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  • há 4 semanas
Na sequência da websérie, são apresentados depoimentos que indicam falhas na investigação e outros assassinatos

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Notícias
Transcrição
00:14A CIDADE NO BRASIL
00:31Durante alguns dias, a polícia, para psicólogos evidentes, garantiam que a menina estava viva.
00:37Mas ela começou a morrer, para a opinião pública, no dia 24 de maio,
00:42quando um garoto de 15 anos, Ronaldo Monjardim, foi caçar passarinhos perto de sua casa,
00:47nas imediações do Hospital Infantil de Vitória.
00:50Nasce, então, o mais polêmico caso policial do Espírito Santo.
00:54Eu me deparei com... ela não tinha. Daqui para cima, eu já não tinha mais nada.
01:00A intoxicação por barbitúricos foi constatada pelos peritos do Instituto Médico Legal Carlos Éboli.
01:08Jamais eu vi esse corpo. Fui duas vezes, mas ninguém me deixou ver.
01:14Eu, às vezes, chegava em casa, assim, revoltado, com o fato da criança ter desaparecido,
01:20e que não aparecia devido o cujo criminoso, entendeu?
01:49Eu estava fedendo muito, e muito urubu.
01:53E eu fui me aproximando, me aproximando, eu achei que era um macaco morto, que estava tudo preto.
01:59Fui chamar o papai para ver.
02:02O que você disse para o teu pai?
02:03Falei que tinha... eu achava que era um corpo que estava aqui em cima, uma pessoa morta.
02:08E o que os urubus já tinham devorado a maior parte do corpo.
02:12Só tinham os braços e as pernas, que estavam ainda com carne.
02:18Aí eu vi uma bucha de cabelo.
02:22Quando eu vi aquilo, eu voltei, fui em casa, chamei meu pai.
02:27Então eu falei com ele na mesma hora para nós irmos ver aí no local.
02:32Chegando aqui no local, eu constatei que era o corpo de uma criança.
02:36Foi lá, confirmou que era o corpo de uma pessoa e chamou a polícia.
02:42A gente pegou a frequência e na frequência, a pessoa da polícia fala com a viatura,
02:50ó, tem um corpo e na subida do hospital infantil, assim, assim, assim, assim, sabe?
02:58Os jornais publicam um registro sem muita importância.
03:02Os dias passam e Araceli continua sumida.
03:04A imprensa mostra o desespero da mãe, Lola.
03:08Seis dias depois, o pai reconhece o corpo da filha,
03:11encontrada morta num terreno baldio do hospital infantil de Vitória.
03:14Parcialmente devorado por animais,
03:16o corpo de Araceli foi levado para o Instituto Médico Legal de Vitória.
03:20A polícia teve de usar até peneiras para garimpar no local do achado,
03:26dentes e outras partes.
03:28Eu fiquei apavorado quando eu vi aquilo, parecia um filme de terror.
03:32O pai de Araceli, o espanhol Gabriel Crespo Sanches,
03:36foi o primeiro a reconhecer a filha no Instituto Médico Legal,
03:40pelas mãos e por uma marca na perna.
03:42A mãe, a boliviana Lola Cabreira Sanches, insistia em que a filha estava viva.
03:48Jamais eu vi esse corpo.
03:51Fui duas vezes, mas ninguém me deixou ver.
03:55Eu acho que, pelo que foi feito na época,
04:00eles jogaram o ácido para poder não ser reconhecida.
04:06A verdade foi essa.
04:07Só tinha daqui para baixo as pernas, os braços,
04:10mas daqui para cima já não tinha mais nada.
04:12Eu fui no DML e eu fui com um jornalista investigador,
04:19porque ninguém deixava a impressa entrar,
04:21ninguém permitia.
04:22Era uma coisa que, assim, meio sacrosanto na hora de identificar o corpo.
04:27Então ficou essa dúvida.
04:28Uma investigação que começa com muitos boatos.
04:32Muita gente inventou um monte de coisa,
04:34fantasiou, falou que minha mãe praticava droga.
04:37Pelo simples par de ela ser boliviana.
04:39Se ela fosse brasileira, isso aí não tinha...
04:43Ninguém tinha falado demais.
04:45Como ela era boliviana, inventaram.
