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A continuação do papo sobre os livros de Reinaldo Santos Neves com a museóloga Maria Clara Medeiros Santos Neves e o professor Nelson Martinelli. Ambos são estudiosos e entusiastas das obras de Reinaldo Santos Neves.
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NotíciasTranscrição
00:01Começa agora, Vitrine Literária, com o professor e escritor Francisco Grijó.
00:07Tudo sobre literatura contemporânea, temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
00:20Olá pessoal, tudo bem?
00:22Bem, nós estamos começando a segunda parte do bate-papo aqui no podcast Vitrine Literária com Francisco Grijó.
00:29A segunda parte do bate-papo com Maria Clara Santos Neves e com o Nelson Martinelli.
00:37Apresentei a vocês.
00:38Quem está nos vendo pela primeira vez agora?
00:40O Nelson Martinelli é um estudioso da obra de Reinaldo Santos Neves e Maria Clara também.
00:45Museóloga, escritora, reuniu toda a obra de Reinaldo e fez.
00:52E ela é que é a grande artífice da grande homenagem que a Biblioteca Pública Estadual está fazendo, merecidíssima essa
01:01homenagem, a Reinaldo Santos Neves.
01:03Então, já que essa é a segunda parte do papo, a gente vai dar continuidade.
01:09Você que assistiu ao primeiro papo vai perceber que a gente está continuando aqui.
01:14Maria Clara, Reinaldo sempre fez uma literatura para adultos.
01:23Ou seja, o adolescente tem dificuldade para ler Reinaldo.
01:26Ele pode ler, o que não quer dizer que ele vai ter uma compreensão satisfatória sobre a obra.
01:35Satisfatória para nós que estamos de fora, evidentemente.
01:39Reinaldo nunca fez uma literatura para adolescentes também.
01:43Nem para crianças, nem para adolescentes.
01:45Só uma literatura para adultos.
01:48Por que isso?
01:49Por que Reinaldo não se aventurou em uma literatura?
01:52Porque Kitt, embora Kitt fale sobre o universo adolescente, que já é o universo quase jovem, né?
01:59É.
02:00Não é uma... a linguagem não é uma linguagem para adolescentes.
02:05Embora a gente utilize o blog, etc.
02:07Não é.
02:08O que você tem a dizer sobre isso?
02:11Reinaldo, na verdade, ele nunca teve preocupação com o público, exatamente.
02:17O que eu acho que aconteceu é que ele escreve para ele mesmo.
02:24Como todo bom escritor.
02:26Ele escreve para ele mesmo.
02:28Então, ele não está preocupado com a idade, com a faixa etária do público, do leitor.
02:33O único livro que...
02:35Ele criou um personagem, Krikinin, escreveu algumas histórias, Krikinin.
02:40Puxado do Mastro.
02:40Isso.
02:41É.
02:41Que é para crianças.
02:43Mas isso também em função de uma tradição familiar.
02:47Isso veio de uma tradição familiar.
02:49Mais uma vez a tradição.
02:50É.
02:50Que era do velho...
02:52É, do velho...
02:53Porque o pai dele nasceu quando os pais estavam acompanhando a construção da estrada de ferro Vitória
03:03Minas.
03:04O professor João Santos Neves, que era médico na época, ele era médico da estrada.
03:10Então, o pai dele nasceu nessa época, foi até embaixo, Guandu.
03:17E, por causa disso, os índios, era uma região cheia de índios, eles estavam ali, né?
03:22E os índios...
03:24Uma índia, eu acho que começou a chamar ele de Krikinin.
03:27Krikinin, né?
03:28Que é a criança, né?
03:30E essa palavra ficou no imaginário, né?
03:34E ele criou o personagem em homenagem ao próprio pai também.
03:39Maravilha.
03:40Agora, com relação à questão da faixa etária, né?
03:46Escrita de Reinaldo, ele nunca teve essa preocupação com quem seria o leitor.
03:53Entendeu?
03:54Se seria jovem, se seria adulto, se seria...
03:57Ele nunca teve essa preocupação.
