- há 2 semanas
Uma continuação do papo com o professor, cientista social, estudioso da cultura e pesquisador de romances regionais capixabas, João Gualberto Vasconcellos.
Categoria
🗞
NotíciasTranscrição
00:00Aê pessoal da Pan News, um grande abraço pra vocês, fiquem ligados no Vitrine Literária com Francisco Grijó, valeu? Grande
00:06abraço!
00:08Começa agora, Vitrine Literária, com o professor e escritor Francisco Grijó.
00:14Tudo sobre literatura contemporânea, temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
00:26Olá pessoal, tudo bem? Nós estamos agora na segunda parte do bate-papo, um bate-papo instrutivo, pelo menos pra
00:37mim, instrutivo sobre o Espírito Santo, com o João Galberto.
00:42João Galberto que é, vou repetir, que é administrador de empresas de formação, mas se dedicou à sociologia, mestrado, doutoramento
00:51fora do Brasil.
00:51É uma figura que tem uma bagagem histórica e cultural muito vasta e que pode e deve ser aproveitada por
01:01quem tiver interesse.
01:03João, mais uma vez obrigado, né, pela segunda parte aqui.
01:06Obrigado, eu digo eu.
01:08João, houve uma pergunta de um espectador que perguntou o seguinte, de onde vem essa expressão coronel?
01:15Olha, essa expressão, em 1831, o regente Feijó criou a Guarda Nacional.
01:23A Guarda Nacional, ela foi criada nos moldos da Guarda Nacional francesa e era uma milícia cívica.
01:29E é fácil a gente entender.
01:31O Brasil, quando declarou sua independência, não tinha uma estrutura completa.
01:37É uma ficção aquela história que o Pedro II disse, independência ou morte lá no Ipiranga.
01:44Não, a independência brasileira foi construída mais pelo Zé Bonifácio.
01:48Eu até fiquei espantado numa visita que fiz no Uruguai, ali ao lado de Ponta,
01:55que tinha um museu dos heróis brasileiros.
02:00E o herói da independência brasileira lá era o Bonifácio e não o Pedro II.
02:03Pedro I, né?
02:04Não o Pedro I.
02:06Então, o que acontece?
02:07O Bonifácio e a dona Arapaldina, a mulher de Pedro I, criaram o arcabouço do Brasil independente,
02:14da nacionalidade brasileira.
02:16Tanto que já havia o começo das províncias, já havia...
02:22Quando veio a independência, nós já tivemos embaixador em Buenos Aires, embaixador em Londres,
02:29ou seja, estava preparado pelos dois.
02:32E o Feijó, criou em 1931, então, nessa primeira arquitetura independente brasileira,
02:39a Guarda Nacional, por quê?
02:40Porque o nosso exército era o exército português.
02:43Nós não tínhamos forças da ordem, nem para a ordem interna, nem para o enfrentamento externo.
02:50Então, a Guarda Nacional era formada pela base, eram as corporações de ofício,
02:55eram carpinteiros, alfaiates, corporações do século XIX, e a cúpula era formada pelas elites de cada lugar.
03:04Então, o posto máximo da Guarda Nacional era o posto de coronel.
03:08Então, os coronéis da Guarda Nacional eram os homens mais importantes que tinham em cada cidade brasileira.
03:16Quando veio a Guerra do Paraguai, já nos anos 70, 60, 70 do Império, no Segundo Império,
03:24quando veio a Guerra do Paraguai, o exército brasileiro saiu formado.
03:29Nosso exército é formado efetivamente na Guerra do Paraguai.
03:32Ele vira um ator importante depois da Guerra do Paraguai.
03:35E aí, as Guardas Nacionais já não tinham mais importância.
03:38Elas, então, foram desaparecendo.
03:40Mas, o posto de coronel da Guarda Nacional continuou existindo.
03:45Até 1922, então, o posto da Guarda Nacional era um posto honorífico.
03:50O presidente da República nomeava os homens poderosos.
