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  • há 6 horas
Especialistas debatem desafios para a preservação da floresta amazônica no Encontro Futuro Vivo

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00:00Bom dia a todas e todos, é uma alegria estar aqui depois dessas falas incríveis, estamos muitíssimo
00:06inspiradas, a gente tem um painel aqui que a gente vai falar sobre muita coisa em pouco tempo,
00:12então a gente precisa também da ajuda dessa plateia aqui para ir sintetizando com a gente,
00:18e eu estou muito feliz que é um painel feminino, queria dizer que o título não é por acaso,
00:25o futuro é amazônico, não é o futuro depende da Amazônia, o Amazônia é importante para o futuro,
00:33essa escolha da definição não é acidental, e não é porque durante muito tempo a gente aprendeu a olhar
00:41para a floresta como algo a ser salvo, um patrimônio frágil, ameaçado, que precisa da nossa proteção,
00:48e sim, precisa muito de fato, mas o convite aqui é diferente, a gente queria ressignificar essa visão,
00:58sair da imagem de uma floresta vítima para reconhecer a Amazônia como ela realmente é,
01:04um território vivo e muito potente, complexo e muito inteligente, com o qual temos muito a aprender,
01:13e se a gente quiser continuar existindo, não só a floresta, mas em especial nós e as próximas gerações.
01:21Eu acho que essa mesa é especial porque a gente reconhece os desafios que a Amazônia enfrenta
01:27e a gente precisa compreender muito melhor, porque no limite o que a gente quer mesmo
01:33é que ela possa ser esse território de soluções, porque tem a sabedoria ancestral,
01:40tem ciência de ponta, tem bioeconomia e tem muita gente, é floresta e é povo.
01:47Então, é isso que a gente vai explorar hoje em quatro blocos, a gente começa falando
01:51por que a Amazônia é essencial para o futuro, quais são os riscos que corremos,
01:56que novos olhares e relações a gente tem que tecer com a floresta e que caminhos concretos
02:02a gente tem pela frente.
02:04E ainda que nosso foco hoje seja a Amazônia, a gente quer reconhecer aqui a importância
02:10de todos os nossos biomas, os ecossistemas brasileiros que são fundamentais para a vida
02:16no planeta, mas a Amazônia é o lugar dessa completabilidade aqui de saberes,
02:22nossas convidadas vão trazer esse olhar e também é o lugar onde a gente tem o que já foi apresentado
02:28aqui pelo Christian, a Floresta Futuro Vivo em parceria com a Ari Green, então hoje a gente
02:33vai honrar essa mãe Amazônia, então esse painel feminino quer ecoar essa mãe, a mãe
02:39natureza, a mãe Amazônia e eu vou começar aqui pelo começo, Marina, por que a Amazônia
02:46é essencial para o futuro?
02:48Marina, assim, você que é essa super cientista, até você pode contar um pouquinho dessa
02:54sua transição para o mundo aplicado agora da ciência, você conhece muito o que esses
03:02ecossistemas nos trazem, os benefícios ecológicos e como é fundamental para o planeta.
03:08Fala um pouquinho para a gente das florestas e da Amazônia nesse contexto, por favor.
03:14Muito obrigada, Ilona, muito bom dia, é um prazer muito grande estar aqui, queria muito
03:20agradecer a toda a organização, a Ilona e as minhas ilustríssimas companheiras aqui
03:27de painel e a todo mundo que está assistindo presencialmente e remotamente.
03:32Então, eu queria começar falando da Amazônia como essa entidade sistêmica que está interconectada
03:42pela atmosfera, pela superfície, através da água.
03:47Então, a gente viu bastante aqui a parte do carbono e de tudo que está relacionado com
03:54o carbono em termos desse estoque da importância da Amazônia como um estoque de carbono permanente
04:02que faz com que a gente armazene esse carbono e não jogue para a atmosfera para aumentar
04:08ainda mais o aquecimento global.
04:11Mas tem duas outras dimensões que eu acho muito fundamentais.
04:16Uma delas é a água, tanto no que popularmente é conhecido como rios atmosféricos ou rios
04:24voadores, que tem um volume de água equivalente ao rio Amazonas na sua potência máxima quase
04:33na Foz.
04:35Então, imaginem que vocês têm um rio Amazonas em cima do rio Amazonas, com a quantidade
04:42de água que é trazida do oceano, reciclada pela floresta em mais ou menos 30% e redistribuída
04:52por causa dos Andes para outras regiões do continente sul-americano, em particular o sudeste do Brasil,
05:01centro-oeste, o norte da Argentina e outras partes vizinhas.
05:06Essa é a segunda dimensão que eu traria.
05:09Uma terceira, que ainda é um pouquinho escondida, é a biodiversidade nas múltiplas dimensões.
05:17Então, não só as espécies, mas como funcionam esses ecossistemas que bombam água para a atmosfera,
05:27que armazenam carbono e que são a casa de diferentes povos que trazem uma cultura e, portanto,
05:37uma manutenção da floresta que às vezes fica um pouquinho escondida.
05:42Então, a resiliência na Amazônia também se concentra nesses povos e nessa vida que existe
05:51e que a Gaia trouxe um pouco da redundância, trazendo resiliência,
05:57mas é a redundância aqui que eu trago com a diversidade para que essa resiliência permaneça
06:04e a manutenção de todos os serviços da floresta também permaneça.
06:11Muito obrigada, Marina.
06:12Eu queria passar para a Raquel, porque a gente sabe que, além das funções ecológicas,
06:18as florestas são também berços de culturas, modos de vida, tradições,
06:22que sempre souberam manter essa simbiose, o respeito com a natureza.
06:27Queria que você falasse um pouco para a gente da cosmovisão, Tupinambá,
06:31da sua relação com a floresta, também da importância da sabedoria ancestral
06:36ser compartilhada por todos nós.
06:40Obrigada.
06:41Yanecoema, Sena Maitá, Fica Turetê.
06:44Quero também aproveitar para agradecer ao convite e estar aqui nesse painel
06:50com essas mulheres maravilhosas, quem eu cumprimento.
06:52Então, quero começar dizendo que a própria ciência acadêmica, a arqueologia,
07:00a ecologia histórica, tem evidenciado nos últimos anos que a Amazônia, por exemplo,
07:08está sendo ocupada pelas populações humanas há pelo menos 12.200 anos.
07:13Registros lá da minha região, Monte Alegre, a Caverna da Pedra Pintada.
07:18E também, os estudos de modelagem, estatísticos, têm falado de entre 6 a 25 milhões de pessoas
07:29vivendo na Amazônia antes da chamada conquista, da chegada dos europeus.
07:36O mais aceito hoje está entre 8 e 10 milhões de pessoas.
07:41Então, ao longo desse tempo, essas pessoas, claro que fizeram muita interação com a floresta.
07:47Tanto que a gente tem falado de Amazônia como uma floresta antropogênica,
07:53os solos também como solos antropogênicos, os sítios arqueológicos, as terras pretas,
07:58mas também o solo como um gradiente, onde tem as terras pretas,
08:02depois tem os solos menos antrópicos que vão se afastando das áreas de moradia.
