- há 5 semanas
O reflexo da colonização.
Categoria
🗞
NotíciasTranscrição
00:00E aí, gente, eu me chamo Elis Carvalho e vai começar mais um Preta Pod, o nosso podcast
00:12feito 100% por mulheres negras e hoje com o tema Eu, Empregada Doméstica, um reflexo
00:19da colonização.
00:20Eu agradeço já aqui a presença da pesquisadora e educadora Juliana Teixeira, que é autora
00:26do livro Trabalho Doméstico, da coleção Feminismos Plurais.
00:31Muito obrigada, Juliana, pela presença.
00:33É um prazer estar aqui, podendo discutir essa temática tão importante.
00:37Obrigada.
00:38Agradeço também Maria da Penha Silva, aposentada depois de 50 anos no trabalho doméstico e
00:46que faz parte da militância negra do Estado e também do Fórum de Mulheres de Cariacica.
00:52Muito obrigada, Maria da Penha.
00:54Quero saudar também a Elisa, a Juliana, por essa oportunidade de estar aqui discutindo
01:00esse tema tão temático.
01:01Obrigada, viu, pela presença.
01:03Olha, gente, eu já começo dizendo que eu estou muito feliz de a gente estar com esse
01:08tema aqui hoje.
01:09É um tema que eu já queria discutir há um tempo.
01:12É um tema importante para mim.
01:13Eu venho de uma família de mulheres negras que em algum momento foram empregadas domésticas.
01:19Então, assim, minha mãe, minha tia, minha avó, minhas primas mais velhas.
01:23E a primeira a quebrar esse ciclo da família, né, que se repetia cada ano, fui eu.
01:29E hoje eu escolhi não ter uma empregada doméstica.
01:34É um assunto até talvez um pouco polêmico.
01:37Eu trato isso na terapia.
01:38Mas é porque...
01:40Por que eu escolhi não ter uma empregada doméstica?
01:42Primeiro que eu acho que inicialmente eu não preciso, né?
01:44Eu moro numa casa pequena, eu moro sozinha, não tenho filhos, sou uma adulta funcional,
01:49faço as minhas coisas.
01:51Mas segundo, e acho que mais importante, é que eu não me sinto confortável nesse papel.
01:55Por tudo que eu vi minha mãe passar, meus familiares passarem.
02:00E queria saber, Juliana, como que você avalia o trabalho doméstico no Brasil?
02:04Quanto que está ganhando uma profissional hoje?
02:06Quanto que ela deveria ganhar se fosse realmente justo?
02:10Bom, acho que tem várias camadas aí na sua pergunta.
02:13Na própria temática do podcast, né, quando a gente fala da trabalhadora doméstica
02:17e as heranças do colonialismo, acho que o primeiro ponto, essa pergunta, ela é muito importante.
02:23Quanto elas estão ganhando, né?
02:25Porque a gente está falando de um trabalho, como ele está dentro da economia do cuidado,
02:30primeiro, é um trabalho majoritariamente executado por mulheres.
02:34Já há toda uma crença, uma construção social de que as mulheres já nasceriam mais aptas
02:40para o cuidado da casa, para o cuidado dos filhos.
02:43E isso não vai ser entendido enquanto trabalho.
02:46Quando a gente fala de um trabalho doméstico remunerado ou mal remunerado,
02:51que ele vai ser primordialmente executado por mulheres negras e mulheres empobrecidas,
02:57né, essa naturalização desse lugar da mulher no contexto da servidão, né,
03:02e há uma relação histórica no Brasil do trabalho doméstico com o trabalho das mulheres escravizadas, né,
03:09que eram escolhidas para ficarem especificamente nas residências.
03:13Então, essa ideia de olhar para uma mulher preta do lado e achar, naturalizar que ela está ali para te
03:18servir,
03:19especialmente nessa questão para limpar sujeira que você produz, né,
03:24quem limpa, né, assim, isso é um processo que ele é histórico, né,
03:29que mobiliza várias construções nossas de raça, de gênero, de classe.
03:34Acho que o primeiro ponto é que a gente vive numa sociedade capitalista.
03:38Esse trabalho do cuidado, como está estendido nessa naturalização como trabalho da mulher,
03:43de alguém que nasceu para servir, ele não vai ser considerado um trabalho útil para o contexto capitalista, né.