04:00E ele sempre fala, e inclusive tem uma dedicatória que ele faz para o Reino dos Merdas,
04:08que, na verdade, ele tinha outro nome, Anos...
04:14No Reino dos Merdas?
04:16É, que tinha um outro título.
04:17Hora de Cúbitos.
04:18Hora de Cúbitos.
04:20Que ele colocou lá.
04:22Ele dedicou esse livro a ele mesmo.
04:25Porque ele se sentia mais merecedor do livro, entendeu?
04:30Eu me lembro que, nos anos 90, eu ganhei uma coletânea de ensaios de um escritor inglês
04:36chamado Samuel Johnson, do qual o Reinaldo gostava.
04:39Ele adora.
04:39É, aí, conversando sobre isso, e havia um artigo, e eu mostrei para o Reinaldo, e o Reinaldo
04:47falou, pô, então nós dois somos dois idiotas, né?
04:49Eu falei, exatamente.
04:50Em que o Samuel Johnson fala textualmente que ninguém, a não ser um idiota, escreve
04:56a não ser por dinheiro.
04:57Né?
04:58A Reinaldo falou, Grijó, eu não escrevo por dinheiro.
05:00Eu falei, nem eu, então nós somos dois idiotas.
05:02Mas, é, não se preocupar com o leitor, não é muito difícil isso acontecer?
05:09Ele sempre...
05:10Porque, quem escreve para não ser lido?
05:13Na verdade, não é isso.
05:15Eu acho que, assim, ele só não teve essa preocupação de saber quem é esse público.
05:22Certo.
05:22Agora, ele sempre teve esperança de ser lido.
05:26O desejo de ser lido.
05:28Isso é um fato.
05:29Como todo escritor.
05:29É, como todo escritor, até para validar essa obra, né?
05:34Então, assim, esse talvez tenha sido um grande desgosto, né?
05:39De certa forma, na vida dele, né?
05:41A falta desse leitor.
05:44É.
05:46Mas, na verdade, eu acho que, assim, há uma grande mudança no mundo, né?
05:52Esse mundo moderno, as pessoas não param muito para ler, muito menos ler um livro
05:59com as características dos livros de Reinaldo.
06:02Sim.
06:02Porque, além da profundidade, ela não é superficial nunca, né?
06:10Não é uma leitura fácil, muitas vezes, né?
06:14E também tem a questão do volume.
06:17Ele sempre começou a escrever um livro dizendo que teria cem páginas.
06:21Mas ele nunca conseguiu isso, a não ser numa novela, né?
06:26Como o...
06:29Aquela novela de...
06:31Ai, meu Deus.
06:31Estou até esquecendo.
06:32A Confissão.
06:33A Confissão, né?
06:34Que é um livrinho, né?
06:36Uma novela, né?
06:39Mas, fora isso, assim, mesmo a Crônica de Malha é Morto, também não tinha um grande volume.
06:43Sueli não tinha um grande volume.
06:45Mas mudou muito também depois.
06:47E acho que eu já vi ele dizendo isso com relação ao computador também, a possibilidade de escrever.
06:50É isso que eu ia falar.
06:51A vida de Reinaldo mudou a partir da introdução do computador, da informática como um todo, da internet, né?
07:00Porque Reinaldo sempre foi um grande pesquisador.
07:04Sim, eu sei disso.
07:05Sempre foi um grande pesquisador.
07:07A pesquisa sempre esteve na base do trabalho dele.
07:11Até 95, que era quando ele só trabalhava na base da máquina de escrever,
07:16ele tinha que escrever, reescrever, reescrever, reescrever.
07:20Então, assim, você tem lá em casa, às vezes, várias e várias versões datilografadas, né?
07:28E depois vem o computador.
07:30Quando ele foi introduzido na era do computador, ele descobriu a internet também
07:38e ele descobriu um mundo de fontes que ele não tinha acesso antes.
07:42Por falar em era, vamos falar da Folha de Era.
07:46Sim.
07:47Que é um trabalho de fôlego.
07:49É um mergulho submarino.
07:51É o tour de força.