08:09Então, nesse processo todo, nós, povos indígenas, construímos essa relação com a natureza, com os rios.
08:20E a gente tem falado assim, não é que é uma relação talvez só simbiótica,
08:27é uma relação muito de respeito mesmo, de negociação, inclusive.
08:31Porque nós acreditamos que a floresta tem donos, os seres encantados,
08:37os outros seres que habitam a floresta, como, por exemplo, a curupira,
08:41que talvez para muitos de vocês seja mito ou folclore,
08:49para nós é algo real, que realmente está naquele território.
08:53Então, as negociações são essenciais para que a gente viva ali,
08:59para você fazer uma casa, para você fazer uma roça.
09:02Você precisa conversar e pedir licença, ver se aquele é um bom lugar.
09:09Então, essa negociação com esses outros seres,
09:12porque a gente entende que o meio ambiente, como assim se tem chamado,
09:19não é dos humanos, não é nosso.
09:21É também dos outros tipos de vida, incluindo os mais que humanos,
09:29esses seres que estão em outras dimensões da vida.
09:34Então, acho que é nesse sentido.
09:36Muito lindo.
09:37A gente tem muito o que aprender, eu acho, com essa negociação.
09:41Eu acho que a Maria José pode falar para a gente sobre isso.
09:44Tem tanto ainda para a gente descobrir, além dos serviços ecológicos
09:47e dessa sabedoria toda sobre esses seres, sobre essa dimensão da floresta.
09:54A Maria José tem trabalhado com a Associação Semear, no manejo.
09:58Tem tanta coisa que eu já sei de você.
10:01Conta para a gente um pouquinho do seu trabalho da Associação Semear
10:04e da importância para as comunidades locais, por favor.
10:07Bom dia a todos.
10:10É um prazer poder ter sido contemplada por este evento.
10:17A gente é raiz do Maranhão, sou presidente da Associação Semear,
10:26a gente coleta sementes nativas da Amazônia.
10:29E é um prazer poder participar deste painel, com tanta sabedoria,
10:36com tanta ciência aplicada aqui, e eu apenas com o conhecimento básico
10:42da terra, da natureza, de onde a gente vive.
10:46Então, para a gente, como Semear, como comunidade que participa dessa coleta,
10:56a gente acha que é muito importante a floresta para a nossa bioeconomia,
11:04para o nosso manejo, principalmente para as mulheres,
11:08porque ali a gente levanta a nossa autoestima,
11:13no meio onde o trabalho masculino se sobrepõe,
11:18e as mulheres geralmente são desvalorizadas.
11:21E isso é importante para que a gente possa crescer quanto pessoa,
11:28se achar capaz, empoderadas,
11:31porque a associação em si foi desenvolvida por uma ideia
11:36que a gente poderia buscar da natureza essas sementes
11:43e desenvolver em trabalho.
11:45E isso acontece dentro da nossa comunidade.
11:48A gente entende que a floresta em pé é muito mais importante
11:54do que ela derribada, queimada,
11:57ela traz economia para a gente e sustento.
12:02Dentro da floresta, a gente tem o manejo das sementes,
12:07nós temos o manejo da retirada do açaí,
12:09que traz alimento.
12:12Dentro da floresta, a gente tem grande capacidade
12:16de produção de óleos para a alimentação,
12:20quanto para cosméticos, para a medicina.
12:23Então, isso é de suma importância,
12:26que a gente tenha esse olhar e essa consciência
12:30que nós devemos preservar e cuidar da natureza.
12:37Obrigada, Marilu.
12:37A gente tem muito a aprender com vocês, muito mesmo.
12:41Essa reconexão com a terra é o que vai nos salvar.
12:43A gente já está ouvindo isso aqui.
12:45Eu queria só pontuar o que você está trazendo,
12:47porque eu acho que já foi falado aqui,
12:49desde o conceito do bioregionalismo,
12:51do Eduardo trazendo que a gente precisa de uma nova economia.
12:54E a gente está aqui no Brasil plantando essa bioeconomia,
12:59que é essa repactuação, a sociobioeconomia,
13:03esse conceito que a gente adotou para fortalecer a conexão
13:06entre as pessoas, as florestas e o desenvolvimento sustentável,
13:10numa perspectiva de geração de renda e valorização
13:13dos saberes dos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos,
13:17pequenos agricultores, agricultores familiares.
13:20Eu acho que a gente tem que redobrar essa aposta.
13:23E aqui no meu papel de moderadora ativa,
13:26que me convidaram para fazer,
13:27eu queria amarrar esse primeiro bloco
13:30falando algo que a gente acabou de viver.
13:33A gente, em 2025, teve a COP do clima no Brasil,
13:36na Amazônia, em Belém.
13:39E foi um momento muito simbólico,
13:41porque a gente teve negociadores
13:44que, de vez em quando, ali aparecem perto,
13:47mas estão sempre muito longe das questões que a gente está falando.
13:51Eles vieram para o coração da floresta, eles estavam lá.
13:54Isso muda o ponto de vista.
13:56Eu acho que a gente sai de Belém com muitos desafios,
13:59mas também com duas iniciativas muito importantes
14:03que a gente tem que ajudar a empurrar no nosso país.
14:05A presidência brasileira da COP
14:07lança esse Fundo de Florestas Tropicais para Sempre,
14:12que é o primeiro mecanismo financeiro global
14:14que valoriza a floresta em pé.
14:17Está num desafio de captação,
14:18a gente precisa ajudar.
14:19E o segundo é o mapa do caminho das florestas,
14:23que vem dizer como a gente vai reduzir,
14:27acabar com o desmatamento e a dergadação florestal até 2030.
14:32Então, são iniciativas que a gente vai ter que seguir,
14:36mas que fazem parte hoje dessa inserção das florestas
14:40na governança climática global.
14:42E a gente espera que isso tenha vindo para ficar.
14:46E a gente vai para o nosso segundo bloco aqui,
14:49tentando passar dessa importância,
14:52mas para encarar um pouco dos riscos.
14:54Quais são esses riscos que a gente corre hoje?
14:57E eu vou de novo para a Marina,
14:59lembrando aqui o que já foi trazido,
15:01que o Johan Rockström e o nosso queridíssimo,
15:04os dois queridos, mas o Carlos Nobre,
15:06tiveram aqui ano passado, no Encontro do Futuro Vivo,
15:09falando dos limites.
15:10A sua ciência fala muito desses pontos de não retorno,
15:14que muita gente ainda não compreende.
15:16Qual é esse possível colapso?
15:20E, nesse momento que a gente está vivendo de super ao ninho,
15:23isso se agrava?
15:26Uma pergunta fácil essa, não é, Ilona?
15:30Mas vamos lá.
15:31Eu queria perguntar,
15:32quem de vocês considera que entende o que é ponto de não retorno?
15:40É bastante gente, não é?
15:42Eu vou pegar um exemplo aqui,
15:45de um meu professor fez comigo,
15:48e eu vou fazer aqui, tá?
15:49Basta, por favor.
