00:00Três casos de violência doméstica em apenas um final de semana.
00:04Três diferentes histórias, mas com a mesma marca, o medo dentro de casa.
00:09E o que mais choca é que em dois desses casos, quem entrou na frente do agressor para tentar defender
00:16foram os próprios filhos, crianças que deveriam estar protegidas.
00:20Acabam virando então testemunhas de um ato criminoso quanto esse, muitas vezes até escudos das próprias mães.
00:27Essa violência não termina quando a agressão acaba, ela deixa marcas que podem durar a vida inteira.
00:35E para falar sobre esse drama, eu recebo agora a advogada especialista em, claro, direitos da mulher.
00:41Agora, doutora Roseli, a gente sabe que é uma situação triste, né?
00:46Seja bem-vinda ao Brasil Urgente Espírito Santo, infelizmente para tratar de um caso que choca toda a sociedade.
00:53Agora, doutora, parece que esse número, a tendência é só que ele cresça, né?
00:58A gente vê o reflexo disso todos os dias.
01:00Nós noticiamos todos os dias aqui no Brasil Urgente Espírito Santo, vários casos de violência contra a mulher
01:06e parecem que esses números não param de subir.
01:10Essa é realmente a realidade?
01:12Esses números estão subindo ou as pessoas estão denunciando mais?
01:15O que está acontecendo, doutora?
01:17Isso, é importante observar a relação entre a violência contra a mulher
01:22e o fato da maioria das mulheres que estão sofrendo violência estão sofrendo na presença dos filhos e das filhas.
01:29Quando a gente olha os dados que são divulgados, né?
01:33Principalmente pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública, Data Senado.
01:36Então, tem ali um perfil da mulher que mais sofre violência e mais tem dificuldade de saber sair do relacionamento
01:43abusivo.
01:44Só uma correção, não sou advogada, sou professora da UFSS, doutora em Ciência Jurídica.
01:48Senão, os advogados podem ficar chateados comigo.
01:50Não, fica tranquilo.
01:51Então, o que nós estamos observando?
01:55Existe um ciclo que tem uma tendência de continuar.
01:58Se essa criança está vendo a mãe sofrer violência na cabeça dela, sofrer violência e a mata, tudo bem.
02:07Então, ela pode ser uma futura mulher que vai continuar sofrendo violência de um futuro namorado, de um futuro marido.
02:14O filho também relaciona afeto com violência.
02:18Então, ele vai ser um futuro agressor.
02:20Mas a pergunta é, por que essa mãe não sai de casa e não larga o relacionamento abusivo,
02:26já que os dados mostram que, em sua maioria, são elas que estão sendo também assassinadas vítimas de feminicídio?
02:34Primeiro lugar, essa mãe, que em sua maioria são negras e de periferia, não tem condições financeiras de sair de
02:42casa também por causa da criança.
02:45Como ela vai alimentar esses filhos que são numerosos, dois, três, quatro, se ela sair?
02:52A dependência financeira, além da emocional.
02:54Sim, os dados mostram, por exemplo, qual é a primeira rede de apoio que a mulher busca quando ela sofre
03:00violência.
03:00A família, segundo a igreja.
03:03Então, quando ela chega na família e diz, eu preciso sair de casa porque eu estou sofrendo violência.
03:07A família, na maioria das vezes, com a situação muito pior do que a dela, diz, ruim com ele, pior
03:13sem ele.
03:14Então, essa é a primeira questão.
03:16A segunda questão é que a gente observa muito no Fordan, é que a criança não olha o pai como
03:21um agressor.
03:23Olha como um pai.
03:25Então, é a primeira a julgar a mãe achando que a mãe que larga o pai está errada.
03:31É um machismo já impregnado desde a infância, né?
03:33Nós temos um caso, vários casos, mas esse em especial, de uma criança que a mãe sofreu duas tentativas de
03:41feminicídio, se separou.
03:43E aí, o que a criança fazia?
03:45Uma menina.
03:45Ela escrevia cartinhas para o pai, monitorando a mãe, colocando a mãe em risco.
03:51Papai, mamãe está no ponto de ônibus.
03:53Papai, mamãe vai sair de tal lugar.