03:53Então, depois o povo até chamava de coronel ou coroné,
03:57todo mundo que era importante, não obrigatamente titulado.
04:00Mas a origem é o coronel da Guarda Nacional.
04:02Maravilha, obrigado, valeu.
04:05João, olha só, vamos entrar agora especificamente no seu estudo
04:09sobre alguns autores do Espírito Santo.
04:11Isso.
04:12Nós conversando fora daqui, você me falou que estava fazendo um trabalho
04:16utilizando a literatura de Getúlio Neves, de Renato Pacheco, de Pedro Nunes.
04:22E você me disse hoje que vai para Adilson e para Luiz Guilherme Santos Neves.
04:29Esse trabalho, esse trabalho seu, é um trabalho sociológico,
04:35baseado na literatura.
04:36Isso.
04:37E, ao mesmo tempo, você vai esmiuçar o trabalho dos autores.
04:44Isso.
04:45Me parece que isso é também uma forma crítica, uma crítica literária.
04:50Mas, de onde surgiu e qual é o seu objetivo com isso?
04:55Bom, este ano, o doutor Renato Pacheco faleceu em 2004.
05:03Isso.
05:03Então, nós temos 20 anos.
05:0420 anos sem Renato.
05:05É.
05:06E o Instituto de Estudo Geográfico, o presidente Getúlio Neves,
05:10resolveu instituir, esse ano, o Renato Pacheco.
05:13E a revista será sobre a sua obra.
05:17Eu, então, me senti assim, eu falei, vou escrever um artigo para essa revista.
05:24E peguei a oferta e o altar, Pia da Menina, Reino Não Conquistado,
05:32peguei essa literatura do doutor Renato, falei, vou fazer uma leitura desses trabalhos.
05:38E, porque o oferta e o altar, é a eleição de 1958, em Constituição da Barra.
05:50Mas, lá, eleição é guerra.
05:52E eu, como trabalho como consultor político e tenho empresas de empresas políticas até hoje,
05:56agora tenho uma empresa chamada Persona, com o meu filho e uma soça, Maria Vitória,
06:01este caldo de cultura eu vejo até hoje.
06:06Quando a gente acompanha eleição nas pequenas cidades, eleição é guerra.
06:10As famílias se dividem.
06:11E em Renato Pacheco é assim, tem a barbearia do PTB e a barbearia do PSD.
06:17Quando o PSD é governo, nomeia todos os postos de poder,
06:23e aí o delegado sorprende o bêbado do partido de oposição e por aí afora.
06:30Então, aí, o que nós temos, na verdade, é uma expressão muito clara de como se organizou o mundo político
06:38do Espírito Santo.
06:39Eu falava, vou falar sobre isso.
06:41E depois, gente, já que eu estou lidando com isso e que eu li quase todo mundo desse mundo aí,
06:48eu peguei e resolvi fazer, vamos imaginar que seja o primeiro capítulo, então, de uma obra.
06:53Então, você vai transformar isso em livro.
06:55Em livro.
06:56Ótimo.
06:56O segundo, Getúlio.
06:58O terceiro, Pedro Nunes.
07:02O quarto, Adilson.
07:04Luiz Guilherme.
07:05Então, eles fazem uma amostra.
07:08São todos autores que fazem ficção histórica.
07:11Isso.
07:12E que tem um elemento que os organiza.
07:15Eles fazem todo romances de base regional.
07:18É isso que eu ia te perguntar.
07:19Você sempre vai para o regional.
07:22Você não vai para a área urbana, para a capital Vitória.
07:26Não.
07:27Você pensa sempre na...
07:29Por que isso?
07:30Em Renato Pacheco, em Getúlio, em Pedro, esses trabalhos estão prontos.
07:35E em Adilson também.
07:37O território é um personagem.
07:40Em Pedro, São José do Calçado, não é apenas a cidade onde se passa o romance.
07:45O território faz parte do romance dele.
07:49Como em Cidade Repartida, em Memória Repartida e em A Margem do Rio Escuro, em Getúlio,
07:56o território também é um personagem.
