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  • há 4 semanas
Primeiro episódio da websérie conta a história da infância da menina, que virou símbolo da luta contra a violência sexual

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Transcrição
00:17Eu cheguei, ele falou, cadê a sua irmã?
00:22Aí eu falei, não, não tá aqui não, não chegou ainda não.
00:26A Araceli Cabreira Sanchez era uma menina bonita de oito anos de idade.
00:32Foi raptada, intoxicada com barbitúricos, violentada.
00:39Seu corpo, desfigurado, apareceu dias depois num terreno baldio de vitória no Espírito Santo.
00:45A pessoa da polícia fala com a viatura, ó, tem um corpo.
00:50O corpo de Araceli foi praticamente todo ele reconstituído e minuciosamente analisado.
00:55Então ele foi, clareou o corpo da menina, foi onde eu vi, a menininha morta.
01:02O que te leva a isso? Que raiva que é essa? Me explica isso.
01:08O que te leva a você fazer isso?
01:30O que te leva a você fazer isso?
01:56A Célia era uma menina esperta, meiga, falante, conversadeira.
02:06A minha irmã era uma menina muito meiga, muito inocente.
02:10Era uma boneca de menina. Era linda, linda, linda. Muito educada, muito comportada.
02:17Eu e ela, nós nascemos em São Paulo. Ela, quando ela nasceu, eu já tinha quatro anos.
02:24E ela tinha um problema muito sério de bronquite.
02:29E os médicos aconselharam o meu pai e a minha mãe a mudar para um lugar mais quente.
02:37Porque São Paulo é um lugar muito poluído.
02:39A notícia sobre a instalação de grandes empresas no Espírito Santo correu o Brasil.
02:45De toda parte, chegava gente em busca de emprego e qualidade de vida.
02:49Nós fomos para o Espírito Santo. O meu pai, na época, trabalhava na Ferra e Aço.
02:54Nós alugamos uma casa lá em Vila Velha, lá no bairro Jabununa.
02:59A gente morava no mesmo bairro. E a gente costumava brincar sempre ali pelas vizinhanças.
03:05Nós mudamos para lá e minha irmã melhorou assim, do dia para a noite.
03:10A gente brincava de trocas de figurinhas em álbuns, né?
03:16Revistinha, trocar revistinha também, na época de bis, né?
03:21Cozinhadinho, fazer muito cozinhadinho.
03:24Boneca, essas coisas de menina, né?
03:26Moramos ali naquele lugar há sete anos.
03:29E meu pai já tinha comprado uma casa lá no bairro de Fátima.
03:34Ao lado tinha um lote e na frente da casa que dava para a avenida principal tinha outro lote.
03:40Aquela casa, meu pai alugava.
03:42Onde o tubarão começou a funcionar, né?
03:46Que aí precisava da parte elétrica.
03:49Meu pai trabalhava na parte elétrica.
03:50Meu pai tinha uma casinha, uma casinha muito simples lá, alugada e tal.
03:54Meu pai aumentou.
03:56Tem um puxadinho, né?
03:57Uma cozinha, uma copa, mais um quarto.
04:00E falou, bom, agora chegou a hora de a gente mudar.
04:02Na época do crime, Araceli não tinha completado ainda nove anos de idade.
04:09Todos os dias, saía às quatro e meia da tarde do Colégio São Pedro
04:13e caminhava até a esquina das avenidas Ferreira Coelho e César Elal
04:17para tomar o ônibus que a levaria para casa no bairro de Fátima, município de Serra.
04:22Sentava numa das primeiras cadeiras da frente.
04:26Os deveres dela tudo era muito bonitinho, sempre comportada, trazia todos os dias.
04:30Ela era uma pessoa que acreditava nas pessoas pela ingenuidade dela.
04:37Não era de muito conversar com as crianças.
04:39Sempre, na hora do recreio, ela estava sempre do meu lado.
