, porque ela sabe o que é isso, como eu sei.
00:55:20O que é a gente ser tirada da nossa mãe, do nosso pai, tirar dos nossos irmãos e separar, levar
00:55:27pra lugares diferentes.
00:55:30Aí ficou a família totalmente destruturada, né?
00:55:33E ela mesmo com a situação de pobreza, de ameaça de se tomar as crianças dela,
00:55:39mas ela tem aquele carinho pela criança, o cuidado que ela tem.
00:55:43As crianças dela é tudo limpinha, tudo arrumadinha.
00:55:47Que ela sem ter, ela procura dar o melhor, mesmo sem ter.
00:55:52Imagina se ela tivesse o melhor pra dar pro filho dela, né?
00:56:05Eu tava falando a ela, assim, a vida difícil que ela bebe.
00:56:09E o marido não trabalha, ela podia arrumar um trabalho e trabalhar.
00:56:13Pra sobreviver mais o marido, porque aquele menino pequeno não empata,
00:56:18que o marido não trabalha, ela podia arrumar uma casa de mãe de faminha, tá trabalhando.
00:56:24Até trabalhar aqui eu tenho medo, eu tenho pavor de trabalhar.
00:56:27Quando eu disse trabalhar, eu tenho pavor.
00:56:30Eu passar o que eu passei, entendeu? Aí eu fico com medo.
00:56:34E ela tá lá, sobrevivendo da Bolsa Família e da cocada que ela faz pra vender.
00:56:42E aí pagando aluguel, tem o leite da criança, que tem dias que ela não tem o leite da criança.
00:56:48Então, ela tá mesmo numa situação de...
00:56:53de pobreza mesmo, situação de pobreza.
00:56:57Se a causa dela saísse, tem essa, né? Ganha, mas não leva.
00:57:02O caso de Gabriela se encontra no Tribunal Superior do Trabalho,
00:57:06aguardando a decisão do recurso de revista que nós ingressamos.
00:57:11Solicitando que seja deferido uma indenização por dano moral coletivo.
00:57:17Estamos aguardando a decisão do Tribunal Superior do Trabalho.
00:57:20A Gabriela tem uma ação individual própria, que foi ingressada pelo Sindicato das Domésticas.
00:57:33O que ela tinha direito em termos de verbas trabalhistas, rescisórias, a gente pediu um salário dela do período todo.
00:57:41Porque ela nunca recebeu o salário.
00:57:43A gente tá numa fase final de processo, numa fase de execução.
00:57:49Agora a Maria Helena faleceu.
00:57:54E, através das pesquisas dos cartórios de registro de imóveis,
00:57:58a gente não conseguiu ainda detectar um imóvel efetivo que venha fazer frente a essa dívida.
00:58:04Eu vou te dizer pra você que é impossível que uma família, num momento de execução processual,
00:58:10não tenha um real em conta bancária.
00:58:12Não tenha um carro registrado no nome.
00:58:15Não tenha nenhuma empresa.
00:58:17As declarações dos três últimos anos do imposto de renda que a gente investigou,
00:58:20nada, não tem nada.
00:58:25Não existe uma família como eles tinham um padrão de vida que, assim, evapore tudo de uma hora pra outra.
00:58:31Isso realmente foi transferido, eles transferiram o patrimônio.
00:58:35Mas, assim, como a luz no fim do túnel que eu vejo, a gente vai responsabilizar,
00:58:43já que a Maria Helena morreu, os filhos, que o direito também nos assiste.
00:58:48É possível que não aconteça nada?
00:58:52É.
00:58:54Mas...
00:58:56É o que nos cabe. A gente vai até o final.
00:58:59E aí, o que caminho a gente segue pra que a Gabriela venha receber essa idenização e poder estruturar a
00:59:09vida dos filhos dela,
00:59:10pra que ela tenha uma vida decente, os filhos dela tenham uma vida melhor do que o que ela teve.
00:59:16Né?
00:59:16O caso, realmente, ele emociona.
00:59:21E traz uma vontade de que a justiça seja feita.
00:59:29Eu quero um futuro bom pra meu filho, como eu falo com minha amiga de sete anos.
00:59:33Sempre dou com a cela Graziella e estude pra você ter um futuro bom, pra você não sofrer igual a
00:59:37sua mãe sofreu.
00:59:39Né? E eu desejo pra todo mundo, pra todo mundo não passar o que eu passei, que eu sei que
00:59:43foi Deus.
00:59:44Porque se não fosse por isso, se a pessoa tivesse fé, como eu tenho fé, né? Eu tinha morrido.
01:00:04Meu grande sonho, eu queria ter uma casa boa, meu filho. Uma casa boa com madeira cerrada.
01:00:08Eu queria ter uma casa, tipo a casa do professor Antônio Luiz. Uma minha casa de Itaipa.
01:00:12Simplesinha minha casa. Meu sonho na vida era pegar muito dinheiro, ou ganhar essa telecena, ou qualquer coisa na minha
01:00:18vida.
01:00:18Pra fazer uma casa boa, o que Deus queria.
01:00:23O meu sonho de menino era ser advogado.
01:00:27Queria estudar pra Direito.
01:00:29Queria me formar em advogado. Mas, infelizmente, não deu. Não foi possível.
01:00:38E com relação a sonho pra comunidade, eu quero progredir.
01:00:47Queria ver essa comunidade progredir, crescer, sair dessa mesmice.
01:00:55Você fica perto da minha família, né? Fica perto dos meus meninos, no lugar que tem escola pros meus meninos.
01:01:01Porque a gente vai pra suas fazendas aí, às vezes você passa 30 dias lá no mato, lá, não tem
01:01:07um telefone, né?
01:01:08Pra você falar em casa, pra saber como é que tá a família da gente, né?
01:01:13E eu não quero mais isso pra mim, não.
01:01:16Só se for o jeito mesmo, se não tiver outra opção.
01:01:21Tá, Maria, sempre eu gosto. E eu gosto de trabalhar.
01:01:24Não tô trabalhando agora porque minha idade não permite mais.
01:01:27Né?
01:01:28Eu tô ganhando o meu mesmo, minha aposentadoria.
01:01:31Aí não permite mais eu trabalhar, né?
01:01:33Mas se eu tivesse ainda a coragem que eu tenha a potência que eu tinha,
01:01:37meu desejo é trabalhar.
01:01:39Aqui e acolá não me encosta ainda, dá trabalho ainda.
01:01:42Né? Eu gosto de trabalhar.
01:01:48Eu adoro cozinhar.
01:01:50Eu tenho vontade de botar ao menos um lugarzinho assim, pequeno, não muito grande pra me cozinhar.
01:01:57Pra me vender comida, essas coisas.
01:02:00Ah, Maria, eu gosto de comer tanta coisa.
01:02:03Eu gosto de fazer feijoadinha dobradinha.
01:02:06Eu gosto de fazer um bocado de coisa.
01:02:09E as cocas, né?
01:02:11Meu sonho é isso, sabe?
01:02:12Ter uma coisa pra mim, assim, pra mim ter minha casa, pra mim botar um negócio pra mim ali, pra
01:02:17mim ir pra frente.
01:02:19Porque meu sonho é isso, ó.
01:02:21Ter minha casa pra mim viver pra cima e pra baixo.
01:02:24Outro
01:02:35Outro
01:03:00A CIDADE NO BRASIL
01:03:08A CIDADE NO BRASIL

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