15:50Vou abrir, porque fica mais emoção.
15:55Então, é bem reducionista,
15:58e vocês me perdoem,
15:59mas é só um exemplo.
16:02Imaginem que eu tenho qualquer sistema,
16:04pode ser o que a Gaia estava falando,
16:06do colapso,
16:07é o mesmo colapso, né?
16:09Então, imaginem que esse aqui é o meu sistema,
16:12isso pode ser a Terra, a Amazônia,
16:14nosso corpo e tal.
16:16E aí, que eu começo a dar uma inclinadinha, assim,
16:20bem devagar.
16:22O que vai acontecer?
16:26Isso tem alguma semelhança com o ponto de não retorno
16:29que vocês conseguem visualizar?
16:34Até onde eu posso ir aqui?
16:39E o que vai acontecer se eu soltar aqui?
16:44Vai cair ou não vai?
16:50Então, se eu soltar aqui, ele volta, tá vendo?
16:53Mas, se eu passar de um lugarzinho,
16:57ele acelera e molha o palco todo, né?
17:01Então, é só para um exemplo
17:03da dificuldade da pergunta da Ilona.
17:07Qual é o ponto de não retorno da Amazônia,
17:10pensando que aqui eu só tenho uma garrafinha de água?
17:13Mas a Amazônia, na sua complexidade imensa,
17:18tem muitas regiões que podem sofrer mudança,
17:22como a Raquel já trouxe aqui,
17:25é uma evolução de diferentes partes da Amazônia
17:29que se apresenta hoje como ela é.
17:33Então, embora de cima seja um grande verde,
17:37as partes da Amazônia que evoluíram diferentemente,
17:42próxima dos Andes, mais próxima do bioma cerrado,
17:46mais próximo das Guianas, mais no sul,
17:49elas têm florestas diferentes,
17:52povos diferentes que manejam essas florestas há muitos anos
17:56e diferentes perturbações.
17:59Então, a gente tem desmatamento, mudança do clima,
18:02aumento de temperatura,
18:05fogo em maior ou menor quantidade.
18:08E isso vai afetar esses pontos de não retorno
18:14na Amazônia em diferentes lugares.
18:16Então, eu acho que, juntando com os modeladores,
18:20que é de onde eu vim,
18:21e com a escuta dos povos e dos ecólogos
18:25da academia mais tradicional,
18:27a gente consegue ver essa heterogeneidade
18:30de muitas Amazônias
18:32em ameaça por diferentes perturbações.
18:36Então, isso de uma forma geral do ponto de não retorno.
18:41A segunda coisa que a Elana falou foi do El Ninho.
18:45E eu queria trazer duas coisas importantes
18:49sobre esse El Ninho.
18:50A gente já sabe que ele vai acontecer,
18:53está todo mundo falando e tal.
18:55Agora, quais vão ser os impactos?
18:58Esse é um El Ninho que,
19:01desde que a gente tem medida,
19:04a gente nunca viu uma coisa assim.
19:06Só para a gente ter uma ideia,
19:09a gente tem 1.877,
19:12com uma temperatura da superfície do mar do Pacífico,
19:15equivalente a de 2015-16.
19:19E o 23-24,
19:22que foi um mega oninho para a Amazônia,
19:25ficou bem abaixo desses.
19:27E teve impactos muito maiores.
19:30E isso já está sendo estudado,
19:33e a gente tem as primeiras evidências
19:34que, de fato, são efeitos combinados
19:37que a gente perde a previsibilidade.
19:40Então, o que acontece quando a gente cruza 1,5
19:44ou alguns limiares de chuva e temperatura na Amazônia,
19:48acontece que a gente perde a previsibilidade
19:52e a gente acelera a mudança.
19:55Então, o que aconteceu em 23 e 24
19:58vai ser muito diferente de agora,
20:01mas a gente não sabe exatamente
20:03quando, quanto e como.
20:06E isso é altamente desconfortável,
20:10porque, por mais que a gente invista
20:13no que fazer,
20:15a gente vai ter que lidar com a incerteza muito grande.
20:19E como é que o ser humano vive incerteza?
20:22Chorando, não é?
20:24Então, eu acho que é um pouco isso.
20:26O El Ninho agora está forte
20:29e os impactos e a mitigação desses impactos
20:35vai depender de uma força muito coletiva,
20:37eu acredito,
20:39de uma preparação que,
20:42esperançosamente,
20:43não se reduz apenas a esse El Ninho,
20:45mas aos futuros que a gente vai ter.
20:47E aqui eu estou com a Gaia no estágio 5,
20:51daquele reloginho.
20:52Está bom?
20:53É isso.
20:54Obrigada, Marília.
20:58É preocupante,
20:59mas não pode ser paralisante.
21:01A gente está aqui
21:01porque a gente tem muita capacidade de ação.
21:04Mas eu ainda queria ouvir
21:05sobre questões difíceis, né, Raquel?
21:08A gente sabe que,
21:09apesar de a gente ter feito um esforço muito grande,
21:11a gente está aqui no quarto ano consecutivo
21:14de redução do desmatamento,
21:16o tamanho do estrago é muito grande.
21:19E os povos da floresta,
21:22e, na verdade,
21:22todas as suas culturas,
21:23estão em perigo.
21:25Se a gente pensa
21:26a violência sobre os povos indígenas,
21:28a gente vê como um aumento.
21:30A gente continua lutando contra
21:34nosso povo mais ancestral.
21:36Eu acho que o Cacau Herá
21:38também estava aqui no ano passado
21:40e falou sobre essa violência
21:41dos territórios materiais e imateriais.
21:45Mas eu queria te ouvir, Raquel,
21:47sobre a sua vivência,
21:48dessas dinâmicas mesmo,
21:50de ameaças ao território,
21:52aos povos, à cultura.
21:54Como é que isso se dá no território?
21:56Como é que isso afeta você?
21:59Obrigada pela pergunta, Ilana.
22:01Eu acho que não dá para falar sobre isso
22:02sem falar sobre o processo de colonização
22:05que a gente vivencia há 526 anos.
22:10Então, acho que esse processo
22:12que teve no seu período colonial
22:15as políticas de transformação
22:18do indígena em civilizados, digamos,
22:22A gente vê isso sendo intensificado
22:27no caso da Amazônia
22:28no período do governo militar,
22:31quando tem aquela ideia
22:32de integrar a Amazônia ao Brasil.
22:35Então, nesse período,
22:36a gente tem as grandes estradas,
22:40as BRs sendo abertas
22:42e a destruição, a morte de muitos povos
22:46que não tinham nem contato com a sociedade.
22:48Por exemplo, quando a gente vai pensar
22:50a 164, a 163, várias dessas BRs.
22:56Além disso, a gente tem também
22:57a chegada intensa das indústrias,
23:01a exploração madeireira,
23:02a exploração de minério,
23:05as hidroelétricas,
23:06que causaram uma destruição muito forte,
23:09uma ameaça que continua até hoje
23:11na vida dos povos indígenas
23:14e comunidades tradicionais na Amazônia.
