- há 4 meses
Homenagem ao mês da Mulher Negra.
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NotíciasTranscrição
00:03Segundo o estudo Acordador, publicado pela Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz,
00:09a chance de uma mulher negra não receber anestesia durante o parto é 50% maior do que em relação
00:17às mulheres brancas.
00:19O dado escancara a violência do mito da mulher negra forte, que pode ser tratada sem cuidado, sem carinho, sem
00:28anestesia.
00:30Porque é capaz de aguentar todo tipo de dor.
00:33Com isso, ela é a que mais sofre com a violência, seja no amor, na profissão, nas ruas e na
00:39saúde.
00:40Eu sou Elis Carvalho e vamos iniciar agora mais uma edição do Preta Pod ES, o seu podcast 100%
00:48produzido por mulheres negras.
00:50Bom, gente, eu já agradeço aqui a presença das nossas convidadas, inclusive eu já explico a vocês que a gente
00:56vai fazer essa entrevista com fone de ouvido,
00:59porque uma das nossas entrevistadas será a distância, ela está diretamente de Vila Pavão, norte do Espírito Santo.
01:06Apresento para vocês aí a Rosalina Santana e ela faz parte da União de Negras e Negros pela Igualdade,
01:15a O Negro e também do Movimento Nacional das Cidadãs Positivas.
01:20Muito obrigada, muito obrigada, Rosalina, por participar aqui com a gente, mesmo que a distância fazer todo esse esforço para
01:26estar aqui com a gente, viu?
01:27Boa tarde, Elis. Eu que agradeço aí o movimento de estar aí, né, trazendo a gente aí nessa, com o
01:35Júlio das Pretas, né,
01:37esse momento maravilhoso que nós estamos vivendo. Muito obrigada. Eu que agradeço.
01:42Obrigada. É muito importante a participação de vocês aqui com a gente.
01:46Eu agradeço também a presença aqui da Carla Regina, que está aqui na minha frente, que, gente, veio de Piuma.
01:51Ela é diretora do Instituto de Fortalecimento e Empoderamento da População Negra do Espírito Santo,
01:57além de ser envolvida em vários outros projetos sociais.
02:01Cheguei, eu que agradeço pela oportunidade de estar aqui.
02:04Quando a gente fala da saúde da mulher negra em especial, a gente percebe que há um descaso ainda, né,
02:11com essa mulher,
02:12que é vista esse mito da mulher negra forte.
02:15Mas a nossa força, eu gosto sempre de dizer, ela não é só para receber dor, né?
02:20A gente é forte, mas a gente também é frágil.
02:23E há muitos preconceitos, inclusive, na saúde.
02:26Então, assim, Rosalina, você percebe isso?
02:28Você, como uma mulher negra, que vive com HIV há mais de 20 anos,
02:32há muito preconceito com a mulher negra?
02:35É mais difícil para a mulher preta?
02:37Com certeza.
02:38Temos muita dificuldade em questão de atendimento.
02:43Vou falar um pouco aqui do HIV.
02:44É uma demanda que eu venho com ela há 23 anos e tenho sofrido muito, né, como você mesmo disse.
02:52As pessoas acham que a gente, por ser negra, é aquela mulher forte, aquela mulher que não tem fragilidade.
02:58E aí, nessa hora, nós, como mulher preta, nós temos muita dificuldade.
03:03Muitas vezes a gente chega em algum lugar só pelo fato de a gente ser preta.
03:07A gente já é tratada como se o HIV fosse porque somos promíscuas, porque somos mulheres que fazemos programa.
03:17Mulheres, eles não olham para nós como pessoas que teve uma família e que infectou através, como é o meu
03:27caso,
03:28infectou através de um esposo.
03:30Não, já olha assim com aquele preconceito e já vai, e com isso já vai dificultando.
03:37Você fala que você é uma portadora de um vírus, ao invés deles te abraçarem, te acalentar, te dar um
03:44conforto.
03:48Ao contrário, é tipo assim, não posso chegar perto muito.
