- há 5 semanas
PretaPod ES debate a solidão da mulher da negra
Categoria
🗞
NotíciasTranscrição
00:03Dizem que o amor não tem cor, mas a solidão tem.
00:07Dados do IBGE apontam que do total de 11,4 milhões de famílias formadas por mãe solo,
00:157,4 milhões delas são mulheres negras, que foram abandonadas pelos seus parceiros no amor e na maternidade.
00:25No mundo corporativo, não é diferente.
00:28De acordo com o levantamento do Instituto Etos, mulheres negras são maiorias apenas em cargos de aprendiz.
00:37Quando falamos de posições de gerência, por exemplo, a solidão está presente mais uma vez.
00:43Isso porque a porcentagem de mulheres negras na liderança em empresas cai para apenas 1,6%.
00:52Eu me chamo Elis Carvalho e vamos começar mais um Preta Pod.
00:56O nosso podcast feito 100% por mulheres negras.
01:01Hoje com o tema Sozinha, uma mulher negra.
01:04E eu já começo esse nosso bate-papo apresentando aqui as nossas convidadas de hoje,
01:09a educadora Winnie Fabiano, que também atua como produtora, mobilizadora e empreendedora sociocultural.
01:16Muito obrigada pela presença, Winnie.
01:18Obrigado a vocês pelo convite.
01:20E para compor aqui também a nossa roda de conversa, temos a presença da Ana Paula Tongo,
01:26que é pós-graduada em engenharia de produção, especialista em gestão de obras, CEO e cofundadora da empresa Bitável Tecnologia.
01:36Obrigada, Ana Paula.
01:37Obrigada pelo convite.
01:38Bom, meninas, eu sempre falo que a mulher negra aprende a viver com a solidão desde muito cedo,
01:45quando elas sequer são mulheres, quando elas são apenas meninas ainda.
01:49Winnie, eu queria começar te perguntando, como que você define a solidão da mulher negra?
01:54A gente passa por diversos processos de solidão, desde a questão da maternidade,
02:00passando pela nossa infância, juventude, e chegando à vida adulta e envelhecimento também.
02:05Então, a gente está em vários aspectos da vida, em sua maioria sozinhas.
02:10Quanto mais retinta, ter um corpo fora do padrão, que é um corpo gordo,
02:16você ser uma mulher trans, ser uma pessoa bissexual, ter essa opção sexual.
02:22Então, são várias coisas que influenciam e te colocam nessa posição de solidão.
02:26E a gente começa a passar algumas por terapias, em sua maioria,
02:31para a gente aprender a conviver com isso.
02:33Então, eu vejo a solidão também, ela é atrelaçada à palavra força.
02:38Que quando você utiliza sobre sempre, você está nessa posição de ser forte,
02:43de aprender a lidar com as vivências, com as consequências,
02:48as questões que vão acontecendo na nossa vida.
02:50Então, a gente sempre tem que estar nessa posição de força.
02:52E isso gera uma solidão, e isso gera um excesso de enregencimento sobre os nossos corpos.
03:00Como a mulher negra nunca foi colocada em todas as mídias,
03:05desde desenho animado, história em quadrinho, como um exemplo de beleza, de poder,
03:11sempre colocada ali naquele papel subalterno e tudo mais.
03:15E, mais uma vez, eu digo, problema algum.
03:17Você está numa profissão em que você está ali para cuidar de outras pessoas.
03:22O problema é quando a gente só tem essa opção, não tem outra.
03:27E aí, eu acho que isso é meio que natural, é estrutural.
03:30As pessoas, desde sempre, não enxergam a gente como algo belo, como uma pessoa para casar.
03:37Na sua experiência pessoal, você também percebeu isso, repetidas vezes,
03:42até você parar para pensar, peraí, tem algo errado?
03:44Quando a gente começa a ver aquelas mesmas atitudes, aquelas mesmas coisas,
03:49que você vê que vai se encaminhar para um pretenimento,
03:53que daqui a pouco aquela pessoa vai estar assumindo realmente uma relação,
03:56e não é com você, porque, na maioria das vezes,
04:00às vezes, quando é até algo casual, a pessoa já te coloca numa posição de amiga,
04:04não te assume, e a gente tem que aprender a lidar com isso.
04:08E hoje, eu estou aprendendo a me permitir e entender os meus limites.
04:13Isso daqui dá para mim, isso daqui não dá.
04:15Porque, infelizmente, é algo estrutural de dentro da sociedade
04:18e que a gente está bem longe de acabar com isso.