23:16Então, eu penso que a gente precisa
23:19olhar para isso,
23:22porque foi o que o Eduardo estava falando ainda agora.
23:24Esse modo de vida do território,
23:28onde a gente tem um rio fluido,
23:31água limpa,
23:33a gente tem alimentos sem veneno,
23:37a gente tem essa possibilidade
23:40de uma vida mais confortável,
23:44ela não conta para o PIB,
23:46ela não eleva o PIB.
23:48Então, a gente é visto pela sociedade
23:49como pobres,
23:52extrema pobreza.
23:53Inclusive, todos os indígenas
23:55são enquadrados no programa Bolsa Família
23:57porque estão colocados nesse lugar,
24:01todos os indígenas que estão nos territórios,
24:04como pobreza extrema.
24:06Então, é essa lógica que opera
24:08no sistema capitalista,
24:10no sistema econômico
24:12e que tem levado à destruição
24:15dos territórios
24:16e, principalmente, das pessoas também.
24:20As pessoas que estão no território
24:22são vistas ainda,
24:24como foram ao longo desse processo,
24:26como mão de obra barata.
24:27E são elas que estão
24:29nesses processos exploratórios,
24:31sendo usados nesses processos exploratórios,
24:33tipo de exploração minerária,
24:35de exploração madeireira extrativista.
24:40E a gente tem,
24:42só para finalizar,
24:44evidência forte disso,
24:46como esse sistema opera,
24:48que a emissão de gases
24:49de efeito estufa da Amazônia
24:51vem das queimadas,
24:53da derrubada de floresta,
24:56sendo Altamira
24:58e outros municípios
24:59ali da região do Pará
24:59os que mais emitem
25:02gases de efeito estufa
25:04proveniente da derrubada
25:05e da queima de florestas.
25:07Então, isso evidencia
25:08a operação desse sistema
25:10para mim.
25:11Muito obrigada, Raquel.
25:18A Raquel traz algo
25:20que a gente tem que entender
25:21que é muito estrutural.
25:22A gente teve um projeto
25:23de país de integrar
25:25a Amazônia.
25:26O slogan era
25:26integrar para não entregar.
25:29Essa governança,
25:31aos poucos,
25:31porque muitos brasileiros
25:32foram incentivados
25:33a ir desmatar,
25:35ocupar e ganhar
25:35aquela terra
25:36sem essa perspectiva
25:38de que tinham povos lá
25:39que eram donos dessa terra,
25:41sem pedir licença,
25:42sem negociar.
25:43Mas dizer que,
25:44hoje,
25:45acho que essa visão
25:46e essa ocupação
25:47gerou algo
25:48que é ainda mais complexo,
25:50porque 90%
25:52do desmatamento
25:53na Amazônia
25:54é ilegal.
25:54São crimes ambientais,
25:56grilhagem de terra,
25:58mineração ilegal,
25:59pecuária e agricultura
26:00em terras griladas
26:01e desmatadas.
26:03Isso a gente precisa
26:05enfrentar com alternativas,
26:07porque acaba que,
26:08esses territórios
26:09encontram
26:10essas economias ilícitas.
26:12E o recurso responsável
26:14não vem,
26:14porque o capital
26:15não quer aterrissar
26:17em territórios
26:17com conflitos fundiários,
26:19disputas,
26:20entre outras coisas.
26:22Então, a gente precisa
26:22pedir que nossos representantes
26:25de fato garantam
26:26aos donos dessa terra
26:28esse Estado de Direito.
26:30Acho que isso é muito importante
26:31a gente entender
26:32o que está gerando
26:33o desmatamento
26:34hoje na Amazônia.
26:36E aí, Maria José,
26:37como é que isso chega
26:38para você lá no chão?
26:40Quais impactos
26:41desses riscos,
26:42dessas ameaças
26:44você, enfim,
26:45encontra no seu dia a dia
26:47e da sua comunidade?
26:50Bom,
26:51o impacto ambiental,
26:54a gente vivencia
26:55o dia a dia.
26:57Ainda acontece
26:58desmatamento
26:59na região
27:00que a gente vive.
27:02Isso tem impactado
27:04no clima.
27:06Há cinco,
27:08seis,
27:09sete anos atrás,
27:10começou
27:11um desmatamento
27:12bem ativo.
27:14E isso tem sentido.
27:16A comunidade sente
27:17na pele
27:18o calor
27:18que aumenta
27:20muito mais.
27:21Chega o verão,
27:23a gente sente
27:24aquele ar-refeito
27:26muito diferente
27:28do que a gente vivia.
27:29Essa floresta,
27:30ela impacta
27:32tanto
27:32na conservação
27:34das nascentes,
27:36tanto
27:37na manutenção
27:39de frutas,
27:40de frutos
27:41para os animais
27:42que precisa
27:43se remanejar
27:45para outras áreas.
27:48E as queimadas
27:50têm diminuído,
27:51só que o reflorestamento
27:52de função madeireira
27:54é constante
27:55e a gente
27:56fica triste.
27:57Eu fico triste
27:58quando eu ouço
27:59de pessoas
28:01com uma idade
28:04ativa
28:05que poderia
28:05estar trabalhando
28:06em prol
28:07da floresta
28:08e disse
28:09para mim
28:10que se depender
28:12dele parar
28:13de desmatar,
28:15a Veracruz
28:16nunca mais chove.
28:19Então,
28:20o que pensar
28:20de uma pessoa
28:22que tem
28:23esse entendimento
28:24no momento
28:25que a gente vive
28:26com o clima
28:28desmoronando
28:29e sem pensar
28:31na possibilidade
28:33que a gente
28:34está se autodestruindo.
28:36Então,
28:37a gente tem
28:37que ter
28:38esse olhar
28:40diferenciado
28:41para as nossas florestas,
28:43para os nossos recursos,
28:44porque a gente,
28:46preservando,
28:46a gente vai ter
28:47muito mais possibilidade
28:48de sobrevivência
28:50nos setores
28:51onde a gente vive,
28:53nos nossos locais,
28:54nas nossas comunidades.
28:57E também
28:58a gente precisa
29:01ter esse olhar
29:02carinhoso
29:03com a floresta,
29:04porque ela
29:05mantém os rios,
29:07os rios,
29:08os igarapés
29:09de onde a gente
29:09tira o nosso sustento,
29:11a gente gosta
29:12de pescar.
29:14As pessoas,
29:15eles antigamente
29:16tinham esse propósito
29:17de caçar,
29:18porque não tinha
29:20outra renda.
29:22Então,
29:22ele vivia
29:23da floresta,
29:24ele vivia
29:24do rio
29:25e hoje não.
29:26Nós temos
29:26possibilidades
29:28de trabalhar
29:28com a floresta
29:30e mantê-la
29:31em pé.
29:33Recursos
29:33têm infinitos,
29:35então,
29:36a gente só precisa
29:36ter esse olhar
29:37carinhoso
29:39e atento
29:40com a floresta.
