00:04Era uma vez um homem que dizia amar demais.
00:08No começo, ele sempre foi muito possessivo, ciumento, controlador, né?
00:14Só que a gente, no começo, a gente não vê isso como uma agressão, uma agressão psicológica.
00:24Acabou o conto de fadas.
00:27Ele me controlava pelo telefone, ele sabia o horário que eu entrava, que eu saía, e o horário da igreja,
00:32tudo isso ele me controlava, em tudo.
00:34Eu não poderia ter amizade, né?
00:37Então, quando ele chegava em casa do serviço, só de eu ouvir ele chegar, o barulho dele chegar, meu coração
00:43disparava.
00:44Eu entrei em depressão.
00:48O príncipe virou um monstro.
00:50Ele me empurrou, começou a me xingar de tudo quanto é nome, até a minha filha também, ele me empurrou.
00:56Aí ele saiu de casa, ele saiu, ficou dois dias fora de casa.
01:00Chegou numa terça-feira, ele chegou, a gente ficava discutindo, e as pessoas chamaram a polícia, a polícia apareceu, e
01:09a gente foi parar na delegacia.
01:10Eu fiquei lá até três horas da madrugada, dando meu depoimento de tudo que aconteceu, e eu vim embora.
01:18Nisso que eu vim embora, eu fui dormir, e ele saiu de lá às seis horas da manhã.
01:23Quando já era sete horas, ele já estava lá em casa, quebrando o cadeado com uma cavadeira.
01:30Aí eu peguei, entrei na frente, com ele com a cavadeira, para poder proteger meus filhos.
01:37Aí ele pegou, veio com a cavadeira para cima de mim, acertou meu olho.
01:43Eu olhava, eu via o jato do sangue vindo na minha mão.
01:52O relacionamento abusivo, de 13 anos, terminou com o ex-marido cegando o olho esquerdo de Daniela.
01:58Ele foi preso, condenado a quatro anos de prisão.
02:01Ficou um ano, está solto por aí.
02:03E a mulher, que antes era sorridente, feliz, hoje vive escondida, apavorada.
02:08A gente tenta vencer um dia após o outro.
02:11Porque tem dias que eu amanheço bem, mas tem dia que eu entro muito em depressão.
02:19Essa história cruel, dramática, revoltante, aconteceu em 2017.
02:25Mas até hoje, ela se repete em muitos lares capixabas.
02:29Milhares de mulheres continuam sendo vítimas da violência doméstica,
02:33que não parou durante essa pandemia.
02:36Pelo contrário, muitos especialistas alertam.
02:39Com os casais passando mais tempo dentro de suas casas,
02:43é preciso redobrar a atenção com sinais.
02:49Primeira coisa, agressão não é só física.
02:52Posse, controle, ciúme exagerado, liga o alerta.
02:55É muito comum o controle do celular, o controle das redes sociais,
03:00querer saber com quem se está falando.
03:03Homens que ligam uma vez e não são atendidos,
03:06ligam duas vezes e não são atendidos, ligam 60 vezes e acham que isso é normal.
03:10E mulheres que ficam até tensas, que não puderam atender.
03:13Isso não é amor, isso é controle, isso é abuso.
03:19Priscila viu o casamento dos sonhos virar pesadelo.
03:22Eu mesmo sou testemunha, sair de um relacionamento em que sofria violência doméstica,
03:29todo tipo de violência é ruim, mas também a violência psicológica,
03:35traz para a mulher um desgaste muito grande.
03:41Joana não percebeu os sinais, até que o ex-marido tocou fogo na casa.
03:45A pessoa que queimou toda a minha casa, me deixou só com a roupa do corpo,
03:50então eu tenho que ter medo dessa pessoa.
03:52Eu vejo muito falar sobre campanha contra a violência e tudo mais,
03:57mas eu não senti assim nenhum momento acolhido por ninguém.
04:03De janeiro a maio deste ano, 6.612 mulheres registraram um boletim de ocorrência,
04:09mas a delegada da Divisão de Proteção à Mulher explica que muitas não fazem isso.
04:14Nesse momento, as vítimas, por vezes, estão vivendo um momento de fragilidade emocional,
04:21até, por vezes, dependência emocional.
04:23Além disso, uma proximidade muito grande com os autores da violência que elas estão sofrendo,
04:30o que pode, por vezes, dificultar a denúncia por parte dessas mulheres.
04:38E se você foi mais uma vítima, não tenha medo.
04:42Ligue 190, ligue 181, procure uma delegacia especializada.
04:47O plantão especializado na mulher da região de Bolivar está funcionando normalmente.
04:51Temos o plantão 24 horas e as delegacias atendendo as vítimas de violência doméstica de 8 a 18 horas.
05:01Em 2020, a Justiça já expediu quase 4 mil medidas protetivas de urgência.
05:08É aquela que proíbe o agressor de chegar perto da vítima.
05:12A juíza, responsável pela Coordenadoria Estadual da Mulher em situação de violência doméstica e familiar,
05:18diz que é preciso estar sempre alerta.
05:20Muitas das mulheres, eu já tenho percebido isso, elas não identificam que elas estão sofrendo violência doméstica.
05:28São uma coisa que me impressiona muitas vezes das audiências.
05:33Elas dizem, algumas delas, não, eu não fui agredida, eu não fui violentada.
05:41Então, para elas é como se fosse só agressão física.
05:46Mesmo com o trabalho da Rede de Proteção, muitas vezes essas histórias acabam em tragédia.
05:52Feminicídio.
05:53Até maio deste ano, foram nove aqui no Estado.
05:58Luzetana hoje vive segura, fora do país, mas sentiu toda a dor da violência doméstica.
06:04Tive sofrimento psicológico e fisicamente por uma pessoa com quem eu vivi há 40 anos,
06:11o pai dos meus filhos, e não tive ajuda.
06:15Os vizinhos não se envolviam com medo de repressão.
06:18Graças a Deus, hoje eu estou salva.
06:20Estou nos Estados Unidos, um país onde me acolheu e onde eu me sinto segura.
06:26Vidas marcadas pela violência de companheiros.
06:30Não deixe sua história ser mais uma.
06:33Primeiro, a mulher tem que se amar, porque para ela ver esses sinais, ela tem que se amar.
06:40Então, fico alerta, amor não tem nada a ver com violência.
06:45Achava que ciúmes era sinal de amor.
06:48Ciúme possessivo não é sinal de amor.
06:51Que a mulher, ela venha reparar a maneira que ele age com ela, com palavras.
06:55Porque eu creio, eu creio não, eu tenho certeza que a partir do momento que ele começa a agredir com
07:01palavras,
07:02menosprezar, deixar a mulher, não valorizar a mulher, não ver que ela é uma pessoa especial, preciosa para ele.
07:11E quando começa a agredir com palavras, menosprezando, posso ter certeza que não vai ter futuro bom.