07:58E em Renato também.
07:59Mas ele é um personagem porque ele forma pessoas?
08:03Ou seja, ele tem uma intervenção?
08:05Ele tem uma identidade.
08:07Uma identidade.
08:07Ele tem uma identidade.
08:08E essa identidade também tem um código de honra local, que se alimenta do código de
08:15honra regional e nacional, mas tem as suas especificidades.
08:19E nesse código de honra é aquilo que regula o que pode e o que não pode.
08:26Se eu for lá na obra, na minha tese de doutorado, que eu falo em imaginário, em significações
08:31imaginárias, é este código de honra que cria significações imaginárias.
08:36O que pode e o que não pode.
08:38O que conta e o que não conta.
08:42Então, institui a forma com que a vida pode se dar naquela sociedade.
08:47Então, esses autores do Espírito Santo, eles todos têm essa base territorial.
08:52E me levam, então, como um está no sul.
08:56O Renato tem dois livros.
08:58Um é Pedra Menina, que na verdade é Guaçuí, naquela região ali.
09:03No norte, então, aqui tem o São José do Calçado e tem o Getúlio, que é Colatina e Itaúnas.
09:12Então, assim, dá um panorama interessante.
09:15Mas você vê muitas diferenças?
09:17Você vê diferenças fundamentais nessas regiões?
09:20Ou esse código do Matuto, ele está presente?
09:24Ele está estabelecido em todo o estado.
09:25Mas quais as diferenças?
09:27A diferença, por exemplo, em Adilson Vilaça, que vai tratar de Ecoporanga.
09:35Ecoporanga.
09:36Ecoporanga.
09:37O primeiro romance dele, o Cotaxé, o mais conhecido.
09:41Ótimo livro.
09:42Continua em Cartas Fantasmas e também está expresso em Carminda e Trilha do Centauro.
09:48São os que eu provavelmente analisarei.
09:51Nesses romance você tem o Cotaxé e a república que se instala ali, né?
09:57É o estado de Jeová que se instala ali nos anos 50, né?
10:03Em 1954.
10:04É quando o Belino, no governo de Vargas, tenta criar um outro estado.
10:09E esse outro estado que ele quer criar, que é a União de Jeová, ele faz uma reforma agrária.
10:14Ele dá titulação às pessoas.
10:17Então, é claro que ele tinha uma certa proteção do Vargas.
10:21Depois que o Vargas se mata, ele fica desprotegendo.
10:23E ele é brutalmente assassinado pela polícia militar.
10:27E então, esse é um romance com muita violência.
10:33O território no qual Adilson trabalha, porque ele nasceu lá.
10:38Isso.
10:39O território no qual ele trabalha, ele na infância dele conviveu ainda com algum desses personagens,
10:44da sua família paterna, materna.
10:47Então, esses personagens do Adilson estão muito mais carregados desse conflito territorial.
10:53Estão muito mais carregados desse enfrentamento com a polícia militar do que os outros dois autores.
11:00Então, o que varia nessas análises territoriais são os elementos presentes daquele território.
11:11O Renato Pacheco, quando trata de construção da Barra, trata de uma cidade que está instituída,
11:19que tem o mar, é a chegada do petróleo.
11:21O novo em Renato ali é o petróleo que chega, é a professora e o engenheiro da petrolífica.
11:28Então, ele seria o novo que a cidade rechaça.
11:31Mas é uma cidade pacata, que está ali instituída.
11:35E Coporanga não é uma cidade pacata.
11:37É uma guerra, né?
11:41É muito mais do que ali, é muito mais do que pé da menina, é muito mais do que o
11:46universo.
11:46Mas, desses lugares assim, por exemplo, você pega a Colatina de Getúlio, é uma cidade que tem um grande coronel.
11:55A Romância, quando a gente lê, parece que passa de Itapina, mas você sabe como é que essas coisas são.
12:00É e não é, né? Um pouco...
12:02Você, o Pedro Nunes já esteve aqui, já batemos um papo ótimo, inclusive, fizemos dois programas com o Pedro.