07:51É o tour de força.
07:53Mas eu queria ouvir um pouco o Nelson, porque estudou a obra.
08:00A Folha de Era, que eu li, confesso a vocês, eu li, não consegui ler de uma tacada, né?
08:06Fui ler, fui levar um tempo pra ler.
08:11O processo de criação da Folha de Era já é uma coisa absolutamente inédita.
08:18Fala um pouco pra gente e, claro, pra quem tá ouvindo, sobre a Folha de Era pra gente.
08:22Sim.
08:22E eu acho que tem tudo a ver com o que Maria Clara tá falando sobre Reinaldo...
08:27o formato dos livros do Reinaldo, que é algo sem paralelos,
08:31porque eu acho que é um tipo de escritor que não existe mais hoje em dia, né?
08:35Que é esse grande pesquisador, esse grande...
08:37É um dinossauro.
08:38Esse é algo de grandes projetos, né?
08:39Como não existe o Borges mais hoje, né?
08:41Assim, o sistema literário hoje é muito diferente, né?
08:44E Reinaldo, então, ele escreve...
08:47Já é um livro completamente estranho na nossa literatura,
08:50que é a Crônica de Malemort, que é uma reprodução,
08:53um simulacro de uma Crônica Medieval encontrada,
08:57que ele decide traduzir pro inglês.
08:59O Reinaldo, um grande conhecedor da língua inglesa,
09:01um grande leitor da inglesa...
09:03Inglês médio, né?
09:03Inglês médio, inclusive.
09:05E o resultado disso é um outro livro,
09:08que é a versão em inglês dessa crônica.
09:12Muito maior.
09:13Isso.
09:13Muito maior, muito maior.
09:15E não satisfeito, então, o que precisava ser feito?
09:18Uma tradução de novo pro português.
09:20Tanto que o livro é milíngue, né?
09:21Isso, que é uma versão num português atualizado.
09:26E o que mais impressiona, além de...
09:27É difícil, o que mais impressiona nisso, né?
09:29Já é muito impressionante,
09:30é como que o Reinaldo vai criar uma trama complexíssima,
09:34ficcional, literária,
09:36pra justificar a coexistência dessas três histórias.
09:39São os paratextos.
09:40Os paratextos, né?
09:41Do qual ele é herdeiro de uma tradição brilhante da literatura
09:45e talvez um grande monumento também do paratexto, né?
09:49Que é, como dizer que há uma tradução português medieval,
09:53inglês medieval...
09:54Então, ele cria personagens que, ora, espelham a figura do autor,
09:59ora, são o inverso, um jogo de palavras.
10:02O Reinaldo com Y volta, o Reinaldo com Y de Sueli.
10:07Anagramas do nome de Reinaldo, né?
10:08Que vira Alan Dorsey, Stevenson, que é Reinaldo Santos Neves, né?
10:12E aí tem o Stevenson, que é o ídolo dele.
10:16E uma série de textos, antes e depois, em notas,
10:20pra tentar contar uma história dessas crônicas perdidas,
10:24da tradução, da retradução, de manuscrito que vai, manuscrito que vem.
10:28Então, isso, eu acho que nós não damos conta da complexidade desse livro.
10:34É algo que Reinaldo entrega pro mundo.
10:37Volto a dizer, eu não consigo enxergar isso em outra parte do mundo,
10:41algo de tal maneira.
10:43E eu acho que, sim, vai levar ainda décadas pras pessoas entenderem a complexidade desse livro.
10:48Tá, então nós entramos num problema.
10:51Quer dizer, eu penso que seja um problema, né?
10:54Será que Reinaldo é um escritor para escritores?
10:57Um escritor para estudiosos?
10:59Porque você tá me dizendo, e eu concordo,
11:03e eu acho que Maria Clara também concorda,
11:05Reinaldo não é um autor fácil.
11:07Não.
11:08Não sendo um autor fácil, ele tem limitações.
11:11Aliás, o leitor tem limitações na hora de compreendê-lo.
11:14E isso, claro, dificulta a comunicação entre os dois.
11:17Sim.
