00:02Aí me pegou pelo pescoço, dando a minha cabeça na geladeira, dando na parede, e minha menina em cima.
00:07Quando eu conheci ele, era tudo a mil maravilhas.
00:12Foi no ano de 86, e ele era um verdadeiro príncipe encantado.
00:18Eu comecei a namorar com ele, e com uns três meses, quatro meses, eu já estava morando com ele numa
00:24casa.
00:25E daí eu engravidei, e veio as agressões. Começou com gritos, chegava brabo em casa, aperreado, e eu ia tentar
00:35acalmar.
00:36E ele jogava na minha cara que eu não sabia ler, que eu era uma burra, que eu não servia
00:40pra nada, que não tinha como dar conselho a ele, porque eu não tinha entendimento de nada.
00:44Eu era analfabeta, tu não pode nem abrir a boca nos cantos.
00:48Então eu não podia chegar pra minha família e dizer o que ele tinha feito comigo, né?
00:53Porque é aquela coisa, você vai contra todo mundo pra ficar com uma pessoa amada.
00:57E quando descobre que não é aquilo que você imaginou, você fica com vergonha de chegar a um tal família,
01:02a um tal examego e dizer, ó, não é assim não.
01:04Ele é violento, ele é agressivo, você não diz.
01:06Eu tive meu filho dias depois de fazer 17 anos, porque eu fiz 17 no dia 1 de outubro, e
01:15no dia 27 de outubro ele nasceu.
01:17E eu fiquei assustada, porque eu fiquei pensando assim, né?
01:20Eu com a barriga assim, ele fez isso.
01:23Quando eu não tiver grávida, como é que vai fazer?
01:25Ele passava 2, 3 dias fora de casa.
01:28Quando chegava, ele saia na sexta, chegava na segunda, de noite já.
01:31E quando chegava, eu ia perguntar onde ele tava.
01:34Eu com a barriga desse jeito, tu me deixou sozinha aqui.
01:36Ele dizia, tu acho que ia morar aí de frente.
01:38Se tu morresse, elas iam ver.
01:40E foi só piorando.
01:42Uma certa vez, eu cheguei na casa da minha mãe com a boca sangrando, e minha mãe perguntou o que
01:46foi.
01:47Eu disse, eu brigando com a Cis, bati no braço dele.
01:50E minha mãe arrumou gelo lá, botou, e disse, vá pra casa, lava o rosto e vá pra casa antes
01:55que ele chegue.
01:56Porque se você chegar e ele não estiver em casa, ele chegar e você não estiver em casa, as coisas
02:00podem piorar, né?
02:01Que é ruim com ele e pior sem ele, vai-se embora.
02:03E aí nesse período, eu ainda achei de engravidar de novo.
02:07Eu não tinha dinheiro pra tomar injeção, aí engravidei.
02:12E quando ele, eu fiquei com um lado de louco, eu disse, meu Deus, mais um filho pra ele bater.
02:17Já era o terceiro.
02:19E quando ele soube, aí disse que, deixa nascer, né? Fazer o quê?
02:24Tu não tomou cuidado? Eu disse, sim, mas eu tomo cuidado.
02:27Só que agora não tinha como tomar cuidado.
02:28Dava um jeito, dava um jeito.
02:30E eu engravidei, e a barriga crescendo, e a gente passando aperto.
02:34Botava meu menino numa esquina pra vender pinha, botava minha menina na outra.
02:39Eu ficava na barraca de confeito, e ele bebendo, de bicicleta pra cima e pra baixo.
02:43O ano passado, era com uma latinha de cerveja na mão, ou então um choppinho que tinha antigamente de vidro.
02:48Ele teve uma época que a gente tava vendendo muito,
02:51porque a minha menina e meu menino tinham muito carisma pra vender, principalmente a menina.
02:55E a gente vendia muita coisa.
02:56E ele pegou o dinheiro, botou no banco, pra receber um talão de cheque.
03:01Aí passava cheque emprestado pra todo mundo.
03:04Eu dizia a ele, olha, chegava em casa, eu ficava com cara feia.
03:07Aí ele dizia, tá com cara feia por quê?
03:08Tu, olha, tu, eu não sei não.
03:09Tu só vai apanhando mesmo, porque teu negócio é apanhar.
03:12Porque no dia que tu não chega na barraca com a cara...
03:14Isso nesse período, eu apanhava quase todo dia.
03:17Porque quase todo dia, eu tinha uma coisa pra perguntar a ele por quê.
03:21Eu disse a ele, tu dá cheque a todo mundo por aí.
03:24Ele disse, eu não tô dando cheque nem, eu tô emprestando.
03:26Eu disse, sim, mas se esse povo não te pagar, não devolver o dinheiro.
03:29Eu disse, eu sei o que eu tô fazendo.
03:31O dinheiro é meu, se ele pagar ou não, o prejuízo vai ser meu.
03:34Eu disse, mas é eu e o menino que trabalha.
03:36Aí ele metia o pau.
03:38Aí eu fui na delegacia.