12:10Você trabalha com vilarejo, basicamente?
12:12Ou você vai para a Nianha também?
12:14Eles têm um livro chamado...
12:17O Pedro é muito interessante a análise dele, fortalece muito esse meu argumento.
12:21Porque ele tem um livro chamado A Tarde dos Porcos.
12:24A Tarde dos Porcos.
12:25É, que é o primeiro que...
12:26Que é, na verdade, ele é... a base dele é vilarejo.
12:29É, vilarejo. Aí, depois, ele tem vilarejo, né?
12:32Mas vilarejo tem... é, vilarejo e outros contos.
12:36Isso, são vários contos.
12:36Então, tem o vilarejo, que eu analiso, e tem... é muito interessante.
12:41Você pega o conto vilarejo?
12:42O conto vilarejo.
12:43O conto.
12:45O conto vilarejo, depois Menino, que é um romance quase biográfico, assim, né?
12:52É muito interessante, porque aquilo é um mundo caipira pui duro, mas que se produziam
12:58as crianças para que elas fossem caipiras quando elas fossem adultas, né?
13:02Não tem nada a ver com o agronegócio hoje, com essa arrogância do agronegócio.
13:07Era outra coisa.
13:09E ali é um mundo que se fecha nele mesmo, né?
13:12Aquele pequeno mundo, assim, das culturas tradicionais, né?
13:15E eu acho que aí tem uma coisa interessante.
13:17O que rompe com o mundo tradicional capixaba é a BR-100 e a BR-262.
13:22Quando você liga, até os anos 70 era assim, pega a Venda Nova em 70 e a Venda Nova em
13:2980.
13:30Aí tem a BR-262.
13:32Pega Linhares.
13:34Pega São Mateus.
13:35Quando a BR passa, nos integra ao mundo.
13:38E aí, o Pedro nos analisa isso bem, porque aí tem Tade dos Porcos, vilarejo e tem Menino.
13:48Você deixa a ninhanha de lado.
13:50Não.
13:51Aí depois tem a ninhanha e Última Noite.
13:54Certo.
13:55Que é a periferia capixaba.
13:57Periferia.
13:57Que é alimentada por esse mesmo grupo que sai aqui e é expulso nos anos 70 pela erradicação dos cafezais.
14:06Caramba.
14:06Que vem para a vitória com o mesmo código de honra.
14:09Perfeito, João.
14:10Aí são da periferia, que o Pedro nos analisa.
14:14Última Noite é fantástico nesse.
14:16É, eu não li.
14:17Última Noite eu não li.
14:17Última Noite, o território é São Pedro.
14:20Em todas as evidências.
14:21Eu li a ninhanha, na época que saiu, né?
14:23É, é.
14:23A ninhanha é fantástico, né?
14:25Linguagem, né?
14:26Linguagem pura.
14:27É, linguagem pura.
14:28Linguagem pura.
14:29Aí é um...
14:29Ali é...
14:30Você falou na coisa das palavras, né?
14:33É.
14:33O mundo das palavras mesmo, né?
14:36E ele você vai se absorvendo, absorvendo, você fica...
14:40Mas Última Noite são muitos contos.
14:41Eu analiso só o conto Última Noite.
14:44E está no livro, que tem ele como nome.
14:46E que é um mundo dos despossuídos capixabas, que mudam para os alagados.
14:55Santa Rita, ele senta em São Pedro.
14:57Mas tem Santa Rita, lugares como de Cariacica, né?
15:00E se organizam ali.
15:02E aí já não é aquele mundo caipira.
15:05É o mundo da miséria urbana.
15:07Mas é uma viagem...
15:10Agora, eu estou muito curioso para ver o que você vai fazer com o Luiz Guilherme.
15:13Porque Luiz Guilherme tem o Capitão do Fim, a Nau de Capitada, que são obras que se passam no século
15:19XVI.
15:20É.
15:20XVI para virar XVII.
15:21Chamas na missa.
15:22As chamas na missa.
