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  • há 3 semanas
O número absurdo registrado em 2022 pode ser ainda maior por causa da subnotificação. E esse é o nosso assunto com a advogada Layla Freitas, a psicóloga Daniela Sampaio e a Mery Silva que trabalha em uma rede de apoio à mulheres vítimas de estupro

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Transcrição
00:00Pessoal, nós mostramos agora há pouco o caso do prior condenado por estupro.
00:04E hoje, foram divulgados números assustadores sobre esse tipo de crime aqui no Brasil.
00:11O país registrou o maior número de estupros da história,
00:16considerando também casos em que a vítima é criança ou adolescente.
00:21Os dados são do Anuário de Segurança Pública.
00:24Em 2021, foram 68.885 ocorrências.
00:30Já no ano passado, em 2022, 74.930, quase 75 mil.
00:37Seis em cada dez vítimas têm até 13 anos de idade.
00:4156% delas são negras.
00:45Sete em cada dez casos acontecem dentro da própria casa das vítimas.
00:50E 44% dos autores dos estupros são pais ou padraços.
00:56Eu quero reforçar essa informação.
00:59São quase 75 mil mulheres estupradas.
01:04E nós estamos falando da vítima que vai até a polícia,
01:08que vai até o hospital para receber atendimento.
01:11Só que esse número está longe da realidade.
01:14Muitos casos ficam escondidos por medo, por vergonha.
01:20E esse é o nosso assunto muito sério, muito delicado,
01:23que a gente vai tratar aqui no estúdio.
01:25Nós recebemos a Laila Freitas, que é advogada.
01:30Também a psicóloga, a Daniela Sampaio, psicóloga.
01:34E a Mery Silva, que trabalha em uma rede de apoio a mulheres
01:37que resgata vítimas de estupro.
01:40Muito boa tarde, meninas.
01:42Um tema delicado, mas que precisa ser debatido.
01:45Eu queria saber da Mery como é que funciona o seu trabalho.
01:49Como é que vocês são acionadas?
01:51Mery, boa tarde.
01:53Boa tarde.
01:54Então, normalmente a gente é acionada pela comunidade.
01:58São as próprias pessoas que conhecem alguém
02:03que passou pela violência contra a mulher, no modo geral,
02:07e nos procura com realmente apoio.
02:12Desde o apoio social, de alimentação, de levar um médico,
02:18de conseguir, às vezes, sair daquele local
02:21onde está aquele ciclo de violência.
02:23Então, as pessoas nos reconhecem com essa rede de apoio
02:27e nos procuram, quando sabem de casos próximos,
02:31que a gente pode colaborar de alguma forma a prevenir essa violência
02:36ou até mesmo para poder, como é que fala, diminuir o impacto que aquela pessoa sofre.
02:42Mery, a gente sabe que há muitos casos que sequer chegam à polícia
02:46e que não são denunciados.
02:47Como é o trabalho de vocês para incentivar essa mulher a buscar ajuda,
02:52a denunciar antes que o pior aconteça?
02:54Então, primeiro, a gente trabalha muito com informação
02:58para ela entender que ela está passando por um ciclo de violência
03:03ou pode ser vítima de alguma violência doméstica, sexual, psicológica, emocional.
03:10Então, a gente trata muito de ouvir e de dar espaço de fala também.
03:18Criar oportunidade para que elas possam falar e que a gente possa ouvir também.
03:22E passar as informações, que são os sinais de violência.
03:26A gente consegue prever um diagnóstico de um relacionamento tóxico,
03:31muitas das vezes.
03:32O alerta para as mães em relação ao comportamento dos filhos dentro de casa,
03:38no ambiente escolar, da vizinhança também.
03:41E a gente usa como ferramenta para isso o hip-hop,
03:45que a gente usa a cultura, a arte,
03:47para que a gente possamos levar esse entendimento
03:51e também possa acolher essas pessoas de uma forma cultural, social e política.
