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AprendizadoTranscrição
00:06O assunto de tarifa de ônibus sempre foi muito usado pelos partidos de esquerda
00:13como um elemento de mobilização dos jovens, né?
00:16Nós que já fomos militantes mais da esquerda, a gente conhece um pouco dessa história.
00:23Saí do PT quando o PT saiu de si, né?
00:26Eu costumo dizer isso, mas eu fui do PT durante muito tempo,
00:27mas nunca fui parlamentar pelo PT.
00:31Eu era trabalho de base, enfim, é curioso isso, né?
00:35Eu estava começando a minha gestão aqui em Salvador,
00:38todo o começo é muito difícil, tomei decisões duras naquele começo,
00:43e ali, com os movimentos de rua, eu diria que foi um dos momentos mais complicados
00:49do meu período inteiro à frente da prefeitura,
00:52porque a gente ainda não tinha capacidade de atender as expectativas da população,
00:57estávamos organizando a cidade e, de cara, a gente já recebeu toda aquela pressão, toda aquela demanda.
01:05Eu me lembro de uma noite em que meu filho, que estava, era estudante da USP,
01:09e que estava acompanhando todas as passeatas desde o começo,
01:13e me ligou e falou, pai, estou fora, isso aqui já não é mais mobilização popular.
01:20E me deu exemplo de vários cartazes sustentados pelo pessoal,
01:26que mostrava que era um outro tipo de público e outro tipo de mobilização.
01:31O que eu te digo e repito é o seguinte,
01:34eu atuei da forma mais consciente e equilibrada que eu...
01:40diante do que eu tinha disponível.
02:10Música
02:11Música
02:22Música
02:23Música
02:41Nós queremos tranquilidade na cidade para que a cidade funcione,
02:48para que as pessoas possam, para que possam, que os temas legitimamente levantados
02:55nas manifestações possam ser debatidos com tranquilidade.
03:01Então, quero dizer aqui que no caso do metrô e do trem,
03:06nós vamos revogar o reajuste dado, voltando a tarifa original de três reais.
03:44Música
03:48Eu lembro que a presidente Dilma Rousseff, no dia 24 de junho,
03:53convocou em Brasília uma reunião com os prefeitos das capitais e os governadores de Estado.
03:59Ali ela tentou dar um sinal de que faria mudanças,
04:02uma agenda de mobilidade, uma agenda de reforma política, etc.
04:06Na prática, pouca coisa saiu do papel.
04:09Mas foi um gesto que ela fez para tentar acalmar a população.
04:13Como presidenta, eu tenho a obrigação, tanto de ouvir a voz das ruas,
04:20como dialogar com todos os segmentos, mas tudo dentro dos primados da lei e da ordem,
04:29indispensáveis para a democracia.
04:31O Brasil lutou muito para se tornar um país democrático.
04:37E também está lutando muito para se tornar um país mais justo.
04:42Não foi fácil chegar onde chegamos.
04:46Como também não é fácil chegar onde desejam muitos dos que foram às ruas.
04:53Só tornaremos isso realidade se fortalecermos a democracia.
04:59Olha, ela anunciou, não foi uma conversa propriamente, tinha muita gente, não era, não dava para conversar.
05:06Mas o governo federal anunciou uma série de medidas, né?
05:10Para conter uma crise que já estava no colo do governo federal.
05:14Ali já estava...
05:18As coisas já estavam amadurecidas, né?
05:20Já se tinha compreensão do que tinha acontecido,
05:24que tinha chegado no plano federal, que era uma questão nacional.
05:28A presidenta Dilma Rousseff se reuniu no Palácio do Planalto com governadores e prefeitos de todo o país nesta segunda
05:34-feira.
05:35Na abertura do encontro, a presidenta propôs a elaboração de um pacto nacional para a melhoria dos serviços públicos.
05:42Essa é uma dimensão especialmente importante no momento atual,
05:47quando a prolongada crise econômica mundial ainda castiga com volatilidade todas as nações.
05:55Eu acho que o governo teve reações ao processo.
05:58Teve uma declaração da Dilma pública na televisão,
06:02onde anunciou uma série de medidas, investimento em transporte público,
06:07atuações contra a corrupção, que foi um tema que acabou entrando nas manifestações,
06:12anunciou o próprio Mais Médicos naquele momento também.
06:15E dentre essas iniciativas foi tentar demonstrar algum grau de abertura ao movimento social,
06:20até porque o governo Dilma era bastante criticado pelo seu fechamento, pela sua ausência de diálogo.
06:27Todos os ministros que se pronunciaram depois dessa reunião entre a presidenta Dilma Rousseff,
06:32os 27 governadores e os 26 prefeitos das capitais,
06:36afirmaram que tantos governadores quanto os prefeitos concordaram de forma unânime
06:42com os pactos apresentados pela presidenta Dilma Rousseff.