03:41E foi a primeira vez, em 2003.
03:44Olha, a que custo eu cheguei nessa delegacia.
03:47Tanto medo, eu olhava tanto na minha menina dela.
03:49Eu tô calhando, mãe.
03:50Se eu ver a bicicleta dela, eu ver alguém conhecido, eu lhe aviso.
03:53E eu consegui chegar lá.
03:54E quando chegou lá, eu contei a situação todinha ao policial.
03:58E ele disse, a senhora mora com ele há quantos anos?
04:00Aí eu disse, vai fazer 20 anos.
04:02Ele disse, a senhora tem quantos filhos?
04:04Tem filhos com ele?
04:04Tem quantos?
04:05Eu disse, quatro.
04:06E a senhora não tem vergonha na cara, não, de vir prestar queixa do seu marido.
04:10O pai dos seus filhos.
04:11A senhora tem quatro filhos com ele.
04:12A senhora viveu quase 20 anos com ele.
04:14A senhora vai prestar queixa.
04:15A senhora quer ver seu marido preso?
04:17Eu disse, mas ele bate em mim.
04:19Eu pensei assim, né?
04:20Se a polícia tá dizendo isso, eu vou pedir socorro a quem, né?
04:23A ninguém.
04:23Aí eu fui pra casa e prometi a mim mesmo que nunca mais eu ia pedir socorro a ninguém.
04:36Pelo centro, pra vir pra cá, tinha umas meninas entregando os panfetos.
04:41Porque o centro das mulheres, ele tem esse trabalho.
04:43Ele faz panfeto de projetos daqui, né?
04:49Projetos de culinária, projetos de muitas coisas.
04:52E a menina tava entregando esse panfetozinho.
04:54E a Andesa pegou um e eu peguei um.
04:57Aí ela soltou o dela e ficou com o meu na mão.
04:59Aí eu disse, Andesa, isso aqui eu acho que é negócio de culinária.
05:01É bom pra tu fazer um curso se teu pai deixar.
05:04Maninha, isso aqui é de uma lei.
05:06Eu já tinha escutado falar, mas eu não entendi bem o que era, não.
05:10Mas parece que é uma lei pra ajudar as mulheres que sofrem que nem a senhora, que sofrem violência.
05:15A gente foi, veio aqui no centro.
05:17Quando chegou aqui, as meninas pareciam que me conheciam há 100 anos.
05:22Me abraçaram.
05:23Não sabia nem o que era que eu tava fazendo aqui, mas me abraçaram.
05:26Como é seu nome?
05:27Vinha, você mora onde?
05:28Eu disse, em Barbalho.
05:29A gente tem um projeto lá em Barbalho.
05:31Nunca te vi lá, nunca vi ela lá.
05:32E eu expliquei, né?
05:33A gente veio aqui, a gente tá com muita pressa.
05:35Minha mãe veio denunciar meu pai.
05:37E a doutora Cindava disse, olha ali, isso tem lei pra isso.
05:43Não tinha, mas agora...
05:44Eu disse, mas eu fui na delegacia, o policial, assim, assim, assim.
05:47Ela disse, mas antes não tinha não, mas agora tem.
05:50Viu?
05:50E a gente vai batalhar aqui.
05:51Se for preciso, a gente arruma um carro, pega suas coisas, bota em cima, como a gente já fez com
05:55muitas mulheres aqui.
05:56E a gente vai tirar você da mão dele.
05:58Quando eu cheguei em casa, a gente demorou um pouquinho, mas ele já tinha vindo da escola do menino.
06:02E tinha arrastado o menino, levado o menino na força.
06:05Até o vigia tava lá aperreado com ele.
06:07Quando eu cheguei em casa, o menino tava lá.
06:09Aí ele não tava não, deixou o menino sozinho e saiu.
06:11Aí eu disse, você tá fazendo o que aqui em vocês?
06:12Aí ele foi buscar a gente.
06:14Aí eu disse, por que ele foi buscar vocês?
06:16Aí eu disse, sei não.
06:17Ele disse que a senhora foi quengar, a mãe Andresa, e deixou a gente na escola.
06:20Aí quando eu vi, ele chegou.
06:22Aí ele já entrou bravo.
06:24Aí ele disse, você tava onde?
06:25Aí ele pegou no meu pescoço, você tava onde?
06:28Eu disse, eu tava na escola.
06:29Fui deixar o menino na escola, e lá fui na escola de Andresa, renovou a matrícula dela.
06:32Ele disse, eu passei lá, não te vi.
06:34Passei na escola do menino, tu não tava.
06:36Eu disse, então, porque eu deixei primeiro o menino, depois eu fui na de Andresa.
06:38Você entrou?
06:39Ele disse, não entrei não, mas eu sei que tu não tava lá.
06:41Eu conheço gente safada de longe, eu tenho faro de gente safada.
06:44Aí tu vai me dizer onde foi que tu tava.
06:46Aí ele pegou pelo pescoço, dando a minha cabeça na geladeira, dando na parede.