03:58Certo.
03:58Daniela, os especialistas são unânimes em dizer que esse número que aparece no anuário
04:03não representa a realidade.
04:05No entanto, é o maior da história.
04:08Isso também pode indicar que, por conta do empoderamento feminino,
04:11maior acesso à informação,
04:13as mulheres estão denunciando mais?
04:16Eu imagino que possa ser um dos motivos, sim.
04:19Mas, veja que interessante, assim,
04:21se a gente for pensar num aspecto mais amplo da situação,
04:26a gente vai dar de cara e entender, como bem disse a reportagem,
04:29que muitas dessas mulheres, elas são abusadas por pessoas que elas conhecem em casa.
04:34Então, veja que constrangimento.
04:37Não que essa mulher, ela é vítima e a gente,
04:40o nosso papel aqui é cada vez mais empoderar.
04:42Mas, psicologicamente falando, o impacto disso é altíssimo.
04:45Por quê?
04:47Imagina eu contar isso para alguém que eu fui abusada,
04:50e aí essa pessoa é conhecida,
04:52e aí eu imagino que você deva vivenciar isso lá,
04:56essa pessoa que realizou esse abuso, enfim,
04:59é uma pessoa conhecida, eu fico com mais vergonha,
05:01e quando eu atendo essas pessoas no consultório,
05:03eu percebo o seguinte,
05:05quando elas têm que contar,
05:06e aí, enfim, a primeira pergunta que elas ouvem é assim,
05:09mas como que foi?
05:11E aí você tem que descrever isso.
05:13E aí, às vezes, você chega numa delegacia,
05:14você tem que contar de novo, o que a gente chama de revitimização.
05:18Então, é um processo tão doloroso,
05:21e aí, pensando nesse processo que é doloroso,
05:24dá para a gente entender o porquê, às vezes, elas demoram.
05:26E aí, quando elas contam, aí a pergunta é assim,
05:28por que demorou tanto?
05:30Então, percebe?
05:31É culpa também.
05:31É isso, parece que assim,
05:33eu sempre tenho que me justificar enquanto vítima,
05:35e é isso que a gente tem que tentar tirar,
05:37porque não tem que ser esse o caminho.
05:39Perfeito.
05:40Laila, a gente vê que, no âmbito jurídico,
05:44estão acontecendo aperfeiçoamentos,
05:46a Lei Maria da Penha,
05:48aqui no Estado a gente tem o botão do pânico,
05:50mas, ainda assim, os números continuam muito assustadores,
05:54com a violência acontecendo dentro da própria casa,
05:57por um parente.
05:58O que você acha que a gente deve avançar ainda no âmbito jurídico?
06:03Boa tarde, Lucas.
06:05Boa tarde.
06:05Boa tarde a todos e a todas.
06:07Na verdade, eu creio que não é uma questão de avançar,
06:10é de fazer cumprir o que já existe.
06:13A Lei Maria da Penha, ela é bem completa.
06:15Nós temos leis que vieram para auxiliar, por exemplo,
06:19é um pouco absurdo você ter que fazer uma lei relativa
06:22à violência emocional, psicológica,
06:24sendo que existe na Lei Maria da Penha,
06:26no artigo, os tipos de violência.
06:29E por que isso teve que acontecer?
06:30Porque o próprio judiciário,
06:32que é um reflexo da nossa sociedade,
06:35não entende que existem outros tipos de violência
06:38na Lei Maria da Penha.
06:39E considera, quando se faz um boleto de recorrência,
06:42ou se faz um pedido de medida protetiva,
06:45ah, não houve violência física,
06:46então não houve violência.
06:47E muitas vezes, a doutora está aqui para me confirmar,
06:51a violência emocional e psicológica,
06:52ela pode ser muito mais chocante, traumatizante para a vítima
06:58do que a violência física, que também é muito ruim.
