- há 2 dias
Muitas crianças enfrentam medos para a vida todo após a violência
Categoria
🗞
NotíciasTranscrição
00:00Sabe o processo de violência doméstica que a Ana Hickman move contra o ex-marido, o Alexandre Corrêa?
00:06Então, esse processo ganhou mais um capítulo.
00:09O que aconteceu agora, gente?
00:10A justiça determinou que o filho do ex-casal, que inclusive completa hoje, viu 10 anos,
00:17que esse filho passe por uma avaliação com psicólogos e assistentes sociais
00:22para saber se ele tem condições de depor, de falar sobre o que viu no dia em que a Ana
00:29afirma em que as agressões aconteceram.
00:31Lembrando, gente, que a briga teria começado porque a apresentadora decidiu contar para o menino
00:37sobre os problemas financeiros que enfrentavam.
00:40E aí, em depoimento, a apresentadora disse que primeiro foi agredida verbalmente,
00:46sendo chamada de louca na frente do filho.
00:48Aí depois vieram as agressões físicas.
00:51E casos como o da Ana Hickman, em que a violência acontece ali, na frente dos filhos,
00:57a gente sabe, né, que esses casos acontecem todos os dias.
01:02E que os traumas que ficam para uma criança que está sendo inserida ali naquela violência,
01:07a gente sabe que esses traumas podem ficar aí para o resto da vida e não são fáceis de lidar.
01:13Inclusive, então, a gente vai falar sobre esse assunto aqui no nosso estúdio.
01:16Eu recebo a psicóloga Luciana Infantini.
01:19Obrigada, Lu, pela sua participação.
01:21Uma boa tarde.
01:23Advogados Edu, muito obrigada pela sua presença, viu?
01:26Boa tarde.
01:27Sempre uma honra estar aqui.
01:28Boa tarde a todos.
01:28A gente que agradece, viu?
01:30E a gente também recebe aqui a Lenir Bonifácio.
01:33Boa tarde, Roberto.
01:34Boa tarde, Lenir.
01:34Daqui a pouquinho ela vai falar sobre a história de vida dela,
01:38que os filhos também presenciaram a agressão que ela sofria do ex-companheiro.
01:43Mas antes, Edu, para a gente entender como funciona ouvir o depoimento de uma criança num processo,
01:52para qualquer situação, conta para a gente.
01:55A gente sempre deve evitar trazer as crianças para o contexto de um processo,
02:00levar a criança para fórum, vamos dizer assim.
02:02Por quê?
02:03As crianças estão em processo de formação, o discurso da criança, a forma de falar é diferente
02:10e elas são bastante suscetíveis e sensíveis.
02:13A gente pensa que não, mas as crianças percebem tudo.
02:16O fato de perceber não quer dizer que elas sabem processar aquilo que elas estão recebendo.
02:22Então, ouvir uma criança como testemunha, alguma coisa assim,
02:27só mesmo em último caso, quando não tem a condição de se fazer a prova de uma outra forma,
02:34e assim mesmo a lei vai estabelecer uma série de regras para preservar aquela criança.
02:39E qual é o peso do depoimento dessa criança no processo?
02:43Pois é, o depoimento é feito assim, quando não tem jeito, você vai ter que ouvir uma criança.
02:48Ele é feito de uma sala separada, há uma transmissão simultânea para a sala de audiência,
02:55a criança não pode ter contato visual com as pessoas que estão na sala de audiência,
03:00ela vai ser assistida por uma psicóloga, e quem vai fazer as perguntas é a psicóloga.
03:05O juiz transmite, normalmente a psicóloga está com um ponto no ouvido, vai transmitir as perguntas,
03:11e as perguntas são feitas para a criança.
03:13E a psicóloga tem que ter até o cuidado de como elaborar essa pergunta,
03:17não falar na linguagem do juiz ou das partes,
03:20mas falar numa linguagem que ela possa extrair daquela criança a verdade.
03:25Mas, assim mesmo, isso é sempre muito complicado por conta da forma de elaborar o discurso das crianças.
03:33Diz que criança não mente, mentira, criança mente.
03:36A criança não fala, inventa coisas, não é que ela inventa, ela processa, ela transmite de uma forma diferente.