11:18Você diria que Reinaldo é um escritor,
11:21é um criador para escritores?
11:23Não.
11:24Ou seja, ou para estudiosos,
11:26ou para pessoas que têm um costume de leitura mais profundo?
11:29Não diria.
11:29Eu acho que...
11:30Eu não vejo assim...
11:31Você acha que o leitor comum lê?
11:32E eu acho que não há um leitor nenhum.
11:34Eu acho que ele entrega para o mundo.
11:35É.
11:35Eu acho que Reinaldo escreve aquilo que ele acha que deveria ser escrito.
11:38É.
11:38Se vai ser o leitor comum, se vai ser o especialista.
11:41Não, mas aí nós entramos, Nelson,
11:44na ideia de que o escritor precisa do leitor.
11:49Sim, claro.
11:50Então, essa coisa de Reinaldo escrever para o mundo,
11:52é complicado, porque ele gostaria de ter leitores.
11:55Eu acho que ele gostaria...
11:55O texto que ele gostaria de ter lido.
11:57Ele escreve o texto que ele gostaria de ser leitor.
11:59Eu acho.
12:00Eu acho.
12:00Boa parte dos escritores fazem isso.
12:02Sim, sim.
12:03Mas Reinaldo, eu acho que ele extrapola essa ideia.
12:06Né?
12:07Por que eu perguntei isso?
12:09Porque Reinaldo é difícil.
12:11E uma das coisas que me atrai na literatura de Reinaldo
12:14é justamente eu saber que eu vou ter que me esforçar um bocado
12:19para ter uma compreensão e para ter uma satisfação maior.
12:22Agora, tem um outro lado aí, né?
12:24Que se você parar para pensar, as histórias...
12:28Ele tem ali a história.
12:29E ele conta muito bem essa história, mesmo...
12:33Não só para os entendedores, mas para a pessoa comum, o leitor comum também.
12:38O que ele chamaria de fábula, né?
12:39A fábula, a história.
12:41É, a fábula está ali, a história está ali entregue, entendeu?
12:43E eu acho que o que está acontecendo também, que talvez pese muito mais nessa falta de leitores,
12:52é a mudança no mundo mesmo.
12:54Sim.
12:55Né?
12:55E o fato de ele estar muito à frente.
12:59Sim, isso aí é um fato.
13:00Ele está muito à frente.
13:01Ele está muito à frente e muito atrás ao mesmo tempo, porque ele vem de uma tradição de grandes escritores.
13:05Mas na hora de abordar, na hora de contar, na hora de pegar a linguagem e transformar, ele está muito
13:11à frente.
13:11Sim.
13:12Impressionante.
13:13É impressionante como ele sempre está à frente.
13:16É.
13:16Não há um texto de Reinaldo.
13:18Você tocou num ponto interessante, ele vai modificando a forma de contar.
13:21E quando você pensa que está entendendo, aí ele vem com uma outra coisa ali na frente,
13:27que já é uma outra novidade, que você pensa que já conseguiu alcançá-lo, ele já está lá na frente.
13:33E é impressionante, porque eu trabalhei a fundo a obra do Reinaldo por muitos anos como pesquisador,
13:38e é uma sensação, que eu acho que é uma sensação boa, de falar, eu não vou dar conta disso.
13:43Eu acho que isso nos coloca no lugar também um pouquinho, né?
13:46Porque é uma obra tão desafiante, como você disse, né?
13:49Tão difícil, com tantos graus de complexidade, tantos níveis, que é um trabalho para uma vida,
13:55para várias vidas, talvez, de vários leitores, né?
13:57Então é...
13:58E ele vai viver através disso.
14:00Muito, sem dúvidas.
14:01E como fazer?
14:02O que você pensa, você, Maria Clara, especificamente,
14:06o que você pensa em fazer para a obra de Reinaldo chegar aonde ela deveria chegar?
14:11Olha, eu...
14:13Esse...
14:13Essa programação, para mim, representou um primeiro passo.
14:19Porque eu penso que, assim, a minha vontade...