07:01Então, eu não entendo, Lucas, que falta,
07:03no sentido de ter mais leis,
07:05a gente precisa que o que existe seja cumprido de fato,
07:08não só pela nossa sociedade,
07:09mas pelas alegacias e pelos juízos.
07:11Perfeito.
07:13A gente, vendo os dados, observa
07:16o quão assustadora é a realidade nesse caso.
07:19São seis em cada dez casos,
07:21envolvem adolescentes, meninas de até 13 anos,
07:25crianças e adolescentes.
07:27Quatro em cada dez, o abusador é alguém da própria família.
07:31Mary, como é que funciona o trabalho de vocês?
07:34Como é que funciona para a mulher sair de um ambiente desse,
07:37sendo que é da própria família e na própria casa?
07:40Aí é uma das falhas do sistema, na verdade.
07:44Como a doutora falou sobre a lei Maria da Penha,
07:46é um dos ajustes que a gente precisa e que funcione.
07:50Que após a denúncia, ela também receba um acolhimento,
07:54onde ela pode se sentir segura e estável.
07:57A gente tem buscado lugares como a Casa da Mulher Brasileira,
08:02hoje a gente tem o Núcleo das Margaridas, em Cariacica,
08:06e a gente busca para a Vila Velha também,
08:08em um local, pelo menos, onde elas possam se localizar,
08:11se entender que é um lugar que possa trazer algum tipo de abrigo e segurança para elas.
08:17Enquanto isso, a gente vem se fortalecendo com ações de rede mesmo.
08:22São mulheres que conversamos com outras mulheres,
08:24que buscamos aluguéis,
08:26que nós mesmos, muitas vezes, levantamos campanhas
08:29e pagamos aluguéis para essas pessoas.
08:31A arrecadação de cesta básica, de alimentos, de roupa de cama,
08:35de tudo que você possa imaginar,
08:37para que a gente possa tirar essa mulher daquele ciclo de violência imediato,
08:44para que depois a gente possa sentar, conversar e organizar.
08:47Mas a primeira coisa que a gente pensa
08:49é realmente conseguir um outro lar para ela naquele momento.
08:53Então, a gente se ajuda com campanhas para doação,
08:56para arrecadação de dinheiro para poder pagar aluguel.
08:59Não sou eu sozinha,
09:01é uma rede de mulheres,
09:03não só a Nação Mulher,
09:04com outros projetos,
09:06como a Mulher Superando o Medo,
09:07que é um projeto ao qual a doutora aqui falou
09:11sobre a dificuldade em falar.
09:13Muitas vezes, esses projetos,
09:15as mulheres têm dificuldade até em entrar nesse projeto
09:18e medo que o próprio vizinho,
09:21ou as pessoas que estão em volta,
09:23descubra que ela está passando por esse ciclo de violência.
09:26Porque é vergonha ainda você passar por esse tipo de violência.
09:30Eu passei na infância, com os 14 anos de idade,
09:33eu fui contar aos 19,
09:36ou seja, levei 5 anos para contar
09:39que eu passei por uma violência sexual.
09:42E mesmo tendo uma família acolhedora,
09:45imaginou, às vezes,
09:46quando você não tem uma estrutura familiar.
09:48Mesmo que essa violência venha de fora da minha família,
09:51ainda levei 5 anos para poder falar.
09:53Então, a gente ainda tem que falar mais sobre isso,
09:58mostrar mais segurança.
09:59E de quando a mulher abrir a boca,
10:02a mulher não, a pessoa,
10:04porque muitos jovens, muitos homens,
10:06também sofrem violência de estupro.
10:08Muitas crianças, muito menino.
10:09Muitas crianças, de modo geral,
10:10crianças no modo geral,
10:13indiscutível do gênero,
10:14sofre.
10:15Então, ela tem que entender que o lar dela é seguro.
10:18E se a violência foi dentro do lar,
10:21que ela possa procurar que seja um CRAS,
10:23que seja um posto de saúde,
10:24que uma criança chegue na porta de um posto de saúde,
10:27que eu acho que tinha que ser referência,
10:28e falar, eu preciso de ajuda,
10:29ela ser acolhida imediatamente e ser ajudada.