15:23Você vai trabalhar com isso?
15:25Porque isso é a base da base, né?
15:27É isso.
15:27É lá atrás mesmo.
15:29Você vai trabalhar com esses textos?
15:30Eu, no Luiz Guilherme, eu só conheço esses textos básicos.
15:34Tem muita coisa que ele produziu mais recentemente.
15:37Sim, sim, verdade.
15:37E eu não aventuro a dizer como é que eu vou fazer.
15:40Não, até o Adilson eram elementos que...
15:44Livros todos que eu já tinha lido e eu os organizei da base a um fio condutor.
15:51Porque o que orienta um trabalho de sociologia é você ter um fio que conduz a narrativa, né?
15:57Quer dizer, então o filme, o fio que conduz a narrativa é que a ficção que se faz no Espírito
16:02Santo,
16:03primeiro é boa, é de muita qualidade.
16:07E é meio desconhecida dos capixabas.
16:10Aí vem o batuto.
16:12Aquela coisa de não valorizar o local.
16:14Sabe?
16:15Tudo que eu acho que é da nossa cultura, nós fomos secretários de cultura na mesma época.
16:22Exatamente.
16:22Você é estadual e é municipal.
16:24Eu, né?
16:25E Vitória...
16:26E nós sabemos disso.
16:28Nós sabemos da dificuldade de você trabalhar pertencimento, de você trabalhar orgulho de ser capixaba.
16:34Então, essas campanhas, elas são muito novas, o Espírito Santo.
16:39O amor por Vitória, o amor pelas...
16:41Tirando Cachoeiro, que tem uma história pessoal.
16:43É, a gente fala isso, né?
16:45Cachoeiro tem essa coisa.
16:47Eles têm...
16:47Do bairrismo, né?
16:48E por que Vitória não tem, né?
16:49Ah, porque o Cachoeiro era, no final do século XIX, no tempo do café, a Cachoeira era a capital...
16:55Não, mas isso eu entendo.
16:56Cachoeira eu entendo.
16:57Eu não entendo a Vitória.
16:58Eu acho que Vitória está...
16:59Ela é uma cidade que recebeu muitas pessoas de muitos lugares, né?
17:05Com esses grandes projetos.
17:06Vitória tem uma inflexão nos grandes projetos.
17:09E aí nós recebemos muita gente de fora.
17:11Tem bairros como o Jardim Camburi, que são muito novos.
17:15É o maior bairro do Espírito Santo, tem mais de 60 mil habitantes.
17:18E é um bairro novo que é um bairro todo...
17:21São fragmentos do ponto de vista da identidade.
17:24Eu acho que essa identidade ainda está em construção no caso de Vitória.
17:28Tem uma diferença interna importante.
17:31No caso, assim, quando você faz mesmo análise política, você tem os bairros tradicionais.
17:38Jucutuquara, Maruípe, Santo Antônio, o Centro.
17:42E isso tem uma cultura enraizada e tem...
17:46Essa cultura tem instituições que são próprias.
17:48Os times de futebol, as escolas de samba, e você tem os bairros mais novos.
17:53Aí tem São Pedro.
17:55Jardim da Penha, né?
17:56Jardim da Penha.
17:57Na eleição municipal de 95, que Vitor Goás concorreu e perdeu...
18:03E perdeu para Hermes Laranja, né?
18:04Para Hermes Laranja.
18:05Eu e o Antônio Carlos Medeiros escrevemos um artigo sobre a base social do voto.
18:08Em que a gente pegou Azul nas apuradas, nós vimos que Vitor ganhou em todos os novos bairros.
18:17Então, assim, ganhou tanto em São Pedro como no Jardim Camburi.
18:19E perdeu nos bairros tradicionais, onde a moeda de voto é mais controlada, os atores antigos.
18:25Então, acho que Vitória ainda tem essa fragmentação entre o tradicional e o moderno,
18:30que chegou há pouco tempo, não tem uma identidade tão antiga como Cachoeiro, como Colatina.