03:55Então, para a gente entender a complexidade disso.
03:59Agora, precisa também entender como é que essa criança vai ser projetada no futuro, se não há uma cura dessa
04:07violência.
04:08Então, o que nós estamos dizendo?
04:09São crianças que terão muita dificuldade na escola.
04:13São crianças que terão muita dificuldade em relacionamento.
04:16E são crianças que provavelmente terão como forma de se manifestar a agressividade.
04:22Então, você vê uma mãe que ela queimou a mão da criança porque queria educar.
04:30Talvez isso esteja no processo educativo dela.
04:33Enraizado.
04:34Enraizado.
04:35Então, há pesquisas que mostram que os pais, eles repetem o comportamento dos pais que tiveram.
04:42Ah, mas hoje nós estamos vivendo uma outra geração.
04:45Sim, mas isso precisa ter uma política pública para que essas crianças, essas mulheres sejam cuidadas e esses homens sejam
04:53cuidados.
04:54A pergunta é, nós temos política pública hoje de saúde mental que dê conta disso, Finis?
04:59Não temos.
05:00As mulheres que sofrem violência, elas conseguem ter acesso com facilidade a políticas públicas de saúde mental?
05:08Não.
05:08E as crianças também não.
05:10Porque nós não temos hoje, aliás, nós temos uma demanda muito superior àquilo que a política pública consegue dar conta.
05:21Agora, você falou que a política pública, a própria justiça, as autoridades, cada um tem o seu papel fundamental no
05:29enfrentamento à violência.
05:30Inclusive nós temos esse papel como sociedade e tentar ajudar outras pessoas.
05:35Só que eu lembro que a gente sempre, quando entra nesse assunto, nesse debate, que às vezes demoram anos para
05:42que as mulheres consigam entender que elas estão em um relacionamento abusivo.
05:45Às vezes 10 anos.
05:46Sim.
05:47Então, há quantos anos essa situação persiste e que infelizmente resulta na morte de uma mãe, de uma mulher e
05:55consequentemente destrói a infância e a adolescência dessa doença?
05:58Aí nós vamos entrar na questão da lei.
06:01Então, nós temos um PL para ser aí votado, que é o PL da misoginia.
06:05O que é o PL da misoginia?
06:07Você tem hoje a machosfera, que é como que há uma remuneração, uma monetização da violência contra a mulher, do
06:16ódio contra a mulher nas redes sociais.
06:17Então, se essa mulher constantemente é violentada e ela não tem uma proteção da justiça para isso, ela passou dentro
06:27de um lugar e ela foi sediada no ônibus.
06:29Ela vai denunciar, isso vai ser averiguado, ele vai ser punido.
06:33Foi passado aí, ele foi preso, mas ele foi solto na audiência de custódia.
06:38Essa mãe tem que proteção para poder entregar esse homem se ele vai voltar para casa dois, três, quatro dias
06:46depois.
06:46Quem vai proteger os filhos dela quando isso acontecer?
06:50Ela tem um aluguel social para onde ir, Vinicius?
06:52Então, tudo isso é muito complexo.
06:54Não podemos olhar para a mulher e achar que ela não sai de casa porque ela não quer, porque ela
06:59não entendeu a violência.
07:00Existe um conjunto de ações que define que hoje, dez mulheres serão assassinadas, quatro delas por feminicídio,
07:09e dessas dez, nós temos sete mulheres que serão negras de periferia sem condições financeiras de sair do relacionamento abusivo.
07:16Parece que quanto mais a gente fala, né, Roseli, os dados vão surgindo, vão crescendo.
07:21Só para confirmar, então, Roseli Pires, coordenadora do FORDAN, Programa de Enfrentamento de Violência da Universidade Federal do Espírito Santo.
07:29Muito obrigada pela sua participação aqui no Brasil, gente, Espírito Santo.
07:32Até uma próxima.
07:32A gente poderia até formar um quadro, né, falar sobre violência contra a mulher, a senhora fazer parte desse debate.
07:37É importante a sua fala com propriedade e com precisão também na notícia, com os dados oficiais, isso é importante.
07:43Não brinque em serviço.
07:45Obrigado, viu?
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