29:41Eu,
29:41por exemplo,
29:42quando criança,
29:43eu andava muito
29:44com a minha mãe
29:45ia pescar,
29:47e eu ficava olhando
29:48aquele monte
29:49de sementes,
29:50e eu ficava
29:52imaginando
29:53o que fazer
29:54com tanta semente.
29:55Perguntava
29:56para a minha mãe
29:57e ela dizia,
29:58com a uva,
29:59a gente fazia sabão,
30:01porque não tinham
30:02onde comprar.
30:03Então,
30:03eles usavam
30:04as sementes
30:05para transformar
30:07em subsídio
30:09para o uso
30:10do lar.
30:11Então,
30:12isso,
30:12já desde muito tempo,
30:14a bioeconomia
30:15já existia
30:16e eles nem sabiam.
30:17Então,
30:18a gente tem
30:18que ter esse olhar.
30:20E eu sempre
30:20tive essa vontade
30:22de formar
30:24uma associação
30:25para usar
30:26esses recursos
30:27e trazer benefícios
30:29para a comunidade.
30:30Isso hoje
30:31está acontecendo,
30:32a gente está
30:33olhando
30:34a floresta
30:36com outros olhos.
30:38A gente brinca
30:39até que a gente
30:40parece louco,
30:41porque quando a gente
30:42passa perto das árvores,
30:44a gente já fica assim,
30:47olhando
30:47para ver
30:48o que tem
30:48de possibilidade
30:49de sementes.
30:50E cada árvore
30:52com fruto,
30:53com flores,
30:54são possibilidades
30:55de economia
30:56e de renda.
30:57E a gente
30:58pega o grupo
30:59de mulheres
31:00e sai para coletar
31:01e é muito bom
31:03o retorno.
31:06só aplaudindo mesmo.
31:08É muito lindo tudo.
31:11E você falou
31:12muito sobre olhares.
31:13Eu queria falar
31:14justamente
31:14sobre esses
31:15novos olhares
31:16e relações.
31:17Quando a gente
31:17olha os números,
31:19mais da metade
31:20dos brasileiros
31:21apontam a Amazônia
31:22como o lugar
31:23que mais representa
31:25o Brasil.
31:25Mas, por outro lado,
31:2765% admitem
31:29não conhecê-la.
31:30Eu queria perguntar
31:31para todas vocês,
31:32como é que a gente
31:33aproxima
31:34mais a Amazônia
31:35do povo brasileiro.
31:37Que importância
31:38isso tem
31:39da gente entender
31:40que lá não é só
31:41esse imenso verde
31:42que a gente tem
31:43que preservar,
31:44mas que tem
31:45muita gente,
31:46muita cultura,
31:47muito saber,
31:47muita tecnologia.
31:49A gente precisa
31:50de novas narrativas.
31:51Que olhares
31:52e relações
31:53são essas?
31:54Quem quiser começar?
31:59Vai você mesmo,
32:00Maria Gisele.
32:01Então,
32:04eu não sei
32:05se eu posso falar,
32:06mas eu vou comentar
32:07em relação
32:08à parceria
32:09que a CMA
32:10tem com a empresa
32:11Regreen
32:12e isso fortalece
32:13muito
32:14a nossa comunidade,
32:16o nosso grupo
32:17da associação
32:18e tem mostrado
32:19e valorizado
32:21para as comunidades
32:22que tudo é possível.
32:24A gente sozinha,
32:26a gente não
32:26faria nada.
32:28e hoje
32:29a gente tem
32:29essa possibilidade
32:30de acessar
32:31a fazenda,
32:32coletar as sementes,
32:35produzir
32:35e beneficiar
32:37e vender
32:37essas sementes.
32:39Isso gera impacto
32:40dentro da nossa
32:41comunidade
32:42e nas outras
32:43comunidades vizinhas
32:44quando as pessoas
32:45nos procuram
32:47e aí o que eu faço
32:48para entrar na CMA?
32:51Porque eles veem
32:52que está gerando
32:53economia.
32:54Então,
32:55isso é de suma
32:56importância
32:57para a gente
33:00estar desenvolvendo
33:02para as grandes
33:03empresas,
33:03estar desenvolvendo
33:05e apoiando
33:06projetos
33:07dentro dessas
33:08comunidades
33:09para que os recursos
33:11não fiquem apenas
33:11com as grandes
33:13empresas,
33:14que esses recursos
33:15também sejam
33:16repassados
33:17para as comunidades,
33:19que a gente
33:20possa trabalhar
33:21na terra,
33:22na floresta,
33:23e manter
33:24e conservar.
33:26A gente sempre
33:27fica fiscalizando
33:29as áreas
33:30onde a gente
33:31acessa,
33:32a gente tem
33:33um cuidado
33:33muito especial
33:34para que não
33:35possa danificar,
33:36porque ali
33:37é importante
33:39para a gente.
33:40Nós não devemos
33:42fazer nada
33:43de errado,
33:44então,
33:44a gente tem
33:45que ir acessar,
33:46coletar
33:47e sair,
33:48deixar tudo
33:49organizado.
33:50e essas
33:51comunidades,
33:52elas são
33:53importantes
33:54para acessar
33:55essas áreas
33:56de conservação
33:57e reflorestamento,
33:58porque a gente,
34:00querendo ou não,
34:01nós somos
34:01monitores
34:02do que está
34:02acontecendo.
34:04E hoje
34:04é de suma
34:05importância
34:06a gente acessar
34:07aquela área
34:07que antes
34:08era só pasto
34:09e hoje
34:10a gente vê
34:10floresta.
34:11Cinco anos,
34:13quatro anos
34:13e pouco,
34:14a floresta
34:15está se reproduzindo,
34:18o manejo
34:18do ser humano
34:19está trazendo
34:20isso de volta.
34:22É a gente
34:23se tornar
34:24e se inserir
34:25de novo
34:26dentro da floresta,
34:28porque a floresta
34:29já estava ali.
34:30A gente apenas
34:32começou
34:32a desmatar.
34:34e de suma
34:36importância
34:37também
34:38quando
34:38as pessoas
34:40chegam
34:40da CMA
34:41e está
34:42um projeto
34:42bonito,
34:43a gente quer
34:44entrar,
34:44eu digo,
34:45só que agora não,
34:46porque quando
34:47a gente começou,
34:48muitas pessoas
34:49não acreditavam.
34:51Ah,
34:51essa associaçãozinha
34:53aí não dá,
34:54então,
34:54não quero não.
34:55E hoje
34:55as pessoas
34:56têm interesse
34:57de participar,
34:58porque sabem
34:59que ele vai
35:00ser empreendedor,
35:01ele vai ser
35:02o seu patrão,
35:03ele vai ser
35:04quem garante
35:06renda
35:07sem
35:09ter que contar
35:10ou dar satisfação
35:11de hora
35:12para ninguém.
35:13Então,
35:13a gente é livre
35:14para coletar
35:15o que tem
35:16de bom
35:18na floresta
35:19para trazer
35:20para as nossas
35:20comunidades,
35:21isso é muito importante.
35:23Super importante,
35:24você tocou
35:25nessas novas relações,
35:27que são alianças,
35:28que são parcerias
35:29que tem que ser
35:29bom para quem está lá.