03:50Ele não gera lucro, pelo menos não diretamente, mas é ele que, como você disse, né, ele dá a base,
03:56né.
03:56O cuidado, ele é a base. Se eu saio de casa, se eu me alimento, né, se eu lavei a
04:02minha roupa,
04:02alguém fez isso, se não eu mesma, né, então esse é um processo que a gente precisa pensar.
04:07Hoje, a renda média das trabalhadoras domésticas no Brasil é abaixo de um salário mínimo.
04:13Quando a gente pega os recortes regionais, isso se intensifica, né,
04:18há regiões em que a renda média mensal delas pode estar em torno de 600 reais, né.
04:23E aí a gente está falando numa renda média geral que vai considerar tanto as trabalhadoras mensalistas
04:29que trabalham numa residência só, recebem seu salário mensalmente, como também as diaristas, né,
04:34que não tem um vínculo empregatício, que são aquelas que trabalham até duas vezes na semana na mesma residência.
04:41E aí a gente tem uma caráter de informalidade muito grande, né,
04:45de cada 10 trabalhadoras domésticas no Brasil hoje, 7 estão na informalidade.
04:49Isso vem acompanhado de uma renda média mensal muito pequena, né.
04:55Então você tem uma renda média mensal aí em torno de 8 reais a hora, né, assim,
05:00então a gente está falando de uma desigualdade que ela é muito complexa, né,
05:04e que vai envolver uma série de outras questões que não só a questão da renda, né.
05:09Há toda uma dinâmica de uma família inteira empobrecida, né.
05:12Então são várias questões aí pra gente pontuar.
05:15E sobre o que você falou, né, da gente se sentir desconfortável,
05:18que a gente toma consciência de todo o processo de desigualdade
05:21que está envolvendo o trabalho doméstico,
05:22se sentir desconfortável de ter uma trabalhadora doméstica,
05:25é um sentimento que ele é compreensível,
05:28mas ao mesmo tempo ele é um sentimento que a gente tem que trabalhar muito nesse universo de
05:32a gente está...
05:33Muitas mulheres hoje sobrevivem desse trabalho
05:36e muitas mulheres, né, elas precisam também de dignidade desse trabalho.
05:40Então ser contratada por pessoas que tenham essa consciência é muito importante.
05:45E a dimensão da remuneração, de fato, né, precisamos remunerar mais.
05:50Mas precisamos também nos entender enquanto adultos funcionais, como você falou.
05:53Mas como a gente tem uma economia do cuidado no país deficitária,
05:57em alguns momentos, principalmente as mulheres que são mães, né,
06:00assim, que têm que cuidar de várias pessoas na casa,
06:02você tem um acúmulo de funções que às vezes a presença daquela profissional ali é muito importante.
06:08Então, né, e aí como que eu vou remunerar essa mulher?
06:11Então é importante a gente entender, primeiro, que ela é uma trabalhadora.
06:15Acho que são várias camadas aí pra gente discutir.
06:19Quando eu digo que eu escolhi não ter uma empregada doméstica hoje na minha vida,
06:23por esses fatores que eu já disse aqui,
06:26muita gente me perguntou, Elis, mas é errado ter uma empregada doméstica?
06:30É errado buscar por esse serviço?
06:32E eu não acho errado ter uma empregada doméstica.
06:34Mas eu me pergunto, como vive essa mulher?
06:37Você sabe como que tá a condição na casa dela?
06:40Os filhos dela fazem natação, fazem balé?
06:43Como que ela tá vivendo?
06:44Então, como eu disse no início, né, a gente vê muitas pessoas legais,
06:48pessoas de cabeça aberta, da galera, né,
06:52pessoas com consciência social, racial.
06:55E aí, na hora que vai procurar uma funcionária, uma empregada doméstica,
06:59uma diarista, vem, né, essa frase que chega a coçar aqui minha espinha, né.
07:04Mas ela é boa mesmo, ela vai fazer limpeza pesada, vai jogar água em tudo.
07:09E isso me remete a tanta coisa ruim, assim, porque me dá uma sensação
07:13de que as pessoas exigem muito dessas mulheres, né, a excelência dessas mulheres.
07:18E essas mulheres não recebem nem o que elas merecem.
07:21Na minha opinião, essas mulheres deveriam ser carregadas no colo, sabe?