14:26Nós estivemos em Portugal no ano passado, e eu sondei a Editora Porto, né?
14:32E vi que há possibilidade de a gente encaminhar alguma coisa para lá.
14:37Eu penso em fazer um encaminhamento para a Editora Porto.
14:40Aqui no Brasil, a gente até conversou uma vez, eu e você, você lembrou de Ana Maria Machado.
14:47Isso.
14:47Né?
14:48É uma possibilidade.
14:50Eu penso em conversar com ela, sim.
14:52Eu estou até com o telefone dela.
14:54E eu penso em procurar, sabe?
14:57Começar a procurar esses canais, esses caminhos, né?
15:00O Zé Roberto também me deu uma indicação, que eu acho que eu vou também seguir esse caminho.
15:06O meu grande problema agora, assim, eu estou fazendo as coisas um dia de cada vez.
15:11Claro, sim.
15:12Né?
15:12Porque essa programação foi realmente trabalhosa, né?
15:16A gente está, assim, ainda não terminou o trabalho, né?
15:21Porque ele só vai terminar lá no dia 3 de janeiro.
15:27Mas ano que vem, eu espero retomar isso.
15:31Foi um grande presente de Natal, né?
15:32Que você deu para a cidade de Vitória.
15:34Essa é verdade.
15:35E para ele, sem dúvida, né?
15:37É, para ele.
15:38Mas a cidade, a cidade...
15:40Uma vez eu conversei com o Reinaldo e falei, Reinaldo, essa cidade não te merece.
15:45Não merece, não merece, sabe?
15:47Um autor de tanta significação e de tanta potência.
15:53Porque eu acho que é isso que a literatura dele é potente.
15:58E outra coisa, ele não viveu para outra coisa.
16:01É, não viveu para outra coisa.
16:02Ele não viveu para outra coisa.
16:04É a ideia de se tornar literatura.
16:07Quando eu escrevi um romance, há uns 15 anos,
16:11em que uma personagem era baseada em um crítico literário,
16:16um crítico de cinema daqui.
16:17E eu me lembro que Deni Gomes, que é minha mestra,
16:21uma figura que eu amo profundamente,
16:23uma grande conhecedora da literatura, me criticou.
16:26Você não podia ter feito isso.
16:28Reinaldo estava do lado.
16:29E Reinaldo virou e falou para Deni,
16:32Deni, se a gente não puder falar dos amigos e dos inimigos,
16:35vamos falar de quem?
16:37Essa frase...
16:38O Deni ficou olhando para ele e eu falei,
16:39pô, obrigado, Reinaldo.
16:40Porque é verdade, né?
16:42Nós vamos falar, o que nós temos aqui?
16:44E o Reinaldo, ele extrapola isso.
16:46Ele não fala sobre o que ele vê.
16:49Ele...
16:49Sobre o que ele quiser.
16:51Ele quiser.
16:51É inacreditável.
16:52É, sobre o que ele quiser.
16:54Para ele, não existem limites.
16:57Entendeu?
16:58Para o escritor, não pode haver limites.
16:59Não pode haver limites.
17:00Ele pode falar o que ele quiser, de quem ele quiser.
17:04A longa história é isso.
17:05A longa história.
17:05Você falou que você estudou a longa história, né?
17:07Não, que eu não estudei.
17:08Aliás, que...
17:09Eu amei tanto que eu não estudei.
17:10Certo, mas você leu, ela faz parte do seu escopo de estudo.
17:18Fala um pouco para a gente e para o leitor e para quem está nos ouvindo sobre a longa história,
17:22que é um livro...
17:24Eu falei, esse livro não vai acabar?
17:26Porque ele parece que ele retoma, né?
17:29Sim.
17:29Eu acho que a longa história sintetiza muitas coisas da obra do Reinaldo muito bem.
17:33Primeiro que também é importante dizer que é o primeiro livro que ele publica em uma editora nacional, né?
17:38Que é a Bertrand.
17:39É a Bertrand, antiga de Féu, né?
17:41É.
17:41Pela Bertrand Brasil.
17:42Pela Bertrand Brasil.
