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  • há 5 semanas
Homenagem ao mês da Mulher Negra.

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Transcrição
00:04Segundo o Atlas de Violência de 2020, os assassinatos de pessoas pretas ou pardas cresceram 11,5% nos últimos
00:1210 anos.
00:12A maioria deles jovens de 15 a 29 anos, enquanto o número de pessoas brancas assassinadas diminuiu.
00:20Outra informação importante é que dos 10 milhões de jovens brasileiros de 14 a 29 anos que deixaram de perguntar
00:26à escola
00:27sem completar a educação básica, mais de 70% são pretos e pardos.
00:32É muita gente. Esses dados não são pontuais. Eles se repetem ao longo da história.
00:38Mas por quê?
00:40Eu sou Elis Carvalho e vai começar agora o Preta Pod, o podcast feito 100% por mulheres negras.
00:46E aqui na minha frente, as nossas convidadas.
00:49Tayla Alexandra, que é publicitária e também militante dos movimentos sociais.
00:55Muito obrigada, Tayla.
00:56É realmente um prazer. É uma honra estar aqui.
00:57Obrigada. Agradeço muito.
00:59E agradeço também a presença da Ana Clara Moreira, que é pedagoga, é palestrante e também coordena o Coletivo Beco.
01:06Obrigada.
01:07É um prazer estar aqui, Tayla, Elis. Estou muito feliz por essa oportunidade e com esse diálogo tão maravilhoso que
01:14nós vamos construir agora.
01:16Vamos sim. Vamos juntas.
01:18Vamos juntas.
01:19Primeiro, sobre esses dados, meninas, que a gente conversou. Por que esses números? Por que os jovens negros são os
01:27mais assassinados? São os que mais sofrem violência? Por que os jovens negros são os que menos estão na escola?
01:33Ou seja, consequentemente, que menos vão ter escolaridade?
01:36Menos oportunidades? Vocês conseguem ter uma ideia de um ensino?
01:40Então, primeiramente, a gente precisa entender que o racismo é estrutural e que o fato desses jovens não acessarem, esses
01:48jovens não entenderem a educação enquanto um viés emancipador faz parte da estratégia colonial de não cercear mesmo.
01:58Porque uma pessoa preta, quando ela tem a oportunidade de conhecer a sua história, de saber que esse processo e
02:11esses atravessamentos que nós temos para com os nossos corpos, para com as nossas vivências, faz parte, sim, de uma
02:19manipulação, de um local de mazela social.
02:26Para que a gente seja dado como ninguém, né?
02:31Então, acontece por isso.
02:34A gente precisa, primeiramente, pontuar que esse jovem ou essa jovem preto e preta, ele não é uma pessoa que
02:43ele não quer, ele não quer estudar, ele não quer, ou ele quer escolher o tráfico, ele quer escolher estar
02:52nesses lugares subalternos.
02:53Ele não escolhe isso.
02:55Então, só por estar nesse corpo, acessos e oportunidades já são negados.
03:02Isso é muito interessante da gente falar, porque é uma coisa que não começou ontem, né?
03:07A nossa história mostra isso.
03:09As oportunidades foram negadas desde muito cedo.
03:12E hoje é um reflexo do que aconteceu lá atrás, né?
03:16Não tem como a gente falar da história do negro sem falar sobre a história da escravização, né?
03:20Até porque, também, né? São coisas que se repetem, são ciclos que se repetem, né?
03:25Essa proibição de ter acesso à escolaridade, essa proibição de ter acesso à oportunidade melhor do trabalho,
03:30de ter o preto sempre ali abaixo, submisso, sempre abaixo de pessoas brancas, né?
03:36A serviço da sociedade, né?
03:39E uma coisa que eu percebo muito, assim, é que, dependendo, né, de como aquela família é construída, né?
03:46Então, uma família que já vem de falta de oportunidade, de pessoas que já trabalham, né?
03:50Como empregadas domésticas, como subalternos.
03:53E quando tem ali, né, aquele conjunto de filhos, entre o filho ficar estudando,
03:58entre o filho colocar um dinheiro dentro de casa para ajudar na alimentação básica,
04:03Obviamente, né, a necessidade básica de alimentação, de sobreviver, vai, às vezes, ser mais forte do que...