07:24E o que eu vejo é sempre uma piadinha, né.
07:26É, ai, sumiu alguma coisa aqui em casa, tô achando que foi empregada.
07:30Porque, não, elas fazem isso mesmo.
07:31E eu passei a vida toda vendo minha mãe ser acusada de coisas que ela não fez,
07:35minhas tias ouvindo piadinha, ouvindo gracinha.
07:38E quando eu vejo um colega, uma pessoa, né, que tem uma instrução,
07:42repetindo essas frases, isso me dói muito.
07:44Porque eu vejo que é muito naturalizado a forma que essas mulheres são tratadas.
07:49Então, eu queria perguntar aqui pra Maria da Penha,
07:51nesses 50 anos, né, que você trabalhou fazendo serviço doméstico,
07:56você percebe isso, assim, as pessoas tratam esse tipo de trabalho de forma diferente?
08:05Eu, como diz, né, muitos anos convivendo, né, nessa categoria, né,
08:12que são bem desvalorizadas na nossa sociedade, né.
08:16Eu já presenciei um fato, né, que uma pessoa tava procurando uma empregada doméstica, né,
08:25e aí apareceu uma mulher branca, né, uma menina branca.
08:29E aí essa pessoa falou, mas você não pode ser doméstica.
08:34Porque, na cabeça da maioria, as domésticas é tudo negra.
08:39Então, quando chega uma da pele branca, não pode ser.
08:44E o que a gente percebe também,
08:47que eles acham que a gente, como negra, é pessoa que tem mais força, né,
08:53então que vai aguentar mais o serviço, né,
08:57é igual você colocou.
08:59Eles olham o lado deles, né,
09:02se a pessoa vai fazer o serviço, se vai aguentar,
09:05mas aí eles também não valorizam o serviço dessas pessoas,
09:10você tá entendendo?
09:11Só que é a mão de obra, né,
09:13não valoriza com o salário, né,
09:16horário de sair do serviço.
09:20Recentemente, eu, no ONS,
09:21uma mulher comentando, né,
09:22que ela tem horário pra chegar,
09:25mas não tem horário pra sair.
09:27Na hora que ela tá saindo,
09:30a mulher vai pra cozinha,
09:31faz um monte de coisa e fala assim, ó,
09:33agora você vai arrumar a cozinha.
09:35Então, aquilo me doeu, sabe,
09:38porque como eu participo de vários movimentos, né,
09:44e eu tenho um pouco de conscientização, né,
09:47do trabalho escravo, né,
09:49principalmente das pessoas negras,
09:52então eu me senti mal quando ela me falou aquilo,
09:55você tá entendendo?
09:56E teve um caso bem recente, né,
09:59que uma pessoa trabalhava três vezes na semana,
10:04e a pessoa tava apertado,
10:07queria diminuir a carga horária,
10:09no caso, trabalhar dois dias,
10:10e fazer o mesmo serviço que ela fazia.
10:14Aí essa pessoa falou,
10:15ó, se for pra diminuir meu dia de trabalho,
10:19pode arrumar outro que eu não vou ficar.
10:21Você tá entendendo?
10:22Então, assim, se a pessoa demole,
10:25eles vão fazendo a gente escravo.
10:29E isso que você falou, né,
10:30esses casos são muito interessantes,
10:32porque eu cresci ouvindo muitos deles, né,
10:34eu lembro da minha mãe, assim,
10:36sexta-feira, dia de pagamento,
10:37era o dia que ela chegava mais tarde,
10:38porque o patrão esquecia,
10:41então ela ficava lá trabalhando,
10:42e aí, qual vai ser o momento?
10:44Ah, você tá esperando por isso,
10:45mas você tá precisando mesmo agora?
10:47Invertendo a situação,
10:48colocando a pessoa numa situação,
10:49como se ela estivesse cobrando,
10:51sei lá, um favor, né?
10:52Porque o que eu percebo no dia a dia
10:54é um espírito realmente de colonização, sabe?
10:57A pessoa tá ali trabalhando,
10:59você tá passando o dedo pra ver,
11:01eu lembro que minha tia falava de um truque que tinha,
11:03ela levantava o tapete e falava,
11:05tá vendo esse papel de bala aqui?
11:06Isso aqui foi colocado aqui,
11:07pra ver se eu limpei embaixo do tapete.