17:43Que chegou a circular um pouquinho, né?
17:45Mas aí tem todo aquele contexto de ser um autor desconhecido, um livro grande, né?
17:50A falta de um agente literário.
17:52Sim.
17:52Vários elementos, né?
17:53Que a gente levanta como possibilidades.
17:56Mas a longa história sintetiza esse interesse do Reinaldo por tradições.
18:00No caso, as tradições do Medievo, as tradições do próprio Catolicismo, né?
18:06Que a gente comentou já no episódio anterior.
18:08O interesse dele pela linguagem.
18:10O interesse dele, acima de tudo, pela literatura.
18:13Porque a longa história é um grande louvor à literatura.
18:16A história.
18:16A história.
18:17Aquilo que precisa ser contado.
18:18É a busca da história.
18:19É a busca da história.
18:20E aí é personagem principal.
18:21Nada mais é que literatura que é uma longa história que não vai acabar.
18:24E quando chega no final, ele descobre que ele fazia parte da própria história.
18:28Isso.
18:29Você só não pode contar.
18:29Não pode dar spoiler.
18:30Pra quem tá vendo, não?
18:32Vamos, vai contar o final da longa história.
18:34É pra instigar.
18:35Então, eu acho que a longa história é um louvor à literatura.
18:39E se é um louvor à literatura, é um louvor ao Reinaldo.
18:43Perfeito, perfeito.
18:45Reinaldo é um sinônimo, né?
18:46Sim.
18:47Reinaldo é um sinônimo de literatura.
18:50Existem alguns autores aqui do Espírito Santo, os contemporâneos, como Bernadette, Luiz Guilherme, Reinaldo,
18:56que são figuras assim, quando você pensa em literatura do Espírito Santo, você pensa neles.
19:01Sim.
19:01Você falou que vai ser lançado, relançado, o Minna Racaçã Sinua.
19:07Quer falar um pouco sobre esse relançamento?
19:09É, vai ser na quarta-feira, né?
19:12Na verdade...
19:12Quarta-feira, dia 4.
19:13Dia 4.
19:14E às 18 horas, na Biblioteca Pública.
19:19O que esse livro, na verdade, é uma segunda edição, né?
19:24A primeira edição se esgotou e a gente resolveu, Alfredo, né?
19:31Resolveu, da Cândida...
19:31E já esteve aqui, inclusive.
19:32Da Cândida, né?
19:35Resolveu fazer a reedição, eu achei legal.
19:38Ótimo.
19:38Nós achamos bom.
19:40E vai ser agora, né?
19:44Que é outro livro, completamente diferente de tudo, né?
19:46Também, é.
19:47Você vai perguntar, por que o Reinaldo escreveu isso, cara?
19:49Contos da vida literária, né?
19:50É, vida literária.
19:52São contos sobre vida literária.
19:54E o interessante é que são dois volumes, né?
19:57Começa com Heródoto.
19:58Isso.
19:59E depois vai pra Mina.
20:01Heródoto, na verdade, ele começou com um sonho.
20:05Tal como o Kit.
20:07Exato.
20:07Que também tem o sonho, né?
20:08Tem o sonho.
20:09Ele sonhou, né?
20:10Uma história lá, né?
20:13Mistério da Montanha.
20:15Mistério da Montanha.
20:17É esse conto, que eu acho que é o primeiro de Heródoto, que abriu, né?
20:23E a partir desse Mistério da Montanha, ele começou a escrever os outros.
20:28E ele sempre quis fazer literatura sobre literatura.
20:34E Morte em Vê, também, vem coroar.
20:39Ele sempre falou, e eu acho, assim, irônico até, porque esse foi o último livro dele.
20:47Publicado foi Morte em Vê.
20:49E é um escritor falando de literatura e de escritor.
20:56O Reinaldo, ele foi, eu falei com ele isso na época, né?
20:59Falei, cara, você foi tremendamente injusto com o Miles Davis.
21:02Que você cita, inclusive, no...
21:04Ele detesta mais os deles.
21:06Mas ele foi injusto porque, eu falei, você cometeu um grande erro.
