- há 11 minutos
Ausência afetiva na relação pais e filhos
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00:00O astro de Hollywood, Tom Cruise, é um dos assuntos mais comentados dos sites de notícias desta quinta-feira.
00:08É que a imprensa americana descobriu que Tom Cruise não vê a filha, a Suri, há 10 anos.
00:15Gente, eu disse há 10 anos.
00:18Eles não têm contato algum, não se falam nem por telefone.
00:23O único vínculo que o ator tem com a Suri, que hoje está com 16 anos, é o pagamento da
00:30pensão de 2 milhões de reais.
00:33O Tom Cruise também assumiu no divórcio com a mãe da menina, a Kate Holmes, que vai pagar a faculdade
00:39da filha.
00:40Apesar dele pagar a pensão, o vínculo afetivo é tão importante para as crianças e isso não existiu.
00:48Não existe desculpa para essa ausência.
00:51E a gente sabe que essa é a realidade de muitas crianças, de muitos adolescentes e quantos adultos.
00:59Vamos bater um papo sobre esse assunto?
01:01Aqui no nosso estúdio eu recebo Elza Leite, psicóloga.
01:04Obrigada pela sua participação.
01:06Boa tarde.
01:07E também, gente, o Tiago Freitas da Silva, que só foi conhecer o pai aos 11 anos.
01:13É isso, Tiago?
01:14Boa tarde.
01:14Seja bem-vindo, viu?
01:16Conheci meu pai com 11 anos de idade.
01:18No começo eu morei com minha avó há um grande período.
01:20E depois, com os 11, eu passei a morar com minha mãe e sempre tive a vontade de saber quem
01:25é meu pai.
01:26Sempre desejo de toda criança que não tenha um pai ausente de saber quem é ele, né?
01:30E aí eu conheci ele com meus 11 anos de idade.
01:34A gente bateu um papo super bacana, mas nunca guardei nenhuma mágoa dele.
01:38Mas sei que isso são situações de diversas crianças, diversos adolescentes do Brasil inteiro,
01:44que tem um pai ausente e não tem o afeto de um pai.
01:47E eu sempre quis saber, sempre quis sentir o amor de um pai.
01:52Só que eu tive meu avô também, que faleceu.
01:55E ele sempre fez o papel de pai e vô.
01:57E minha avó também fez o papel de mãe e vó.
02:00Mas depois eu fui morar com minha mãe.
02:02E sempre tive esse desejo, saber quem é meu pai.
02:05Caraca, todo mundo via as crianças com o pai, brincando, jogando bola com o pai.
02:10E eu nunca tive isso, nunca tive esse amor.
02:14Então, eu sempre procurei saber, sempre corri atrás, desde pequenininho.
02:18Sempre perguntava pra minha avó, me leva pra conhecer meu pai, quem é meu pai?
02:21Aí ela sempre me enrolava um pouquinho.
02:23Quando eu cheguei meus 11 anos de idade, ela me levou pra conhecer meu pai.
02:26A gente conversou, aí ele se explicou, eu conversei com ele.
02:30Mas hoje em dia, atualmente, a gente tem uma relação bem saudável, graças a Deus.
02:34Atualmente, a gente conversa, a gente troca um diálogo bacana.
02:37E acredito que muitas pessoas que não conhecem o pai,
02:42tem aquele ainda desejo no fundo do coração de saber quem é o pai.
02:46Como é que foi pra você, na época, conviver com essa ausência?
02:51Então, como eu disse, eu sempre quis saber, desde criança, quem era meu pai.
02:57Mas nunca fui, sempre fui muito feliz.
03:00Minha infância toda, sempre fui uma criança muito feliz.
03:02Então, nunca fiquei, como colocar assim, na depressão de não conhecer ele.
03:09Então, eu sempre falava com minha avó, que eu queria saber quem era ele.
03:14E aí, desde então, ela me levou pra conhecer ele.
03:16Mas eu nunca fiquei triste por essa situação.
03:19Claro que eu sempre tive aquele desejo de saber quem é ele.
03:21Mas nunca passei mal ou uma coisa do tipo assim.
03:24Quando chegava aqueles momentos que a gente sabe, né?
03:26Que é o que mais preocupa a família, festa de escola, datas comemorativas.
03:32Como é que você se sentia, Tiago?
03:34Aí, nessas datas, assim, eu ficava bem triste.