11:10Eu percebo que o trabalho doméstico,
11:11por ser muito invisibilizado,
11:13ele é sempre, né, colocado à prova, né,
11:17pra ver se você é boa mesmo,
11:18se você é aquela mulher forte, né,
11:21aquele mito da mulher negra forte,
11:23que aguenta tudo, que faz tudo,
11:24sem reclamar com sorriso no rosto,
11:26cuidando de você,
11:27porque é confortável pra elas, né?
11:30E você, Juliana,
11:31você começou a escrever sobre isso,
11:34por quê, assim?
11:35O que você viu na sua pesquisa
11:36e por que esse assunto te tocou
11:38ao ponto de você querer escrever um livro?
11:40Bom, acho que concatenando
11:41com o que você acabou de falar,
11:43existe um gozo, né,
11:44assim, com essa questão da servidão.
11:48É quase como se você
11:51se sentisse prazer
11:55ao ver aquela tortura, né,
11:57que é muito uma afirmação
11:59do próprio privilégio,
12:01da própria hierarquia.
12:02Quando a gente fala de raça no Brasil,
12:04da construção de raça,
12:05eu tô construindo uma ideia
12:07de classificação de humanidade
12:09na humanidade.
12:09Eu vou tratar essa pessoa
12:11como se fosse meu burrinho de carga,
12:14assim como eu vou tratar
12:15as vidas não humanas, assim, né,
12:17nesse processo de hierarquização.
12:19Escrever sobre trabalho doméstico
12:21foi um modo de eu me encontrar
12:23na questão de trabalho.
12:25Minha mãe foi trabalhadora doméstica
12:27a vida toda,
12:27e como minha mãe era mãe solo,
12:30sou filha única,
12:32nós éramos muito grudadas,
12:34vários, eu cresci.
12:36Quando minha mãe engravidou de mim,
12:38ela morava na casa,
12:39ela chegou a morar na casa
12:41que ela trabalhava,
12:42e ela volta pra casa dela,
12:45da família,
12:46quando eu, né,
12:47depois de já que eu nasci.
12:49E aí eu fui,
12:50tive uma vida muito atravessada
12:52por esse trabalho doméstico,
12:53acompanhando muito a minha mãe também
12:55em vários momentos, né,
12:56em que ela não tinha com quem deixar.
12:59E em vários desses momentos
13:00eu ajudava ali ela
13:03pra que a gente pudesse ir embora
13:05pra casa logo.
13:06e é sempre uma vivência de criança
13:09num espaço em que você sabe
13:11que não é seu,
13:12tem todos os limites,
13:14principalmente o limite da cozinha,
13:16era principalmente o lugar
13:17que eu ficava nessas casas,
13:19a cozinha,
13:20a área de serviço,
13:22você tem toda essa delimitação.
13:24E desde muito pequena
13:25vivendo esses dois universos,
13:28um universo da minha família empobrecida
13:31e esse outro universo.
13:33A casa dos patrões da minha mãe
13:34era quase como se fosse
13:35um parque de diversões.
13:38E quando eu vou pra academia,
13:41pra esse mundo da pesquisa,
13:42sempre fui um não lugar, né,
13:44eu fui a primeira mulher negra
13:45a entrar no programa doutorado
13:48na Universidade Federal de Minas Gerais,
13:50que eu fiz na administração,
13:52e sempre trabalhando
13:53com temáticas críticas.
13:55Quando veio a possibilidade
13:56de falar sobre o trabalho doméstico,
13:57ela falava sobre mim,
13:59era falar sobre nós.
14:00Então, a minha tese de doutorado
14:01foi sobre o trabalho doméstico,
14:03e meu livro, né,
14:04Trabalho Doméstico,
14:06que é da coleção Feminismos Purais,
14:08eu vou trazer muito das falas
14:10dessas mulheres também,
14:12não só uma teorização sobre.
14:14Esse livro, ele tem uma proposta
14:15de ter uma linguagem
14:16mais acessível também.
14:18Muitas trabalhadoras domésticas
14:19falam comigo,
14:20que estão lendo o livro,
14:21acho que é sobre isso, assim.
14:24Estar aqui com a Penha hoje,
14:26Maria da Penha,
14:27é uma honra enorme, assim.
14:30Estar compartilhando
14:31essa conversa com ela.