18:37Linhares está parecendo com Vitória.
18:38Linhares tem um tecido social, tem as empresas que chegaram, mas os donos das empresas vieram por causa da Sudiene,
18:48são industriais poderosos das cidades mais poderosas do Brasil, como São Paulo.
18:53O negócio deles aqui não está obrigatoriamente enraizado na cultura local.
18:58Então, você tem uma cidade que está mais em construção do que nós ainda.
19:04tem a força do agronegócio, mas tem uma industrialização recente que não conversa com a cidade como conversa em Colatina,
19:12em Cachoeira e em outros lugares.
19:13O que levou você a escolher esses cinco autores?
19:17Porque existem outros autores que escreveram sobre o interior do Espírito Santo.
19:23Por que Pedro Nunes, Getúlio, Renato Pacheco, Adilson e possivelmente Luiz Guilherme?
19:31Bom, primeiro elemento, tudo começou com o Renato.
19:35Então, assim, o trabalho de Getúlio conversa, o Armagem do Rio Escuro é um trabalho sobre a obra de Renato,
19:44sobre a oferta e o altar.
19:46É um romance muito interessante e que se alimenta bem.
19:49Aí já tem um elemento novo, que é um acadêmico, né, que é um narrador, que é o olhar do
19:57moderno, né,
19:57quanto a coisa que está instituída em Itaúna.
20:01Mas são autores que conversaram com o Renato Pacheco, esses três aqui.
20:06Então, o meu critério objetivo foi esse.
20:08Eu acho que eu não posso deixar de fazer uma leitura também de outros autores.
20:15Então, assim, eu estou imaginando que, como eu me meti nessa aventura,
20:20eu vou ter que fazer, eu quero terminar esses autores esse ano,
20:23ver se eu publico esse livro ano que vem.
20:25Eu quero reorganizar o que já está pronto, que é o meu trabalho de pós-doutorado na Universidade Federal da
20:31Bahia,
20:32que é esse trabalho dos autores regionais.
20:34Está pronto de dar uma sentada e organizar isso.
20:37Você usa a literatura baiana?
20:39A história baiana também?
20:41Não, não.
20:42É um pouco, não.
20:43Aí a ideia do coronel como personagem nacional mesmo.
20:46Aí tem um autor baiano, que é o Wilson Lins,
20:49tem um autor gaúcho, que é o Eric Veríssimo,
20:56tem um pernambucano, que é o Zé Lins do Rio.
20:58Zé Lins.
20:59Então, assim, tem dois baianos, na verdade.
21:01Você trabalha com Raquel de Queiroz também, não, né?
21:03O quê?
21:03Raquel de Queiroz, você não vai, não.
21:04Não, não.
21:05Aí eu fiquei nesses aí.
21:06Então, eu vou organizar isso, organizar essa narrativa literária aí.
21:12E aí depois, eu tenho um outro trabalho que está pronto, chamado Origens do Pensamento Reacionário Brasileiro.
21:20Que é um pouco como é que isso vira depois esse discurso contemporâneo que a gente conhece.
21:28Mas isso tem que esperar ele amadurecer um pouco.
21:34Como é que esse pensamento reacionário vai se reconformar na eleição de 1926 e um pouquinho para frente.
21:40Aí depois desses autores nacionais, eu acho que eu tenho a obrigação de voltar e pegar os autores que não
21:50são de 1964.
21:52que não são do mundo caipira, para analisar, então, autores como você, como Grijó, né?
22:00E outros aí, tem que fazer uma outra escolha.
22:03Tem que, se acabar esse aqui, já é muita coisa.
22:07Mas eu não posso parar nesse, porque seria injusto.
22:09É, você está trazendo uma fortuna crítica fundamental para a literatura do Espírito Santo.
22:21Porque o que existe no Espírito Santo é a análise literária.
22:26Você está usando a literatura e fazendo uma análise sociológica.
22:29Isso aí é fundamental.
22:30E eu te pergunto, você acha que existe uma literatura capixaba?
22:34Ah, existe.