03:45Então, você precisa ter um profissional ali que consiga traduzir isso e trazer essas informações para o processo.
03:52Mas sempre, na medida do possível, evitar envolver as crianças em problemas de adultos.
03:58A maior preocupação quando a gente vê uma notícia como essa, Luciane, é que, primeiro, essa criança já sofreu uma
04:05violência.
04:06Só de presenciar uma cena como essa, isso já traumatiza.
04:11E ainda ser colocada numa situação, mesmo que tenha todo o cuidado ali,
04:16como garantir que essa criança vai ter, sabe, toda a sua dignidade ali preservada nessa situação?
04:27Bom, como o nosso colega Zé Du colocou muito bem,
04:31isso é sempre feito em último caso, né, Roberta?
04:34Porque se procura ao máximo preservar a criança.
04:36Mas quando não há jeito, a única prova é o testemunho da criança,
04:42precisa se tomar alguns cuidados.
04:45Mas, lembrando, Roberta, que é sempre muito importante preservar, inclusive, a criança, assim, desse contato,
04:54porque não se pode colocar a criança contra pai e mãe, né?
04:57É uma coisa, assim, o problema é dos adultos, não é da criança.
05:01Os adultos têm que aprender a resolver suas questões, né, sem misturar a criança.
05:05Então, esse cuidado tem que acontecer, né?
05:08Então, o cuidado na abordagem, mas também a compreensão de que a criança não está do lado do pai ou
05:14da mãe.
05:15Ela está colocando os fatos, né?
05:17Ela não está indo contra o pai, porque pode isso também soar como algo traumático para a criança, né?
05:25Olha, me posicionei contra o meu pai, não sei como é que o pai também vai processar isso tudo.
05:29Então, por isso que a gente evita trazer testemunho das crianças para esse momento, né?
05:35E eu me coloco até no lugar dessa criança, que possa vir a passar por uma situação como essa,
05:41imagino momentos antes, Edu, a cobrança que ela deve ter, tanto de um lado quanto do outro.
05:46Exatamente.
05:46Você não vai falar isso.
05:47Então, ouvir do pai ou da mãe, você conta isso, isso, isso, isso.
05:51Então, como é que você monitora essa situação?
05:54Isso é sempre muito complicado, Roberto, porque você acaba jogando nas costas de uma criança
05:59uma responsabilidade que ela não está madura o suficiente para ter.
06:03E ainda que ninguém fale nada, só o fato de falar, você vai lá falar com o juiz.
06:08Quer dizer, ela sabe que algum julgamento vai ser feito a partir daquilo que ela vai dizer
06:13e sabe que esse julgamento pode prejudicar o pai ou a mãe.
06:18E isso é extremamente complicado.
06:20A gente acaba colocando a criança numa posição onde ela jamais deveria estar.
06:25A criança não é para decidir pelos pais.
06:27Aliás, o poder familiar que é atribuído aos pais é exatamente para que os pais decidam
06:34as questões para as crianças.
06:35Então, quando você coloca uma criança para decidir alguma coisa, você está subvertendo
06:40essa ordem.
06:40E a lei não está lá de graça.
06:42Há um motivo para isso existir.
06:44E o motivo principal é a necessidade que a gente tem de proteger as crianças e os adolescentes.
06:50Aquilo que eu sempre lembro, a criança está no centro da proteção constitucional.
06:55Ela é o miolinho, é o ponto mais sensível da nossa Constituição.
06:59A lei determina.
07:01Por que a lei determina?
07:02Porque é bom para a sociedade que a criança seja protegida.
07:06E essa proteção.
07:07Quando você vê uma criança num ambiente forense, que é um ambiente duro, é um ambiente
07:11de litígio, colocando uma criança para depor contra o pai ou depor contra a mãe, para
07:18falar de fatos que, às vezes, ela não teve nem preparo para assimilar adequadamente, isso
07:23é sempre muito difícil.
07:24Daí a necessidade do depoimento especial ser feito com tanta cautela.
07:29Só lembrando o seguinte, Roberto, em alguns casos, a gente até evita esse depoimento no
07:35ambiente de audiência, no momento da audiência, quando a escuta das crianças é feita pelas
07:41equipes multidisciplinares do juízo.