14:33E sobre essa questão, né,
14:35de tratá-las,
14:35eu vou só ler um trechinho.
14:37Eu acessei uma rede social
14:39que era de uma comunidade virtual
14:42de patroas,
14:43falando sobre as suas
14:43trabalhadoras domésticas.
14:45E aí tem uma fala
14:46de uma das patroas
14:48dizendo o seguinte,
14:49eu já sofri tanto
14:50nas mãos dessas infelizes
14:51que desenvolvi algumas teorias
14:53a respeito do assunto.
14:54Um, esse assistencialismo brasileiro
14:56acabou com a dignidade do pobre.
14:58Eles agora querem viver
14:59de bolsa-família similares,
15:01como se fosse possível
15:02viver de bolsa-família, né,
15:04no Brasil.
15:05Dois, DNA.
15:06Acredito que elas tragam no DNA
15:08memórias do tempo da escravidão.
15:11Elas adoram patroa
15:12que discrimina,
15:13paga mal,
15:14obriga a trabalhar muito
15:16e desrespeita seus direitos,
15:17não assinando suas carteiras.
15:20Daí tem uma outra fala
15:21que ela vai dizer o seguinte,
15:22ó,
15:23vão por mim,
15:23é regra.
15:24Você tem que escravizar
15:25e ser bem má.
15:26Eu faço isso
15:27e não me arrependo.
15:29Gosto de pegar no sítio
15:30para morar na senzala.
15:32Quer dizer,
15:33na minha casa.
15:34Risos.
15:35Quando começam a ficar
15:36meios pertinhas,
15:37descarto.
15:38Nunca mais sofri.
15:39Elas que sofram
15:40trabalhando 14,
15:4116 horas por dia.
15:43É a síntese
15:43do que você falou,
15:45até numa comparação
15:47de como vai acontecer
15:47o trabalho doméstico
15:48que em outros contextos.
15:49No Brasil,
15:51há esse prazer
15:54por ver o outro,
15:57ver a população negra
15:59nessa condição de servidão.
16:00Então,
16:01a gente está falando
16:02de algo que,
16:03você fala da terapia,
16:05é um processo
16:06que é psicanalístico,
16:07a sociedade precisa
16:09enfrentar esse processo.
16:11Gostaria de dar mais uma falinha
16:13para te falar.
16:14Hoje em dia,
16:16às vezes,
16:17a gente ouve também
16:18dos patrões,
16:19das patroas,
16:20assim,
16:21ah, mas agora
16:21está tão difícil
16:22achar uma diarista,
16:24uma empregada.
16:25Só que eles não veem
16:27que hoje
16:28os filhos da empregada
16:30estão fazendo faculdade.
16:31Porque de primeira
16:33era assim,
16:33a mãe saía
16:34e colocava filha,
16:35né?
16:36Então,
16:37está acabando isso.
16:39Eu espero
16:39que acabe mesmo.
16:41E outra coisa,
16:42se hoje
16:43eu tenho o gozo
16:44de estar aposentada,
16:46que eu aposentei
16:46agora no início
16:47do ano,
16:48é porque eu
16:49contribuí
16:50com o meu
16:51INSS
16:52autônomo.
16:53Porque se eu
16:54dependesse,
16:55né,
16:56das pessoas
16:56que eu trabalhei
16:57muitos anos,
16:58que eu trabalhei
16:59em família
16:59há 35 anos,
17:01foi mãe,
17:02filha,
17:03netos,
17:03né?
17:04Então,
17:05quer dizer,
17:05se eu dependesse
17:06de onde eu passei,
17:07eu não estaria aposentada,
17:09eu estaria,
17:10às vezes,
17:10trabalhando até hoje,
17:11porque eu não tinha
17:12uma renda
17:13para eu sobreviver.
17:15Então,
17:15eu tenho muito
17:16que agradecer
17:17a Deus
17:18por Deus
17:19ter me dado
17:19essa instrução
17:20junto com a minha família.
17:22Você queria completar,
17:23Juliana?
17:23É,
17:24acho que sobre a questão
17:25da previdência
17:25que ela falou,
17:28poucas pessoas sabem,
17:29mas existe um movimento
17:30organizado das trabalhadoras
17:32domésticas no Brasil.
17:33Então,
17:33existe a FENATRAD,
17:34que é a Federação Nacional
17:35das Trabalhadoras Domésticas,
17:37que ela vai organizar
17:38e vai estar junto
17:39com os vários sindicatos.
