00:0014 anos é exatamente o tempo que eu tenho de profissão, tive já o privilégio de entrevistar a própria Maria
00:05da Penha,
00:06uma mulher aí que durante vários anos sofreu uma série de agressões, até perdeu o movimento das pernas.
00:14Tive a oportunidade de entrevistá-la pela Rádio Espírito Santo, pela TV Vitória e são 14 anos de muita luta.
00:21É uma lei aí que trouxe um pouco de alento, um pouco de segurança para as mulheres que são vítimas.
00:26Mas a gente que é da imprensa, a gente sempre fica batendo nessa tecla da importância da mulher denunciar.
00:33Então o que acontece? Muitas das vezes aumenta o número de mulheres que denunciam, mas não é porque tanto aumentou
00:39o número de agressão,
00:40mas sim o número de mulheres que se encorajam em denunciar seus companheiros.
00:45Muitas vezes dependência financeira, a mulher ainda acha que o homem vai mudar, mas para falar sobre esse assunto,
00:53nada melhor do que uma pessoa que trabalha com isso diretamente.
00:56Aqui ao meu lado, a delegada Michele Meira, ela que tem quase 10 anos que trabalha com o enfrentamento à
01:02mulher
01:03e hoje é gerente do enfrentamento à violência contra a mulher daqui da Secretaria de Segurança Pública.
01:10Doutora Michele, primeiramente, bom dia. Muito obrigado pela sua disponibilidade.
01:13Vim falar sobre esse assunto tão sensível.
01:1614 anos de lei Maria da Penha.
01:18O que a gente tem para comemorar nesses 14 anos?
01:21Mais uma vez, bom dia, doutora.
01:23Bom dia, bom dia a todos que estão nos assistindo.
01:27Não muita coisa a gente tem para comemorar, né?
01:29A gente comemora o fato da gente ter uma legislação.
01:33A lei Maria da Penha, ela é considerada uma das três melhores leis do mundo no combate à violência contra
01:40a mulher.
01:41Só que para o ordenamento jurídico, isso é muito recente, principalmente pelo que a lei, ela traz para a gente.
01:49Porque quando a gente pensa em ler, a gente pensa só em punição.
01:52E a lei Maria da Penha, ela não vê só a punição.
01:54É claro que é importante a punição.
01:56A lei Maria da Penha trouxe luz, né?
01:59E mudou a punição aos crimes cometidos contra a mulher, que antigamente terminava em cesta básica, como eu dizia.
02:06Hoje em dia mudou essa perspectiva.
02:09Só que a gente precisa muito avançar ainda em políticas públicas eficientes, que cheguem a todas as mulheres do Estado
02:16do Espírito Santo.
02:18E a gente precisa avançar na prevenção dessa lei.
02:20Então, é a prevenção da violência contra a mulher.
02:24Então, eu acredito que um dos grandes desafios que a gente tem ainda é fazer a rede de proteção à
02:31mulher trabalhar integrada de forma que a segurança, a saúde, a assistência social, o judiciário, o Ministério Público,
02:41todos os órgãos que compõem a rede de enfrentamento trabalhem integrados.
02:46O Espírito Santo, Michele, já foi o Estado recordista em agressão à mulher, tanto que aqui foi o primeiro lugar
02:54a se criar uma delegacia específica de homicídios contra a mulher.
02:59Isso mudou um pouco esse panorama? O Espírito Santo deixou de ser o líder do ranking? Por que isso aconteceu?
03:08Então, nós já ocupamos o primeiro lugar de ser o Estado mais violento contra a mulher.
03:13Já fomos o primeiro Estado que mais mata as mulheres.
03:17No último Atlas da Violência, que saiu no ano passado, referente ao ano de 2017, nós estávamos em sétimo colocado,
03:25que também não é uma posição confortável.
03:28Mas acho que é importante que a gente, aqui no Estado, a gente reconhece o problema e por isso a
03:35gente enfrenta.
03:36Então, a gente necessita também ainda dar mais efetividade aos projetos que a gente tem.
03:43Aqui na Secretaria de Segurança, por meio das vinculadas, da Polícia Militar e Polícia Civil, a gente trabalha com projetos
03:51que visam garantir a aplicação da medida protetiva.
03:54A gente visa trabalhar com o homem agressor, fazendo com que ele mude também o seu pensamento, que é muito
04:01importante.
04:01Não adianta a gente só falar para a mulher denuncie e a gente não trabalhar com o agressor, porque violência
04:08é cultura e a gente precisa tirar a cultura da violência contra a mulher.
04:13E a gente também tem a Casa Abrigo, que é uma casa destinada a mulheres que estão em risco de
04:18morte.
04:19Então, ao longo de todo esse tempo da existência da Lei Maria da Penha, a gente vem avançando cada vez
04:26mais nas medidas, no combate.
04:29A Polícia Civil também criou uma divisão específica da mulher, que ela concentra todas as delegacias da mulher.
04:38Novas delegacias das mulheres foram criadas.
04:40Então, acho que a gente está caminhando, mas a gente sabe que tem muito a fazer ainda.
04:47Para a gente encerrar, tem que acabar com essa cultura de que o homem acha que é dono da mulher.
04:53Se a mulher não quer mais se relacionar, não é não, né doutora?
04:57Exatamente. A gente precisa mudar a cultura do homem achar que a mulher é um objeto dele.
05:02E que ela tem o direito em terminar esse relacionamento e seguir a sua vida da maneira que ela achar
05:07que melhor lhe convier.
05:08Nós nos relacionamos para crescer e para ter respeito entre as pessoas e não para serem violentadas.
05:17Tá certo, então, Eduardo Santos.
05:20Agradecer aqui a presença da doutora Michele Meira.
05:23Desde quando eu entrei aqui na TV, ela já estava à frente de alguma delegacia da mulher aqui da Grande
05:28Vitória.
05:29Hoje está aqui na CSP coordenando esse enfrentamento aí contra a violência à mulher.
05:36Você, mulher, que está assistindo aqui o Espírito Santo no ar, sofre qualquer tipo de violência.
05:40Seu companheiro forçou uma relação sexual, falou mais alto com você, apontou o dedo, acenda o sinal vermelho,
05:46corre e denuncie, porque o desfecho a gente sabe que nunca é tão positivo.