06:46O povo está agora nas ruas dizendo que deseja que as mudanças continuem,
06:52que elas se ampliem, que elas ocorram ainda mais rápido.
06:57Ele está nos dizendo que quer mais cidadania, quer uma cidadania plena.
07:04As ruas estão nos dizendo que o país quer serviços públicos de qualidade,
07:10quer mecanismos mais eficientes de combate à corrupção,
07:16que assegurem o bom uso do dinheiro público.
07:19Quer uma representação política permeável à sociedade onde, como já disse antes,
07:26o cidadão e não o poder econômico esteja em primeiro lugar.
07:38Ela se pronunciou e, quando ela se pronunciou,
07:43ela aderiu a essa pauta que a Uni já levantava do pré-sal para a educação.
07:49Então, a gente falou, olha, vamos seguir...
07:53Eu lembro que quando a Dilma reuniu, acho que foi na véspera,
07:57a gente fez um ato em Brasília, que eu não vou lembrar de todas as pautas,
08:01eu acho que eram cinco eixos que a gente tinha definido.
08:03E tinha essa questão do pré-sal para a educação, reforma política,
08:08eu acho, e o que eu lembrei, tinha um que era contra a cura gay.
08:11E, pós os protestos e a ideia também daqueles cinco pontos,
08:15que não foram nenhum dos pontos que foi levado adiante,
08:19também mostrou que não era aquilo,
08:21que o governo não estava enxergando o que estava em curso.
08:25O que estava em curso era uma negação
08:29de uma história que existia no Brasil muito grande,
08:33que era uma história que a classe política estava muito distante do povo.
08:39Eu lembro perfeitamente do Eduardo Paes,
08:41que é um dos que saem menos arranhados dessa história.
08:44O Eduardo me ligou na época, falando assim,
08:46vem tomar um café comigo para você me explicar o que está acontecendo.
08:49Eu falei, olha, Eduardo, primeiro que eu não...
08:52Eu não sei o que está acontecendo, desculpa, não posso te ajudar.
08:55Eu tinha disputado a eleição com o Eduardo em 2012.
08:58Eu falei, eu não tenho condição de te ajudar,
09:00porque eu não sei o que está acontecendo.
09:01Ele falou, mas eu não sei nem com quem conversar.
09:03Eu não sei nem quem que eu procuro.
09:05Eu falei, essa é a coisa nova.
09:07Eu não tenho um líder.
09:09que chama as massas para as russas.
09:11Não existe, mas isso acabou.
09:13Você vai ter que ir por categoria.
09:15Você vai ter que ir...
09:16E ele negociou mal com os professores, por exemplo.
09:19Todos eles, acho que todas as autoridades de vários partidos diferentes,
09:22do PT ou do PSDB, tiveram muita dificuldade.
09:25O Haddad teve muita dificuldade em São Paulo.
09:27O Eduardo teve dificuldade no Rio de Janeiro.
09:29O Cabral nem se fala, porque é um lunático.
09:31Mas a Dilma teve muita dificuldade, porque não tinha com quem negociar.
09:37Era uma crise mais estrutural.
09:39Quando a presidenta Dilma anuncia aquela série de medidas que tentavam diminuir o impacto
09:46dos problemas da mobilidade, ela também fala na reforma política,
09:50que era a forma que nós entendíamos, uma tentativa de dar resposta para essa acusação
09:58desse bloco, corrupção, políticos, tudo na mesma panela, etc.
10:04Então foi uma tentativa que não prosperou, porque, claro, o Congresso não tinha interesse nenhum
10:08em fazer plebiscito, em fazer reforma política.
10:12Acabou-se...
10:13Daquelas bandeiras, na verdade, a única que foi à frente é mais médicos.
10:18Nesse cenário, a reação, ela é isso.
10:22Ela é uma reação imediata.
10:24Se atira para todo lado, se tenta entender.
10:27Mas não acho que o governo da presidente Dilma ignorou ou fez pouco caso.
10:33Não, acho que ele levou muito a sério.
10:35Convocou coletivas e anunciou medidas e a Globo noticiou todas elas e divulgou com extensão.
10:45Agora, se deu certo ou não, é outra coisa.
10:48Mas eu não faria essa crítica ao governo da presidente Dilma.
10:52Ela reagiu como um governo reagiria diante de algo tão inesperado.
10:57Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com amor.
11:09Vem, vem pra rua, vem todo homem, todo homem.
11:13A rua é nossa, a rua é nossa.
11:19Nós estamos aqui pacificamente.
11:22Nós somos um movimento de ocupação pacífica.
11:26Que eu me lembro, só a MPL foi convidado.