03:37Dia dos pais, eu ficava bem triste.
03:38Ainda mais quando eu via as crianças na sala de aula, na época que eu estudava,
03:42fundamental, e as crianças faziam bilhetinho.
03:45Papai, te amo.
03:47E essas coisas, eu não podia fazer isso.
03:49Mas aí, eu mandava pra meu avô, mandava pra minha avó, que fazia papel de mãe e pai também.
03:57Então, eu me desenvolvia nisso.
03:59Eu não mandava pra ele, porque eu não conhecia ele, mas mandava pra algum parente meu.
04:03Pro meu avô, pra minha avó.
04:05Elza, essa ausência afetiva, né?
04:08O que isso pode trazer de consequências, tanto na vida da criança e até mesmo depois, na vida adulta?
04:15Boa tarde.
04:16Boa tarde.
04:17Seus espectadores, a ausência paterna, ela pode gerar uma baixa autoestima na criança,
04:24ela pode se sentir rejeitada, ela pode ter dificuldade na vida adulta de gerar vínculo com as pessoas,
04:30de confiar nas pessoas.
04:31Então, a figura paterna, ela é muito importante, por quê?
04:35Porque ele vai ajudar essa criança a construir uma identidade, a personalidade.
04:39A criança precisa de referências comportamentais, uma referência moral, uma referência familiar, religiosa.
04:47Então, quando ela não tem isso, ela fica sempre com a sensação de que algo ali faltou.
04:52E é uma eterna busca.
04:53Você vê que ele tentava compensar, mandando o bilhetinho pro avô.
04:56Ele ainda foi abençoado de ter esse contato com o avô e tentar fazer essa transferência de papel e de
05:03sentimento.
05:04Mas muitas crianças não têm essa oportunidade e crescem se sentindo vazias mesmo.
05:10Por quê?
05:10Porque parte de nós faz parte do nosso pai.
05:13A gente foi feito por quê?
05:15Porque um homem e uma mulher se uniram e informaram uma criança.
05:20Então, é muito importante assim.
05:22Agora, olha só o comentário da Denise Barros.
05:25Ela participa com a gente, diz que conhece várias histórias assim, inclusive vive uma.
05:31E ela diz que jamais vai entender o que acontece com um ser humano que não dá amor ao filho.
05:37Ela até solta essa pergunta no ar.
05:39Será uma doença?
05:40O que justifica esse abandono?
05:43Olha, a gente não pode julgar, mas assim, a nossa parentalidade, que é o papel de pai e mãe, ele
05:48é constituído desde a nossa infância.
05:50A maneira com que a gente foi tratado pelos nossos pais, modela muito o pai e a mãe que a
05:55gente vai ser para os nossos filhos.
05:57Então, uma série de fatores pode gerar um abandono afetivo.
06:01Que inclusive, gente, é crime, tá?
06:03Crime.
06:04Então, assim, por exemplo, vamos pegar o caso do Doutor Cruz.
06:07Foi um exemplo.
06:07Ele tem uma tentativa de punir o outro progenitor.
06:11Por quê?
06:11Porque a separação foi uma separação conflituosa.
06:14E a menina não segue a religião que ele acha correta.
06:18Então, tem uma distância muito grande, né?
06:20Entre o filho que eu idealizei e o filho que eu de fato tenho.
06:24E aí, quando eu vejo que aquele filho não está cumprindo os meus sonhos, as minhas idealizações, tudo que eu
06:30planejei para ele.
06:30Ele tem outra religião, ele escolheu outra profissão.
06:33Eu começo a me afastar.
06:34Por quê?
06:35Porque eu não dou conta de lidar com a frustração.
06:37Desse filho real.
06:39E aí, eu quero punir a mãe, eu quero punir o pai, eu faço esse afastamento.
06:44Aí tem a questão também dos traumas infantis, questões financeiras.
06:48Tem a questão da irresponsabilidade mesmo de fazer filho achando que filho é qualquer coisa que se pode descartar.
06:57Então, são inúmeros fatores.
06:59E olha só, vou convidar agora aqui para esse nosso bate-papo a Raquel Seulim, que só conheceu o pai
07:04aos 12 anos.
07:05É isso mesmo, Raquel?
07:06Boa tarde.
07:09Ei, boa tarde.
07:11Boa tarde.
07:12Conta para a gente como é que foi viver até os 12 anos com essa ausência paterna.