04:46O que a gente acredita, 50 anos depois, fazendo uma análise,
04:51é que ela foi alvo também de preconceitos.
04:54Ela vinha da Bolívia,
04:56veio para o Brasil,
04:59passou por outras cidades, São Paulo, Rio de Janeiro,
05:01até chegar ao Espírito Santo.
05:04Então foi a ligação direta entre Bolívia e a questão da droga.
05:09E isso ajudou muito no problema que meu pai e minha mãe teve, sabe?
05:13De separação.
05:16Meu pai sabia que minha mãe não tinha nada a ver com isso.
05:18Era dona de casa e tal, mas...
05:21É um negócio assim que te afeta tanto,
05:24te afeta tanto, de uma tal maneira que você não imagina.
05:27Muito se falava,
05:28mas a gente indo para o processo,
05:30não tem esse tipo de apuração.
05:32Não tem esse tipo de investigação em relação à mãe.
05:34Então, a partir do encontro do corpo,
05:38até o reconhecimento,
05:40há na cidade de Vitória,
05:41vários boatos, pressões,
05:44para que chegasse a uma solução.
05:48Se você não disser quem foi que fez isso,
05:51você vai lá para a Vila Velha,
05:54como é que é?
05:55Penitenciária de Vila Velha.
05:57Mas eu não matei ninguém,
05:58como é que eu vou para lá?
05:59Eu só ouvi as pessoas ligando,
06:01ó, prepara uma cela,
06:02que a professora da Araceli vai ficar aí.
06:06Aí, era choro.
06:08Era muito choro.
06:10Entendeu?
06:11Medo não tinha nada a ver com crime.
06:13E eu ia para lá por quê?
06:15Os agentes do Estado,
06:17os membros do aparato repressivo,
06:20os membros da polícia,
06:21sobretudo da polícia civil,
06:23agiam livremente e não sofriam consequências nenhuma.
06:26Aí, ele falou assim,
06:27você não vai ficar aqui
06:28e depois que a senhora pensar direitinho
06:30e falar quem é,
06:31a gente tira a senhora daqui.
06:33Eu não posso ir para lá.
06:35Eu vou acusar alguém que não é acusado.
06:37Existiram vários pontos soltos, né?
06:40Um ponto essencial foi
06:42o desaparecimento das fotos
06:45em relação à perícia que foi feita no dia, né?
06:49As fotos do corpo, né?
06:50Para tentar entender o local.
06:52O filme da perícia sumiu.
06:55Não tinha filme da perícia.
06:56Fez a foto,
06:57aí depois alegaram que o cara esqueceu
07:00de botar o filme na magra.
07:02Por mentira.
07:03A sorte minha é que eu tinha reproduzido
07:06todas as fotos.
07:07Então, eu tinha um filme
07:08das reproduções.
07:10Total, é que a Gazeta tem foto dela.
07:12Aquelas fotos suminhas.
07:14O meu filme foi
07:16usado para a polícia.
07:18Eu emprestei meu filme para a polícia.
07:19O caso Araceli em si,
07:21ao longo da investigação,
07:24ocorreram algumas mortes.
07:25O sargento Homero,
07:26essa foi uma delas.
07:28O Ministério Público vai indicar essa morte
07:31como uma morte suspeita.
07:32O sargento Homero,
07:34que era do serviço secreto da PM,
07:37participava das investigações
07:39sobre a morte de Araceli
07:40até o dia em que recebeu ordem
07:42para prender Boca Negra
07:43e outro marginal,
07:45Capetinha,
07:46na Ilha do Príncipe.
07:47Na dirigência,
07:48em que chefiava um destacamento
07:50de soldados,
07:51Homero foi morto a tiros.
07:53desse crime dessa menina,
07:54a Araceli,
07:56e ele,
07:57trabalhando as investigações,
07:59mais a equipe dele,
08:02desvendaram esse crime.
08:08E aconteceu que
08:12as pessoas se corromperam.
08:13Sim, às vezes ele falasse um pouco,
08:15aqui na terra,
08:16o que mandava era o dinheiro.
08:17E preferiram tirar a vida dele
08:18porque ele não aceitou o dinheiro,
08:20não aceitou o suborno.
08:22Se ele tivesse aceitado o suborno,
08:24talvez ele estaria vivo.