03:51Até as profissionais de saúde, só para você ter uma ideia, Elisa,
03:55meu ortopedista falou comigo assim, que ele poderia me dar um encaminhamento para mim fazer hidroginástica,
04:04mas primeiro eu tinha que ir lá no local e saber se eles aceitavam por eu ser HIV positivo.
04:11Agora, aonde que está a qualidade e a ignorância das pessoas está tão grande
04:19que um profissional, até mesmo um profissional, fazer uma pergunta dessa.
04:26Como se eu tomar banho em uma piscina junto com as demais fazendo hidroginástica e eu contaminasse alguém.
04:32Então, é uma violência todos os dias, toda hora nas unidades de saúde.
04:38Eles não estão preparados.
04:39O que está faltando é humanização.
04:42Nós não temos pessoas qualificadas profissionalmente, pode até ser,
04:48mas não temos pessoas ali humanizadas.
04:50Parece que estamos falando com máquinas, entende?
04:53Não sabem tratar as nossas mulheres.
04:56Não tem mais aquela empatia com a nossa luta, com a nossa causa.
05:03E assim, a gente falou aqui sobre a questão de que falta humanização, falta empatia,
05:10mas no caso das mulheres negras que vivem com HIV, eu sinto que falta capacitação também,
05:15porque é uma grande ignorância.
05:16Um médico, um profissional, falar algo como esse, não poder entrar numa piscina,
05:22você vê que falta até mesmo capacitação.
05:24Então, se a gente não tem capacitação, como que vai ter humanização, né?
05:28O problema parece que está muito mais profundo aí quando se trata do HIV principalmente.
05:33Então, a gente percebe que a mulher negra, ela já sofre mais preconceito.
05:36Ela está ali na base, né?
05:38Se ela vive com HIV, isso complica ainda mais, né?
05:41Se ela é uma mulher mais retinta, se ela é uma mulher gorda, se ela é uma mulher lésbica.
05:46Se ela é uma mulher trans.
05:47Se ela é uma mulher trans.
05:49E tudo vai complicando mais, no caso do HIV também.
05:52E a gente vê que ainda é um tabu, ainda falta informação.
05:58São tantos anos que a gente vive com o assunto HIV, mas as pessoas ainda não falam sobre isso.
06:05É importante que a gente entenda que a pessoa que vive com HIV é assim como uma pessoa que vive
06:10com diabetes,
06:11com pressão alta, né?
06:13Enfim, ninguém tem essa ignorância, né?
06:16Para lidar com alguém que tem diabetes, por exemplo.
06:19E aí, como que a gente pode, Rosalina, quebrar esses estigmas?
06:23Você acha que conversando, falando mais sobre o assunto é um caminho?
06:27Podemos sim mudar.
06:29Podemos sim.
06:30Mas é falando, conscientizando, trazendo essas demandas com naturalidade.
06:36Porque o que nós mais queremos é ser recebido dentro de um hospital, recebido dentro de um churrasquinho dos amigos,
06:45recebido dentro das escolas, recebido em qualquer lugar, como pessoas normais.
06:52Porque o vírus está em nós, mas nós não somos o vírus.
06:56A gente tira a máscara, no caso, mostra a cara para viver.
07:02Porque se a gente esconder, a gente é para morrer.
07:06Porque ninguém está nem aí e a gente continua ali nessa luta dia a dia,
07:12aguentando preconceito, aguentando todas as formas de estigma em cima da gente.
07:19Eu sei que você já passou por muita coisa, não deve ser fácil relembrar tudo isso.
07:25Então, assim, eu te agradeço de coração você estar abrindo seu coração para a gente,
07:28porque você sabe a importância disso, né?
07:31De dar rosto à pessoa que vive com HIV, né?
07:35Que a gente fica imaginando uma pessoa na cama, doente.
07:39A gente vê aí uma mulher linda, né?
07:41Uma mulher cheia de atividades e que vive com HIV, que passa por todas essas dificuldades,
07:47mas que está aqui falando sobre isso para ajudar outras mulheres, né?
07:51Para que a gente consiga tratamentos mais dignos, né?