07:20Então, desde muito pequena, eu fui criada pelos meus avós e eles me deram o amor que eu não tive
07:28do meu pai.
07:29Quando eu fiz 12 anos de idade, eu fiquei perguntando para minha mãe quem era meu pai, porque eu via
07:35todo mundo com pai e menos eu com pai.
07:38Na realidade, eu chamava o meu avô de pai, porque eu via minha tia chamando ele de pai, mas eu
07:43sabia que ele era meu pai.
07:45Enfim, ela me falou onde ele morava e eu fui procurar ele.
07:50Procurei, tivemos um bate-papo saudável na época, mas eu vi que ali não havia amor entre o pai com
07:59a filha.
07:59Aí aquilo ali me deixou um pouco frustrada e eu meio que deixei de lado.
08:05Mas foi muito importante eu conhecer ele naquele momento da minha vida, porque marcou, né?
08:12Marcou minha infância, marcou minha vida, é minha história, é minha vida, meu pai.
08:16E essa frustração deixou algum trauma na sua vida?
08:21Então, até eu entrar na justiça e querer saber realmente que ele era meu pai, eu fiquei um pouco traumatizada
08:30na época.
08:31Mas depois, graças a Deus, com muito carinho da minha família, da minha mãe, da minha avó, do meu avô,
08:38eu superei tudo aquilo ali.
08:40Mas eu não tive, assim, um resultado com sucesso, porque ele que meio que não quis se envolver comigo.
08:50Apesar dele ter uma situação financeira muito boa, eu esperava, assim, como é meu pai, ele vai me ajudar.
08:57Eu era uma criança, né?
08:59Uma criança precisa de todo o cuidado, de todo o carinho.
09:02A criança tem que ter dos pais o melhor dessa vida, né?
09:07E como eu não tive nada daquilo, meio que eu fui forte, que eu não me deixei, não me deixei
09:16me abater pela situação.
09:18E graças a Deus, eu superei.
09:20Hoje ele vive lá, eu vivo aqui.
09:23E que Deus abençoe a vida dele, sempre.
09:26Que bom, Raquel, que você conseguiu superar isso, né?
09:29Porque o tempo é algo que a gente não consegue mais recuperar.
09:32Agora, você trouxe uma fala importante, que eu percebi que também vai de encontro com a fala do Tiago, que
09:38está aqui no estúdio com a gente.
09:40Tanto seus avós, e os avós também do Tiago, tentaram suprir isso, né?
09:45Dar todo o amor e carinho, que sabiam que tinha uma lacuna, a linha aberta.
09:50E a gente se pergunta, vou trazer essa pergunta aqui pra Elza, que é a psicóloga que está com a
09:54gente no estúdio,
09:55de que forma que a família pode ajudar nesse processo.
10:00Tem famílias que não sabem se conta a verdade.
10:02Tem famílias que falam assim, não sei com quantos anos que eu devo contar isso.
10:07Se eu abro o jogo, se não abro.
10:10E se tenta suprir ou não.
10:13Porque o lugar do pai, ninguém consegue, né Elza, assim, preencher completamente aquilo.
10:19É importante a gente colocar aqui, as relações familiares, elas se dão pelos laços de afeto, e não de fato
10:26pelos laços de sangue.
10:28Então, quando falta figura paterna e os avós cobrem essa lacuna que ficou, é muito importante que essa criança receba
10:35apego seguro.
10:36Seja dos pais ou seja dos cuidadores.
10:39Mas assumir o papel de pai nessa hora, isso ajuda ou atrapalha?
10:43Ajuda, porque é melhor ele ter uma rede de apoio familiar do que ele não ter ninguém.
10:47Só que a gente precisa ser transparente com a criança, tendo cuidado de ser ético com ela.
10:53Como é que você chega para uma criança e fala, ó, seu pai não te quis.
10:56Seu pai era um cafajeste, me abandonou grávida e não quer nem saber quem é você.
11:00Vai machucar, vai ferir.
11:02No tempo oportuno, a criança, se tiver essa necessidade, ela vai atrás da história.
11:06A gente tem que ter cuidado para a gente não transformar a realidade numa alienação parental.
11:11Que é quando você tenta formar na criança uma ideia sobre o outro progenitor, muito concreta ou até irreal mesmo.
11:21Então, assim, vai com cautela, conta devagar.
11:24Na medida que a criança for crescendo, você vai abrindo mais.