35:31Então,
35:31a gente fica muito feliz
35:32de te ouvir.
35:34Raquel,
35:35Marina?
35:36Eu penso que
35:36a tecnologia
35:38e a internet
35:39têm aproximado,
35:40de certa forma.
35:41Nós,
35:42por exemplo,
35:43junto com o Estevam,
35:44depois vamos falar mais,
35:45mas temos
35:45dois filmes
35:47de realidade virtual,
35:48o Amazônia Viva
35:49e o Amazônia
35:49para Sempre,
35:50que é uma imersão
35:51dentro da floresta
35:53amazônica,
35:55possibilitando
35:55você conhecer
35:57a Amazônia
35:57sem ir lá,
35:58se conectar
35:59com a floresta,
36:00mas também
36:00com todo o saber
36:02que está por trás.
36:03e eu tenho também
36:05percebido
36:06que muitos
36:06influenciadores
36:07amazônicos,
36:09ribeirinhos,
36:10as comunidades
36:11das aldeias
36:12têm
36:14estado
36:15na rede,
36:16levando sua cultura,
36:17trazendo informações
36:19sobre como
36:20o seu povo
36:20vive
36:21para outras pessoas.
36:23Então,
36:24talvez,
36:24a internet
36:25e a tecnologia
36:27têm
36:27possibilitado também
36:29essa troca,
36:30essa aproximação.
36:31esses novos olhares.
36:33Eu acho que
36:33quem não viu ainda
36:34tem que ver
36:35os filmes do Estevão
36:36com a Raquel,
36:37essa coisa mais linda.
36:39Marina,
36:39e você?
36:40Que relações
36:41são essas?
36:42Novos olhares
36:43a gente pode trazer?
36:44O que eu vou fazer,
36:46na verdade,
36:46o bom de ser última
36:47é que é isso.
36:48Eu só vou escalonar
36:50o que elas falaram
36:51para um nível sistêmico,
36:53que é compreender
36:55e olhar
36:55esse olhar
36:56da Amazônia,
36:58mas não só
36:58da Amazônia,
36:59do que está
37:00na volta da Amazônia
37:02e conectado
37:02com o planeta
37:05das conexões.
37:07Então,
37:08eu trago aqui
37:09isso junto
37:10com mais
37:11de 200
37:12e poucos cientistas
37:14do painel
37:14científico da Amazônia,
37:16que fez um relatório
37:17recente,
37:18ano passado,
37:18lançado na COP,
37:20que fala sobre
37:21conectividade
37:22nas múltiplas
37:24dimensões
37:24da conectividade,
37:25disruptiva,
37:27que tem a ver
37:28com as ilegalidades,
37:29mas também
37:30naturais,
37:31através da atmosfera,
37:33que eu já falei,
37:34da superfície,
37:36das tecnologias,
37:38dos projetos
37:39de conexão,
37:40porque tem
37:41diferentes projetos
37:42de sementes
37:43que se interrelacionam.
37:45Então,
37:46como a gente
37:46expande isso
37:48da Amazônia
37:49para outros lugares,
37:50para que as pessoas
37:51também consigam
37:52se conectar
37:54com essa narrativa
37:55de uma conexão
37:56absoluta
37:57que é invisível
37:59às fronteiras
38:00geopolíticas
38:01que se apresentam
38:02hoje
38:03e que conectam
38:05a todos nós.
38:07Muito bom.
38:07Eu queria aprofundar
38:08agora os caminhos,
38:10porque eu acho
38:11que vocês trouxeram
38:12já relações,
38:13olhares,
38:13conexões,
38:15e a gente tem
38:16que pensar
38:16em muitas possibilidades,
38:18porque eu acho
38:19que essa floresta
38:20tem muita coisa
38:21ainda para a gente
38:22conhecer.
38:23mas a primeira pergunta
38:25era sobre,
38:26de fato,
38:27o papel da tecnologia,
38:29porque a gente sabe
38:29que tem ajudado muito,
38:31você já trouxe aí
38:31um pouco disso,
38:33mas eu acho
38:33que também
38:34pela casa
38:35que a gente está
38:36e por tudo
38:36que a gente ouviu
38:38aqui na apresentação
38:39inicial,
38:40como a tecnologia
38:42pode ajudar,
38:43como está ajudando,
38:44como pode ajudar
38:45e quais também
38:45são os desafios
38:47que ela traz
38:48para esses territórios?
38:50Muito bem,
38:51é para as três aqui,
38:51quem quiser pegar
38:52primeiro.
38:55A tecnologia,
38:56ela ajuda
38:57quando
38:59ela cria
39:01aplicativos
39:02onde identifica
39:03focos de incêndio,
39:06com muito mais rapidez
39:08para que possa ter acesso
39:10e combater esses incêndios.
39:12a tecnologia também,
39:14ela ajuda
39:16quando ela disponibiliza
39:21aplicativos
39:23onde a gente possa
39:23identificar áreas
39:25de coletas
39:26de semente,
39:27eu trago sempre
39:28para a coleta de semente,
39:29que é o que está
39:29no foco,
39:30inserido,
39:31e isso facilita muito
39:33o nosso acesso,
39:35porque a gente,
39:37sabendo o local,
39:40a época
39:41onde a espécie
39:42está produzindo,
39:43a gente vai lá,
39:44a gente não vai perder
39:45muito tempo
39:46com essas procuras,
39:48que não é fácil
39:49a gente inserir
39:50na mata
39:51e procurar.
39:52Ela traz
39:54muito mais desenvolvimento
39:55para a nossa divulgação
39:56dos nossos produtos,
39:58para as nossas vendas,
39:59e isso é importante
40:01porque com mais rapidez
40:03a gente libera
40:05nossos produtos
40:06e vende,
40:08porque a semente,
40:09ela tem o poder
40:12de conservação
40:14quando ela está
40:15no fruto,
40:16depois ou ela é
40:18recalcitrante,
40:19ortodoxa
40:20e quando ela
40:21despeça da mãe,
40:23ela já não
40:23é tão resistente
40:25e isso,
40:27a tecnologia
40:27nos ajuda
40:28a compreender
40:30a que ponto,
40:32qual o tempo
40:32que a gente pode
40:33estar coletando
40:34essas sementes.
40:36Muito bom.
40:37Marina?
40:40Eu queria trazer
40:41alguns outros aspectos
40:42do que eu conheço,
40:44por exemplo,
40:45proteção territorial
40:46para alguns territórios,
40:48através de monitoramento
40:49por drone,
40:50além do monitoramento
40:52de rondas,
40:54que para mim
40:55é uma coisa
40:56incrível,
40:56assim,
40:58e também
40:59toda essa parte
41:00de inteligência artificial
41:02que aplicada,
41:03isso é um trabalho
41:04que eu participo,
41:05que a gente está desenvolvendo,
41:07juntando ciência
41:09não só natural,
41:10mas de computação mesmo,
41:12de como fazer,
41:13por exemplo,
41:15sistemas de alerta
41:17antecipados
41:18de seca,
41:19com monitoramento
41:20e de impacto
41:22para essa preparação.