07:54Para pessoas que vivem com HIV, especialmente as mulheres negras, que é o que a gente está falando.
07:59E, assim, é impossível a gente falar sobre saúde da mulher negra
08:05sem falar de violência doméstica, violência sexual, violência obstétrica.
08:11Por que, Carla, que as mulheres negras são as maiores vítimas desse tipo de violência?
08:17Por que isso acontece?
08:18Porque somos mulheres e a maior população de mulher no Brasil, falando em número de mulher, é negra.
08:27O que nos inquieta é isso.
08:29Tem uma mulher, nesse exato momento, no momento que nós estamos aqui fazendo esse bate-papo,
08:35tem uma mulher sofrendo violência doméstica.
08:37Tem uma mulher sofrendo o abuso sexual, seja ele o abuso sexual, seja ele um estupro.
08:42Tem uma mulher sofrendo, calada, silenciada.
08:48Na obstetria, eu fiquei dois meses, Elisa.
08:51E meu filho hoje vai fazer 22 anos.
08:53Meu filho mais velho é o Lucas.
08:55E o Lucas, quando eu tive o Lucas, eu vim de Minas, já com todo o laudo médico de lá,
09:03falando que eu não poderia ter um parto normal.
09:08Entende?
09:09Era o meu sonho.
09:10Mas foi bom por ter tido o parto normal.
09:12Mas o médico que me atendeu ali no sul do estado, no hospital de Enxieta, ele me forçou.
09:19Eu me entrei no hospital na quinta-feira, e o Lucas era para ter nascido na sexta-feira, no máximo.
09:24Ele me forçou um parto na segunda-feira.
09:28E eu fiquei dois meses de cadeiras de rodas, sem poder andar.
09:34Olha isso, olha a violação que o meu corpo passou para poder dar à luz a uma criança,
09:41e um médico, uma pessoa que estudou anos e anos, por eu ser uma mulher negra.
09:46E pior, olha só, não foi fácil fazer, você não reganhou uma perna para fazer, agora você aguenta.
09:54Onde que está a humanização nisso?
09:57No meu caso, foi um ato de amor.
09:59Eu fiz tratamento durante quatro anos para engravidar do meu Lucas.
10:05para eu poder ouvir isso antes do parto.
10:08Então, onde estão esses profissionais humanizados?
10:12Eles sabem o que tem que fazer, mas onde está esse profissional humanizado?
10:16Da onde tem que vir essa transformação, Elis?
10:19Entende?
10:20É daqui da base, a partir de nós, porque nós estamos gritando,
10:23ei, acorda, o governo faz alguma coisa.
10:28Eles já são estudados, mas capacitam a humanização.
10:32Nós estamos precisando de pessoas que saibam cuidar de seres humanos.
10:36Ali não são animais, são seres humanos que precisam ser cuidados.
10:39A gente já viu aqui, em três episódios do podcast,
10:42a vida da mulher preta tem caminhos mais difíceis.
10:45Isso é natural.
10:47A gente aprende a ser múltipla, a gente aprende a ser forte.
10:50Mas, como eu falei, a gente não quer ser só forte.
10:53A gente também quer caminhos mais fáceis.
10:56Então, como que a gente faz para montar a nossa rede de apoio?
10:58Como que a gente pode buscar ajuda?
11:00A mulher que está acompanhando a gente agora e não sabe por onde começar.
11:03O que a gente pode fazer?
11:04Eu acredito que hoje, assim, a internet é bem ampla.
11:09Não é?
11:09Eu acho que todo mundo hoje tem um celularzinho.
11:12Se não consegue a internet ali na hora, o Wi-Fi do vizinho.
11:17Gente, a informação lá está ali, direto.
11:21Entende?
11:21Eu vou falar pelo que eu entendo pela vivência.
11:24Aqui, ó.
11:25Instituto Fepnis.
11:27Entendeu?
11:27Arroba coletivo Fepnis ponto 2019 no Instagram.
11:32O nosso telefone, por favor, depois coloca no final da reportagem lá para entrar em contato.