10:32A gente precisa que esses instrumentos,
10:35essas unidades públicas,
10:36elas realmente sejam efetivas
10:39em relação à prevenção
10:41e também o atendimento imediato após essa violência.
10:44E um dado interessante dessa pesquisa
10:47é que foi revelado que,
10:50com a reabertura das escolas após a pandemia,
10:54o número de denúncias cresceu.
10:56Isso porque, Daniela,
10:58a gente está falando de crianças que sofreram abuso.
11:01Qual a importância de uma rede de apoio?
11:04Qual é a rede de apoio que seria ideal
11:06para ter esse tipo de acolhimento,
11:08como a Mary citou?
11:11Falando de criança, é um pouco mais difícil ainda, né?
11:13Porque a gente acabou de falar de mulheres
11:15que às vezes possam ter vergonha
11:17e que precisam se justificar.
11:19E aí a criança, o que eu consigo perceber é o seguinte,
11:23além desse ciclo que as mulheres passam,
11:25o que elas têm de pior ainda
11:28é o fato de se sentir culpada.
11:30Porque aí a criança, ela entende
11:32que ela pode ter sido culpada de alguma maneira,
11:36que ela fez com que aquela situação acontecesse.
11:40Então, de fato, ela precisa ter essa rede de apoio
11:43onde ela confie.
11:44E aí é muito difícil.
11:46Porque a escola precisa ser esse ambiente,
11:48mas alguém precisa também ser essa pessoa, né?
11:52Assim, familiar, enfim.
11:53E aí, qual que é o ponto, Lucas, assim,
11:55que eu falo muito,
11:56a gente aprende muito isso na psicologia.
11:58A hora que alguém te contar uma coisa
12:00muito assustadora que seja,
12:03o cuidado que a gente tem que ter
12:04em não fazer uma cara de muito susto.
12:07Porque aí a hora que eu conto para alguém,
12:08alguém faz...
12:09Aí eu já paro de falar ali,
12:10porque eu assustei essa pessoa,
12:12eu falo, nossa, então não posso nem contar o resto,
12:14porque se ela já se assustou com esse início...
12:16Então, a dica que eu dou normalmente é,
12:19tente, que eu não estou falando que é fácil,
12:21mas se você for essa pessoa que for procurada
12:24e ouvir um relato assustador,
12:26tente manter o semblante,
12:28na medida com que for possível,
12:30mais ameno, para que você dê abertura,
12:32para que a outra pessoa consiga continuar falando.
12:34Lembra sempre disso.
12:35Comecei a contar, a pessoa fez...
12:37A tendência é que eu falo,
12:39eu vou travar e vou parar.
12:40Não é fácil, tá?
12:41Porque às vezes o relato é bem pesado,
12:43mas seja essa pessoa na qual,
12:44principalmente as crianças,
12:46podem confiar, possam confiar,
12:48porque elas têm muita dificuldade.
12:50Bem, Laila, hoje,
12:52a gente fala muito que algumas mulheres,
12:55muitas,
12:56sequer chegam a denunciar,
12:58têm medo, têm vergonha,
12:59cada uma tem o seu motivo,
13:00é dependente do parceiro.
13:01No entanto,
13:03as pessoas que vivenciarem
13:05ou tiverem alguma suspeita dessa situação,
13:07podem denunciar
13:08e, a partir daí,
13:09começar uma investigação criminal, não é?
13:12Como é que você vê essa questão, assim,
13:14às vezes,
13:15a própria família ou amigos
13:16que sabem dessa situação
13:17e denuncia,
13:19já que a mulher não tem a coragem
13:21ou por qualquer motivo não faz a denúncia,
13:24qual a importância de alguém
13:25realizar essa denúncia,
13:26mesmo que não seja vítima,
13:28para dar prosseguimento a uma investigação?