06:50E minha menina em cima.
06:51Aí minha menina disse, aquela pessoa que ela tava no colégio, né?
06:54A mais velha, a segunda.
06:56Ele disse, a senhora não vai dar na minha mãe mais não, pai.
06:59Aí ele disse, apanha tu e tua mãe, porque são duas quengas safadas.
07:02Ela sai pra arrumar a matra pra ela e pra tu também.
07:04Após ela vai dizer onde é que ela tava.
07:05Aí começou a bater em mim, minha menina em cima, meus pequenininhos em cima.
07:08Só que a menina do centro tinha dado um número do telefone daqui e o número da polícia.
07:13Pra gente ligar se caso precisasse.
07:15E ele derrubou tudo, televisão, tudo.
07:17Ele bateu no guarda-roupa, quebrou porta de guarda-roupa.
07:20Saiu quebrando tudo.
07:21Prato, copo, o que tinha na vista dele não ficou nada inteiro.
07:25E minha filha conseguiu sair da mão dele.
07:28E eu peguei os dois pequenos e ela disse, corra pra rua amanhã, corra pra rua, eu não vou deixar
07:31você aí não.
07:32Ela disse, eu consigo sair.
07:34E a gente correu pra rua e ela disse, vamos pro orelhão.
07:36Eu disse, bora.
07:37E quando chegou lá eu liguei, primeiro pro centro das mulheres.
07:41E elas já chamaram a polícia.
07:44Eu disse, ainda não, chame e a gente vai chamar daqui também.
07:46E a gente tá indo pra ir com o carro pra levar seus meninos.
07:49Quando ele viu o carro da polícia que me viu descer também, ele se levantou e foi logo dizendo que
07:54eu tinha furado ele com a tesoura.
07:55Ele tava todo esfaqueado nas costas.
07:58Eu tava aqui dando um tempinho pra ir pro hospital, porque ela e a filha dela me esfaquearam todinho com
08:02a tesoura.
08:03Aí o policial disse, e foi.
08:04Aí fui levantando a camisa.
08:05O policial disse, não, você tá mostrando a gente.
08:07Isso aí você mostra no IML.
08:09Vamos fazer o exame de corpo de alito no senhor e vai comprovar.
08:13Aí me acompanha.
08:14Aí ele foi entrar onde eu tava.
08:15O policial disse, não, você vai na mala, você tá preso.
08:18Aí quando chegou na delegacia, os policial levaram ele e a gente ficou lá.
08:23Quando chegou o novo plantão, a doutora Lucinda Alva disse que era pra encaixar ele na lei Maria da Penha.
08:29Que tava entrando em vigor naquele dia.
08:31Aí a comissária começou a rir.
08:33A gente disse, essa lei vai entrar em vigor daqui a 40 dias.
08:36Aí a doutora Lucinda Alva disse, não.
08:38A partir de agosto ela ficou 40 dias pra começar a valer mesmo.
08:42E hoje é o dia.
08:43Levaram ele.
08:44De lá ele foi pro hotel.
08:45Aí passou quatro meses e treze dias preso.
08:52E daí, só vitória.
08:55No começo foi difícil porque nos primeiros meses que ele tava preso eu não vivia.
09:01Porque o medo era muito dele se soltar, dele fugir.
09:04Depois disso foi só alegria.
09:06Só viver.
09:07Sabe?
09:08Fazer coisas que eu não podia fazer.
09:10Escolher o lado que eu ia usar meu cabelo.
09:12Se eu abria no meio ou de lado.
09:13Porque lá, se abrisse de lado era quenga.
09:16Se abrisse no meio, tava procurando mais pra atrair o marido.
09:19E tinha essa...
09:20Não podia vestir preto porque tava agorando ele.
09:23Se ele me visse com a roupa preta, ele rasgava todinha.
09:25E eu ainda apanhava.
09:26Então, esses 20 anos foram só de lucro.
09:32Só lucro, só alegria.
09:33Às vezes eu fico assim pensando.
09:35E tem hora que eu nem acredito ainda, minha irmã.
09:37De acordo de manhã.
09:38É verdade, manhã.
09:3920 anos se passou.
09:40Você ainda tá aí nesse mundo ainda.
09:42Diga, é porque eu tenho medo de ser um sonho longo assim e acordar de repente.
09:45A Lei Maria da Penha...
09:46Quando me perguntam o que é a Lei Maria da Penha pra você...
09:49Eu sou a mulher mais suspeita do mundo pra falar.
09:53Porque depois de Deus foi o que mudou a minha vida.
09:56Então, as mulheres hoje, elas não precisam mais se calar.
09:59Não precisam mais se esconder.
10:00Andar na rua com a mão em cima do olho roxo.
10:04Elas têm que ir direto pra delegacia.
10:06Então, o conselho que eu dou é denunciar.
10:08E o conselho que eu dou a pai, mãe, irmão, tia, prima é observar.
10:13Observe como o marido da sua filha tá tratando ela.
10:16Observe as falas dele.
10:22Observe as falas dele.
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