04:21Porque, por mais que você esteja numa posição de ascensão,
04:24numa posição de poder, a raça que determina as suas relações.
04:29Então, uma vez eu ouvi a Diamila Ribeiro falando sobre os mitos da mulher negra.
04:34Então, a mulher negra retinta é aquela mulher que é a barraqueira,
04:39a favelada na forma mais pejorativa possível,
04:42ou então é aquela mulher que está ali para te servir,
04:45aquela senhora que abdicou da própria vida para cuidar de você.
04:47Já a mulher negra menos retinta é a mulher da cor do pecado,
04:51a exportação, a mulata exportação,
04:54que é a mulher para o sexo, para transar,
04:56mas jamais para ser assumida, jamais para receber afeto.
04:59E isso me remete a algumas frases que algumas amigas não retintas já ouviram,
05:05do tipo assim, terminar um relacionamento e o cara falar,
05:08mas você já viveu isso outras vezes, você vai superar, você é forte.
05:12E é interessante que as pessoas sabem que a nossa força,
05:15ela não foi feita só para aguentar dor, né?
05:18Então, as pessoas têm muito essa coisa da mulher forte,
05:20que aguenta tudo, não precisa de anestesia,
05:23ela vai carregar o mais pesado e tal,
05:25e não entende que nós somos fortes, mas nós também somos frágeis, né?
05:30E tem muita coisa aqui por trás da nossa história,
05:33que a gente vive, que a gente carrega,
05:35que é subjetiva, que a gente não consegue provar.
05:38Como que eu vou provar para alguém
05:39que todas as pessoas que se relacionaram comigo,
05:42não permaneceram porque eu sou uma mulher negra,
05:44e na imaginação delas eu não sou uma mulher para casar.
05:48Não tem como você provar isso.
05:50Aí cai naquilo já é mimimi, é vitimismo e tal.
05:53Só que os dados estão aí e eles apontam.
05:56São as mulheres negras as que mais são abandonadas pelos parceiros.
06:00Por que isso?
06:01E uma coisa que eu achei muito interessante,
06:03que uma vez a Winnie falou para mim,
06:04é que as pessoas não têm ideia de como isso influencia diretamente
06:08nos nossos problemas sociais,
06:10como a criminalidade e o tráfico de drogas.
06:13Fala um pouco sobre isso, Winnie.
06:15A maioria das pessoas que fazem uso do SUS hoje são mulheres e negras de periferia.
06:21A gente não consegue o medicamento.
06:23Aí naquilo ali, aquela mulher tem o primeiro filho.
06:25Passou o primeiro filho, ela já vai para o segundo.
06:27No terceiro, ela vai tentar entrar na fila do Dio.
06:30Ela não consegue ter a permissão para estar fazendo o Dio.
06:33Já está indo para o terceiro ou para o quarto filho.
06:35Aí essas outras crianças, porque a mais velha está cuidando dos três,
06:39enquanto essa mãe ou está marginalizada ou jogada na rua,
06:43consuma excessivo de droga devido a uma depressão,
06:46ou porque foi abandonada.
06:48Porque provavelmente é cada um filho de um pai,
06:51e essa mulher foi abandonada.
06:53Por todos.
06:54Por todos eles.
06:55Aí quando vai ver, essa mulher teve filho porque quis.
07:00Está fazendo porque quer.
07:03Mas quando ela foi na unidade de saúde
07:05para tentar ter esse serviço, ela não conseguiu.
07:10E aquilo ali conhece a marginalização daquela criança,
07:13daquele indivíduo.
07:14Aí na hora que chega, que morre bandido bem, é bandido morto.
07:18Mas até o momento que ele não é o seu.
07:21Até o momento que aquela criança não está na sua família.
07:24Então vem gerações de famílias extremamente estruturadas.
07:29Abandonos.
07:30Sem um acompanhamento de políticas públicas.
07:33E a gente vê como que essa questão
07:36desse processo de abandono em cima das crianças,
07:42a gente está vendo gerações de pessoas
07:44dentro desse processo do tráfico, realmente frias.
07:48É o famoso, eu não tenho nada a perder.
07:50E não tem realmente.
07:52Não teve nenhum processo de afetividade.
07:54Ou seja, essas mulheres,
07:57elas passaram pelo processo de abandono,
07:59muitas com mais de um filho,
08:01precisam colocar dinheiro dentro de casa.
08:03Essa mulher vai para o mercado de trabalho
08:05e ela não sabe como que esse filho está sendo cuidado,
08:08por quem, de que forma.