22:35Você colocaria como capixaba?
22:37Existe algum tempero específico dessa literatura?
22:41Existe sim, existe sim.
22:43Eu acho que, aí vamos para a minha tese desse universo da fofoca, está muito bem retratada.
22:48Sensacional, eu nunca tinha pensado nisso, cara.
22:50Eu preciso ler isso aí.
22:51É, a nossa literatura está toda contaminada por esse mundo caipira.
22:54Eu acho que isso é muito capixaba.
22:56Talvez em Minas também seja.
22:58Aí eu não sei, teria que pensar e fazer uma discussão, fazer um debate.
23:03Isso vale até um debate legal, você pegar os autores regionais.
23:06Sim, sim.
23:07E discutir o que é que é nosso.
23:09O que é que, por exemplo, você pegar a literatura dessa época dos coronéis,
23:12o coronel e o lumisomem.
23:13Sim.
23:14Que é um livro...
23:15Zé Cândido.
23:16Sim, excelente.
23:17É que passa aqui em Campos.
23:18É.
23:19E a cultura de Campos é muito parecida com a do sul capixaba.
23:23Se, na verdade, esse Vale do Itabapuana,
23:26porque, no mundo antigo, os rios eram estradas líquidas.
23:32E as bacias dos rios também eram bacias culturais.
23:36Se você pegar Itapemirim e Itapemirim,
23:39você vai ver que cachoeiro desce ali,
23:43vai subindo em direção a Caparau.
23:45Ah, não.
23:46Tem o baixo Itapemirim, o médio Itapemirim, o alto Itapemirim,
23:49e ali faz uma bacia cultural.
23:51Depois vem a ferrovia e aquelas cidades se conversam muito.
23:55Há uma cultura do sul capixaba.
23:57Perfeito.
23:57Se você pegar o Rio Doce, é uma outra bacia cultural.
24:01Linhares, Colatina.
24:03E você pega São Mateus, que está aqui,
24:06que tem uma cultura muito diferente de Linhares.
24:08Porque o São Mateus está na bacia,
24:11em outra bacia.
24:14Aí, São Mateus já conversa mais com Itaúna,
24:17a Bahia, né?
24:20Então, assim, você tem o Cricaré, o Doce,
24:24o Jucu e o Itapemirim.
24:26Fazem quatro bacias.
24:27Eu já fiz trabalho da política,
24:30da pesquisa que a gente fez
24:31quando o Felipe Rigoni foi candidato a governador,
24:34a partir das bacias culturais.
24:36Entrevistando pessoas nas bacias culturais
24:39para entender como é que o Espírito Santo se organiza.
24:42João, eu só tenho a agradecer essa aula, cara.
24:46Eu estou impressionado com a minha ignorância.
24:51Eu sempre achei que eu não era tão ignorante assim,
24:54mas sou, muito obrigado.
24:56Eu não faço vantagem de uma.
24:57É uns 50 anos que eu penso nisso.
25:00Maravilha, maravilha.
25:01Parabéns, cara.
25:03Espero ansiosamente ver esse seu trabalho.
25:05Agradeço profundamente você ter vindo.
25:07Espero que você retorne,
25:08depois que você lançar esse livro.
25:10Quero que você retorne.
25:11É, porque vai amadurecer essas coisas.
25:15Eu estou no terceiro autor, né?
25:16Muito obrigado, muito obrigado.
25:18Gente, espero que vocês tenham curtido esse papo.
25:20Foi muito bom.
25:22João tirou uma série de dúvidas,
25:23pelo menos dúvidas minhas.
25:25E na semana que vem a gente retorna
25:27com Vitrine Literária com Francisco Grijó,
25:31aqui pela Rede Vitória.
25:34Você ouviu Vitrine Literária
25:37com o professor e escritor Francisco Grijó.
25:40Tudo sobre literatura contemporânea.
25:43Temas, autores, obras, debates, análises,
25:47curiosidades e bate-papo com autores e editores.
25:50Vitrine Literária
25:51E aí