11:38Tem aqui, aqui mesmo em Vitória, né?
11:41Tem várias.
11:42Tem a Casa da Mulher, a Delegacia da Mulher.
11:46As Margaridas também.
11:48Entendeu?
11:48Então, assim, redes é o que mais tem.
11:50Então, talvez iniciar fazendo uma pesquisa de forma bem simples, assim, né?
11:55Jogar no Google.
11:56Como buscar?
11:57Onde buscar ajuda para mulheres no Espírito Santo ou na sua cidade, né?
12:00Isso é importantíssimo.
12:01Sempre foi assim.
12:03Entende?
12:03Não tem como, olha.
12:05Nesse momento, nós podemos ir até aqui.
12:06Daqui não tem como mais te ajudar.
12:08Mas a gente vai te encaminhar.
12:10Sozinha você não vai estar, meu amor.
12:12Aqui é o butum mesmo.
12:14Entendeu?
12:14É cada um dando a mão e vamos chegar juntos.
12:17É isso.
12:17E a gente sabe que, às vezes, dá vergonha, né?
12:20Quem passa por isso fala assim, ah, mas eu vou contar isso.
12:23Poxa, minha foto ali na rede social é tão bonita.
12:25As pessoas vão saber que eu passo por isso.
12:27Mas, gente, assim, eu falo de coração.
12:31Fale, porque é a sua vida.
12:33É difícil.
12:34É muito difícil.
12:35Eu sei que é difícil para a mulher, mas ela tem que dar o primeiro passo.
12:38Tem, tem.
12:39A gente está aqui para justamente dar essa força.
12:40Não para dizer que é fácil falar, né?
12:42Não, não, não.
12:42Mas, assim, para ser ali uma pulguinha ali atrás da orelha.
12:47Para falar assim, será que não é o momento de eu falar com alguém, né?
12:51Seja em busca de uma terapia.
12:54Ou seja, em busca de aquela amiga que está ali só esperando para te ajudar.
12:58Que sente que está acontecendo alguma coisa.
13:00A gente sabe que vai ter uma pessoa ou outra que vai atrapalhar.
13:03Mas existem pessoas sábias ao nosso redor que podem ajudar a gente.
13:07E é isso, né, mulheres?
13:08Vocês não estão sozinhas.
13:10Jamais.
13:11E eu já, assim, de antemão, agradeço vocês.
13:13É um assunto realmente muito amplo.
13:16Se deixar, a gente fica aqui, né, falando o tempo todo.
13:20Carla, muito obrigada por trazer aqui para a gente todo o seu conhecimento e conversar um pouco com a gente.
13:26Eu que agradeço.
13:27Vou repetir novamente.
13:28Mulher, você não está sozinha.
13:29Nós podemos somar com você.
13:32Essa rede é grande, sabe?
13:34E toma um pouco mais de coragem, sabe, Elis?
13:37Aproveita que esse é o mês, julho, né?
13:39O mês das pretas.
13:41O mês das pretas.
13:41Então, vai lá.
13:42Você não está sozinha.
13:43Nós estamos prontas para ajudar você.
13:45Para te acolher no que você precisar.
13:47A sua dor é nossa dor também.
13:51Rosalina, voltou aqui com a gente a conexão.
13:55Já te agradeço demais.
13:57Sua participação foi muito enriquecedora para nós.
13:59Obrigada, viu?
14:00Por você existir, por você resistir e estar aqui com a gente hoje.
14:04Eu que agradeço, minha linda, tá?
14:06Eu que agradeço você, agradeço a Carla, agradeço todos vocês aí da Rede Gazeta.
14:11E quero aproveitar aqui para deixar uma palavra nessa hora aí para quem está nos assistindo.
14:20Se você é uma pessoa que vive com HIV, não tenha vergonha, porque você não é o vírus.
14:27Você é um ser humano como qualquer outro.
14:31Se vocês têm um parente que tem o HIV, seja mais solidário, seja mais companheiro.
14:36Obrigada a você, Elis.
14:38Muito obrigada, agradeço muito.