Um homem se muda para um bloco barato em Kuala Lumpur e começa a notar estranhezas no andar 18: sombras, vídeos impossíveis e um apartamento idêntico ao seu. Ao buscar ajuda, descobre que o prédio não tem moradores acima do 16º andar e que talvez ele não pertença ao mundo dos vivos.
Ninguém me avisou que morar sozinho em Kuala Lumpur podia ser tão silencioso. Eu achava que o pior da cidade era o barulho; descobri tarde que existe um ruído que não entra pelos ouvidos. Ele entra pela pele e começa quando tudo ao redor enfim se cala.
Eu me mudei para o bloco 18, em Chow Kit, porque o aluguel era barato e eu precisava de um lugar imediato. O apartamento era pequeno, com vista para as luzes distantes da cidade, e o corredor do andar tinha um cheiro constante de mofo, comida requentada e chuva velha.
O elevador tremia pouco, a lâmpada do hall piscava, e o silêncio parecia sempre esperar por mim do outro lado da porta.
Nos dois primeiros dias, tudo foi banal. O porteiro me cumprimentou com um sorriso cansado. Uma senhora do 16º andar arrastava sacolas de mercado ao amanhecer.
À noite, o vendedor de noodles lá embaixo fazia a escada subir com cheiro de gengibre, caldo e óleo quente. Eu até pensei, por um instante, que tinha encontrado um lugar tranquilo.
No terceiro dia, notei a primeira estranheza. Toda vez que eu voltava depois das onze, o elevador desacelerava no andar anterior ao meu. Não parava de vez. Apenas hesitava, como se algum mecanismo invisível pedisse licença para me deixar sair.
Quando as portas se abriam, o corredor estava sempre escuro, salvo por uma única lâmpada amarela no fundo. Nunca havia ninguém. Mas eu sentia, com certeza física, que algo permanecia ali, fora do alcance da luz.
Comecei a gravar vídeos curtos no celular, sem intenção clara. A chuva batendo na janela. A mesa improvisada. O corredor quando eu ia jogar lixo. Eu queria apenas provar a mim mesmo que aquela rotina existia de verdade.
Foi numa dessas gravações que encontrei a sombra. Ao rever o vídeo, vi uma forma parada perto da porta vizinha, a 1807. No momento da gravação, eu juro que o corredor estava vazio.
Mas a imagem mostrava algo imóvel demais para ser erro: uma presença escura, torta, como se tivesse sido recortada da própria ausência. Voltei o trecho várias vezes. A sombra continuava lá.
Na noite seguinte, fui até a porta 1807. Nunca tinha visto ninguém entrar ou sair dali. A madeira estava descascada nas bordas, e o número quase apagado. Só que, naquela noite, a porta estava entreaberta.
Não vinha som algum de dentro. Nenhuma televisão, nenhuma voz, nenhum passo. Apenas um ruído baixo, arrastado, como uma cadeira sendo movida muito devagar sobre piso de madeira.
Eu ainda estava parado quando o elevador chegou atrás de mim. Virei por reflexo e vi as portas se abrirem. O interior estava branco, frio, quase hospitalar. No painel, todos os números estavam apagados, menos um. 18. Somente o 18 estava aceso.
Fechei a porta do meu apartamento depressa e
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