08:10Então, querendo ou não,
08:11é um ciclo que acaba ali, né?
08:13E às vezes as pessoas não têm noção
08:15como que essas mulheres negras,
08:17abandonadas por seus parceiros,
08:19mãe solo,
08:20podem interferir de alguma forma
08:22nessa questão mesmo social,
08:25de criminalidade e tudo mais.
08:26E quando a gente fala de mercado de trabalho,
08:29alguns números também me chamam a atenção.
08:32Segundo o IBGE,
08:33mulheres negras fazem parte do grupo da sociedade
08:35que possui os menores salários,
08:38mesmo fazendo a mesma função
08:40que uma pessoa branca,
08:42indo de 500 a mil reais.
08:44Essa é a média do quanto a mulher negra
08:46ganha hoje no Brasil.
08:47Esses dados mostram uma informação
08:49muito interessante.
08:51Interessante que eu digo assim, né?
08:52Triste.
08:52Homens, no geral,
08:54no geral,
08:55eles ganham mais que mulheres.
08:57Mas quando a gente faz um recorte racial,
09:00a gente percebe que as mulheres brancas
09:02ganham mais que os homens negros.
09:04Então, isso indica, né?
09:06Segundo o especialista,
09:07que o racismo,
09:09ele é mais forte,
09:11mais latente
09:12do que o machismo.
09:13E quando uma mulher negra
09:14carrega os dois,
09:15tanto o racismo quanto o machismo,
09:17ela acaba ficando ali
09:19constantemente abaixo nessa hierarquia,
09:21enquanto o homem branco
09:23permanece sempre no topo
09:25com os melhores salários.
09:27Aí eu queria aproveitar
09:28e perguntar pra Ana Paula,
09:29quando essa mulher negra
09:30consegue, finalmente,
09:32com muito sacrifício,
09:33furar essas estatísticas,
09:35furar essa bolha
09:37e entra no mundo corporativo
09:40pra ganhar salários melhores,
09:42ela se vê sozinha mais uma vez, né?
09:44É como se a gente encontrasse
09:46mais um teto de vidro.
09:49A sensação é essa.
09:50Aí vem a minha experiência pessoal.
09:53Uma das coisas que eu vi
09:54que foi muito importante,
09:56Elis,
09:56pra mim,
09:57pra meu sócio lá do Habitável,
09:59que é meu irmão,
10:00foi decidir parar
10:02de colocar energia
10:03em instituições
10:04e em pessoas
10:05que não acreditavam
10:06na diversidade,
10:08nos negros,
10:09que duvidavam
10:10da capacidade do nosso povo.
10:13Então, no dia
10:13quando a gente parou
10:14de colocar nossa energia
10:16nessas instituições,
10:17nessas pessoas,
10:19as coisas começaram a mudar.
10:21Então,
10:22foi esse processo
10:24de perfurar a bolha mesmo.
10:27E como que a gente fez isso, né?
10:29A gente é uma empresa
10:30de engenharia e tecnologia.
10:32Então,
10:33a gente começou
10:33a se conectar
10:36com outros negros,
10:39outros negros empreendedores,
10:41tanto aqui do Estado,
10:43quanto de outros estados,
10:45quanto de outros países.
10:47Quando alguém pergunta,
10:48ah, e branco, né?
10:49Vocês vão deixar
10:49os brancos de fora?
10:50Olha,
10:51a gente se relaciona
10:52com brancos antirracistas,
10:53mas que tenham
10:54atitudes antirracistas.
10:55antirracistas.
10:56E não que sejam intelectuais
10:58que falam,
10:58ah, seu discurso é tão legal,
11:00Ana,
11:01admira o seu discurso.
11:02Não,
11:03a gente se relaciona
11:04com brancos
11:05que tenham
11:05atitudes antirracistas.
11:07Porque é muito exaustivo
11:09você chegar
11:10numa instituição,
11:11você tem que provar
11:12que você é competente.
11:13E como que a gente
11:14pode contribuir também
11:16para ambientes
11:17que queiram ter
11:17atitudes antirracistas?
11:20Tem um ambiente acolhedor,
11:23acolhedor
11:24para mulheres negras.
11:26E o que que tem
11:26ambiente acolhedor?
11:28Ambiente acolhedor
11:29é que não duvide
11:30da nossa capacidade,
11:32que saiba nos receber
11:33sem olhar a gente
11:36de forma pejorativa.
11:38De fato,
11:39as coisas poderiam acontecer
11:40com diversidade.