04:10Nem todo mundo tem a oportunidade de ficar um dia inteiro estudando, né?
04:14Para correr atrás de um sonho inteligente.
04:15É, literalmente, um privilégio, né? Estudar é um privilégio.
04:18Então, essas pessoas, elas não estão dentro das escolas, não é porque elas não querem estar dentro das escolas,
04:23é porque as oportunidades são mais difíceis para elas, né?
04:26Precisa matar vários leões por dia, né?
04:28E até quando acessa, Elisa e Tyler, quando acessam, ainda assim, você pode ter um currículo incrível,
04:34mas você vai estar ali como um ser para competir, né?
04:40O mercado já coloca isso, que você, por mais que você seja incrível, brilhante no que você faz,
04:47só por você estar nesse corpo, você vai precisar aprender a competir desde cedo.
04:52E acessando a universidade, eu pude ainda mais entender, né?
04:57Sobre esse lugar de estudar e trabalhar ao mesmo tempo.
05:00O quanto é difícil permanecer, né?
05:03A palavra pertencimento, para nós, ela precisa cotidianamente ser trabalhada de forma interna em nossas vidas, né?
05:11E aí, como é que compete, né?
05:13Com uma pessoa que tem tudo, tem tempo para estudar, tem tempo livre, tem como fazer com o cunho,
05:18como é que faz essa competição?
05:21E aí, entra numa questão que muita gente acaba criticando,
05:24ah, mas também existem brancos, pobres e sem oportunidades.
05:28Mas só o fato dele estar num corpo branco, o olhar da sociedade para ele é diferente, né?
05:33Perfeito.
05:34Então, é um olhar de mais cuidado, de mais carinho.
05:37Isso a gente percebe no dia a dia.
05:39Não que a vida da pessoa branca, pobre, é, digamos assim, mais fácil, né?
05:46Mas ela vai ter alguns facilitadores ali.
05:49E se a gente for parar para pensar assim, de verdade, né?
05:52Só o fato de você entrar numa empresa, você deve sentir muito isso, porque eu sinto.
05:56De você entrar numa empresa e as pessoas te olharem como se você fosse um ET.
06:00Isso mesmo, você já vai, gente, será que eu estou no lugar certo?
06:03Você vai começando a se excluir, esquecendo os seus sonhos,
06:06porque a forma que todo mundo te trata é muito diferente de uma pessoa branca, pobre.
06:11E a gente tem que pensar que não é só pelos estudos, mas a saúde, a questão econômica, política, para
06:16nós, né?
06:18Já é uma...
06:21Assim, atrapalha muitas vezes quando a gente não consegue estar nesses espaços.
06:27Então, a gente tem essa falsa ideia de que essa abolição hoje nos deu o privilégio de acessar.
06:36Não, não nos deu.
06:37É uma luta cotidiana.
06:39E a gente luta muito para não nos adoecer pelo caminho.
06:43E agora, indo pela questão dos dados do assassinato de pessoas negras, né?
06:49A gente sabe que tem a questão do tráfico de droga, que a gente já falou aqui, que não é
06:54uma escolha.
06:55Muitas vezes é o que resta mesmo, né?
06:58E também tem a questão só do fato de você ser uma pessoa negra, você já se torna um suspeito,
07:04né?
07:04Então, assim, os olhares, a bolsa que é segurada, atravessa a rua.
07:10Quantos casos a gente já viu de pessoas que não tinham qualquer relação com criminalidade, não que isso justifique.
07:16Até mesmo crianças, mulheres, famílias, enfim, que foram assassinadas dentro de casa, né?
07:23Então, assim, é como se aquele corpo preto ninguém se importasse.
07:26Ah, morreu alguém.
07:27Ah, mas é na favela, tudo bem.
07:28Qual é o nome dessa pessoa?
07:30Quem é a família dessa pessoa?
07:31É o sonho dela.
07:33Sabe?
07:33O que ela tem construído para a nossa sociedade?
07:36A gente não tem...