13:30É fundamental.
13:31Porque, muitas vezes,
13:32pode estar salvando uma vida.
13:34Que hoje a gente fala
13:35do espiral da violência, né?
13:37Que é o termo mais utilizado hoje,
13:39que é a violência que começa com xingamento,
13:41com um empurrão,
13:42com uma proibição,
13:44até chegar à violência física.
13:45E, da violência física,
13:46o extremo que é o feminicídio.
13:48Então, muitas vezes,
13:49o vizinho, a vizinha,
13:51a familiar,
13:52a amiga,
13:52que busca a polícia,
13:54busca um 81
13:56ou um 90
13:57para fazer,
13:58ou um 80
13:58para fazer esse tipo de relato,
14:00pode estar salvando,
14:01não só a vida da mulher,
14:03que é muito importante,
14:04mas das próprias crianças,
14:05que, geralmente,
14:06as mulheres têm filhos menores,
14:08crianças e adolescentes,
14:09que também estão sendo traumatizadas
14:11por essa situação.
14:12Então,
14:12é uma importância fundamental
14:14para que a gente consiga mudar
14:16essa realidade,
14:17com certeza.
14:18Olha,
14:19o anuário também especifica
14:20que 56%
14:22das vítimas de estupro
14:24são mulheres negras.
14:27E a Meire,
14:28que atende em Vila Velha,
14:29justamente na região 5,
14:30que é uma região bem carente
14:31do município de Vila Velha,
14:33não é, Meire?
14:33Qual que é o perfil das mulheres
14:35que vocês atendem?
14:37Então,
14:38normalmente,
14:38são mulheres,
14:39muitas vezes,
14:40que estão desempregadas,
14:42com mais de dois filhos,
14:45e a dependência financeira
14:47do marido,
14:48ou a vulnerabilidade social
14:50mesmo da própria família.
14:53Assim,
14:54é um número muito grande.
14:55E Barra Mares,
14:57que é o bairro
14:57onde eu moro,
14:58ao qual eu vivo,
14:59sou liderança comunitária,
15:01hoje,
15:01o número de violência registrada
15:03em Vila Velha,
15:04Barra Mares só perde
15:05para a Praia da Costa.
15:06Mas,
15:07quando você fala
15:07sobre o feminicídio,
15:09fala sobre a conclusão
15:11da violência,
15:13Barra Mares,
15:13ela supera esse número.
15:16Então,
15:17a gente vê
15:17uma controvérsia
15:18das mulheres negras
15:20e vulneráveis
15:21e também mulheres
15:23de elite,
15:24mulheres brancas
15:25que também sofrem
15:26essa violência.
15:27Mas,
15:28o término,
15:28o fim da violência,
15:30a conclusão da violência,
15:32a página que a gente
15:33não é o ponto final,
15:34a gente é três pontos
15:36depois do feminicídio,
15:37porque a gente fica
15:38com os filhos
15:38do feminicídio.
15:40Normalmente,
15:40essas mulheres
15:41são mães
15:41e a gente fica
15:42com essa demanda ainda,
15:44se a violência
15:45continua nesse ciclo.
15:46Ela continua doendo,
15:47ela continua sendo traumatizada.
15:49Mas,
15:49normalmente,
15:51infelizmente,
15:53esse ciclo,
15:53há alguns anos atrás,
15:54eu poderia te falar
15:55que eram mulheres
15:56que não tinham
15:57ensino médio completo.
15:58Hoje,
15:58a gente já passou,
16:00hoje são mulheres
16:00que estão formadas
16:01e elas ainda
16:02sofrem violência.
16:04A gente ainda tem
16:05mulheres que têm
16:06muita dificuldade também
16:07a acesso até
16:08à unidade de saúde.
16:09São um perfil também
16:10de mulheres que sofrem
16:10violência.
