00:00Nasci, tive o parto, né, rolando por mim, a mãe não teve contato nenhum comigo, nem eu com ela, e
00:08vai para o educandário.
00:20Eu fui jogado aqui, né, fui trazido para cá, eu só sei que me trouxeram para cá e eu tive
00:30que encarar isso aqui, né, e passar uma parte da minha, quase toda a minha adolescência aqui, né,
00:39e não sabendo nem ter perspectiva de vida, né.
00:42Eu não conhecia minha mãe, eu fui conhecer, sim, porque a gente fazia visita duas vezes por ano, a gente
00:48a pé daqui até lá, era no dia das mães e no dia de Natal que a gente ia lá
00:52fazer visita a mãe da gente, os pais, né.
00:56Aí quando você chegava lá, e a turma, todo mundo andando a pé, e chegava lá, eles falavam assim, ó,
01:01seu pai e sua mãe aqui lá, você não sabia nem quem era, né.
01:04Aí a gente chegava, ficava lá perto de lá, tinha três camadas de tela, entendeu, ficava conversando com a gente,
01:09mas, entendeu, né, ficava assim uma meia hora conversando com a gente,
01:15e depois aí a gente vinha embora, a vida de todos nós era assim.
01:18Nós não tínhamos uma assistência psicológica, uma assistência social, a que não existia, então o governo só tinha um atendimento
01:28médico aqui,
01:29que era enviado por dentista também, mas o resto, todos eles eram feitos pelos seus próprios internos.
01:38Meu nome é Heraldo José Pereira, eu nasci em 19 de março de 1967.
01:44Eu nasci dentro do Hospital Colônia, doutor Pedro Fontes, anexo ao educandário.
01:50Da Ana Nias Machado Emerick, eu tenho 66 anos, e vim pra cá com 7 anos.
02:00Meu nome é Maria Bezesca Nalli, eu vim pra cá com 11 anos, no ano de 1966.
02:09Meu nome é Humberto Galazzi, eu entrei aqui no mesmo dia que eu nasci, em 1956, e saí daqui em
02:171970.
02:20Saí com 13 anos daqui.
02:22Não tenho vergonha da minha história, o que me faz, assim, eu estar no anonimato, as consequências, né, curiosidade.
02:30Todos os nossos irmãos, ao nascerem dentro da própria colônia do Hospital Pedro Fontes,
02:35eles foram recambiados para o educandário Ozeiro Abrei,
02:39que foi uma instituição criada pelo governo federal e a sociedade civil também ajudando na construção
02:46pra abrigar esses filhos pra não pegarem a doença,
02:49pra proteger elas da incidência da lancenise, do contágio direto, né.
02:54Tinha uns 5 irmãos aqui, entendeu, tinha meninos e mais um irmão,
03:01eram mais dois, mas um morreu, né, entendeu, a gente vivia aqui, morava aqui junto,
03:06mas a gente, na realidade, eu nem sabia direito quem era meu irmão ou minha irmã,
03:10que a gente considerava todo mundo igual, não tinha distinção, pra gente tinha distinção, não.
03:15Não era aquela coisa preparada pra gente, não, tipo assim, tá crescendo,
03:18tá na hora de conversar com essa menina, né, você quer ser o irmão, esse é seu irmão também,
03:23você tá aqui porque a sua mãe tá no hospital, não tinha nada disso, não.
03:27Você ia crescendo naturalmente, sabendo das histórias, assim, sem preparação nenhuma.
03:33Aqui era tudo regrado, o horário de almoço, o horário do café, o horário da janta,
03:38a hora de dormir, a hora de brincar.
03:40Tinha uma senhora, a Jandira, né, que era praticamente,
03:45acho que era a única pessoa que a gente se identificava, né, como mãe,
03:48tinha o irmão mais velho, era a única pessoa.
03:51A Jandira era uma pessoa que cuidava de cento e poucas crianças.
03:55Uma vez ou outra alguém parecia com um ônibus aí pra levar o pessoal pra passear.
03:59Entendeu? Assim, pessoa que se doava, né, e conseguia um ônibus.
04:04Mas eu mesmo nunca saí.
04:06A gente encontrava muita dificuldade pra se socializar na sociedade.
04:13A sociedade não queria você, ela excluía você.
04:17E aí que era o problema.
04:19Se você vive numa sociedade onde ela te exclui, como é que você vai viver?
04:24Eu trabalhei em todos os setores aqui. Todos.
04:29De limpeza, de cozinha, de bebezinho, dos maiorzinhos, de todos.