04:43Sempre sentada comigo, conversando, carregava uma bonequinha, entendeu?
04:48Mas sempre junto comigo.
04:49Ela não era de se misturar com ninguém.
04:51Mas era uma menina muito comportada.
04:53O bairro de Fátima só tinha um ônibus.
04:57Um. Não é dois, não é três, não é quatro, não.
05:00Um. Sabe o que ele fazia? O ônibus.
05:02Ele saía do bairro de Fátima.
05:04Ia lá na Vila Rubim, dava a volta, voltava e voltava para o bairro.
05:08Então, o ônibus tinha horário.
05:11Então, por exemplo, lá na Praia do Suá, ele passava, vamos supor, quatro horas da tarde.
05:16Lá onde eu estudava, lá no Salesiano, um pouquinho mais cedo, vamos botar assim, três e meia.
05:22Lá em Camorra.
05:23Então, todo mundo sabia os horários, onde o ônibus passava.
05:27Lola Cabreira Crespo, preocupada com os atrasos constantes de Araceli,
05:32havia pedido à direção do colégio que liberasse a filha mais cedo, às quatro e dez,
05:36para que pudesse tomar o ônibus de quatro e meia.
05:38Naquela época não tinha telefone celular, para você saber.
05:42Não era como hoje.
05:44Nem telefone de casa.
05:46E a minha irmã, naquela inocência toda dela, ela viu aquilo, sabe?
05:52E um dia o ônibus quebrou e ela resolveu ir andando.
05:56Ela foi andando lá para o bairro do Fátima, ali da Praia do Suá para lá.
06:01No meio do caminho, e a Praia de Cambori não é o que é hoje, né?
06:05Cambori era duas pistas, não tinha Jardim da Pé, era duas pistas.
06:10Uma para aí, outra para vir, mato, dos dois lados, a praia, dos dois lados assim.
06:15Tinha praia, tinha uns arbustos, e do outro lado era puro mato.
06:19Não tinha Jardim da Pé, era escuro.
06:21E a minha irmã foi andando.
06:23A sorte é que passou um cara numa Kombi.
06:27Aí você mora no bairro de Fátima.
06:30E quem era o nome do seu pai? Gabriel.
06:31Quando ela falou Gabriel, o cara conheceu, porque conhecia meu pai.
06:35Aí ela entrou dentro e pegou e levou ela.
06:38E ela prometeu nunca mais fazer isso.
06:40Meu pai e minha mãe falaram, não, quando acontecer isso, você fica lá.
06:44Qualquer coisa a gente vai e te busca.
06:46Minha filha adorava o pai dela.
06:49Adorava mesmo.
06:50Ela todas as tardes, quando o pai chegava, ela corria o portão e abria o portão.
06:55Era ela e o Hadakian.
06:57Entrava no carro, vinha.
06:59Chegava em casa, ponha o chinelo pra ele.
07:02Dava a toalha pra secar o suor.
07:04Perguntava o que ele queria beber, se queria água.
07:07Ou queria alguma coisa assim, um drink, alguma coisa.
07:11Adorava o irmão.
07:13Jamais chamou de Carlinho pelo nome.
07:15Era nenê que ela chamava.
07:17O que eu posso lembrar é que ela era uma mãe cuidadosa, assim.
07:21Sempre tava chamando.
07:23Era assim, ele tá aí.
07:24A gente estudava junto, na mesma escola, colégio de maris.
07:28Ela ia comigo e vinha comigo.
07:31Eu levava, eu trazia e tal.
07:34Quando nós mudamos pra lá, o bairro de Fátima, eu fui estudar no Salesiano.
07:39Mas o Salesiano, naquela época, não tinha pra menina.
07:44Era só menino que estudava.
07:45E tinha uma vizinha nossa, ela estudava ali na Praia do Suá.
07:51Uma escola que eu nem me lembro o nome dessa escola, mãe.
07:54Uma escola que a minha irmã estudou.