08:25Mas, por outro lado,
08:26igual eu falei com você,
08:28eu tenho orgulho dele,
08:30para mim, ele é um herói.
08:30Ele foi prender o marginal
08:33enquanto havia dois colegas
08:35nas costas dele.
08:36Meu pai foi morto por
08:40bandidos,
08:43travestidos de...
08:52como é que eu posso falar?
08:59Com a farda
09:00e um documento legal ainda,
09:03entendeu?
09:04E continuaram
09:08impunes.
09:10E quem sofreu
09:11fomos nós,
09:12ficamos aqui.
09:13Entendeu?
09:15Eu até hoje
09:16eu sinto
09:18falta dele.
09:21Não é fácil.
09:25O sargento Homero
09:26morreu em novembro
09:27de 73.
09:28Meu pai morreu
09:29com 31 anos de idade.
09:31Era novo.
09:31Morreu não,
09:32tiraram a vida dele, né?
09:33E a gente passou
09:34por muita dificuldade
09:35com isso.
09:36Minha mãe sofreu muito
09:37porque
09:37não foi fácil
09:39para ela.
09:39Com três crianças
09:40pequenas...
09:41É só dizer
09:42que tinha gente
09:43grande envolvido nisso.
09:44No início,
09:46antes de chegar
09:47a pessoas,
09:49vamos dizer assim,
09:50mais influentes
09:51de famílias
09:51de grande prestígio
09:52no Espírito Santo,
09:53tentaram
09:54incriminar
09:54outras pessoas.
09:55Os principais suspeitos
09:56apontados pela polícia
09:57foram os comerciantes
09:59Paulo Constantin Elau,
10:00Dante Brito Michelini
10:02e o pai dele,
10:03Dante Barros Michelini.
10:04Os três acusados
10:05pertencem a duas
10:06das mais conhecidas
10:07famílias do Espírito Santo.
10:09Os Michelini
10:10estão entre os maiores
10:12proprietários de terras
10:13do Estado
10:13com interesses também
10:15na indústria
10:16e no comércio.
10:17Os Elau
10:17estão entre os maiores
10:19comerciantes
10:20com grandes interesses
10:21na hotelaria
10:22e no ramo imobiliário.
10:24Isso já estava
10:24corporificado
10:25desde o início
10:26de que famílias
10:28tradicionais
10:30teriam cometido,
10:31filhos de famílias
10:32famosas de Vitória
10:34teriam cometido
10:35esse sancionado.
10:36Mas ninguém podia mexer.
10:37E, na época,
10:40a gente entendia
10:41que a polícia
10:43não estava
10:43fazendo o papel
10:45dela corretamente.
10:46O governo militar,
10:47através do Ministério
10:49da Justiça,
10:50vai encaminhar
10:51ao governo
10:52do Espírito Santo
10:53informações
10:53e querendo saber
10:55o ponto
10:56que se chegava
10:57à investigação.
10:59Porque era uma
10:59investigação
11:00que demorava
11:01a ser feita.
11:02Então, a polícia
11:03fez um trabalho
11:04pífio,
11:05como é a minha opinião.
11:06O próprio
11:07Instituto Médico Legal
11:11deixou dúvidas
11:12para poder gerar
11:13uma coisa.
11:14O grande fato
11:15que marca
11:16esse crime da Araceli
11:17é que ele não
11:18inicia nada.
11:19Ele também
11:20não termina nada.
11:21Ele acabou
11:22se transformando
11:23num grande ponto
11:24de interrogação.
11:26Há 50 anos
11:27existe um ponto
11:28de interrogação
11:29sobre os verdadeiros fatos
11:30e eventos
11:31que marcaram
11:32a morte
11:33da Araceli.
11:35Começou a se levantar
11:36uma tese na época
11:37de que Araceli
11:38poderia estar viva
11:39na Bolívia,
11:40onde eles moravam antes.
11:42Foi eu que fui designado
11:43para poder ir à Bolívia
11:46ver se
11:47Araceli
11:48estava viva.
11:49Eu não achei.
11:51A conclusão que eu chego
11:52é que mataram ela mesmo.
11:53E os peritos concluíram.
11:55Os restos mortais
11:57eram mesmo
11:58de Araceli.