11:28E eu acho assim...
11:32O convite tinha muito a ver também com alguma forma de, quando se surgem novas lideranças, como foi o caso
11:39da MPL em junho de 2013,
11:42uma postura é o combate, é tentar inibir essas lideranças de continuarem a sua mobilização.
11:50A segunda postura é você tentar cooptar.
11:53E eu vejo que essa reunião que aconteceu no Planalto, logo depois de junho de 2013, foi uma mudança de
11:59postura, até então era uma postura de tentar desmobilizar e etc.
12:04E quando isso se tornou impossível, foi tentado alguma forma de demonstrar diálogo, demonstrar que estava junto, demonstrar que estava
12:12disposto a ouvir as demandas e tudo mais.
12:15Fizemos essa reunião para discutir transporte, mas na verdade também foi uma reunião que eu vi um pouco, mas mostrou
12:22que a ideia não era nenhum avanço concreto ali no transporte por parte do governo federal.
12:28Questionaram também algumas posições, disseram que tarifas zero não eram o caminho, que não fazia sentido defender um transporte público
12:34gratuito para todos.
12:36E a gente teve algumas discordâncias e acabou sendo uma reunião mais protocolar.
12:39Não significou uma aproximação com o PT de nenhuma forma.
12:43Eu acho que o saldo foi, apesar de não ter, vamos dizer, servido de lição para os políticos tradicionais, foi
12:57mostrar para muita gente que havia um tigre de papel aí, encarnados por essas velhas lideranças.
13:13A capacidade de mobilização proporcionada pela internet e as pessoas verem que tinham poder de gerar alguma transformação.
13:28Olha, eu tenho um aprendizado tudo, acho que nós vamos aprender com aquilo, como lidar com aquilo.
13:38Nós estamos aprendendo até hoje.
13:39Tem uma série de coisas que a gente ainda não conseguiu dominar, no bom sentido da palavra.
13:46Não é um domínio para usar para o mal, mas para fortalecer a democracia, para preservar as instituições.
13:53Olha, eu acho que foi um saldo muito importante.
13:56Primeiro porque acordou uma população que estava há muitos anos adormecida.
14:02Depois, a rua é o lugar das pessoas colocarem as suas opiniões, reivindicarem, protestarem.
14:09Aquilo fez com que a classe política parasse e ouvisse com atenção o que estava acontecendo no país.
14:18Quem foi capaz de compreender que era preciso mudar, avançou, progrediu.
14:25Tem um lado bom, vou falar a partir da minha experiência, que ele me permitiu, como político, como governante,
14:33entender que aquele mandato que eu tinha ganho de forma arrebatadora em 2012, não me legitimava para tudo.
14:40Ou seja, dialogue mais, fale mais com as pessoas, fique mais atento, tenha um governo mais transparente, preste atenção nisso
14:47ou naquilo.
14:48Esse é o lado positivo que eu acho que trouxe para a democracia brasileira.
14:52Ao mesmo tempo, ali eu acho que se começa um processo de generalização da crítica a governos e governantes
15:00e a classe política como um todo.
15:03E aí você tem todos os episódios que desencadeiam a partir dali, essa certa generalização, essa crítica ao status quo
15:09político,
15:11que, na minha opinião, e isso o futuro achou que mostrará,
15:15acabou levando a um certo aniquilamento mesmo de pessoas.
15:20Aniquilamento no sentido, não é aniquilamento político definitivo,
15:24mas levou a uma transição que eu acho que é uma transição muito radical.
15:31Eu devo registrar que a maioria daqueles que discutiram aqui, pelo menos estão optando pelo plebiscito,
15:42junto com as eleições de 2014.
15:45Mas não há nenhuma dúvida em relação à tese da consulta popular.
15:49No segundo turno que seria realizado?
15:50No segundo turno das eleições no ano que vem.
15:57Não há mais condições, vocês sabem disso, não há mais condições de fazer qualquer consulta antes de outubro.
16:06O Brasil está insatisfeito e são poucos que podem pensar e muitos estão com medo de protestar.
16:13As pessoas estão com medo dos vândalos, estão com medo da polícia.
16:17A polícia também é criminalizada, a polícia está perdendo a imagem.
16:21Precisamos desmilitarizar a polícia militar, os abusos policiais, a quantidade de armas que eu vejo todo dia.
16:31Eu acho que o povo não pode perder essa oportunidade que nos foi dada,
16:34que já estourou todo o problema que estava tendo num país de corrupção,
16:38todo o problema de impunidade.
16:41Eles não podem fazer isso, eles estão achando que o povo é idiota.
16:44A gente finalmente acordou, a gente não vai aceitar que essa realidade continue do jeito que está.