21:09Aí ele falou, mas como?
21:10Aí eu falei, olha, você vira no...
21:14No Três Cidades da Oeste, né?
21:15Que é o nome de uma canção, né?
21:17O Jás.
21:18Ele fala, tem uma parte lá que ele fala, eu quero saber de Miles Davis.
21:21Mas Jás Goldal não quer dizer nada.
21:24Kit é Jás Goldal.
21:26O Jás Goldal é a quebra na progressão harmônica.
21:30Ele quebra o tempo todo a harmonia de Kit.
21:33Falei besteira, desculpa.
21:34Kit não, muito solento por nada.
21:35Ah, sim.
21:36Falei, muito solento por nada é o Jás Goldal o tempo todo.
21:38Falei, cara, você fez um livro que é uma homenagem a Miles Davis.
21:42Ah, ele falou, Luiz Jó, vou parar de falar com você.
21:45Porque isso aí é uma ofensa.
21:47E claro, foi uma brincadeira.
21:48Mas o que ele realmente fez...
21:50O Reinaldo tem muito de Jás na escrita dele.
21:54Você observou bem em Kit ele faz isso, em Sueli ele faz isso.
22:00E ele faz isso e muito solento por nada.
22:02É, no Reino dos Merdas, né?
22:03É, no Reino dos Merdas, principalmente do Reino dos Merdas.
22:05E as crônicas de Garibaldi.
22:07De Garibaldi, é essa aí.
22:08Grande personagem.
22:09É, justamente nessas crônicas que ele fala mal demais deles.
22:11É.
22:11E eu pra provocá-lo.
22:13Porque eu sei que ele gosta mais de Clifford Brown, que é um outro grande trompetista.
22:17Sim.
22:19Olha, pessoal, eu acho que esse papo aqui foi um papo maravilhoso.
22:23Conversar sobre Reinaldo é sempre um aprendizado.
22:27E é um aprendizado pra mim muito grande, né?
22:29Que eu tô conversando com um estudioso da obra de Reinaldo.
22:31E com Maria Clara, que também não é só estudiosa, mas também reúne, né?
22:38Toda a obra de Reinaldo próxima a ela.
22:43Eu quero que vocês falem alguma coisa sobre Reinaldo nesse último minuto e meio que a gente tem.
22:49O que vocês têm a dizer sobre Reinaldo?
22:53Como eu disse antes, eu acho que o mais marcante na personalidade de Reinaldo pra descrevê-lo
23:00é que ele sempre foi pura literatura, né?
23:05Ele nunca quis outra coisa na vida além de ser escritor.
23:10E isso desde a mais tenra idade, né?
23:14Ele começou a escrever os primeiros contos dele com 11 anos de idade.
23:20Uma vida dedicada à literatura.
23:22Exato.
23:23Sem dúvida.
23:24Eu diria...
23:25Nelson Martinez.
23:26Acho que uma frase que é...
23:27Eu acredito muito pelo que eu tenho lido e estudado, que é...
23:31O Reinaldo vai ser sempre relido e redescoberto eternamente pela literatura que ele deixa pro mundo.
23:36Então...
23:37Maravilha.
23:38Agradeço muito a vocês.
23:39Muito.
23:40Espero que vocês tenham gostado do papo.
23:42Ai, nossa.
23:42Espero que o Reinaldo assista e goste do papo também.
23:44Sim.
23:45Tá bom?
23:45Pessoal, essa foi a edição de número 75, a 75ª edição do Vitrino Literária com
23:55Francisco Grijó.
23:56E, claro, nada melhor do que ter sido sobre Reinaldo Santos Neves, que é uma das figuras
24:03mais importantes da literatura no Espírito Santo e, na minha opinião, no Brasil também.
24:08Beleza?
24:09Então, semana que vem, a gente conversa com outro convidado.
24:13Valeu, gente.
24:14Um grande abraço.
24:16Você ouviu o Vitrino Literária com o professor e escritor Francisco Grijó.
24:22Tudo sobre literatura contemporânea.
24:24Temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.