07:56A mãe mandou um bilhete pra mim, pra ela sair antes do horário.
08:00Eu não aceitei o bilhete.
08:01Porque eu tinha que sair no horário.
08:03Fui falar com a diretora.
08:04A diretora falou, não, pode soltar.
08:06Eu falei, não, eu não vou soltar.
08:08Numa quarta-feira, ela saiu mais cedo.
08:10No horário normal, perdeu o ônibus.
08:12Chegou em casa muito tarde.
08:14Então, no outro dia, ela faltou ao colégio.
08:17Na sexta-feira, ela me trouxe um bilhete que a mãe havia pedido pra soltá-la mais cedo.
08:22Como a mãe não veio no colégio, nunca tinha conhecido a mãe, nem o pai.
08:25Então, não tinha conhecimento da assinatura dos pais.
08:27Aí, a mãe manda outro bilhete.
08:30Avisa a diretora que ela quer que a filha dela saia no horário que ela está pedindo.
08:34Porque ela é obrigada a sair.
08:36E ela tinha uma amiguinha, uma tal de Clarice,
08:38que eu mandei pedir, perguntar ao pai dela, pelo pai dela,
08:41se era verdade que ela tinha mandado esse bilhete.
08:43E ela mandou dizer pra mim que eu acreditasse nela,
08:46porque o bilhete era dela mesmo.
08:48E que eu deixasse a filha dela sair.
08:50Eu deixei ela sair de segunda a sexta-feira.
08:52A diretora virou pra mim, então pode sair.
08:54A diretora dava ordem, né?
08:56Pode deixar ela sair, não tem problema não.
08:58Eu deixei.
08:59No dia do desaparecimento, 18 de maio de 1973,
09:05a menina saiu do colégio às 4h10 e foi levada até o portão pela diretora.
09:11Às 4h30, estava sentada em uma cadeira do lado de fora do bar fronteiro ao ponto de ônibus.
09:17Quem a viu foi o menor, Luciano Manuel Souza Vale,
09:21que contou tê-la avistado com um gatinho no colo.
09:23Luciano ainda gritou para que ela tomasse o ônibus,
09:27mas Araceli nem ao menos olhou.
09:30A gente tinha mania de brincar, assim.
09:32Quando eu chegava em casa, eu via ela pra mim,
09:34minha irmã ficava atrás de mim,
09:36um pouquinho mais pra trás, assim, já dentro de casa, né?
09:39Aí meu pai perguntava, minha mãe pergunta,
09:42cadê sua irmã?
09:43Ela falou, não, não veio não, não chegou não.
09:46Não veio comigo não.
09:48Aí, né, dava aquele negócio e tal,
09:51mas brincadeira.
09:52Aí ela aparecia logo assim,
09:54aí tal, minha mãe e meu pai brigavam muito com nós.
09:57Não brinca assim, isso não é brincadeira.
10:01Brincamos, assim, uma, duas vezes.
10:02Não é que a gente fazia isso com o tempo.
10:05Ela tirou uma opção de foto, chegou lá e me mostrou.
10:08E falou pra mim, assim,
10:09tia, essa daqui é sua, guarda de lembrança.
10:13É a foto que todo mundo vê no jornal
10:16das propagandas que saíram.
10:18Porque as outras a mãe não deu nenhuma, entendeu?
10:21Foi a foto dela.
10:23E nesse dia, quando eu cheguei em casa,
10:25meu pai, eu lembro, meu pai sentado na mesa,
10:29jantando.
10:30Aí, a minha mãe, eu cheguei,
10:34ela falou, cadê sua irmã?
10:37Aí eu falei, não, não tá aqui não,
10:40não chegou ainda não.
10:42Aí ela achou que eu tava brincando,
10:44a mesma brincadeira
10:46que a gente fazia.
10:49Eu entrei e fui.
10:50Daqui a pouco veio minha mãe,
10:51cadê sua irmã?
10:53Eu falei, não, mamãe,
10:54a minha irmã não tá comigo, não.