17:10Por isso a gente tem que tomar muito cuidado com tudo que a gente fala, porque são lutas em curso.
17:14E a nossa criminalização também é um capítulo dessa batalha.
17:26Quase sempre nos movimentos sociais, nos anos ímpares, as pessoas são revolucionárias.
17:30Nos anos pares, o movimento sai da rua e vai cuidar da burocracia, vai cuidar das eleições.
17:36Todos os movimentos de esquerda cresceram muito depois de 2013,
17:39tantos partidos de esquerda, os movimentos sociais, os movimentos de moradia,
17:43o número de ocupações em São Paulo e em vários outros estados,
17:46movimentos feministas, movimentos em escolas.
17:49Acho que a ocupação das escolas em São Paulo, que depois se difundiu para todo o Brasil,
17:53foi uma consequência direta desse processo, inclusive.
18:04Depois de 2013, apesar de eu não ter participado efetivamente das manifestações, das jornadas,
18:12ficou um vazio, assim, de sentir a necessidade de me organizar,
18:16de continuar, de alguma forma, contribuindo para a luta.
18:20E aí foi que eu comecei a me interessar pelas atividades que o Grêmio da minha escola puxava.
18:38O saldo de 2013, eu ainda acho que é um referencial de que a rua é o nosso espaço.
18:45E se a gente não ocupar as ruas, há quem ocupe.
18:59E ali eu acho que teve uma característica, que eu acho que naquele momento a esquerda não estava preparada
19:06para ter assumido uma posição muito mais, de ter acolhido muito mais o movimento
19:11que estava crescente nas ruas e meio que perder um pouco o bonde da história, né?
19:28O problema é nosso, é de todo mundo.
19:31E todo mundo sofre com a corrupção.
19:35Todo mundo, não tem ninguém que se salve.
19:37Acho que até quem rouba se prejudica com a corrupção,
19:41porque os netos e os filhos dessa pessoa vão sofrer com a corrupção.
19:46Então o saldo social foi colocar um pouco na cabeça das pessoas
19:50que o exercício da cidadania, ele é válido e é necessário.
19:542013 serviu para mostrar que existia uma outra torcida, entre aspas,
20:02existia uma outra galera que ia fazer também jus e diferença.
20:07Porque quando eu estive em 2014 no Congresso,
20:13eu ouvi dos deputados me dizendo que finalmente vocês chegaram,
20:18porque a gente parece que está jogando a final do campeonato sem torcida.
20:22Ou seja, fica desestimulado também o próprio político que está no lado da direita.
20:30Hoje a direita já pode se dizer assim que se fosse comparar o futebol,
20:34já tem uma grande torcida.
20:37O saldo foi um impeachment,
20:49ascensão da direita no Brasil.
20:52Então aquilo lá acendeu, facilitou, na minha opinião,
20:56facilitou esta volta do ódio,
21:03essa volta da indiferença, da intolerância.
21:08Eu acho que tudo isso é fruto das manifestações
21:13que não tinham organização, que não tinham pauta,
21:16que não tinham objetivo.
21:33Eu condenei e alertei em rede nacional, na semana passada,
21:39que meu governo não vai transigir na manutenção da lei e da ordem,
21:44coibindo a ação de vândalos arruaceiros
21:50que tentam perturbar o caráter pacífico das manifestações.
21:54Eu repito essa disposição perante os senhores e as senhoras
21:59e reafirmo o meu compromisso de ajudá-los no que for necessário
22:04para garantirmos paz e tranquilidade às nossas cidades.
22:09Mas quero repetir principalmente que o meu governo está ouvindo
22:13a voz democrática, as vozes democráticas que saem e emergem das ruas
22:20e que pedem mudanças.
22:22É preciso saber escutá-la, saber escutar a voz das ruas.
22:28Só ela é capaz de nos impulsionar a andar ainda mais rápido.
22:33É preciso que todos, todos mesmos, sem exceção,
22:39entendam esses sinais com humildade e acerto.
22:43Isso vale não apenas para nós, líderes de governos,
22:47mas igualmente para os brasileiros e brasileiras
22:49que estão em suas casas e também para aqueles que foram às ruas.
22:54Se aproveitarmos bem o impulso dessa nova energia política,
22:59poderemos fazer mais rápido muita coisa.
23:04Cabe a nós saber retirar deste momento mais força
23:08para fazermos mais pelo Brasil e muito mais pelos brasileiros.
23:15Hoje a minha postura, quando eu olho um lado que eu não concordo
23:18e o outro que eu não concordo, eu vou botar o zero, zero, confirma,
23:21porque é a minha forma de dizer.
23:23Vocês, nenhum desses lados me representam.
23:53A CIDADE NO BRASIL
23:55Amém.
24:28Amém.
24:55Amém.
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