16:11Até porque,
16:12quando a gente consegue,
16:14principalmente,
16:15ao psicólogo,
16:16consegue conversar,
16:18é um pouco mais fácil
16:19de você sair
16:20desse ciclo de violência
16:22e não chegar assim
16:22no final,
16:23que é uma das demandas
16:25muito grandes
16:25do SUS,
16:26que eu acho que ainda
16:27falta muito para suprir.
16:29E, como a amiga falou,
16:31você saber com quem você fala.
16:33A pessoa que te ouvir,
16:35saber te ouvir,
16:36é muito importante.
16:37Claro.
16:38Lê.
16:38Olha,
16:39a Maricilda Borges,
16:40nossa telespectadora,
16:41comenta,
16:42o que mais dói
16:43é ser abusada
16:44por pessoas conhecidas
16:46e, principalmente,
16:47por pessoas
16:48da própria família.
16:50É muito doloroso,
16:52asqueroso
16:53e triste.
16:54Do ponto de vista
16:55psicológico,
16:56o estupro
16:57é uma ferida
16:58que não cicatriza?
17:00É.
17:01E os impactos
17:02são gigantes,
17:04eu diria.
17:04porque, veja,
17:06você foi abusado,
17:07então, assim,
17:08alguém fez algo
17:10que para você
17:10é muito íntimo, né?
17:12E aí,
17:13a dificuldade que você tem
17:14depois de confiar
17:15em alguém,
17:16principalmente se for,
17:17se o abuso
17:18tiver sido realizado
17:18por pessoas conhecidas,
17:20é ainda mais difícil.
17:22E pior ainda
17:23se a pessoa abusada
17:24for uma criança, né?
17:25Porque aí eu cresço
17:26e falo,
17:26bom,
17:27eu não posso confiar
17:28em quem está dentro
17:28da minha casa,
17:29eu cresço em uma pessoa
17:30com dificuldade
17:31de me relacionar
17:31e olha que interessante,
17:32eu já percebi
17:34no consultório
17:34pessoas que foram abusadas
17:36que desenvolveram,
17:38desencadearam
17:38transtorno alimentar.
17:39Por quê?
17:41Inconscientemente falando,
17:42a pessoa pode entender assim,
17:43bom,
17:44eu não quero mais
17:44atrair ninguém,
17:45eu não quero mais
17:46ficar atraente,
17:47então eu vou comer muito,
17:49porque talvez,
17:50dessa maneira,
17:51o que não tem nada a ver, né, gente?
17:53Cada um se atrai
17:53por um corpo diferente,
17:56enfim,
17:56mas inconscientemente,
17:57a pessoa entende assim,
17:59eu preciso fazer algo
17:59para que eu não seja atraente
18:01e aí, além da possível
18:03compulsão alimentar,
18:04ou o contrário, né,
18:05anorexia, bulimia,
18:06também tem o afastamento
18:09do autocuidado,
18:10que diferente do que a gente
18:11pensa,
18:11o autocuidado
18:12não é algo fútil, sabe?
18:14A gente precisa se cuidar
18:15até para se sentir bem,
18:16então assim,
18:17eu percebo muito
18:18esses impactos
18:19nessas pessoas
18:20que foram abusadas.
18:21E nesses reflexos
18:23são mais graves
18:24quando a gente fala
18:24de estupro de crianças?
18:26É, infinitamente mais,
18:28justamente porque
18:29ela cresce com essa percepção, né,
18:30de que, bom,
18:31então eu não posso confiar
18:32em ninguém,
18:33aí vira por vezes, né,
18:35não sempre,
18:35a psicologia nunca tem sempre, né,
18:37mas muitas vezes
18:39ela pode ser essa pessoa
18:40que não confia em ninguém,
18:41assim, nenhuma maneira,
18:42assim, por que será
18:43que o Flano está me dando
18:43um copo de água?
18:44Não, essa pessoa aqui
18:46está exagerando.