07:37A gente, né, no sentido...
07:39Vamos trazer aqui, porque é uma responsabilidade social.
07:42Quando um jovem preto morre, ou uma jovem preta, é uma responsabilidade coletiva.
07:46A gente precisa entender isso, né?
07:48O que que tá faltando na nossa política?
07:51O que que tá faltando nos nossos meios de diálogos?
07:56Que esse jovem tá morrendo, essa jovem.
07:59Não é possível que um jovem preto ou uma jovem preta morra e a gente ache que isso...
08:04Ah, não, é mais um que morreu.
08:05Nós não podemos ser vistos como mais um ou mais uma na sociedade, né?
08:10E isso é muito triste, assim.
08:13É perceber que essas pessoas, elas são confundidas, né?
08:16Como eu falei, o guarda-chuva é confundido com o fuzil.
08:18Ah, eu matei porque achei que era um fuzil.
08:20É um saco de pipoca, como eu já vi um caso confundido com um saco de droga.
08:24Atirei porque eu pensei que tava...
08:26É, no caso, tô falando da violência policial aqui, né?
08:28Mas ninguém confunde preto com branco, né?
08:30Ninguém confunde rio com cobre.
08:32E não é o guarda-chuva, não é a droga, não é, sei lá, o celular.
08:39É a cor.
08:40É a cor.
08:41A gente tem que entender, é a cor.
08:43Não é os objetos que essa pessoa está na mão.
08:46Porque uma pessoa branca, cortar uma arma, cortar um saco, uma sombrinha, né?
08:51Ou, sei lá, um celular na mão.
08:52Dificilmente, ela vai ser assassinada.
08:53Sim, não é, é a cor.
08:55Vamos primeiro perguntar, peraí, quem é?
08:57É, é, é, tem sobrenome, tem família, então a gente precisa primeiramente entender
09:04que não tem nada a ver com os objetos que essa pessoa tem em mão, tem a ver com a
09:07cor dela.
09:08E a gente sabe também que os assassinatos de jovens negros envolvidos com tráfico de droga
09:13também não é pra acabar com tráfico, né?
09:15Pra acabar com o jovem negro.
09:17Exatamente.
09:18Termina a juventude negra.
09:19Exatamente, termina a juventude negra.
09:21E o que mais tem é gente branca, gente com dinheiro, traficando muito.
09:24E ninguém entra atirando em lugar nenhum, né?
09:26Exatamente.
09:26Até porque a gente sabe, né, que o tráfico não é o preto que começa esse tráfico, né?
09:31Não é o preto que dá esse início, é esse contrabando, né?
09:34E como é que tá a milícia, né?
09:36E aí, onde é que são essas pessoas que iniciaram isso?
09:39Estão nos lugares que eles são protegidos.
09:41E aí é nesse sentido que a Ana traz um termo muito interessante de juventude protagonista.
09:48O que seria isso, Ana?
09:49Então, juventude protagonista é aquela juventude que ela sabe quem ela é.
09:57Eu sou uma pessoa que eu sou preta e eu quero protagonizar minha existência, onde eu for, sabe?
10:05Eu quero poder entrar sabendo que eu sou uma pessoa preta, eu sou uma pessoa que eu tenho potenciais,
10:14eu tenho possibilidades em mim, né?
10:18Primeiramente, sentir isso.
10:20Eu pertenço a um povo lindo, um povo que tem uma trajetória muito antes da colonização,
10:26uma trajetória brilhante, descendente de reis e rainhas, né?
10:30Então, eu senti essa necessidade de trazer esse protagonista pra dentro da nossa juventude preta.
10:37Por quê?
10:38Porque a gente via muitos protagonistas nas televisões, nos filmes, nos espaços de poder,
10:43nos espaços que as pessoas contemplam.
10:47Todos brancos.
10:48Eu falei, gente, vamos protagonizar isso aqui, né?
10:51Resgatar essa autoestima que foi tirada de nós.
10:54Eu vejo muitas pessoas negras que são tímidas.
10:56E eu sempre me pergunto, será que é tímido mesmo?
10:59Ou elas...
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