07:44Aí já é um outro ambiente, às vezes essa escuta é feita na casa, onde aquela criança
07:49já reside perto do brinquedinho que ela gosta, fica mais à vontade.
07:53Essa escuta não tem que ser feita necessariamente com a fala.
07:57Existem muitas ferramentas, a Luciane pode explicar isso aí melhor.
08:02E, normalmente, assim, embora exista um impacto, esse impacto é mais relativizado.
08:08Depoimento de criança é sempre uma coisa que me deixa muito preocupado.
08:11Só fazer um parêntese aí, que eu dei um exemplo, numa suposição, quando eu disse que
08:15imagina como é que fica a cabeça dessa criança, momentos antes, receber aquela cobrança
08:19ou do pai ou da mãe, sobre o que ela vai falar.
08:22Eu falei isso como uma suposição, não usando exatamente o caso da Ana Hickman, viu, gente?
08:27Mas acontece muito, tá, Roberto?
08:28Essa pressão em cima da criança, a gente vê isso todo dia nas lidas forenses.
08:32Essa pressão que é feita em cima da criança, que é um absurdo.
08:35Pois é.
08:36Lenir, conta pra gente, seus filhos já presenciaram os momentos, infelizmente, nos momentos de confusões
08:44entre você e seu ex-companheiro, como que você administrava, como mãe, aquela situação
08:50pós-traumática com ele?
08:53Bom, assim, os meus filhos, eles ficavam traumatizados, ficavam...
09:01Eles tinham um jeito de reagir.
09:03O jeito deles era mais de sentar nos cantos, de chorar.
09:08Eles tinham esse jeito de reação.
09:11E eu tentava, assim, quando acabava ali aquela hora, aquele momento de violência, eu tentava
09:20conversar com eles.
09:21A gente chorava muito juntos.
09:23Meus filhos choravam muito.
09:24Meus filhos cresceram, os filhos muito tristes.
09:27Até nas fotos, você via que não eram as fotos real.
09:31As crianças absorveram muita coisa ruim, muita violência.
09:35E isso não foi bom pra eles.
09:38Mas eu tentava de todas as formas.
09:41Eu levava, eu colocava num curso, eu arrumava um emprego, né?
09:45Que meu filho já era adolescente, indo pra os 14 anos.
09:49Eu fazia de tudo.
09:51Eu conversava porque eu não trabalhava, então eu dava de mim o melhor pra eles.
09:56Já o pai fugia.
09:57O pai era mais de fugir.
09:59As crianças, então, ficavam com esse problema psicológico e sofrendo a vida inteira.
10:05E o que que você orientava eles?
10:08Qual era a conversa?
10:09Como que você tentava amenizar esse sentimento de tristeza?
10:13Menina, eu creio que eles choravam tanto porque amava tanto o pai.
10:20Parecia até que amava mais o pai do que a mãe.
10:22Mas não é.
10:23Porque o pai trabalhava e a mãe ficava mais presente.
10:25Mas eu tentava conversar, sei lá, eu lutava de todas as formas.
10:33Eu não consigo nem falar porque meus filhos tiveram uma infância muito triste na questão de relacionamento entre pai e
10:42filhos.
10:42Então, pra mim é muito difícil falar essa parte de filhos.
10:47Agora, a Leny, Luciane, tocou num ponto muito importante, né?
10:50Porque na cabeça da criança, o pai é o pai.
10:55Só que isso, de repente, aquela referência que você tem de homem, de super-herói da sua vida,
11:02isso de repente é desconstruído com uma atitude, né?
11:06Com o fato de presenciar essas atitudes.
11:10Então, você vê que isso vai se rompendo, vai sendo desconstruído na cabeça da criança.
11:16O que pode trazer futuramente, né?
11:19O que isso pode ocasionar na vida dessa criança futuramente?
11:22Então, Roberta, mas o que a gente percebe, né?
11:25A criança, como bem dito aqui anteriormente, ela tem...
11:30Ninguém garante que o que está acontecendo seja percebido por ela exatamente daquela forma.
11:35Porque ela tem uma forma própria de interpretar.
11:38E ela tem o amor pelo pai, ela tem o amor pela mãe, que é natural, que é normal.