18:47Então, ela cresce
18:48e aí, por vezes,
18:49tem dificuldade de se relacionar,
18:51né, de construir uma família,
18:52porque o impacto,
18:53como eu disse,
18:54ele é quase que irreparável,
18:55se você não buscar tratamento
18:57ou se você não tiver
18:58uma rede de apoio.
18:58Laila, eu queria que você
19:00falasse um pouquinho
19:01como funciona
19:02o procedimento
19:03e o acolhimento
19:04da justiça,
19:05principalmente essas vítimas
19:06mais pobres,
19:08mais humildes,
19:08que às vezes não tem um teto,
19:10uma criança que não pode
19:11ficar na casa
19:13da própria família,
19:14como que a justiça
19:15apoia nisso?
19:16Bem, principalmente
19:17quando tem a inserção
19:19do CRANS-CRANSV
19:20e do
19:21Conselho Tutelar, né,
19:23muitas vezes,
19:24quando a vítima,
19:25criança ou adolescente
19:27está numa situação
19:27de risco,
19:29busca-se a retirada
19:30imediata dela
19:32daquele local
19:33para que ela
19:34seja posta
19:35inicialmente em segurança
19:37e depois se busque
19:38entender qual é
19:39a melhor rede
19:40de apoio para ela,
19:41se seria algum familiar,
19:43um avô,
19:44a avó,
19:45um irmão,
19:45ou se, de fato,
19:46ela vai ficar
19:47numa instituição
19:48durante um certo período
19:50até que se compreenda
19:52se há
19:52a violência sexual,
19:55o abuso sexual,
19:55ou se
19:56há a possibilidade
19:58dela retornar
19:59para a casa dos pais
20:00ou de algum parente.
20:01Mas é importante
20:03também dizer, Lucas,
20:04que essa retirada
20:05do lado também
20:05é traumatizante, né,
20:07é uma situação
20:08onde a criança
20:09não consegue nem entender
20:11o que está acontecendo
20:11direito.
20:12Então,
20:13o que eu acredito
20:15e acredito que a doutora
20:16concorde
20:16e a Meire também
20:17é a tentativa
20:18de
20:21menor possível
20:22traumatizar novamente
20:23aquela criança
20:24que já passou
20:25por uma violência sexual,
20:26que é algo que,
20:26como a doutora disse,
20:27é quase irreparável.
20:29Então,
20:29pensar talvez
20:30outras formas
20:31de se fazer isso,
20:33de se colocar,
20:33de colocá-la em segurança,
20:35porque nem sempre
20:36a retirada dela
20:37do lar desta forma
20:38vai ser saudável
20:39para ela também.
20:40Mas o juizado,
20:42o juízo,
20:43geralmente acompanha
20:44todo o passo a passo.
20:46Há uma denúncia
20:47ao Conselho Tutelar,
20:49e se faz um acompanhamento
20:50até psicosocial
20:51daquela criança
20:52para se entender
20:53como isso está se refletindo
20:54na vida dela
20:55e quais os tratamentos
20:56necessários.
20:57É um assunto
20:57muito pesado,
20:59mas necessário.
21:00E a gente está aqui
21:01para debater esses números
21:03e discutir
21:04como reduzi-los
21:05e também empoderar
21:06a todas as mulheres
21:08que estão assistindo,
21:09às vezes não é nem
21:09vítima de estupro,
21:11mas conhece alguém,
21:12está vivendo um relacionamento
21:14abusivo,
21:14um relacionamento tóxico.
21:16denuncie,
21:17denuncie mesmo.
21:18Muito obrigado,
21:19Meire,
21:19pela sua participação
21:20conosco, viu?
21:21Obrigado também
21:22a Laila,
21:23obrigado a Daniele
21:23pela participação.
21:24É um debate
21:25que a gente precisa fazer
21:26sempre aqui
21:27no nosso estado,
21:28no Falex,
21:29que está sempre
21:29de portas abertas.
21:30Obrigado, meninas.
21:31Obrigado,

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