04:35Fui guardiã, fui trabalhar na cozinha da creche, fazer a comida das crianças.
04:41É de madrugada, trabalhando, chegava ao ponto da gente entrar na sala de aula
04:47e atrapalhar até a gente estudar.
04:50Porque a gente ficava dando lustros em turmas, dado a mão,
04:54e com a palmatória do guardião,
04:58que se a gente fosse pego com o corpo mole,
05:02ou cansado, né, ou com sono, né,
05:07ele mandava abrir a palma da mão e bater a régua na nossa mão.
05:12Ou tapa na cara ou chute.
05:14Eu não vou dizer que o lugar era ruim, né,
05:17mas só o fato de ter que sair a força do convívio do lar
05:25que ficou, deixou a gente assim meio perdido, né, na vida.
05:32A gente não tinha uma identidade,
05:35não tinha assim uma perspectiva de saber quem somos nós
05:40e pra onde iríamos e quem a gente era filho verdadeiros.
05:45Porque a gente ficava aquela interrogação.
05:48O que é que nós estamos fazendo aqui?
05:49E por que é que nós estamos aqui dentro?
05:51Tinha época que você parava pra pensar,
05:54você pensava, nossa, quando eu fizer 18 anos,
05:57o que é que vai ser de mim?
05:58Pra onde que eu vou morar?
05:59Porque eu vou ter que sair daqui.
06:01O que é que vai ser da minha vida?
06:05Eu ficava pensando assim.
06:06Eu pensava assim, acho melhor eu ir pra casa dos outros,
06:09até eles vão me adotar e eu vou ter uma casa pra morar.
06:11As festas eram como se fossem assim, eram os momentos mais alegres,
06:17porque vinha gente de fora, né, fazia aquela integração
06:22e tinha comidas guloseínas diferentes, né,
06:28e criança gosta muito disso, né.
06:31Dia das Crianças, Natal, eram muito animadas aqui.
06:35A gente fazia que esses dias seriam os dias mais alegres,
06:41porque não tinha outra coisa, né.
06:44Não tinha outro meio de você se alegrar.
06:47E essas cidades comemorativas assim,
06:51era a nossa festa top, né, vamos dizer assim, né.
06:54A parte alegre que eu tive foi quando,
06:56que eu falo pra você,
06:57quando a gente,
06:59o padre Matias, que celebrou todo domingo a missa aqui e tudo,
07:02ele trazia uma bola, conversava com a gente e tudo.
07:04Tipo, ele dava aquela atenção pra gente,
07:07que a gente não tinha de ninguém aqui,
07:08ele conversava com a gente e tudo,
07:11ajudava muito assim.
07:13Foi duro pela vida fora, né,
07:15nas escolas,
07:17se a pessoa soubesse que você era filho doente,
07:19ninguém entrava na sua casa e não tomava uma água.
07:22As pessoas não aceitavam a gente com naturalidade,
07:26né, só aceitavam,
07:27olhavam como a gente fosse um lixo.
07:31É filho de, entendeu?
07:34Nunca tiveram assim,
07:35uma aceitação
07:38real, né,
07:39da situação.
07:41Eu tava passando necessidade de tudo,
07:42aí teve minha época de alistar,
07:45entendeu?
07:45Aí eu fui me alistar no exército,
07:47aí o comandante lá falou assim,
07:49ó, isso aí tem perfil e tudo,
07:51dá pra, dá pra ser aprovado tudo.
07:53Quando ele pegou meu documento,
07:55aí ele viu que era...
08:05Aí quando ele viu que eu era Itaenga,
08:08ele fez de leproso,
08:09aí ele...
08:15Me mandou-me embora.
08:18Me dispensou, entendeu?
08:20Aí foi a minha maior tristeza que eu tive na minha vida,
08:22entendeu?
08:23Eu acho que o Estado deveria
08:27se preocupar com a formação
08:30do seu cidadão.
08:32Isso tá na Constituição,
08:33nós merecemos.
08:34E nós não...
08:35Nós não fomos
08:39tratados como dizem as leis.
08:43Nós fomos esquecidos.
08:47A gente teve que ser forte
08:49pra passar por isso tudo.
08:51E eu me considero um vencedor.
08:53Hoje eu tenho 35 anos,
08:54eu tô casado, entendeu?
08:56E tenho dois filhos maravilhosos.
08:58Apesar da minha história, né?
09:00Eu me considero
09:02muito feliz agora
09:03que eu conquistei
09:06pequenas coisas,
09:07mas pra mim tem muito valor.
09:08Mas a gente sobreviveu.
09:11Estamos aqui ainda.
09:13E aí
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