17:40aqui, por exemplo,
17:42em Vitória,
17:42tem um sindicato
17:43das empregadas domésticas.
17:45Tem sindicatos
17:45em várias cidades
17:46e uma das pautas
17:48que elas vão dizer
17:49é principalmente
17:50as diaristas,
17:51hoje tem muitas diaristas,
17:53mesmo as mensalistas,
17:54muitas ainda não têm
17:55a carteira de trabalho assinada,
17:56estão numa condição
17:58de ilegalidade.
17:59E mesmo as diaristas,
18:00uma das pautas
18:01que elas vão defender
18:02e que a gente tem discutido
18:05sobre
18:05é que se garanta
18:06legalmente
18:07um salário mínimo hora,
18:09porque eu posso dizer
18:10minha casa é pequena,
18:12eu pago só 100 reais
18:13porque minha casa é pequena,
18:14mas ela investiu
18:17todo dia de trabalho
18:18na sua casa.
18:19Então,
18:20há todo um processo
18:21de que a gente
18:22precisa pautar
18:23salário mínimo hora,
18:24há uma discussão
18:25sobre ter um contrato
18:27de trabalho,
18:28ainda que seja
18:29um vínculo
18:30não empregatício,
18:31até duas vezes
18:32na semana,
18:33porque a partir
18:34da terceira vez
18:34na semana
18:35já configura um vínculo
18:36empregatício,
18:37você precisa assinar
18:38a carteira.
18:39Então,
18:39ter um contrato
18:40de trabalho,
18:41ter um regime
18:42de previdência específico,
18:43algumas categorias
18:44de trabalhadores
18:45no Brasil,
18:46como os trabalhadores
18:47rurais,
18:47que eles têm
18:47alguns regimes
18:48de previdência específicos.
18:50Então,
18:50a pauta é
18:51que o Estado
18:52garanta
18:53algumas possibilidades,
18:54algumas políticas
18:55públicas
18:56e garantias legais
18:58para que as decisões
18:59não fiquem na mão,
19:01na minha mão,
19:02na sua,
19:02de quem contrata
19:03individualmente
19:04uma trabalhadora.
19:05Então,
19:05acho que
19:06é muito importante
19:07ela falar
19:07dessa questão
19:08da previdência,
19:09porque também
19:09não dá para
19:10deixar só
19:10para as trabalhadoras
19:11que elas
19:12autonomamente
19:13paguem.
19:14Algumas têm
19:14condições muito
19:15específicas
19:16que elas vão
19:17acabar não pagando
19:17mesmo,
19:18nem vão ter
19:18conhecimento
19:19sobre isso,
19:21instrução sobre
19:21isso,
19:22como ela falou.
19:24Então,
19:24acho que o Estado
19:25precisa garantir
19:26se responsabilizar
19:27e cada um
19:28que está ouvindo
19:29também.
19:29Também.
19:30Como que eu lido
19:31com a trabalhadora
19:32que eu contrato.
19:33Inclusive,
19:34eu falo
19:35esse aqui é um podcast
19:36feito por mulheres
19:37negras,
19:38para mulheres negras,
19:39mas a gente não vive
19:40numa sociedade
19:41que não existam
19:43outras pessoas.
19:44A gente sabe
19:44que a maioria
19:46das trabalhadoras
19:47domésticas
19:48são mulheres negras,
19:49mulheres pobres.
19:50A gente sabe
19:51que a maioria
19:51dos patrões
19:52e patroas
19:53são pessoas brancas.
19:55Então,
19:55a gente fala
19:55para todo mundo,
19:56porque sozinha
19:57a gente não consegue.
19:58Quando você
19:59vem com um argumento
20:00de que
20:01ela é quase
20:02da família,
20:03ela está aqui
20:03em casa
20:03há tanto tempo
20:04morando ali
20:05no quarto
20:06e tal,
20:06ela é quase
20:07da família.
20:07Eu sempre pergunto,
20:08mas a herança
20:08é dividida
20:09com ela também?
20:10Se ela é quase
20:11da família,
20:12né?
