No sertão paraibano, uma casa antiga assusta os moradores com uma porta que bate sozinha. Júnior investiga o mistério e encontra marcas estranhas dentro da casa. Um bilhete revela que a porta não anuncia assombração, mas um aviso: alguém vai embora ou algo tenta sair primeiro.
No sertão paraibano, ficava uma casa antiga de parede grossa, telha escurecida e varanda torta, daquelas que parecem guardar segredo até no silêncio.
A fama começou por causa da porta de entrada. Diziam que ela batia sozinha, mas nunca do mesmo jeito. Num dia, era um toque leve, quase educado. No outro, vinha um baque seco, tão bravo que fazia a casa toda responder com um gemido.
Dona Cida, a moradora, ria quando falavam em assombração. Dizia que era o vento, embora até o vento, ali, parecesse andar com medo.
Os vizinhos não compravam essa história. Naquela região, conheciam de cor o comportamento do clima, das árvores e até dos bichos. E, naquela noite, não havia rajada, não havia poeira subindo, não havia nada além da lua alta e um calor parado, grudado na pele.
Foi então que apareceu Júnior, um rapaz magro, curioso e teimoso, hospedado no quarto dos fundos. Ele tinha aquele tipo de coragem que nasce mais da teimosia do que da valentia. Quando ouviu a porta bater de novo, pegou a lamparina e foi conferir, decidido a acabar com o mistério.
Abriu a porta devagar.
O terreiro estava vazio.
A lua, redonda e branca, parecia pregada sobre o telhado, olhando tudo com a calma de quem sabe mais do que diz.
Júnior ficou parado, esperando qualquer coisa. Um cachorro latindo, um galho caindo, um sinal de gente escondida. Nada. Só o silêncio crescendo, pesado demais para uma casa tão velha.
Ele deu um passo para fora e sentiu um frio no meio da noite quente. Olhou para a cerca, para o mandacaru, para o chão batido. Nenhuma pegada. Nenhum rastro. Só um canto de parede úmida e a porta balançando, de leve, como se respirasse.
Voltou para dentro com a sensação de que estava sendo observado.
Na manhã seguinte, Dona Cida gritou da cozinha. Júnior correu e encontrou a sala em desordem pequena, desses estragos que assustam mais do que uma grande bagunça. A porta tinha marcas de dedos do lado de dentro. Não marcas antigas.
Eram recentes. E no chão, a poeira havia sido remexida de um jeito estranho, desenhando o caminho de alguém que andou pelo corredor sem deixar pegadas.
A casa inteira parecia ter acordado antes deles.
Júnior, agora sem coragem de brincar, desceu o olhar até o rodapé e percebeu algo pior. As marcas não terminavam na porta. Seguiam em direção ao quarto dos fundos.
O dele. Dona Cida empalideceu. Pela primeira vez, não falou de vento, não inventou explicação, não fez piada. Só pegou a mão do rapaz e sussurrou que havia uma coisa naquela casa que não gostava de visitante curioso.
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