10:58Nossa senhora,
10:59aquilo foi igual o terremoto.
11:01A comoção era muito grande.
11:03E a busca, né?
11:04Ficou anos e anos e anos.
11:06Meu pai comprava um jornal,
11:08eu te lia,
11:08eu pegava a casinha de corte,
11:09eu botava de baracão.
11:11Tinha um monte que eu ficava lendo.
11:14Foi uma coisa assim,
11:15pra criança,
11:16uma coisa até hoje me choca, né?
11:18Mas foi um caso bastante chocante.
11:21Meu pai, na mesma hora,
11:23ah, talvez ela tá lá com a Clarice,
11:27lá com o Sr. Raimundo,
11:28lá na Vila Rubi.
11:29Aí foram,
11:30porque eles eram vizinhos nossos, né?
11:32Foram lá perguntar.
11:33Não, não tá.
11:34E perguntam pra lá,
11:35perguntam pra cá.
11:36Meu pai pegou o carro,
11:37saiu com o carro,
11:39fez o mesmo trajeto, sabe?
11:41Meu pai ficou a noite toda
11:42procurando a minha irmã.
11:43No outro dia,
11:45o pessoal lá do serviço dele,
11:47entendeu?
11:47Os amigos,
11:48procura do lado,
11:49procura do outro,
11:49procura do lado,
11:50procura do outro.
11:51Sem notícia,
11:52sem nada.
11:53No dia 24 de maio,
11:55quando um garoto de 15 anos,
11:57Ronaldo Monjardim,
11:58foi caçar passarinhos
11:59perto de sua casa,
12:00nas imediações
12:01do Hospital Infantil de Vitória.
12:03Eu vim caçar aqui em cima,
12:04passarinho,
12:05aí vim o mau cheiro,
12:06eu vim no local,
12:07ver o que é que era,
12:09entendeu?
12:10Lá no Quintal da Gente,
12:11tinha uma trilha
12:13que saía na subida
12:14do Hospital Infantil,
12:15né?
12:16E eu usava aquela trilha ali
12:17pra ir pra padaria
12:18do nosso terreno,
12:20saía lá na padaria
12:21e voltava por ali.
12:23E eu vi muitos
12:25urubus,
12:25voando,
12:26na região,
12:27e aquilo era uma coisa,
12:28não era normal.
12:29Na frequência,
12:31a pessoa da polícia
12:32fala com a viatura,
12:33ó,
12:34tem um corpo
12:35na subida
12:36do Hospital Infantil,
12:38assim,
12:38assim,
12:38assim,
12:39assim,
12:39sabe?
12:47Eu achava que era um corpo
12:48que estava aqui em cima,
12:49uma pessoa morta.
12:52Daqui pra cima
12:53eu já não tinha mais nada.
12:56Só tinham os braços
12:57e as pernas
12:58que estavam ainda
12:59com carne.
13:02Eles jogaram o aço
13:03pra poder
13:04não ser reconhecido.
13:06Eu não vi o corpo
13:07da minha irmã.
13:08Jamais eu vi
13:09esse corpo.
13:10Tentaram
13:11incriminar
13:11outras pessoas.
13:12Era choro.
13:14Era muito choro.
13:15Começou a se levantar
13:16uma tese na época
13:17de que Araceli
13:18poderia estar viva
13:19na Bolivia.
13:20Não vi minha irmã
13:21ser enterrada.
13:22Não é só dizer
13:23que tinha gente
13:24grande envolvida nisso.
13:25Meu pai foi morto
13:26por bandidos,
13:27com uma farda
13:28e um documento
13:29legal ainda.
13:30Nasce, então,
13:31o mais polêmico
13:32caso policial
13:33do Espírito Santo.
13:34Parecia um filme
13:35de terror.
13:35que o menos
13:36aniversário
13:38então então
14:04de terror.
14:28Legenda Adriana Zanotto
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