41:24eu estou no número 5
41:25da Gaia,
41:25tá, gente?
41:26De verdade.
41:27Eu acho que a gente
41:28tem que ter esses planos
41:29de contingência
41:30para anteontem,
41:32assim,
41:32então,
41:32como ter esse aviso prévio?
41:36Eu acho que a tecnologia
41:37que a gente tem hoje,
41:38quando bem empregada,
41:39pode trazer isso
41:40de um jeito
41:44super
41:46bem sucedido,
41:47assim,
41:47então,
41:47eu queria estar
41:48esses dois exemplos
41:49e juntando
41:51com um conhecimento
41:53que eu fiz esse exercício
41:54também desses sinais
41:55antecipados,
41:57porque em cada um
41:58dos lugares
41:59existe esse conhecimento
42:01de uma rede
42:02de eventos,
42:04então,
42:04por exemplo,
42:05os cupins
42:05vão fazer isso,
42:07vai ter a desova
42:08dessa espécie de peixe
42:09e quando vai ter seca,
42:13diferentes comunidades
42:14vão perceber
42:15através de sistemas,
42:17de um sistema próprio
42:19de alerta
42:19a mudanças,
42:21então,
42:21como a gente conecta isso,
42:23porque isso também
42:23é uma tecnologia,
42:25mas social,
42:26como a gente conecta
42:28essa tecnologia
42:29a essa big tecnologia
42:31para a gente conseguir,
42:34de fato,
42:35propor soluções inovadoras
42:37e que nos ajudem
42:39ao número 5 da GAI.
42:41Excepcional.
42:43Raquel?
42:44Eu também penso que
42:46a tecnologia
42:48tem sido importante,
42:49por exemplo,
42:50quando a gente pensa
42:51a sociobioeconomia,
42:52muito tem se empregado
42:54da tecnologia
42:54nas cadeias produtivas
42:56e as tecnologias sociais
43:01também são fundamentais.
43:02Eu acho que,
43:02pensando como a GAIA trouxe,
43:05a gente não é que a gente
43:07tem que exportar
43:08o açaí para fora,
43:10a gente precisa economizar
43:11a energia,
43:12os gastos energéticos
43:13sem emitir poluentes,
43:15então,
43:16como a gente fortalece
43:18essa economia amazônica
43:20para que a Amazônia
43:21possa ser vista
43:22como centro também,
43:24mas que a gente possa
43:26consumir os alimentos
43:27amazônicos
43:28na Amazônia.
43:29Então,
43:30eu lembro rapidamente
43:32que meu pai contava
43:33que,
43:33quando ele era criança,
43:35a avó dele
43:36trocava carne de caça
43:38com o tucumã,
43:40com o mucajá,
43:41que hoje são frutos
43:42totalmente abandonados,
43:47ninguém nem consome,
43:49são totalmente
43:50como alimento de animais.
43:53Então,
43:53esse processo colonial
43:54também faz isso,
43:56trazer produtos exógenos,
43:59e hoje a gente vivencia muito
44:00essa alimentação industrializada,
44:05ultraprocessado,
44:05enfim,
44:06e deixa de comer,
44:08deixa de se relacionar
44:10com aquilo que está
44:10mais próximo.
44:11Então,
44:11acho que a tecnologia
44:12tem que ajudar o local,
44:14e não nesse lugar
44:15de levar tudo para fora
44:17e deixar o povo ser.
44:19Eu acho que é incrível,
44:20porque a gente fala aqui
44:21da integridade,
44:22a tecnologia que protege
44:24e a tecnologia
44:24que vai trazer
44:25essas alternativas.
44:26A gente tem pouco tempo,
44:27mas que outros caminhos,
44:29porque acho que a gente
44:30está aqui
44:30em um painel
44:31de ideação também,
44:33que outros caminhos
44:34a gente vislumbra
44:35para que a Amazônia
44:37seja ali
44:38a consolidadora
44:39dessa nossa vocação
44:41de ser potência
44:42da natureza?
44:49Bem,
44:50a gente tem falado muito
44:51de como
44:52os sistemas
44:53de conhecimentos indígenas,
44:55os sistemas
44:55de conhecimentos
44:57tradicionais,
44:57precisam
44:58entrar em um diálogo
45:00com a academia,
45:01com a ciência acadêmica,
45:03porque,
45:03por muito tempo,
45:04a ciência acadêmica
45:05se colocou nesse lugar
45:06de dona
45:07do conhecimento
45:09e transformou
45:11esses outros sistemas
45:12de conhecimento
45:13em menores,
45:15inclusive
45:16sem nenhuma
45:18importância,
45:20apesar de ter sempre
45:21bebido
45:21ou usado
45:23suas pesquisas
45:23para coletar
45:25ali
45:25as plantas
45:27que produzem
45:29bioativos,
45:30como as plantas
45:32eram usadas,
45:33mas sempre
45:34nesse lugar
45:35de objeto
45:37de pesquisa
45:38com as populações.
45:39Então,
45:39penso que
45:40um caminho
45:42é esse diálogo
45:43real,
45:44e a gente tem
45:45caminhado para isso
45:46com o aumento
45:47dos indígenas
45:50ou extrativistas,
45:51quilombolas,
45:52pesquisadores,
45:53chegando
45:54nos espaços
45:55das universidades
45:56também.
45:57Então,
45:58talvez esse seja
45:59um caminho.
45:59E,
46:00quando a gente
46:00pensa na Amazônia,
46:01a gente precisa
46:01pensar a Amazônia
46:02como centro
46:03e não como periferia,
46:04lugar só
46:05de exploração.
46:08Isso aí.
46:09Muito bem.
46:12Marina,
46:13e como isso
46:13conecta?
46:14Ah, tudo bem.
46:15Vamos, Maria José.
46:16Depois eu pego
46:16a Marina aqui.
46:17É importante
46:19quando
46:19tem escutas
46:21com as comunidades
46:23para entender
46:25como que funciona
46:27o conhecimento
46:29dessas comunidades,
46:32porque
46:32a gente tem
46:34o conhecimento
46:35da terra
46:36e,
46:37quando
46:38a pesquisa
46:40chega
46:41e propõe
46:43que a comunidade
46:44fale
46:46o que ela consome,
46:48o que ela produz,
46:51de que forma
46:52que ela gostaria
46:53que esse desenvolvimento
46:55chegasse lá
46:56ou de que forma
46:57que ela pensa
46:58que é positivo
46:59ou negativo,
47:01é importante
47:02porque
47:03essas grandes
47:05empresas
47:06do reflorestamento
47:08elas
47:09tenham
47:11esse entendimento
47:11e esse diálogo
47:12com as comunidades
47:13e que essa
47:15relação
47:16traga benefícios
47:17também
47:18para as comunidades,
47:19porque não é importante
47:21apenas elas chegar,
47:23se localizar
47:24na vizinhança
47:26e não trazer
47:26nenhum benefício.