20:12Então,
20:12quando você
20:12vem com esse
20:13tipo de fala,
20:15quando você
20:15vem com a fala
20:16do que eu quero
20:16uma empregada
20:17que faça tudo,
20:17não se faz
20:18mais empregada
20:18como antigamente,
20:20coloca a mão
20:20na consciência
20:20e pensa,
20:21você é um
20:23empregador
20:24que realmente
20:25vale
20:25todo esse
20:27esforço,
20:27você está pagando
20:28tanto quanto
20:29você exige.
20:30se acha natural
20:31passar no trabalho
20:32de uma pessoa
20:33passando o dedo
20:33nas coisas,
20:34fiscalizando,
20:35você não se sente
20:36mal com isso,
20:36você não percebe
20:37o que tem por trás
20:38disso?
20:39Então,
20:39se cada um
20:39começar a se questionar,
20:41sumiu alguma coisa
20:42na minha casa,
20:42a primeira pessoa
20:43que eu penso
20:43é a moça
20:44que trabalha
20:44aqui em casa
20:45e tal,
20:46começa a se questionar
20:47também de onde
20:48que vem isso,
20:49porque eu percebo
20:49que há um grande
20:51esforço de provar
20:52que não há racismo,
20:53que não é racista,
20:54do que de realmente
20:55não ser,
20:56ser um antirracista.
20:57Então,
20:57se policiar,
20:58entender que a gente
20:59vem de um contexto,
21:01de um racismo estrutural
21:02é importante,
21:03né,
21:03para todo mundo.
21:04A gente estava falando
21:04aqui sobre as horas
21:05trabalhadas,
21:06muita gente me responde
21:08isso,
21:08não, Elisa,
21:09eu também decidi
21:10não ter empregada
21:11doméstica,
21:12mas eu acho que
21:12diarista é diferente,
21:14porque ela não está
21:15aqui todo dia
21:15na minha casa,
21:17então,
21:17assim,
21:17ela tem a vida dela,
21:18ela consegue trabalhar
21:19com outras coisas e tal,
21:20mas ainda assim,
21:21como diarista,
21:22ela precisa ter
21:22os direitos dela,
21:23pagar 100 reais
21:25numa faxinha,
21:28pensar quanto
21:29ela ganha por hora
21:30para estar ali,
21:31você vê que ela está
21:32dando muito mais
21:33do que recebendo,
21:34e será que isso
21:35é realmente justo?
21:36Você gasta 100 reais
21:37às vezes numa noite
21:38com bebida,
21:39sabe,
21:40e você não consegue
21:41gastar um pouco mais
21:42para pagar uma trabalhadora
21:44que está ali cuidando
21:44de você,
21:45cuidando da sua casa,
21:46sabe,
21:47uma pessoa tão importante
21:48ali para que você
21:48consiga sair de casa
21:50e ganhar o seu dinheiro,
21:51então,
21:51eu acho que é uma reflexão
21:53que tem que ficar
21:54para todo mundo,
21:55Eu gostaria de falar
21:57que na época
21:58da pandemia,
21:59a gente via
22:00que tinha senhoras
22:02que trabalhavam
22:03na casa das patroas
22:04e elas não puderam
22:06estar em casa,
22:07elas correndo risco
22:09de ser contaminada
22:10pelo vírus,
22:11da Covid,
22:13porque os patrões
22:14não podiam ficar
22:14sem a empregada,
22:15então,
22:16isso aí dói
22:16também na alma,
22:17sabe?
22:17e quando pegavam
22:19o vírus,
22:20ainda culpava
22:21aquela funcionária
22:22que estava se arriscando
22:23para ir lá cuidar
22:24da casa deles,
22:25né?