11:27Olha, o seu pai não faz parte da nossa vida, mas ele foi importante para a sua existência.
11:32Ele foi a via que Deus, né, se vocês quiserem utilizar, que o universo utilizou para que você chegasse.
11:41Ele fez parte da sua existência.
11:43Não quer dizer que ele tenha que fazer parte da sua vivência completa.
11:48Entendeu?
11:49Deixa eu ver agora aqui com o Tiago.
11:50Como que está hoje, Tiago, a sua relação com o seu pai?
11:54Hoje em dia, como eu tinha dito, eu e meu pai, a gente tem uma relação bem saudável.
11:58A gente não se encontra diariamente, a gente não conversa diariamente, mas a gente não tem nenhuma mágoa dele e
12:08nem ele de mim.
12:09A gente tem uma relação muito boa, só que a gente não tem um contato constante.
12:15A gente não conversa muito.
12:19Eu não tenho ele registrado no meu nome, não tenho o sobrenome dele.
12:23Isso é uma questão que ele também pontua, só que ele não conclui a fala dele.
12:30Só que eu já vou fazer 20 anos de idade e acredito que se eu fosse um pouco mais menor,
12:38se eu tivesse uns 10 anos ainda, uns 10 anos, 14 anos, 15 anos, eu iria me importar muito com
12:44isso.
12:45Mas, maturidade, a gente cresce e a gente acaba entendendo o lado, o lado dele, o lado da minha família
12:52também, de, no passado, preservar essa situação toda.
12:58No caso que a gente estava falando aqui com a Raquel, ela falou de frustração, né?
13:05Isso a mulher pode levar para a vida adulta?
13:08Já ouvi essa história e eu queria até que você desmistificasse, Elza, e ela tentar encontrar, até mesmo no companheiro,
13:15essa figura paterna?
13:17Sim, a gente pode buscar os nossos pais e os nossos cônjuges.
13:21Isso vale para o homem e vale para a mulher, tá?
13:23Então, é muito comum as mulheres muito novas se relacionarem com homens mais velhos, uma relação de poder.
13:30É muito comum, sim, você buscar, depositar no seu cônjuge a expectativa de um cuidado muito mais paternal do que
13:38propriamente da parceria do casamento.
13:40Então, isso pode acontecer com certeza.
13:42O que falta na gente, Roberta, a gente vai sempre buscar aquilo que não é elaborado, Freud dizia, se repete.
13:51E nunca é tarde, Elza, para um pai que está agora acompanhando essa entrevista aqui, tentar resgatar esse laço com
13:58o filho?
13:59De jeito nenhum, sempre é tempo, sempre é tempo.
14:02Se você tem aí um peso, né, de não ter conseguido naquele tempo dar acesso, dar acessibilidade ao seu filho,
14:09ter o seu contato, fazer o seu papel de pai, tenta agora.
14:13Você está mais maduro, está mais reflexivo.
14:16É melhor você tentar do que partir dessa vida daqui com essa pendência.
14:22A gente precisa partir para as tentativas, para o enfrentamento da coragem, abandonar às vezes os nossos medos, né?
14:29Olha, para finalizar o nosso assunto, eu recebi aqui um depoimento muito forte.
14:33Eu acho que isso serve como reflexão, tem uma mulher que participa com a gente falando que ela cuida de
14:39uma neta que hoje está com 13 anos,
14:41o pai apenas dá a pensão.
14:44E aí, isso porque ela acionou a justiça.
14:46E infelizmente, essa criança está crescendo revoltada, tem hora que não sabe mais como agir com ela,
14:53ela se sente inferior, na escola está sempre sendo atacada por não ter pai.
14:58Ela está aqui falando que isso traz um problema sério.
15:01Então, acho que isso, né, a gente pode parar para refletir quem que você está contribuindo,
15:08de que forma que você está contribuindo para a vida dessa pessoa, né?
15:12Que é o seu filho ou a sua filha.
15:15Obrigada, Elza.
15:16Eu que agradeço a oportunidade.
15:17Pela sua participação.
15:18Tiago, obrigado por você abrir sua vida aqui para a gente também.
15:21É um prazer.
15:21E que você consiga preencher, né, com cada vez mais uma relação saudável entre você e seu pai,
15:27assim como a Raquel e muitos outros que estão acompanhando a gente.
15:29Beijo, Raquel.