11:59A causa da morte
12:01segundo os peritos.
12:03Intoxicação
12:03por barbitúricos
12:05e provavelmente
12:06asfixia
12:07por esganadura.
12:09Na reconstituição
12:10da
12:11das Araceli
12:13no exame
12:13do crânio
12:14de fato
12:15nós constatamos
12:16algumas fraturas
12:18das poções
12:19ossas
12:20alveolares.
12:21Tudo indica
12:22naturalmente
12:22a evidência
12:23de algum trauma.
12:24O que acontece
12:25é o seguinte.
12:26Eu não vi
12:27o corpo
12:27da minha irmã.
12:28não vi
12:29minha irmã
12:30ser enterrada.
12:31Não vi nem ela.
12:32Não vi.
12:33Nem eu
12:34nem minha mãe.
12:35Quem viu
12:35foi meu pai.
12:36E ele reconheceu.
12:37Mas eu não vi.
12:39Hoje
12:39se houver interesse
12:42da justiça
12:43em exumar
12:43o corpo
12:45porque o cabelinho
12:46se não for
12:47queimado
12:47ainda está lá
12:49ossos
12:49ainda deve ter
12:51o exame
12:52de DNA
12:52vai mostrar
12:52se é ela
12:53ou não
12:53através da família
12:54colhe o material
12:55da família
12:56colhe o material
12:57do resíduo
12:58que tem lá
12:59não há problema
13:00nenhum.
13:01Depende
13:01hoje
13:02do interesse
13:03da justiça
13:04em querer fazer.
13:05Um dia
13:05eu estava pensando
13:06eu falei
13:06eu acho que eu vou
13:07fazer um exame
13:08de DNA
13:09para saber
13:10se realmente
13:10é minha irmã.
13:11não é questão
13:12da filiação
13:13nem nada disso não.
13:14Eu queria saber
13:15se realmente
13:16era ela
13:16que estava lá.
13:17Entendeu?
13:18Enterrada
13:19lá na serra.
13:20
13:21no túmulo dela.
13:23Para mim
13:23assim
13:24meu coração
13:25descansar.
13:26Você pretende
13:27ainda fazer isso?
13:32Eu acho que sim.
13:33Acho que o
13:35que se extrai
13:36dessa
13:37dessa história
13:39esse
13:39não digo
13:40chamar em bloco
13:41ele é muito mais
13:41do que isso
13:42
13:42desse triste
13:43episódio
13:44vamos dizer assim
13:45da vida capixaba
13:47é que
13:50você percebeu
13:51que as instituições
13:53não funcionaram
13:55não funcionaram
13:56para descobrir
13:57o crime
13:58que era evidente
13:59para todo mundo.
14:00A punição
14:01no caso
14:03da minha irmã
14:05foi um negócio
14:06mal investigado
14:07foi mal provado
14:09entendeu?
14:10houve o poder
14:12econômico
14:12por trás
14:13daquilo tudo
14:14eu não posso
14:14chegar para você
14:15e acusar
14:16essas pessoas.
14:17Qual que é a prova
14:18que teve?
14:19Quer dizer
14:20um negócio assim
14:21muito sem
14:22sem
14:24sem base
14:25nas coisas
14:25né?
14:27Qual que é as
14:27provas que tem?
14:30Se você
14:30analisar
14:31friamente
14:32qual que é as
14:32provas?
14:39O que que leva
14:40uma pessoa
14:41a cometer
14:41um crime
14:42desses?
14:49um dos casos
14:50de maior repercussão
14:52no Espírito Santo
14:53saiu da Folha de São Paulo
14:54o Jornal do Brasil
14:55e tudo quanto é
14:55jornal do país
14:57mas acabou a vida
14:58da minha família
14:59e ninguém foi punido
15:00né?
15:01A Araceli
15:01ela foi morta
15:02várias vezes
15:02eu não tenho condições
15:04de falar a respeito
15:04de se houve alguma coisa
15:06que interferiu
15:07na investigação
15:07ou não
15:08a impunidade
15:09estragou a nossa vida
15:10toda
15:11sabe?
15:12estragou a família
15:12quem fez esse crime?
15:14quem são essas pessoas?
15:38ae?
16:08Amém.
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