22:25Então,
22:26a gente percebe,
22:27assim,
22:27se a gente for começar
22:28a conversar sobre isso,
22:30é muita coisa,
22:31o nome do podcast,
22:32Eu Empregada Doméstica,
22:33eu peguei de um perfil,
22:37não sei se vocês conhecem,
22:39Eu Empregada Doméstica,
22:39é um perfil que tem
22:40no Facebook,
22:40tem no Instagram,
22:41e eu leio aqueles relatos,
22:43eu fico realmente,
22:44assim,
22:45revoltada,
22:46eu acho que
22:46essa é a palavra,
22:47pessoas oferecendo
22:48muito pouco,
22:49ah,
22:50só tem que cuidar
22:50de duas crianças
22:51super tranquilas,
22:52fazer comida
22:53e dar uma limpadinha
22:54na casa,
22:55e ter a oportunidade
22:56de viver num bairro nobre,
22:58pessoas que não oferecem
22:59nem salário,
23:00oferecem comida
23:01e quarto,
23:02falando que é uma oportunidade
23:03da pessoa viver
23:04num bairro nobre,
23:05e eu fico assim,
23:06gente,
23:07essa pessoa não percebeu,
23:08ou percebeu,
23:09né,
23:09que ela está
23:11continuando ali
23:11um trabalho escravo,
23:13como a Maria da Penha
23:15estava falando,
23:15quando o filho
23:16da trabalhadora doméstica
23:17ele vai trabalhar
23:18com outra coisa,
23:19porque ele teve,
23:20por exemplo,
23:21acesso a políticas públicas
23:22e educacionais,
23:23condições de escolha,
23:25poder escolher,
23:26hoje há o envelhecimento
23:27da categoria
23:28por conta dessa questão
23:29geracional,
23:30e tem uma branquitude
23:32aí que surta com isso,
23:34está surtando,
23:35né,
23:35e acho que a pergunta final
23:36que a gente tem,
23:38para finalizar,
23:39essa é a pergunta
23:39que a gente tem feito,
23:41é quem cuida
23:42de quem cuida,
23:44acho que só para,
23:46e aí tem uma frase
23:47de uma trabalhadora
23:48que eu começo o livro,
23:50ela vai dizer o seguinte,
23:51marcante o que aconteceu
23:52foi uma senhora
23:53que eu trabalhei
23:53que era doente,
23:54isso marcou muito
23:55porque ela tinha
23:56uma confiança comigo,
23:57quando ela estava assim
23:58no finalzinho de vida,
24:00ela não deixava
24:01ninguém dar banho,
24:02só enquanto eu não chegasse
24:03ela não tomava banho,
24:05porque ela achava
24:06que eu não ia
24:06deixá-la cair no chão,
24:08sabe,
24:08isso aí marcou muito,
24:09coitada,
24:10ela tinha uma confiança
24:11danada comigo,
24:12aí pediu para fazer
24:13uma comidinha,
24:14disse que o arroz doce
24:15que eu fazia
24:16era igual o da mãe dela,
24:17aí eu fui e fiz,
24:19foi a última comida
24:20que ela comeu,
24:20sabe,
24:21essas mulheres
24:22elas estão,
24:23são afeto,
24:24elas estão cuidando,
24:25e aí eu perguntei
24:26quem cuida delas,
24:27se você pega
24:28uma cuidadora de idosos,
24:29ela é uma trabalhadora
24:30doméstica nesse sentido,
24:32você pede lá
24:33para cozinhar
24:33para todo mundo
24:34da casa também,
24:35para limpar a casa também,
24:37não desvio de função
24:38é importante,
24:38você pensa
24:39como é que ela vai
24:40para o seu trabalho,
24:41como é que ela vai embora,
24:42quem ficou com o filho dela,
24:43é importante cuidar
24:44de quem está cuidando
24:45da gente.
24:47Eu agradeço muito
24:49aqui
24:49a presença
24:50de vocês,
24:52vejo que
24:53todas nós,
24:54isso acaba unindo
24:55a gente,
24:56e
24:57isso vem mudando,
24:59como a Maria da Penha
24:59bem disse,
25:01esse trabalho
25:02vem mudando,
25:02a gente vê hoje
25:03mulheres negras,
25:04pessoas negras
25:05com trabalhos diversos,
25:06não queremos demonizar
25:08a profissão,
25:09mas a gente quer
25:09que as pessoas
25:10tenham escolha,
25:11e não que seja
25:12a única alternativa
25:13para elas,
25:14e que se for
25:15a escolha delas,
25:16que elas sejam
25:17bem renumeradas
25:18e bem tratadas,
25:19como eu sempre falo,
25:20carregadas no colo,
25:21porque eu acho
25:22que é o mínimo
25:23que elas merecem,
25:25esse afeto,
25:26essa dignidade,
25:28e é isso,
25:29a gente encerra aqui
25:30mais um podcast,
25:32e nos encontramos
25:33na próxima semana
25:34com mais um assunto
25:35aqui no nosso podcast
25:35feito 100%
25:36por mulheres negras,
25:38até lá.
Comentários