11:43Então, assim, nada garante que aquilo que está sendo observado é o fato, é a realidade.
11:48Por isso que a gente não pode dizer assim, a criança não mente, né?
11:51Ou a criança não distorce.
11:54Claro que ela distorce, ela ama o pai.
11:56E aí, a gente não sabe a que ponto essa percepção dela também não vai se distorcer
12:01a ponto dela pensar, não, é natural isso que o meu pai faz, é natural isso que a minha mãe
12:06faz.
12:06Porque ela ama, então, em nome desse amor, ela pode sim estar fazendo distorções da realidade,
12:11estar repetindo esses atos na vida adulta, né?
12:14Sem nenhum filtro.
12:15Ou não, ela pode também criar uma revolta, uma decepção.
12:18É muito difícil a gente falar o que vai acontecer, depende dessa percepção.
12:23Por isso que toda criança vítima de violência, ela precisa passar por um acompanhamento.
12:27Porque não é matemática, né?
12:28O ser humano não é matemático.
12:29Tem vários fatores envolvidos.
12:31E numa criança ainda, a gente vê, assim, é um, eu acho, é desumano até, né?
12:39Deixar a criança perceber toda essa violência.
12:43Ela devia ser realmente o centro da proteção.
12:46Os pais, né?
12:48Deveriam colocá-lhe sempre o melhor interesse da criança em primeiro lugar.
12:51Mas a gente não vê isso acontecendo, infelizmente.
12:53Daqui a pouco você vai contar pra gente, Luciane, como que, caso isso aconteça,
12:58como que a gente deve conversar com os nossos filhos depois dessa violência toda.
13:02O ideal, o cenário ideal, é claro, que o que a gente mais pede aqui é que não aconteça.
13:06Mas a gente sabe que tá longe dessa realidade, né?
13:09Ó, vamos convidar agora a Leila também pro nosso bate-papo.
13:12A Leila, a gente também sofreu violência doméstica e tudo aconteceu na frente do filho, né?
13:18Isso que na época tinha 10 anos, é isso, Leila?
13:21Como é que você e como é que o seu filho se comportavam aí nos momentos de agressões?
13:28Bom, ele sempre...
13:29Eu tava acidentada na época, né?
13:33E ele sempre falava assim, mãe, se a gente mudar daqui, se a gente fugir,
13:39eu vou te ajudar a cuidar dos meus irmãos, que eu tinha mais dois filhos.
13:42Um de um ano e o outro que já ia fazer dois anos.
13:47E eu terminei fugindo realmente, né?
13:50E até hoje, a gente mora junto, eu, meus três filhos.
13:58E foi ser uma fase muito dura, muito difícil, principalmente pra ele.
14:03Ele, então, te encorajava a sair dessa situação, é isso, Leila?
14:08É isso mesmo.
14:10Porque se não fosse por ele, nesse momento de sofrimento, porque ele sofria muito.
14:15E ele também passava por violência, né?
14:19E eu, por não conseguir fazer nada, e também me senti impotente,
14:23porque na época, o pai dos meus dois filhos, que ele não era pai desse meu filho mais velho, né?
14:31Então, ele falava que se eu fizesse qualquer coisa,
14:36dois eram filhos dele, mas um não era.
14:38E, enfim, né?
14:40Então, a gente devia ser sob ameaças e eu não tinha forças.
14:43Mas o meu filho me dava força pra que eu pudesse superar, né?
14:50E mesmo em cima de uma cadeira de rodas, eu consegui fugir dos meus três filhos
14:55e hoje já escrevo uma nova história.
14:58Olha só que interessante.
14:59Deixa eu aproveitar, então, Leila, a presença da Luciana Infantin.
15:02Daqui a pouco eu volto a falar com você.
15:03E, às vezes, a força vem de onde a gente menos imagina, né?
15:07Das crianças, Luciane.
15:08A criança não devia estar nesse lugar, né?
15:11Mas foi, assim, ela devia ser cuidada, protegida, mas ela que deu força pra mãe, né?
15:16Muito bonito isso.
15:17E é um menino bastante maduro, né?
15:20Com certeza.
15:22Zedu, acaba que nessas situações, igual a Luciane falou aí, um menino bastante maduro,
15:27você percebe que as crianças passam por esse processo de ter que amadurecer,
15:33ou seja, pelo amor, ou seja, pela dor?