11:41Porque já é comprovado
11:43que a diversidade
11:44gera riqueza,
11:45gera dinheiro.
11:46E esse projeto
11:47que nós estamos hoje,
11:48estamos hoje,
11:50do Moja,
11:51é um projeto
11:52que tem como meta
11:54gerar milionários negros.
11:56É um projeto
11:56até 2070.
11:58Então, a meta
12:00é gerar milionários negros
12:02por ano.
12:04Então, assim,
12:05é um conjunto de coisas,
12:07sabe, Liz?
12:07Sim.
12:08Uma coisa que eu acho
12:08muito interessante
12:09da história da Ana Paula
12:10é que ela sempre quis
12:11trabalhar com tecnologia
12:12e não tinha muita referência
12:15de mulheres negras.
12:16Verdade.
12:16Você saiu daqui do Estado
12:18para buscar referências
12:19de mulheres negras
12:20na tecnologia
12:21fora daqui.
12:22Porque realmente
12:23é um ambiente
12:24que nunca foi muito aberto
12:26para a negritude, né?
12:27Então, assim,
12:28você pensa numa pessoa
12:30inteligente,
12:30num inventor,
12:31que não sei o quê.
12:32Dificilmente as pessoas
12:33durante todo esse tempo,
12:34por conta do racismo estrutural,
12:36enxergou isso
12:37para uma pessoa negra.
12:38Você me contou histórias,
12:40inclusive,
12:40de chegarem clientes
12:42e perguntarem
12:42quem é a pessoa
12:44que vai cuidar
12:45desse projeto aqui.
12:46e perguntar para você
12:47como se você fosse
12:48a secretária
12:49do dono,
12:50do CEO, né?
12:51Se é cansativo
12:52para quem está em casa
12:52ouvir o mesmo assunto,
12:53imagina a gente
12:54viver na pele, né?
12:55Então, acho que talvez
12:56uma estratégia boa
12:58que você utilizou
12:59e que pode ficar
13:00de exemplo
13:00para todo mundo
13:01é que a gente
13:02se cerque dos nossos
13:03para que juntos
13:05a gente consiga
13:05seja um pouquinho
13:06mais fácil
13:07o nosso caminho, né?
13:08Depositar a nossa energia
13:09em nós, né?
13:11Exatamente.
13:11A pessoa que eu busquei
13:12como referência
13:13foi a Chica,
13:14foi uma negra
13:15na área de comunicação,
13:16inclusive,
13:18e ela mexia
13:19com comunicação,
13:21tecnologia.
13:21Ela já tinha
13:22um programa de TV
13:23na época,
13:24que hoje,
13:24que ainda é
13:25Negros em Foco,
13:26e eu vi ela
13:27e eu fiquei maravilhada
13:28que eu não tinha visto
13:29nenhuma negra
13:31na TV ainda
13:31naquela época.
13:32E eu peguei o contato,
13:34entrei em contato
13:35com ela,
13:35ela me respondeu
13:36e a gente é amiga
13:37até hoje.
13:38Então, assim,
13:40como é importante
13:41e ter contato
13:42com aquela mulher
13:43me deu uma força
13:44tão grande,
13:46tão grande
13:47e, enfim,
13:49como a referência
13:50é importante.
13:51E nós conversamos muito
13:53e sempre a gente
13:54conversa até hoje
13:55e aí foi abrindo
13:57outros caminhos
13:57e ela é extremamente
13:59generosa
14:00e foi assim
14:01que abriu
14:02outros caminhos, né?
14:04E quanto que a gente tem
14:05que está fazendo
14:06duas, três, quatro,
14:08às vezes, cinco vezes mais
14:10para poder provar
14:11a nossa competência
14:12e não tem aquela chance
14:14de erro.
14:14Meninas,
14:15eu peço desculpa
14:16cortar o assunto.
14:18Eu sei que é um assunto
14:19que a gente
14:19quer falar muito,
14:20é muita coisa
14:21que está engasgada,
14:22mas vai ficar aí
14:23nas redes sociais
14:24quem quiser participar
14:25com a gente,
14:25conversar com a gente,
14:26teremos outros
14:27Preta Pod.
14:28O Preta Pod de hoje
14:29está chegando ao fim
14:30e na semana que vem
14:31a gente retorna
14:32com mais um assunto
14:33importante por aqui.
14:34Agradeço a presença
14:35de vocês,
14:36muito obrigada
14:36pela contribuição,
14:37viu?
14:38Obrigada,
14:38adorei o convite.
14:39É isso, gente,
14:40até a próxima.
14:41Tchau,