47:28Então,
47:29é importante
47:29trazer esse conhecimento
47:31da comunidade
47:33para que
47:33isso tudo
47:34seja inserido
47:36e trazer
47:37também
47:37não só
47:38o conhecimento
47:39e o benefício
47:41para o planeta
47:43de modo geral,
47:44mas que a gente
47:45possa
47:45ter
47:46esse conhecimento
47:47das pessoas
47:49que estão
47:50inseridas ali.
47:51Obrigada,
47:52querida.
47:53Marina?
47:57Eu realmente
47:58acredito,
47:59depois dos últimos
48:01anos,
48:02assim,
48:02numa
48:05no entendimento
48:06número um
48:06e no reconhecimento
48:08que a gente
48:08é potência.
48:09Isso.
48:10Na verdade,
48:11eu acho que às vezes
48:11a gente esquece.
48:12Exato.
48:13E a gente é potência
48:14justamente
48:17na diversidade,
48:18não é?
48:19Isso tem toda
48:20uma ciência
48:21por trás,
48:22que eu não vou falar
48:22hoje,
48:23mas no reconhecimento
48:25dessa potência
48:26e no uso
48:27daquilo que a gente
48:28tem de mais valioso
48:30que é a diversidade
48:31no Brasil
48:31para propor
48:33novas soluções.
48:35E, para mim,
48:35isso permeia
48:37principalmente
48:38a escuta,
48:39a nossa capacidade
48:41de escutar
48:41o outro,
48:43de ver
48:45que aquele conhecimento
48:46pode ser plugado
48:48de alguma forma
48:48no seu conhecimento,
48:50porque,
48:50se as nossas propostas
48:53resolvessem,
48:54elas já tinham resolvido.
48:55Então,
48:56a gente,
48:56de fato,
48:57precisa
48:58ter um olhar
48:59e uma escuta
49:01mais apuradas
49:03para que a gente
49:05caminhe
49:06para esse futuro
49:08mais amazônico,
49:10mais conectado
49:11e de maior
49:13união das diferenças.
49:15Acho que é isso.
49:16Obrigada, Marina.
49:17Eu acho que,
49:17olhando para...
49:20Olhando para vocês três aqui,
49:22pensar que a gente tem
49:23caminhos onde
49:25o chão vai ensinar
49:27muita coisa
49:27e a ciência
49:28está aberta
49:30pela primeira vez
49:31a essa troca
49:32com o saber ancestral,
49:33que tem tanto
49:35para compor.
49:36Eu acho que,
49:37assim,
49:37essa é a potência,
49:39a gente escutar
49:40e a gente reaprender,
49:41a gente saber o que já sabem
49:43há muito tempo
49:43e a gente esqueceu
49:44e usar as ferramentas
49:46que a gente
49:47foi ganhando
49:48ao longo do tempo
49:49para realizar
49:50essa vocação
49:52de sermos
49:52uma superpotência
49:54da natureza.
49:55Eu queria complementar
49:57aqui com algo
49:57que a gente sempre
49:59traz pelo Igarapé,
50:01a gente tem trabalhado
50:02muito para transformar
50:03esses ecossistemas
50:04desses crimes ambientais
50:06e economias ilícitas
50:07em ecossistemas
50:09de bioeconomias,
50:10que sejam bons
50:11para quem está lá
50:12e para todo mundo
50:13que está aqui
50:14nesse planeta.
50:16E a gente tem dito,
50:17assim,
50:17tem quatro frentes
50:18que eu traria
50:19complementando.
50:20Uma é que
50:20a natureza
50:22e a Amazônia
50:23precisa ser parte real
50:25da nossa identidade.
50:26A nossa identidade
50:27é essa.
50:28Então,
50:28esse projeto de país
50:29precisa viver.
50:31A gente tem capacidade
50:33de colocar de pé
50:34um setor econômico
50:35de bioeconomia
50:36que a gente,
50:36enfim,
50:37hoje captura
50:38menos de 0,2%
50:40de um potencial gigantesco.
50:43Muita coisa
50:43ainda a ser descoberta.
50:44A gente já falou aqui
50:46da Regreen,
50:46das parcerias
50:47com a Floresta Futuro Vivo,
50:49mas esse setor
50:50de restauro
50:50é um setor
50:51que é muito promissor.
50:53A gente tem que zerar
50:54o desmatamento
50:55até 2030,
50:56é uma meta nossa,
50:58e restaurar
50:5912 milhões
51:00de hectares,
51:01é mais do que Portugal.
51:02Então,
51:03a gente pode criar
51:03milhões
51:04de empregos
51:06com geração
51:06de renda
51:07real,
51:08é um novo setor
51:09produtivo,
51:10plantar
51:11floresta
51:12biodiversa.
51:13Olha que coisa linda,
51:14olha que serviço
51:16a gente está fazendo.
51:17E aí sim,
51:18temos que pensar
51:19como é que paga,
51:20que instrumentos financeiros
51:22vão valorizar
51:23a floresta em pé.
51:24Eu acho que a boa notícia
51:26é que é aqui
51:27no nosso país
51:28que tudo isso
51:29já está acontecendo.
51:32Então,
51:32eu convido
51:32a todo mundo
51:33que está aqui
51:33com a gente
51:34a saber mais,
51:36a se juntar,
51:37porque tudo isso aqui,
51:38todo esse,
51:39quer dizer,
51:39o colapso iminente
51:41e o saber
51:42que a gente tem
51:43só serve realmente
51:44numa sala dessa
51:45se gerar a ação.
51:46somos nós
51:47os responsáveis
51:49a passar um bastão
51:50para as próximas gerações
51:52de um Brasil,
51:53de um mundo
51:54que ainda dá
51:55para subir
51:56na curva do U.
51:57Então,
51:58a última reflexão
51:59aqui para vocês,
52:00para fechar mesmo,
52:01é o seguinte,
52:03se a Amazônia
52:04tivesse um lugar
52:05na mesa
52:06em que se decide
52:07o futuro do planeta,
52:09em uma frase,
52:11o que a Amazônia diria?
52:14Socorro.
52:17Vamos socorrer.
52:21Porque o pulmante,
52:23ele sabe
52:24que o pulmão
52:25é importante
52:27para ele respirar.
52:29E a humanidade
52:30tem que entender
52:31que a Amazônia
52:33não é apenas
52:34o pulmão do mundo.
52:36A gente tem que cuidar,
52:38preservar,
52:39para que ela possa
52:41nos ajudar
52:41a continuar respirando.
52:44Obrigada,
52:45Maria José.
52:46diria que
52:47ela diria,
52:50eu preciso ser
52:51olhada como centro.
52:56Vamos juntos
52:57que vai dar.
53:07se alguém tinha a dúvida
53:08que vai dar,
53:09eu espero que não
53:10tenhamos mais
53:11depois dessa potência
53:12dessa conversa toda,
53:13convidar vocês aí
53:14a unir esses esforços
53:16e eu acho que
53:16o futuro,
53:18gente,
53:18é amazônico.
53:20Muito obrigada
53:21e que a gente continue
53:22essa conversa.
53:23e que vai dar.
53:23Obrigado.
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