15:36A gente vê muito isso e fica muito chateado com isso, porque embora a gente veja a coragem,
15:43a superação, como disse a Luciane, não era pra essa criança estar passando por isso.
15:49Criança é pra ser solto, pra crescer, pra se desenvolver, pra receber afeto, pra brincar,
15:54pra não ter responsabilidade.
15:56Aí, de repente, você vê uma criança em tenra idade sendo transformada no adulto da família,
16:02de uma hora pra outra.
16:04Aconselhando o pai ou a mãe.
16:05Aconselhando o pai, quer dizer, é uma subversão.
16:08Isso não é bonito, isso não é poético, isso não é romântico.
16:11Isso é triste.
16:12Isso é triste.
16:13Não deveria acontecer em hipótese alguma.
16:16E aí, a gente tem que entender também que o adulto que está sendo vitimizado por uma violência doméstica,
16:22ele está doente também.
16:23Por vezes, não tem, por vezes, a condição psíquica, né, Luciane, está inferior até da própria criança, né?
16:30Porque a violência também tem essa coisa, né?
16:33E chega, às vezes, ao ponto de se naturalizar, de achar que está bom, que é assim mesmo.
16:37Ah, isso aí ele fez porque estava...
16:39A pessoa começa a buscar em si mesmo motivo pra um ato que não tem motivo, que é um ato
16:44bestial,
16:45que é uma coisa que não pode acontecer, que é uma violência de um ser humano contra outro.
16:49Ainda mais num ambiente familiar que deveria ser...
16:52A família deveria ser o porto, deveria ser a segurança das pessoas e se transforma nesse tipo de situação.
16:57Isso é muito ruim, isso é muito triste.
16:59Nos casos de depoimentos dessas crianças, eles mais normalizam essa situação,
17:07entendendo que é normal o que o pai faz com a mãe ou não?
17:10Ou tem depoimentos também de crianças revoltadas de ver a mãe sofrendo?
17:16Um dos cuidados que tem que se ter nesses depoimentos é não colher da criança nenhum tipo de julgamento,
17:22nenhum tipo de elaboração, mas mais no sentido de revelar,
17:26quando ela está depondo na condição de testemunha, porque isso é possível, por lei,
17:32é mais no sentido de relatar acontecimentos.
17:35Então, deve-se evitar, porque, olha só, no ambiente terapêutico,
17:40a Luciane pode explicar isso melhor, isso já é muito complicado.
17:44Agora, você imagina no curto espaço de tempo de um depoimento especial,
17:51você tentar tirar de uma criança sentimentos, sentidos, ordem, organização.
17:57Se, às vezes, demora anos de terapia para chegar num ponto desses,
18:01em 20, 30 minutos de uma audiência de depoimento especial,
18:04isso é uma forçação de barra muito pesada.
18:08Então, deve-se também ter esse cuidado, é buscar mais no fato, na forma de narrar o fato.
18:13E, claro, aí o psicólogo que está presente vai fazer as elaborações e vai auxiliar o juízo a tomar uma
18:20decisão.
18:20É um trabalho muito difícil lidar com criança sem que você cometa ali uma agressão àquele universo,
18:28que você preserve esse universo infantil.
18:32Lenir, algum momento da vida, depois da fase adolescente, adulto,
18:38houve uma conversa com seus filhos? Eles vieram desabafar sobre esse assunto?
18:44Assim, aos 16 anos e meio, eu conversei muito com meu filho, ele estava numa fase muito revoltada,
18:51muito revoltada mesmo, eu quero ir embora, eu quero morrer.
18:54Ele só chorava, ele ia para a escola e voltava chorando.
18:58E, assim, eu peguei os dois, eu falei assim, o que vocês querem?
19:02Ah, eu vou morar com o papai, então vamos.
19:04Então, foi no dia que eu levei meu filho para morar com o pai, deixei lá e tal.
19:09E ele falou assim, mamãe, aproveitando a fala do doutor,
19:14mamãe, eu vou trabalhar, eu vou continuar trabalhando para te ajudar.
19:18Só que meu filho já tinha vacilado.
19:20Então, assim, naquele dia que eu levei, que eu tomei aquela decisão de levar e conversar com eles junto ao
19:26pai,
19:26aí foi um momento que o pai me empurrou, me bateu, me jogou longe,
19:31e aí meu filho saiu correndo, eu quero morrer, eu quero morrer, escreveu uma carta e falou assim,
19:36vou embora, vou morrer nas drogas, chega, eu estou cansada disso.
19:41Então, meu filho estava cansado, revoltado.
19:43E na noite seguinte, meu filho faleceu, realmente.
19:47Então, para mim, assim, muito difícil falar sobre isso.
19:51Toma um copo d'água aqui, Leny.
19:52A calma que a gente está aqui mostrando como é dura a realidade de uma criança,
19:58que ela é criada nesse ambiente de violência, e olha que ponto as coisas podem chegar.
20:04Luciane, como que a gente deve, então, seja no momento seguinte, ou no outro dia, ou mais adiante,
20:12conversar sobre esse assunto com os nossos filhos?
20:14Porque, às vezes, ao conversar, a situação só piora, né?
20:17Acaba que o pai ou a mãe continua colocando um contra o outro.
20:21É, esse é o cuidado que a gente tem que ter, né, Roberta?
20:24Se vai conversar, que a conversa seja esclarecedora de algumas questões,
20:30e coisas até sem explicação, porque violência não tem muita explicação, né?
20:33É bem até complicado falar do assunto, porque não deveria acontecer.
20:37Mas que seja conversado no sentido de tentar minimizar a responsabilidade da criança sempre.
20:46Falar, olha, você não tem culpa de nada, papai e mamãe brigaram por isso, por isso, por aquilo, né?
20:51E também, Roberta, muito cuidado de um não jogar a criança contra o outro, que não é uma disputa,
21:00isso só vai fazer mal para a criança.
21:02A gente teve aí, né, um relato muito forte aqui das consequências que podem acontecer por conta da violência doméstica.
21:09Então, não é uma brincadeira, é uma coisa muito séria, né, que acontece aí o tempo todo e não deveria
21:15acontecer.
21:16Então, essa conversa tem que ser no sentido de preservar a criança, de falar assim, olha, a gente vai resolver,
21:21sabe?
21:22Meio que tentando afastar a criança desse ambiente, não colocá-la dentro para tentar resolver,
21:27você quer ficar com o pai, você quer ficar com a mãe.
21:29Pai e mãe vão ser pai e mãe para o resto da vida.
21:31Por mais que pai e mãe se separem, os laços, né, de parentalidade não se rompem.
21:37Só os de conjugalidade, parentalidade, eles permanecem.
21:40Então, isso precisa ser respeitado.
21:42E a gente já viu aqui vários casos de pais que acabam colocando, né, a criança naquela, no meio do
21:50fogo cruzado.
21:51Porque, ah, porque aconteceu a confusão aí no dia seguinte, um exemplo, a criança está conversando com o pai,
21:56você está conversando com o seu pai, então fica para lá, não quero papo com você,
21:59ou então está conversando com sua mãe, também não quero papo com você.
22:02A criança não tem nada a ver com isso.
22:03Se não dá certo, se resolva de maneira civilizada uma conversa entre adultos, né?
22:07Deixa eu voltar a falar com a Leila, para ver como que ela também, no momento seguinte,
22:14como que você conversava com o seu filho, Leila?
22:20Na verdade, procurava soluções, né?
22:23E não adiantava eu não falar nada com ele, porque ele vivia violência.
22:30No entanto, que eu vejo meu filho hoje como um herói,
22:33porque ele viveu esse momento difícil, mas ele não deixou os irmãos dele passar por isso.
22:39E hoje ele é como se fosse o pai dos meus filhos.
22:42Um tem 19, a outra tem 17 e o mais velho tem 29.
22:49Então, o mais velho, ele realmente, além de ter me dado força, me dado apoio,
22:55ele tomou uma maturidade muito cedo e, realmente, ele entrou num momento de herói
23:03que conseguiu ajudar e mudar a nossa vida, né?
23:09E hoje a gente vive uma vida, assim, muito tranquila, muito calma.
23:14Nós somos amigos, todos nós sentamos, todos nós conversamos.
23:19E foi uma fase muito difícil, muito complicada, mas com muita luta nós conseguimos vencer.
23:27Valeu a pena, né, Leila? Com certeza.
23:29Valeu a pena, porque, na verdade, os agressores deixam a gente numa situação de dependência emocional.
23:38Imagina uma mulher que sofreu um acidente e estava numa cadeira de roda e potente,
23:44não tinha como fazer.
23:46Então, é uma hora que você tem que tomar uma atitude e acreditar que aquilo vai dar certo,
23:51sem apoio de ninguém, foi muito difícil, né?
23:56Então, e você ouviu o seu filho falar assim,
23:59não, eu vou te ajudar a tomar conta dos meus irmãos com 10 anos de idade,
24:04é uma força muito grande que nasce em nós.
24:07E a gente acredita mesmo, acredita em Deus e que tudo vai dar certo.
24:11E é assim que as coisas funcionaram aqui em casa.
24:14E graças a Deus, através de uma atitude, de um passo à frente,
24:19hoje nós temos paz e nós somos livres, né?
24:23Eu gosto muito dessa palavra, livres, porque a liberdade, eu acho que é o ápice de toda essa história, né?
24:33A liberdade é tudo.
24:34São depoimentos muito fortes, né?
24:36Tanto da Leila, quanto da Lenir também, que participou aqui com a gente.
24:40Agradeço imensamente a participação de vocês.
24:43Mas antes, só para finalizar, Zedu, sobre o fato da criança ser ouvida em depoimento.
24:49Isso é uma determinação que vem de onde?
24:51A mãe, por exemplo, pode pedir?
24:52Eu queria que meu filho fosse ouvido.
24:55Pode pedir, pode indicar, mas isso é sempre uma decisão judicial.
24:59O juiz que determina quais as provas que vão ser produzidas no processo a partir da sua necessidade.
25:05E quando há crianças envolvidas, essa avaliação é feita de forma muito criteriosa.
25:11Provavelmente, por isso que no caso específico da Ana Hickman,
25:15antes de se fazer o depoimento especial, o juízo determinou uma outra forma de escuta,
25:20até para saber se aquela criança ou adolescente estava pronta para participar de uma audiência.
25:26E essa outra forma de escuta é com outras ferramentas,
25:29provavelmente mais lúdicas, mais agradáveis e mais leves para a criança.
25:34Então, assim, ouvir criança em juízo, por favor, em última instância.
25:39Eu peço até aos meus colegas advogados que evitem isso na medida do possível.
25:42Só que quando não tiver outro jeito, vamos preservar.
25:45É nosso dever também, como advogado, preservar as nossas crianças.
25:49Entendeu, Roberto?
25:49Você não tem uma idade mínima, Zé Duro?
25:51É, você não tem uma idade mínima, efetivamente.
25:54Você tem uma gradação de forma de escuta, até 7 anos, depois de 7 anos, até 12 e tal.
26:00Mas a escuta pode ser feita e a lei vai determinar quais são as ferramentas adequadas para a escuta.
26:07Vai passar pelo crivo do juiz, do Ministério Público, que vai decidir o que vai ser feito.
26:13Tá certo.
26:14Gente, obrigada pela participação de vocês, Luciano Infantini, Zé Duro.
26:18Lenin, você é sempre muito querida aqui com os nossos telespectadores, trazendo esse relato de uma mãe que fez de
26:26tudo, né?
26:27Para tentar ter paz na vida, mesmo que isso custasse a sua própria paz.
26:33Não é verdade?
26:35Mas, graças a Deus, eu tenho minha filha moça que superou isso e hoje ela é uma boa profissional, trabalhadeira.
26:42E aconselhei ela a fazer as pazes com o pai.
26:45Vai lá, procura seu pai, você ama seu pai, não tem nada a ver.
26:48Eu e ele, não tem nada a ver.
26:51Então, ela procurou hoje, ela está mais feliz, mais tranquila.
26:54E eu também, graças a Deus, estou mais feliz.
26:57Eu só não consigo mexer nesse assunto porque perdi meu filho, mas no resto está tudo bem.
27:02Só alegria.
27:03Obrigada, viu?
27:04A gente agradece imensamente, tá?
27:06Obrigada.